Nov 172009
 

Isabel AlçadaFui dos que fiquei surpreendido pelo facto de Isabel Alçada ter aceite o convite para Ministra da Educação deste governo. Tenho elevada consideração pelo seu trabalho, em especial em Serralves e no Plano Nacional de Leitura que acompanhei com mais atenção, e confesso não vislumbrar no seu comportamento, que publicamente me foi dado a ver, grande espaço para cedências em que não acredita, sejam elas relativas a políticas governamentais ou relativas a corporações de professores ou de pais, pese embora o tom que cultiva, e sincero parece, de pessoa compreensiva e disposta a ouvir.
Dito isto, o tom que imprimiu durante a entrevista a Judite de Sousa não surpreendeu, bem pelo contrário, foi consonante com o que atrás disse, mas não me passou em claro a sua insistência na mensagem de que temos muitos e bons especialistas em avaliação, espalhados por todo o país, que poderão ir para as escolas ‘ensinar’ os professores a avaliar.
Sem colocar em dúvida a qualidade nem a quantidade desses especialistas não posso deixar de sentir que Isabel Alçada, apesar de partir com a vontade de descomprimir e sinceramente dialogar com os actores educativos, avança já colada ao ‘lobbie’ dos cientistas da educação que nas últimas décadas têm comandado, mais ou menos veladamente, as políticas do Ministério da Educação, os tais que sempre enunciaram sucessivas profundas reformas e refundações!
A postura de Isabel Alçada é contrastante com a de Maria de Lurdes Rodrigues que tanto à força tentou que as forças perdeu, e perdeu qualquer margem para mudar a sua imagem diante da sociedade, mas é bom não esquecer que, depois de ver que à força não conseguia, a sua tentativa foi a do discurso de que os professores necessitavam de formação para avaliar. Já ninguém a ouviu, é claro, mas é afinal essa mesma premissa de que parte Isabel Alçada, premissa essa enunciada por um dos mais reconhecidos especialistas em avaliação da área das Ciências de Educação, Domingos Fernandes. Escrevia assim em Maio deste ano este especialista, em artigo na ‘SÍSIFO – Revista de Ciências da Educação‘ da Unidade de I&D de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, pags. 87 e ss, sob o título ‘Avaliação das aprendizagens em Portugal – Investigação e teoria da actividade’:
As reformas educativas têm pouco impacto nas práticas dos professores e na sua consciência profissional. Os professores não possuem uma perspectiva crítica sobre os normativos da avaliação porque, em geral, não conhecem os seus princípios estruturantes. Talvez por essa razão considerem que os novos diplomas de avaliação vieram, acima de tudo, aumentar o trabalho burocrático. (link para pag. 90)
Subentende-se por estas palavras, e ao longo de todo o artigo, que para Domingos Fernandes, amigo de Valter Lemos, coordenador do ‘Estudo de Avaliação do Ensino Artístico‘ e defensor público das políticas de educação do anterior governo no ‘Fórum Novas Fronteiras’ (ver vídeo), não era o teor das reformas que era desadequado, mas a incapacidade ou o desconhecimento dos professores a causa do insucesso da sua exequibilidade. Ora, se não me engano, foi isto mesmo que Isabel Alçada veio, com muito bons modos, dizer, adiantando até que é necessário estes especialistas ensinarem os professores a avaliarem-se, numa colagem, aparentemente nítida, aos interesses do ‘lobbie’ das Ciências da Educação.
Ressalvo, como nota final, que sou dos que acredito que a boa educação e a observação de princípios conseguem fazer muita das vezes a diferença necessária, não por crer, mas porque gostaria de quando um dia morrer ainda assim sentir.

ps: para quem não estiver para clicar nos links aqui deixo a exuberante intervenção de Domingos Fernandes no ‘Fórum Novas Fronteiras’ de apoio e defesa das políticas de Maria de Lurdes Rodrigues, Jorge Pedreira e Valter Lemos.


Nov 152009
 

(…) é necessário partir da «suspensão da avaliação em curso, acabar com a divisão entre o professor titular e não-titular na carreira docente e criar um novo modelo de avaliação» Aguiar Branco à TSF em 12 de Novembro.

Nós não prevemos a suspensão, prevemos a substituição, o que eu diria que ainda é mais e melhor(…)» Pedro Duarte no Público.

Ainda assim Aguiar Branco é peremptório:
- não me sinto um líder parlamentar a prazo.

Mas estes assentos a que acedem mesmo sem votos que plebiscitem passaram a vitalícios?

