Fev 112011
 

Gabriela CanavilhasA Senhora Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, apresenta-se hoje na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República para falar sobre o projecto de fusão do Teatro Nacional D. Maria II e o Teatro Nacional São João no OPART, E.P.E. que gere já o Teatro Nacional de São Carlos, a Orquestra Sinfónica Portuguesa e a Companhia Nacional de Bailado.

Tarefa hercúlia, esta da Ministra, que tentará convencer os deputados de que o projecto é possível com um só administrador, talvez em modo de ‘simplex’, uma vez que é com quem conta, de momento, o OPART, após a demissão dos restantes administradores.
Com a tenacidade que se lhe reconhece tudo pode ser possível…

Ou não. Pode a Senhora Ministra lembrar-se de centralizar apenas os processos administrativos através, por exemplo, de uma central de compras, mantendo a descentralização da decisão em administrações próprias para cada instituição, com o intuito de preservar a proximidade entre processos de decisão e gestão e a comunidade e públicos específicos.

A ver vamos…, entre a tenacidade e o bom-senso.

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Dez 262010
 

Dias de Música Electroacústica #6A 6ª edição do Festival Dias de Música Electroacústica‘ decorrerá de 27 a 29 de Dezembro, na Casa das Artes / Conservatório de Música de Seia, 3 dias plenos de eventos com obras, criadores e pessoas interessados em promover a criação cultural desta área da música portuguesa, sua programação, divulgação e o lugar na gestão cultural pública e privada.

Inserido neste Festival ocorrerá o ‘I Encontro de Programadores Culturais: Programação da Música Erudita Contemporânea na Região Centro‘.

O Festival Dias de Música Electroacústica #6 tem a direcção artística de Jaime Reis e como produtores Ricardo Andrade, Ricardo Ventura, Gustavo Martins, Catarina Andrade e Hugo Passeira.

PROGRAMA:
Conservatorio Seia Musica

Casa das Artes – Conservatório de Música de Seia

DIA 27
15h-16h30 – sessão 1 – Ministério da Cultura (António Pedro Pita)
coffee break
17h – mini concerto electroacústica – Diogo Alvim, Tiago Nunes, Francisco Pessanha
18h-19h – sessão 2 – Direcção Musical (Pedro Pinto Figueiredo, André Granjo)
21h – concerto – Eva Zöllner
Acordeão e música electroacústica – “chasing breath…. accordion & electronics” – Eva Zöllner, acordeão; Peças de: Rodrigo Sigal; Antti Saario; Maximilian Marcoll; Daniel Quaranta: João Pedro Oliveira

DIA 28
10h30-11h30 – sessão 3 – Meios de Comunicação Social (Carlo Patrão, Américo Rodrigues, Cristina Fernandes)
coffee break
12h-13h – sessão 4 – Centros de Investigação (Salwa Castelo Branco)
15h-16h30 – sessão 5 – Ensino (Salwa Castelo Branco, João Pedro Oliveira, Pedro Figueiredo)
coffee break
17h-mini concerto electroacústica – João Pedro Oliveira
18h-19h – sessão 6 – Teatros (Américo Rodrigues, Mickael de Oliveira)
21h – concerto – Erik Drescher (flautista) + Anete Colacioppo (actriz)
Programa: Fabbrica degli incantesimi / Fábrica de Feitiços (integral da obra para flauta de Sciarrino) – Samuel Beckett e Salvatore Sciarrino

DIA 29
10h30-11h30 – sessão 7 – Câmaras Municipais (Graça Silva, Mário Jorge Branquinho)
coffee break
12h-13h – sessão 8 – Festivais (José Carlos Sousa, Jaime Reis, João Paulo Janeiro)
15h-16h30 – sessão 9 – Fundações / Programação / Gestão Cultural (Carlos Araújo Alves, Francisco Pessanha)
coffee break
17h-mini concerto electroacústica – José Carlos Sousa
18h-19h – sessão 10 – Grupos Musicais especializados em Música Erudita Contemporânea (Lisbon Ensemble 20/21- Pedro Figueiredo, GMCL – José Machado, Jorge Machado, Francisco Monteiro, Quarteto de Clarinetes de Lisboa – Luís Gomes, Síntese e Acord’ensemble – Helena Neves)
21h – concerto – GMCL – Grupo de Música Contemporânea de Lisboa
Programa:
Jorge Peixinho, Madureira, Ivan Moody, Clotilde Rosa, Bochmann
Maestro: João Paulo Santos

