Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

Arquivo de ‘Ética’

Dei hoje com um texto de Francisco José Viegas, de Outubro de 2007 publicado no JN, que me fez pensar que haverá mais pessoas (não muitas, um punhado, acredito) que, como eu, têm pena de não ter nascido e vivido em oitocentos - beber lá e viver num ambiente social onde tudo vale desde que, é deveras confrangedor.
Cheguei ao texto, do qual deixo um excerto, via A Origem das Espécies, através de um link neste post.

A direita e o centro-direita precisam de livrar-se desse empecilho para recuperarem a credibilidade que saiu beliscada do confronto com os velhos fantasmas do anti-americanismo, o único pilar que sobrou à esquerda tradicional depois da queda do império soviético. Precisam, também, de se livrar dos neo-conservadores e da sua tralha religiosa para regressarem ao cânone do liberalismo tradicional e do conservadorismo europeu; e precisam de livrar-se da tralha neo-liberal para voltarem a ser liberais, intensamente liberais, livremente liberais.
Francisco José Viegas

Schools for Africa - dia mundial da criancaO Dia Mundial da Criança tornou-se, nos países ricos, mais um incentivo do consumismo (mais um dia de prendas para os filhos), desvirtuando a ideia inicial de ajuda aos que nascem sem poder Ser por nada ter.
Lembro, novamente, a necessidade de uma ‘educação de qualidade’ para todos, em especial em África, onde está provado que:
- Se uma rapariga completa a escola primária, a probabilidade de ser contaminada pelo VIH/SIDA desce para metade;
- Se uma criança completa a escola primária, ganhará o dobro quando trabalhar;
- Por cada ano que uma rapariga complete na escola primária, as probabilidades dos seus filhos sobreviverem para além dos 5 anos de idade sobem 12%.
Clique na imagem e conheça o programa. e veja como poderá contribuir.

Jorge Coelho afirmou hoje, no âmbito da apresentação do programa da Conferência Internacional de Transporte Aéreo, o qual presidirá, que Portugal “precisa urgentemente de infra-estruturas que suportem o crescimento do país”, referindo-se especificamente à construção do novo aeroporto em Alcochete. (via Público)
Ora eu penso de que, sim e mais diria que me parece muito importante que esta conferência conte com a presença de políticos e académicos.
Um dia destes um gajo pega num dicionário e lerá:
académico - sing. masc. - político estagiário; político reformado; professor temporariamante do quadro aguardando futuras eleições legislativas ou nomeação para cargo político; cientista de educação que elabora centenas de estudos anualmente para o Ministério da Educação e outros.
político - sing., masc. - ex-académico; futuro académico; estagiário em gestão de empresas privadas de obras públicas; fobia acometida, em geral, durante a adolescência.

Via Público o “Jornal de Angola” atira-se a Bob Geldof chamando-lhe “comediante de quinta categoria” .
Mais adiante, seguindo a mesma fonte, o mesmo jornal afirma, disparando também em direcção do BES:
Se um dia alguém o contratar para uma conferência no Hotel Alvalade, em Luanda, o músico vai chamar criminosos aos seus próprios governantes, descendentes de piratas e negreiros e que ainda hoje vivem na opulência à custa dos povos de África ou da Ásia. É tudo uma questão de dinheiro. Mas em Angola ninguém compra farsantes.
Nada de especial, tudo dentro da normalidade, ontem José Eduardo Agualusa, hoje Bob Geldof.
Se a conferência fosse em Angola e convidassem Kofi Anan, se calhar, ouviriam o mesmo, mas mais cortesmente, sim, mais adamado.

Bob Geldof“Angola é gerida por criminosos” - afirmou Bob Geldof, KBE, hoje na Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável. (via Expresso)

“O Grupo Banco Espírito Santo [organizador da Conferência] (…) não se identifica com as afirmações injuriosas que Bob Geldof proferiu esta tarde (…).”
(via Expresso)

E ficamos assim. Somos polidos. Vivemos num mundo cortês. Sim, cortês de cortesãos. Quanto à ética, à moral, à verdade, também a relação é cortesã - queremos que se foda. E se não houver ninguém disponível trataremos nós disso!
A verdade, nua e crua, é injuriosa? Ora foda-se, cortês e mui polidamente, é claro!

O povo do Zimbabwe “quer a mudança” e “isso deveria ser muito claro para o Presidente Mugabe”
(…)
“Nós devemos fazer com que a China se comprometa mais com os direitos do homem e com a liberdade de expressão. É uma situação que nos preocupa e nós devemos abrir um diálogo muito franco com as autoridades chinesas” (Durão Barroso no Público)

Entre “povo” e “autoridades” vai seguindo esta União Europeia de ética desnudada!

Lembrando a “posição tradicional da União Europeia, que continua a reconhecer a política de uma só China”, defendendo uma solução “pacífica e de diálogo” para o conflito no estreito de Taiwan, o presidente em exercício da União Europeia afirmou que “o referendo pode alterar de forma negativa o status quo” na região. (via Diário de Notícias)

Ética? Qual ética qual carapuça! Isto é estratégia pura - estar de bem com a China e, claro, não esquecer, apoiar, nos bastidores, a existência de Taiwan para continuarmos a comprar componentes baratos.
Viva a democracia pragmática, viva o cinismo pragmático, viva toda esta tão, mas tão pragmática gente!
O mundo é vosso, creiam! Creiam e não temam! Mas só vosso!

Num texto que ontem li, dizia assim numa nota de rodapé:

«(…) é surpreendente (…) que a compaixão (etimologicamente “sofrer com”) seja considerada um “sentimento nobre” enquanto a complacência (”prazer com”) tenha uma conotação negativa na nossa cultura judaico-cristã

Por estar incluída num estudo a apresentar não posso revelar a origem, mas deu-me que pensar…
Deu-me para perceber a confusão latente entre solidariedade e caridade e a constância da auto-censura do discurso, purgado, por um pudor não natural, de referências ao prazer partilhado.
É, ainda hoje, a ética de S. Tomás que prevalece nas posições do Vaticano ao recusar-se a sair do quadro do pecado da carne e da vergonha do corpo.