Jan 232009
 

O plenário da Assembleia da República acaba de evitar o fim do modelo de avaliação de professores (que de origem já pouco tem) da actual equipa do Ministério da Educação por 116 votos a favor e 113 contra.
O medo no PS foi muito nestes últimos dias, chamando todos os deputados a votar e obrigando à disciplina de voto partidária. Venceu a teimosia e o PS e perdeu o bom-senso e o sistema educativo.
Saliento a honradez de Manuel Alegre, Teresa Portugal, Júlia Caré, Eugénia Alho e de Matilde Sousa Franco, os quais fizeram prevalecer a sua liberdade de pensamento sobre a disciplina de voto imposta pelo PS. Contrariamente, Odete João e João Bernardo, votaram ao lado do PS, vindo depois com uma declaração de voto…, não curando de saber que nestes casos uma pessoa declara-se através do voto! Enfim…

Dez 192008
 

Numa conferência do Semanário Económico Sócrates afirmou:

O Governo tem sido deixado sozinho nesta batalha (do processo de avaliação dos professores) apenas por ter defendido que quer um melhor sistema de ensino público para o país.
(…)
A avaliação dos professores é indispensável para a melhoria do sistema educativo em Portugal nos próximos anos. (via Portugal Diário)

Jose SocratesÉ natural que Sócrates e sua equipa se sintam sós nesta ‘batalha’ em que se empenharam. É que ninguém vê no modelo de avaliação dos professores que:
1 – se avaliem os professores pelo devem fazer – ensinar;
2 – se consiga avaliar professores sem avaliar, com a mesma exigência, os alunos, pois os resultados destes, em exames nacionais ou provas globais corrigidas cegamente, é que se deve, prioritariamente, aferir o desempenho do ensino e da aprendizagem;
3 – se possa melhorar a qualidade do ensino público!
O problema não é a incompreensão dos partidos e seus apaniguados, antes Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues, Jorge Pedreira e Valter Lemos querem ver o que mais ninguém vê, atestado pela sondagem que revelou que quase 75 por cento dos professores mudavam de profissão se tivessem alternativa!
Ninguém com um mínimo de sanidade coloca em causa a avaliação de desempenho de quem trabalha, mas também ninguém vê que este modelo sirva para avaliar professores.

Dez 192008
 

O Teófilo M. do Akiagato deixou aqui um comentário que me deu que pensar…
Sobre as alterações aprovadas sobre o modelo de avaliação dos professores, nomeadamente a escusa de avaliação dos que estão para a reforma, o aumento em 50% dos suplementos dos Directores das Escolas, enfim, tudo o que atrás enunciei, não se ouviu uma palavra dos visados, nem professores, nem seus representantes, para dizer que não aceitariam tais prebendas sem verem as suas reivindicações cumpridas!
Ou seja, enquanto a coisa vai andando, deixa, assim como quem não quer a coisa, aceitar, de bom grado estas prenditas envenenadas…
É por estas e por outras que por muito que critiquemos estas medidas lamentáveis do governo, não podemos deixar de lembrar que coluna vertebral é ainda o esteio…, do corpo, da alma…, do Ser que se é!

Dez 182008
 

O Ministério da Educação através do Conselho de Ministros aprovou o ‘simplexissímo’ modelo de avaliação do desempenho dos professores e, simultaneamente, fez aprovar uma série de medidas para tentar chamar para o seu lado os professores titulares em fuga das escolas públicas ao dispensar da avaliação os que se encontrem em condições de pedir a reforma até 2011 e os docentes contratados em áreas profissionais, vocacionais e artísticas, não integradas em grupos de recrutamento.
Aproveita, ainda para aumentar em 50% o suplemento de ordenado dos Directores Executivos das Escolas e colocações por 5 anos para o próximo concurso de professores!
Eis o nacional ‘chico espertismo’!
O DN, através de Nuno Saraiva, sob o título ‘Governo aposta tudo na divisão dos professores’ vai mais longe:

O Governo aprovou ontem em Conselho de Ministros a redução do número de professores a avaliar. E prometeu ainda o número de quadros para a docência e subir o ordenado das novas chefias. O objectivo é dividir os professores, antes da greve marcada para 19 de Janeiro. José Sócrates não quer arriscar começar o ano de todas as eleições com nova contestação maciça dos professores
As medidas ontem aprovadas pelo Conselho de Ministros têm um objectivo político claro: dividir os professores e reduzir o número de adesões à greve de 19 de Janeiro. Ao DN, uma fonte governamental garantiu que se trata de “uma rearrumação do tabuleiro de xadrez”, em que se joga a batalha com os docentes.

Não há vergonha! É o vale tudo, de tudo, para atingir os fins! Que fins? A designação de modelo de avaliação uma vez que do seu conteúdo, da substância, já nada resta!

Dez 052008
 

Paulo RangelHoje de manhã na Assembleia da República ficou patente o interesse e o empenho do PSD sobre a instabilidade que se vive nas escolas devido ao modelo de avaliação dos professores em vigor.
A ausência de 30 deputados do PSD inviabilizou a aprovação de uma resolução apresentada pelo CDS no sentido de recomendar ao governo a suspensão imediata do referido processo de avaliação, tendo concluído a votação com 80 votos a favor, 101 contra e uma abstenção.