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Nov 072010
 

DiFundART - divulgação de Artistas e EventosA DiFundART – divulgação de Artistas e Eventos® é uma marca registada em meu nome pessoal, com a finalidade de prestação de serviços junto de artistas, promotores de eventos e instituições, com a missão de acolher artistas e promotores de eventos para, de acordo com as pretensões de cada um, propor estratégias de divulgação no ciberespaço, executá-las e controlar, em tempo útil, a fidelidade aos objectivos concertados.
A necessidade que senti de criar a DiFundART prende-se com o ‘feedback’ que me foi chegando de várias pessoas se interrogarem sobre em que áreas da gestão cultural faço incidir a minha actividade profissional. Ora, sendo esta uma delas, separo assim, pública e visivelmente, o diário pessoal que considero ser este Ideias Soltas, dos interesses profissionais de uma das minhas actividades.
Neste contexto, a marca DifundART identificará, sempre, alguns dos meus interesses enquanto profissional na área da gestão cultural, enquanto que o Ideias Soltas permanecerá fiel ao princípio que desde o seu início adoptei – um diário pessoal onde escrevo e divulgo o que me apetece, quando me apetece, emitindo opiniões, reflectindo e criticando sempre em meu nome pessoal, enquanto cidadão.

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Set 172010
 

Manuela ParaisoManuela Paraíso dedicou o seu programa ‘Na Outra Margem‘ desta semana da ‘Rádio Europa fm‘ – 90.4 fm – à Gestão Cultural, com a presença de Miguel Lobo Antunes, Carlos Semedo e o autor destas Ideias Soltas.
O programa passou às 18:00h da passada 4ª feira, como habitualmente, estando já disponível as duas partes de ‘podcast’ onde pode ser ouvido na íntegra no ‘Pop-o matic’ do ‘Na Outra Margem’ (link directo).
Deixo, contudo, aqui o registo desses dois podcasts para quem pretender ouvir e/ou fazer download.



Importa aqui referir que Manuela Paraíso dedica grande parte da sua vida a divulgar a música portuguesa erudita de tradição europeia, seus compositores e intérpretes, seja através do seu programa ‘Na Outra Margem’, único nos seus propósitos em Portugal, e do ‘Blogue‘ com o mesmo nome, seja através do ‘JL – Jornal de Letras’, onde é colaboradora, assim como da Glosas – Revista pela Música Portuguesa‘ que pertence ao MPMP – Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa’.
Manuela Paraíso colabora ainda no ‘ATRIUM‘, uma base de dados online sobre compositores portugueses, é autora de um outro blogue, ‘Portuguese Music‘, onde a divulgação é feita em língua inglesa, e colaboradora activa da Associação António Fragoso.

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Ago 042010
 

Vianna da MottaDe Despacho em Despacho o Sistema de Ensino Artístico Especializado tem vindo a ser despachado pelas pardas iminências, ora da Agência Nacional para a Qualidade, ora do Ministério da Educação, sempre sob a batuta do inefável senhor Professor Doutor e Secretário de Estado Valter Lemos.
O estival Despacho deste ano, o n.º 12522/2010, publicado ontem com a assinatura da Senhora Ministra da Educação, motivado pelo quadro do actual contexto de contenção orçamental e de redução da despesa pública, o qual produz efeitos a partir de amanhã, dirige-se aos «cursos de iniciação e dos cursos básico e secundário em regime articulado, integrado e supletivo, ministrados por estabelecimentos de ensino especializado da música da rede do ensino particular e cooperativo», ou seja, a cerca de 92% das escolas do sistema, e despacha, muito rapidamente o seguinte:

1 – O procedimento para acesso ao apoio financeiro a conceder (…) é limitado às entidades proprietárias de estabelecimentos de ensino especializado da música que celebraram, no ano lectivo de 2009 -2010, contrato de patrocínio (…).

