Qualquer que seja a decisão da Google, isso não afectará o conjunto das relações económicas e comerciais entre a China e os Estados Unidos, disse o porta-voz do ministério chines do Comércio, Yao Jian (via JN)

Claro que não! Desde que o capital descobriu que é nos regimes ditatoriais, exploradores de mão-de-obra miserável, que melhor floresce que nem Estados Unidos, nem qualquer outro Estado impedirá o seu crescente fluxo para a terra do sol nascente!
Enquanto os Estados democráticos insistirem no comércio livre e não impuserem sanções, via proibição de importações, aos países onde vigoram regimes ditatoriais e graves atentados aos direitos humanos como é a exploração quase esclavagista de mão-de-obra, a China está-se pouco ralando para as relações inter-Estados, porque terá sempre assegurada a captação de investimentos do capital sem-rosto.
Os únicos que saem prejudicados com a saída do Google são os chineses. Mas que importa isso ao regime da China ou ao capital?

É comum, mesmo entre a corrente neoliberal que nos conduziu à libertinagem da agiotagem, ouvir que os Estados devem defender as instituições financeiras (bancos e seguradoras) e os desempregados que o colapso daquelas empresas provocou. No entanto, sabendo o que se sabe hoje (e sempre se desconfiou), é no mínimo estranho continuar a não se ouvir uma palavra sobre a defesa e o apoio que se deveria dar aos que trabalham, mas cujo sistema bancário suga os rendimentos até ao tutano!
É lamentável que, em nome da defesa do mercado, os Estados tenham canalizado avultadíssimas quantidades de dinheiro proveniente dos contribuintes para salvar bancos cuja ruinosa gestão fez desmoronar a economia de mercado, enquanto que os milhões de vítimas da União Europeia, as quais, apesar de ainda terem emprego, não sejam objecto de protecção dos Estados, sendo que são a esmagadora maioria dos que mais sofreram, sofrem e ainda sofrerão com a sofreguidão do sistema bancário. Destes milhões de vítimas não se fala, preferindo-se designar toda esta vergonha por crédito malparado!
Num momento em que em Portugal parece ter-se tornado moda falar do endividamento de país, parece-se esquecer-se a grande parte desse endividamento se deve aos privados (crédito malparado continua a crescer 300.000.000 de euros por mês, segundo notícia do DN), sejam eles empresas ou cidadãos que estão aprisionados aos juros e, em especial, aos ’spreads’ que o sistema bancário, sem qualquer controlo nem regulação, os fustiga sem rebuço nem piedade.

A propósito do texto anterior sobre a afirmação neoliberal da Comissária Europeia para a Agricultura e Desenvolvimento Rural acerca dos transgénicos o Ricardo Serrano deixou um comentário impagável:

O problema da sociedade globalizada é mesmo este: o pop dá um poder incomensurável a algo que nem nos sequer apercebemos, tratam-nos como marionetas, depois…, depois é só mexer nos fios…
e pagar umas refeiçôeszecas aos media.

Financiar bancos e asfixiar pessoas endividadas pelo desconchavo dos banqueiros – eis a política dos neoliberais e dos social-democratas que governam os Estados da União Europeia!

(…) o BCE está a considerar aumentar a maturidade dos seus empréstimos aos bancos para além dos seis meses (…) (notícia)

Até agora muitas acções ficavam paradas em tribunal por falta de identificação dos bens penhoráveis. A partir de hoje é criada uma Lista Pública de Execução com o nome dos devedores. (notícia)

Esta gente quer fazer de nós parvos!