Questionado à saída do plenário se a ausência de três dezenas de deputados do PSD na votação não terá sido decisiva para o ‘chumbo’ dos diplomas, Paulo Rangel considerou que a falta dos parlamentares sociais-democratas «não teve relevância para a votação». (via Portugal Diário)

Onde irá parar este PSD, se é que ainda existe ou para alguma coisa serve, para além de distribuir os seus mais chegados militantes pelos conselhos de administração de empresas públicas e, pelos vistos agora, também pelas privadas?

Dez 032008
 

Lendo o título de que a greve dos professores interessa ao governo, poderá achar-se que tomei algo a mais que me toldou o discernimento, mas..
Mas, meus amigos, desde que os professores se emanciparam do tentáculo dos sindicatos e compareceram em massa nas manifestações marcadas em dias de fim-de-semana, que Sócrates sabia que o impasse criado pelos sucessivos disparates de Maria de Lurdes Rodrigues e sua equipa colocavam, seriamente, em causa uma futura maioria absoluta ou até a vitória nas próximas legislativas, atendendo à progressiva sensibilização da opinião generalizada dos eleitores face às reivindicações dos professores.
Como poderia Sócrates inverter tão funesta tendência? Fácil! Nada melhor que empurrar os sindicatos a cumprir a tonta promessa de greves às aulas e às avaliações dos alunos, de forma a transtornar, cruelmente, o dia-a-dia dos alunos e dos pais.
O Ministério da Educação nunca desistirá de chamar de ‘avaliação dos professores’ seja lá ao for, nem que tenha de ceder até e apenas aos níveis de assiduidade (veja-se a tendência), enquanto os professores, incautos, tratarão, desta vez a reboque dos pavões dos sindicatos, de voltar a opinião dos cidadãos contra eles com greves penalizadoras dos cidadãos!
É pena, não por Sócrates sair a ganhar, mas porque ainda me dá para entristecer quando vejo perder causas justíssimas e importantes para Portugal sempre que a inteligência é necessária.
Como é que os professores, aqueles que em boa hora se emanciparam dos sindicatos ao ponto de os fazer andar a correr atrás deles nas manifestações onde exuberantemente desfilaram, caíram nesta esparrela de ‘ana caprina’?

Nov 182008
 

Antonio VeroneseParco tem sido o tempo para escrever como gostaria sobre este psico-processo da avaliação de professores (ler excelente texto da Alice Valente). O método e a metodologia eram inegociáveis para Maria de Lurdes Rodrigues; os sindicatos, sem qualquer vergonha, desconfiados de já que não representarem os professores, assinaram em Abril um acordo com o Ministério onde apenas adiavam o problema sem o resolver, sabendo, por tal, que o inexequível método faria retornar os professores às ruas.
Entretanto, diante do impasse criado pela Sra. Ministra e pelos sindicatos, logo aparecem sugestões de reactivação do diálogo entre eles após duras palavras entre eles: uma comissão de sábios; sentem-se novamente à mesa e reflictam; simplifiquemos a burocracia da avaliação, mas esta mantém-se e o método também. Porreiro! Como é que não nos lembramos disto antes?
Mas que se passa? Passa-se que o diabo das estruturas democráticas deixaram de controlar as pessoas, no caso os professores, e eles, os das democracias bem estruturadinhas assustam-se com estas demonstrações de cidadania activa – os professores emanciaparam-se do Ministério e dos sindicatos! Os professores, avaliadores e avaliados, sabem que esta avaliação não serve o ensino nem a aprendizagem dos alunos, quanto mais não seja porque deixaram de ter tempo para ensinar.
Mas cuidem-se senhores professores que a avaliação é essencial para melhorar a aprendizagem dos alunos. Não esta, eu sei, que apenas serve para enquadrar progressões de carreira, mas uma que reflicta os que ensinam e o que os alunos aprendem! Sim, a avaliação de professores só faz sentido se estreitamente ligada à progressão dos resultados dos alunos, em exames nacionais e provas globais! Mas, hélas, A Dra. Maria de Lurdes Rodrigues, apesar de apregoar que a avaliação em curso serve para beneficiar os alunos, em mais uma tentativa de virar os pais contra os professores, sabe bem (espero) que não pode haver uma correcta e séria avaliação dos professores pela simples razão que tem vindo a anular a avaliação dos alunos!
Então, se nas palavras da Senhora Ministra e dos cientistas da Faculdade de Psicologia de Lisboa e dos pediatras e dos pedo-psiquiatras não faz sentido reter (reter quer hoje dizer chumbar) alunos no mesmo ano, também não faz sentido reter os professores em avaliações sobre a aprendizagem dos alunos! Façam antes uma eleição, ou referendo, se preferirem, sobre quem deve progredir, anualmente, na carreira docente e poupem-nos a esta palhaçada!