2 – O valor da comparticipação financeira a conceder a cada entidade proprietária (…) não pode exceder o valor efectivamente financiado ao abrigo do contrato de patrocínio celebrado, no ano lectivo de 2009 -2010 (…)
Despacho n.º 12522/2010

Ora, assim de pronto:

1 – se alguém investiu, ou pediu empréstimo para investir numa escola de ensino especializado em qualquer ponto deste país para leccionar a partir do próximo ano, esteja descansado porque poderá sempre contar com o apoio moral da família diante da falência de seu nado-morto;

2 – se alguma dessas escolas se lembrou de andar a trabalhar no duro com escolas do ensino genérico em protocolos de articulação, já com centenas de alunos inscritos e horários acordados, não se preocupe pois poderá sempre dizer aos pais que vão levar música em vez aprenderem, evitando assim aos alunos incómodos e trabalheiras desnecessárias;

3 – se, porventura, para além de terem protocolos de articulação assinados e matrículas aceites, já tinham professores contratados para o aumento de alunos, aí terão de despender algum dinheiro em telefonemas para informar os contratados de que os contratos terão efeito junto do Instituto de Emprego e Formação Profissional.

Tanta, mas tanta merda com o aumento de alunos, com o completo desvario que foi a anulação do sistema de avaliação das escolas de ensino artístico especializado, com a destruição do último sistema de ensino público de qualidade, por que escancararam as portas a alunos que não têm nenhum interesse especial em aprender?
Com o dinheiro que estão a gastar a ensinar meninos que não querem aprender poderiam, respeitando o quadro do actual contexto de contenção orçamental e de redução da despesa pública, deixar que aqueles que têm interesse, trabalham e compreendem o que é aprender, se mantivessem num sistema cuja qualidade dos serviços prestados correspondia às suas necessidades de aprendizagem!

Mas isto sou eu que digo em jeito de desabafo de uma pessoa que não tem nada a ver com o assunto, até porque, de certeza absoluta, não tardará de que centenas de professores e directores envolvidos aparecerão para exprimir publicamente o seu repúdio muito mais assertivamente que eu.

ps:

1- despachando os despachos Estivais da destruição do Sistema de Ensino Artístico Especializado – Despacho n.º 17932/2008, Portaria n.º 691/2009 e Despacho n.º 12522/2010;

2 – notícia Expresso.

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Jul 222010
 

Com sobriedade e sem detalhes que alimentam tablóides, Pedro Mexia anuncia, com a elegância que o caracteriza, a cessação, a seu pedido, da sua função de sub-director da Cinemateca Portuguesa.
Não conheço as razões da sua decisão, mas reconheço a ética e a verticalidade com que Pedro Mexia tem pautado a sua vida profissional e pública e sei que a Cinemateca fica a perder. E muito!

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Jan 112010
 

Tento muita vezes segurar-me quando leio Francisco José Viegas no Origem das Espécies para não transformar este canto num rol de citações. Mas esta não resisto e aqui a deixo, não substituindo a leitura integral do texto:

O que é preciso discutir, realmente, é o que se vai ensinar na escola. E para isso é preciso questionar seriamente uma geração de burocratas das ciências pedagógicas que, durante os últimos trinta anos, torturaram professores e alunos com as suas ideias de «engenharia escolar e social», os seus manuais deficientes, as ideias feitas, as vulgaridades e erros nos manuais de Português, História ou — ah, sim — até Matemática.
Francisco José Viegas em A Origem das Espécies.

E, acrescento, eu, criar os mecanismos para que essa demanda se efective e controle.

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Out 292009
 

Gabriela CanavilhasA experiência de Gabriela Canavilhas preenche quesitos que sempre defendi como essenciais para a escolha de um Ministro da Cultura: saber, saber fazer e especialização, ou vasta, relevante e bem sucedida experiência no domínio da gestão cultural, seja na esfera pública quanto na privada.