A ler o post do Rui Curado Silva no ‘Klepsýdra‘ sob o título Índice do Niilismo, a propósito do neoliberalismo e do niilismo que lhe subjaz, donde retiro o excerto:

Esta crise que é da total responsabilidade da ideologia a que o Abrupto tanto apelou desde que foi criado. Se um índice do niilismo houvera, no Abrupto estaria a rebentar com a escala.
Rui Curado Silva

A entrevista de ontem na SIC a Medina Carreira por Mário Crespo parece ter despertado nos media e na blogosfera um impacto só compreensível para quem não acompanhe o seu pensamento. Medina Carreira nada adiantou de novo ao que já em Julho de 2006 denunciava no NERBE, em Beja (“Medina Carreira no NERBE – falta de empresários ou de negócios?”):

(…) o Estado não existe “para dar respostas aos empresários, mas sim, para lhes dar condições de trabalho” e que devem ser “os empresários a traçar o seu próprio caminho“. Considerou ainda que “a saída para Portugal está no aumento da competitividade e na produção para exportação“ e, por outro lado, “não podemos continuar a permitir a rotativa produção da ignorância“!

A sua ideia sobre o que são os partidos também não é nova, já a tinha expresso na SIC Notícias em entrevista a José Gomes Ferreira em 1 de Julho de 2008, onde também aí reafirmou considerar um erro a tentativa de incrementar o crescimento através do estímulo da procura interna porque, em sua opinião, apenas endividava ainda mais Portugal e os portugueses. A solução que preconiza é a aposta nas exportações, ontem mais uma vez explicitada, na produção de bens que interessem mercados externos a preço competitivo.

Subscrevendo eu, na globalidade, o quadro que Medina Carreira expõe sobre a situação de Portugal, tão cruel quanto verdadeiro, não posso deixar de duvidar da consistência da sua proposta de solução – a do incremento das exportações.
Exportar o quê se não há indústria? Exportar o quê se nos anos 80 e 90 desistimos da nossa capacidade produtiva a favor de uma adesão à União Europeia que nos inundava com ilusórios milhares de milhões? O gráfico que Medina Carreira mostrou ontem, montado a partir de um estudo de Silva Lopes, mostra bem que, apesar da entrada desses milhões nos anos 90, dos quais ninguém sabe ao certo onde foram parar para além do alcatrão, que foi nessa mesma década que a inversão do ritmo de crescimento surge.
Por outro lado, não podemos esquecer que o neoliberalismo instalado nos anos 80 pela mão de Reagan e Tatcher, vendeu-nos a ideia de que a Europa e os EUA deveriam orientar a sua economia para os serviços, o comércio e o turismo. Esse embuste, que durou até agora, foi responsável pela deslocação de toda a produção de riqueza palpável (entenda-se, produção de bens alimentares e industriais essenciais) para os países de mão-de-obra barata, seja Taiwan, China, Índia ou América Latina, deixando-nos entregues à indústria bancária e seguradora que riqueza não produzam a não ser através da usura e do jogo bolsista.

Acontece que o capital de investimento conheceu e deu-se (e tem-se dado) muito melhor com regimes autoritários, onde existem Estados intervencionistas que acolhem e só defendem o interesse desse mesmo capital. As democracias ocidentais, que erigiram a liberdade de circulação do capital como sustentáculo da democracia, virão este virar-lhe costas na primeira oportunidade (ver textos: “O Capital – esse filho ingrato” e “A falta de negócio e o fim da liberdade”)

O que restou à União Europeia e aos EUA? A institucionalização da agiotagem, da usura, do jogo da bolsa, tudo com o mínimo de regulação possível, disfarçado pela “mão invisível” dos neoliberais comno se de uma mão de Deus se tratasse!
Tudo isto funcionaria, mesmo sem riqueza produzir, enquanto a nossa capacidade de consumir se mantivesse – as classes médias da Europa e dos EUA gastavam o necessário para que os respectivos bancos centrais abusassem de taxas elevadíssimas com o intuito de captar o capital granjeado na exploração da mão-de-obra barata. (ver textos: “Banco Central Europeu – um caso de autofagia anunciada” e “Zona Euro – uma bem organizada central de agiotagem”)

Por isso eu perguntaria ao Professor Medina Carreira que poderemos nós produzir para exportar se toda a força produtiva, mesmo a de capital americano e europeu, está instalada noutros países e de lá não pretende sair? Como poderemos competir no preço diante de semelhante desigualdade? Que poderemos exportar (nós, Europa e EUA) se somos nós os ainda únicos com capacidade de consumo?

Sim, estou plenamente de acordo com a análise de Medina Carreira e com a denúncia crua donde e até onde nos conduziram (ou deixaram-se conduzir) os nossos políticos, mas o que não vislumbro é como será que captaremos investimento produtivo que impulsione as exportações! Bem gostaria de ouvir o desenvolvimento prático dessa sua solução.


adenda: sobre este assunto ver texto de Carlos José Teixeira com a mesma data.

Banco de Portugal conta com apenas 60 técnicos de supervisão bancária, segundo esta notícia do Público, para fiscalizar cerca 320 instituições financeiras. Há 5 anos eram mais de 160…
Quando se fala de lavagem de dinheiros de droga, de tráfico de mulheres, de armas, de agiotagem e especulação financeira, de ‘off shores’, of shure que 60 técnicos são mais que suficientes para a ‘mão invisível’ funcionar!
O problema é de regulação? Mas claro, é evidente,! Quem apenas quer dispor de 60 técnicos de supervisão bancária, não regula. Esse é o verdadeiro problema de regulação – de gente que não regula…, nem quer regular!
E administradores no Banco de Portugal? E directores? E administradores e directores aposentados após uns anitos de actividade? Perdemos a conta não foi? E sabem porquê? Porque a gente também não regula ao permitir esta palhaçada!
Somos nós, sim, somos todos nós que permitimos que esta gente leve vida boa à nossa custa, com o nosso beneplácito e até o voto em democrática urna!
Têm razão! O problema é de regulação!

Via Rui Curado Silva do Klepsýdra cheguei a um vídeo / entrevista do Expresso a Pacheco Pereira e António Barreto realizada em Dezembro de 2007. Há um conjunto deles, mas deixo-vos este porque atesta a abissal distância entre a demagogia de quem sabe (e professa a sua sapiência) e quem tem de fazer. Por outras palavras, a diferença entre quem pode dedicar-se às “artes científicas da advinhação” e quem tem responsabilidade de fazer, pelos e para os outros.

Dei hoje com um texto de Francisco José Viegas, de Outubro de 2007 publicado no JN, que me fez pensar que haverá mais pessoas (não muitas, um punhado, acredito) que, como eu, têm pena de não ter nascido e vivido em oitocentos – beber lá e viver num ambiente social onde tudo vale desde que, é deveras confrangedor.
Cheguei ao texto, do qual deixo um excerto, via A Origem das Espécies, através de um link neste post.

A direita e o centro-direita precisam de livrar-se desse empecilho para recuperarem a credibilidade que saiu beliscada do confronto com os velhos fantasmas do anti-americanismo, o único pilar que sobrou à esquerda tradicional depois da queda do império soviético. Precisam, também, de se livrar dos neo-conservadores e da sua tralha religiosa para regressarem ao cânone do liberalismo tradicional e do conservadorismo europeu; e precisam de livrar-se da tralha neo-liberal para voltarem a ser liberais, intensamente liberais, livremente liberais.
Francisco José Viegas

Os arautos do absolutamente livre funcionamento dos mercados, os neo-liberiais de hoje, que não liberais à moda antiga como gosta, justamente, Francisco José Viegas de se demarcar, uma vez que estes aprenderam com Keynes após a depressão de 29, desaparecem sempre em momentos de crise económica e/ou financeira, ousando mesmo demandar dos Estados obrigações que em tempos de abastança recusam, chegando mesmo ao ponto de quase defenderem a abolição do seu papel de regulador. (ver notícia do Público que anuncia que o FMI pede intervenção pública mais radical no mercado)
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