Apesar de desconhecer o pensamento da nova ministra sobre políticas culturais e da manifestação de desacordos no passado com eco neste blogue, parece-me apropriado aqui realçar o meu agrado pela sua escolha e o desejo das maiores felicidades.

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Jul 282009
 

Sobre o ensino artístico reproduzo outro comentário, desta vez de Alice Valente, colocado no post Ensino Superior de Artes em Portugal – estudo.

autor do texto que se segue: Alice Valente

Vivemos momentos insólitos, apesar de não muito diferentes do que sempre as artes se têm afirmado: resistentes em prol da vida e da arte de ser vida e vivida.

“Temos de aceitar!” “Temos de respeitar!” e “Temos de aceitar sempre!” o que nos ditam por quem manda, mesmo que estejam enganados! Sempre assim foi, mas agora um pouco pior!

Pois, mas nestas áreas do que é artístico, vai ser difícil impor uma ordem, uma escola, um discurso, um modelo… As artes respiram por elas próprias. Embora no caso da música e entre outras artes, haja uma necessidade de aprendizagem técnica que por sua vez se transforma por si mesmo em descoberta e estímulo ao importantíssimo desenvolvimento das capacidades intelectuais de quem as pratica. As artes na generalidade têm um espaço muito próprio (o que escrevi, aqui):
Ou seja agora e relativamente às Artes, aos Artistas e ao que é Artístico, querem usá-los e pô-los numa qualquer margem, atirando-os da borda-fora, é isso? Ou então querem vir roubar conceitos e estares a obrigarem que sejamos “coisas” ou objectos vendáveis e compráveis como se estas áreas, alguma vez se poderiam tornar mercantilizáveis ou convertidas em meras indústrias culturais, é isso? Talvez estejam enganados, é que este é um mar imenso e pode ficar bravo, assim como o mar verdadeiro que se agita em maré-alta, é imprevisível e pode ser muito perigoso, para os que pensam que tudo dominam sem respeito para com a Vida…

Não vejo que isso possa ser tido em consideração pelos responsáveis e técnicos de estudos e relatórios sobre o que possa ser a prática do Ensino das Artes.

Ainda bem que escolheram o talentoso maestro Borges Coelho e parece que aprenderam alguma coisa com o que se passou na Conferência de 2007.

(E sobre isso, escrevi isto):
(…) Não esqueçamos que a verdadeira Cultura e a verdadeira Educação são pois do domínio público…
E não esqueçamos também que para formar e desenvolver capacidades e talentos é preciso que os professores sejam talentosos!
E no dia do encerramento felizmente que foi convidado alguém ligado às Artes, o maestro José Luís Borges Coelho e que eloquentemente nas suas sublimes e sentidas palavras, fez questão de revelar relativamente à Conferência e de como tem sido tratada a Educação Artística, que o “rei vai nú”, desmascarando toda aquela palhaçada, fazendo que toda a plateia se levantasse mais do que uma vez a aplaudi-o e a mostrar que ainda é possível acreditar nas Artes e no que é Artístico, mas pelos que fazem Obra, no Saber-Fazer e não por todos aqueles que pensam que os talentos se fazem de invencionices, a dizer que basta de conversa, basta de teorizações de altíssimo gabarito, basta de declarações eloquentes destinadas a recomendar o que foi recomendado e de quererem mostrar que agora descobriram o tesouro ou a pólvora da Educação Artística, mas o Ensino do Artístico já existe e é ensinado nas Escolas de Música e não só, tem sido é muito negligenciado pelos ministérios e pelos governos. Agora temos que nos comprometer é com a erradicação da pobreza e é com essa realidade que a Educação se terá de confrontar e que ninguém deliberadamente seja posto de fora…

Mas não será que, estes nomes unicamente poderão estar a servir de isco para enganar e posteriormente, os “grandes” espertalhões das ciências da educação e os do económico-político e em seus ministérios de educação e cultura, fazerem como muito bem entenderem?

Alice Valente

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Jul 262009
 

Serve este post para agradecer os preciosos contributos que a Sónia Amaral, o Pedro Sousa Silva e a Alice Valente prestaram ao PENSAR o Ensino Artístico, em comentários ao texto – Ensino Superior de Artes em Portugal – estudo. A excelência do pensamento, largo e sem preconceitos tíbios ou confrangedores, que emana desses comentários excede amplamente a qualidade do texto que escrevi, recomendando, por isso, vivamente, a sua leitura integral.
De momento, depois de devidamente autorizado pelo autor, reproduzo na íntegra um dos comentários que Pedro Sousa Silva deixou.

autor do texto que se segue: Pedro Sousa Silva

Creio que no essencial estamos todos de acordo, temos talvez ângulos de vista diferentes sobre as mesmas questões, fruto das nossas vivências pessoais do sector.
Comentarei por pontos.

1. Universidade vs. Politécnicos:
Efectivamente a intenção original de distinguir tipologias diferentes nos curricula, objectivos e métodos, rapidamente, pelo menos no ensino artístico, ficou diluída pelas agendas próprias de cada departamento ou escola superior. Visto que o mercado emprega preferencialmente o artista / professor, tornou-se inevitável que as universidades e politécnicos convergissem em soluções curriculares semelhantes, embora seja um facto que os primeiros privilegiam uma formação mais ligada às ciências da educação e os segundos os aspectos mais práticos. No entanto, há no ensino da música uma característica muito particular que não podemos esquecer: os alunos não procuram as instituições mas sim os professores que lá se encontram. E isto excede qualquer questão circunstancial.

2. Qualificação:
É verdade que até recentemente as universidades eram as únicas a poder ter profissionalizações mas também até recentemente essa não era uma condição para o desenvolvimento de uma actividade lectiva ou para progressão de carreira. Recordo que quando foi necessário “profissionalizar” os professores do ensino público para que eles fossem inseridos em quadros, os politécnicos participaram no processo como formadores. No privado a situação é ligeiramente diferente pois legislação mais recente faz depender da profissionalização uma progressão na carreira. No entanto existiam soluções (muito más é certo, mas existiam) para que os licenciados dos politécnicos pudessem obter profissionalizações.
Agora, a profissionalização é uma condição indispensável para a qualificação para a docência. Universidades e politécnicos têm plenos poderes para criar ciclos de estudo profissionalizantes mas as universidades levam vantagem porque já ministravam as unidades curriculares ligadas à metodologia e didáctica que são obrigatórias nestes curricula. A inércia dos politécnicos também se justifica por uma compreensível resistência aos conteúdos correntes das ciências da educação e que são completamente desajustados à realidade do ensino artístico. Essa é, por exemplo, a minha posição pessoal quanto à abertura de 2º ciclos profissionalizantes na escola superior politécnica onde lecciono: entre ter um currículo mau e não ter nada, prefiro não ter nada.
A questão da “qualificação” (leia-se “certificação”) confunde-se com a da “competência” e aí o comentário da Sónia é de enorme relevo. Ouvimos à laia de justificação que um bom artista não é necessariamente um bom professor, o que é verdade, mas o que também é verdade é que alguém que não é artista nunca pode ser um professor de artes, por muito que os milhares de licenciados em ciências da educação desdenhem essa ideia e digam o contrário. E também é verdade que um aluno pode aprender muito com um mau professor mas não pode aprender nada com alguém que não foi capaz ele mesmo de ultrapassar as dificuldades que o esperam.
Este desfasamento entre “qualificação” e “competência” é precisamente um dos pontos para os quais alerta o relatório que motiva esta discussão, e que leva à recomendação de criar mecanismos de certificação menos baseados em critérios de produção documental (tradicionalmente associados à universidade) e mais baseados em aspectos práticos e na estima dos pares. Mas como também nota o mesmo estudo, o problema não está tanto na legislação como na mentalidade dos centros académicos.

3. Reformas:
Devo fazer um ponto prévio, eu tinha 12 anos no momento da reforma de 86 e o meu primeiro contacto com o ensino artístico deu-se quando tinha 16. Não vivi por isso toda a celeuma em torno da divisão entre Conservatórios e Escolas Superiores de Música mas quando em 96 obtive o meu primeiro emprego num conservatório público (fui professor em conservatórios públicos durante 7 anos e sou professor no ensino politécnico há outros 7) fiquei estupefacto com os traumas que ainda persistiam desse momento. Ao longo do tempo que estive no ensino secundário (na realidade nunca o deixei mas a minha ligação desde há alguns anos é residual) assisti com muita tristeza a uma série de concessões resignadas que se faziam em relação aos gabinetes técnicos que desconheciam completamente a realidade do terreno. Não critico pessoalmente os meus colegas, lembro-me de ficar chocado ao saber que o meu salário então era exactamente igual ao de colegas de reconhecidíssimo mérito artístico e pedagógico e que estavam na escola há mais de 15 anos. Mas acho também, e tenho à vontade para o dizer agora porque o disse então, que se aceitaram pactos com o diabo, que se sacrificou em demasia aspectos intrínsecos à nossa especialidade e deixou-se que fossem burocratas a dizer como é que deveríamos dar aulas. As escolas de música deveriam ser, independentemente do nível de ensino, locais de produção cultural. Mas pelo contrário, os conservatórios foram transformados em centros de ocupação de tempos livres.
É com preocupação que constato que a mesma concessão por cansaço aos ditames burocráticos começa agora a ser visível no ensino superior. O processo de Bolonha foi um bom exemplo disso e, estou em crer, daqui a não muitos anos iremos assistir a uma baixa de qualidade da produção artística dos recém-licenciados como consequência deste processo. De resto, como nota o Carlos, foram determinadas pessoas (e não as reformas ou as instituições) que provocaram um salto qualitativo na formação de músicos. Para dar um exemplo que creio não merecer contestação, alguém tem dúvidas que o grande responsável pelo alto nível dos clarinetistas que temos em Portugal se chama António Saiote?
O ponto principal é aquele sublinhado pelo Carlos: as reformas são motivadas e realizadas por pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer, simplesmente “acham” que devia ser “assim”.
Estes ‘achadistas’ e o actual gabinete do Ministério da Educação para o ensino artístico são o mais perfeito exemplo. Mas há também responsabilidade das pessoas que estão no terreno por não serem capazes de se organizar e de articular um discurso claro e intransigente na defesa das condições indispensáveis para este sector. Quando na passada terça ouvi o fabuloso discurso do professor Borges Coelho na apresentação do nosso relatório, pensei o quanto estamos (ensino artístico) a perder por sermos incapazes de, enquanto sector, nos exprimirmos com tal clareza e assertividade.

4. Percurso formativo:
A questão levantada pelo Carlos sobre o momento para o desenvolvimento de competências psico-motoras é muito pertinente mas é talvez uma falsa questão. Isto porque essa componente, do instrumentista em particular, tem de ser desenvolvida sempre, ao longo da vida, a par com os recursos “interpretativos”. São demasiados os exemplos de músicos brilhantes que iniciaram a aprendizagem de um instrumento num momento tardio da sua vida para que se diga sem reservas “il faut”. Mas é também óbvio que se determinadas competências psico-motoras forem adquiridas precocemente, a construção de recursos interpretativos mais subtis e sofisticados será mais fácil.
A verdadeira questão está, na minha opinião, na construção de uma ética. É que, quer se queira que não, ser músico passa obrigatoriamente pela aprendizagem e exercício de rotinas de estudo quotidianas. A minha experiência de professor (que não é muito grande mas também não é pequena) mostra-me que o caso de sucesso não é a do aluno com o talento precoce (que não é mais do que uma facilidade motora e uma compreensão intuitiva de estruturas musicais básicas, como o conceito de frase) mas sim o do aluno que se habitua desde cedo a construir uma relação de intimidade com o seu instrumento que é exercida no seu quotidiano. Tocar um instrumento, qualquer que seja, é, para citar um ex-aluno meu, um desporto de alta competição localizado. Mas as mesmas pessoas que admiram no ecrã a determinação dos jovens atletas olímpicos que desde tenras idades passam muitas hora diárias a treinar aqueles movimentos, são as primeiras a acharem uma violência quando o professor de instrumento diz ser fundamental que o aluno estude 15 minutos por dia.

Pedro Sousa Silva

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