Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

Arquivo de: ‘Gestão Escolar’

Até pode ser que Francisco José Viegas tenha razão sobre as consequências do Director Executivo da Escola quando diz que
Daqui a alguns anos as escolas estarão excelentemente geridas (até coloco essa hipótese), mas sem nada para ensinar.
mas, apesar disso poder vir a acontecer, sinto-me obrigado a tirar o chapéu a Sócrates por esta medida, já que sem ela, isso sim, mesmo que as escolas tenham muito para ensinar não o conseguiriam fazer por total ausência de métodos de colocação de objectivos, de acompanhamento de resultados e avaliação de professores e alunos.
O que me parece essencial é que esta medida seja acompanhada pela colocação de objectivos precisos e mensuráveis a nível de resultados a cada Director Executivo e que este os distribua professor a professor, classe a classe, aluno a aluno e aí, sim, aí não haverá mais escusas possíveis para o incumprimento e incompetência no ensino e na aprendizagem, sem prejuízo do que atrás já referi, nomeadamente sobre os exames nacionais e as provas globais.
Esta mudança, aliás, só faz sentido se a gestão incidir, precisamente, sobre a gestão de recursos humanos para que as avaliações não continuem a ser feitas com base na produção de papelada para não sei quantos gabinetes e grupos de estudos apensos ao Ministério da Educação, mas sim na progressão dos níveis de assimilação dos alunos e, consequentemente, na competência de cada professor e de cada escola.

José Sócrates ‘tira mais um coelho da cartola’, mais um para tentar safar a latente incompetência do Ministério da Educação - o Director Executivo da Escola.
O Primeiro-Ministro acordou (ou acordaram-no) para um problema que urgia há muito tempo resolver - a reminiscência do PREC dos Conselhos Executivos das escolas eleitos pelos professores. Fê-lo em pleno Parlamento quando toda a oposição se preparava para atacar o governo (mas que oposição que nem pegou nos resultados do PISA 2006 que incomodavam, esses sim, Sócrates, antes bradando com assuntos que nada interessavam). Fê-lo e fê-lo bem, no melhor momento (para ele, entenda-se) porque já ninguém reconhece competência nem autoridade a esta equipa do Ministério da Educação.
Através de sucessivo e ininterrupto frenesim legislativo, o Ministério da Educação tem atirado para as escolas, de trambolhão em trambolhão, medidas e contra-medidas que nada mais têm conseguido do que desmantelar a estrutura existente sem tratar de a substituir por outra, provocando um caos confrangedor.
O sistema educativo está paralisado, seja por agredirem ostensiva e publicamente o estatuto social do professor, seja por avançarem com avaliações de professores sem antes os avisarem nem informarem sobre o que seriam avaliados, seja pela perfeita aberração do concurso para “Professor Titular”, onde contavam os anos de serviço, as directorias de turma, as actividades escolares, mas não curarem saber se os visados tinham ou não sido bons professores durante o período de serviço, se tinham ou não sido bons directores de turma, se tinham dado boas aulas de estudo acompanhado ou não, ignorando o que faziam nas áreas de projecto, enfim, um inusitado rol de impropérios que não lembraria a pessoas com um mínimo de bom-senso, culminando com uma avaliação dos professores sem previamente lhes colocarem objectivos precisos e mensuráveis, avaliação essa a cargo das tais reminiscências do PREC - os Conselhos Directivos.

Já em tempos escrevi (aqui e aqui) que não acredito na eficácia da avaliação dos professores nem na autonomia das escolas nem na melhoria da aprendizagem sem alterar 4 pontos essenciais no que à gestão administrativa, escolar e cultural diz respeito, os quais volto a insistir:

1 - a inscrição do dever de educar no quadro da responsabilidade civil objectiva da paternidade;

2 - o fim dos conselhos directivos eleitos e a contratação de directores por concurso público;

3 - exames nacionais a todas as disciplinas em todos os final de ciclo e provas globais internas nos anos intercalares a todas as disciplinas, corrigidas cegamente, em todas as escolas;

4 - avaliar o desempenho dos professores com base em objectivos muito concretos e mensuráveis por classe e aluno.

Parabéns a José Sócrates pela ousadia de tratar do 2º ponto, mas convém alguma segurança: num momento que se fala de competências, não me parece de todo aconselhável que a função de director executivo de uma escola seja desempenhada por professores, a não ser que estejam qualificados academicamente para para o efeito!
Nem os gestores deverão ser professores de português, nem estes gestores exclusivos de escolas!

Seria até de evitar que antigos membros de conselhos executivos desempenhem a função de director executivo para evitar situações de compadrio ou perpetuação no poder.

Primeiro ler, depois mastigar bem e depois digerir…
Digerir?
Não acredito. A Senhora Ministra da Educação está muito bem alicerçada junto de José Sócrates e mais ainda de Cavaco Silva, que estão muito preocupados com os índices de “sucesso” escolar (leia-se passagens mais fáceis do que as administrativas do tempo do PREC), do que na aquisição de saberes e competências, nomeadamente na literacia em ciências, matemática e leitura, que é do que trata o PISA - Programme for International Student Assessment.
Esta ideia de aferir o conhecimento dos alunos de 15 anos veio causar um grande desarranjo nestes nossos líderes: só três países se saem pior que Portugal - Grécia, Turquia e México; 25 % contra uma média da OCDE de 19,3% têm um conhecimento científico muito limitado; apenas 3,1% dos alunos portugueses atingem os níveis 5 e 6 (numa escala de 1 a 6) contra a média de 9% da OCDE, sendo que só 0,1% atingem o nível máximo; no do custo por estudante, verifica-se, por exemplo, que a Eslováquia gasta menos de metade (do básico ao secundário) e os seus alunos têm desempenhos bem superiores aos colegas portugueses.
Depois de todas as pseudo-reformas que este governo tem levado a cabo através da senhora Ministra Lurdes Rodrigues, os resultados mostram bem o caminho - admitir a incompetência, o erro nas políticas de gestão escolar e cultural, enfim, assumir que erraram e entregar o assunto a quem saiba fazer melhor, em especial no que à organização, à gestão escolar e à aprendizagem diz respeito!
É absolutamente caricato ter encetado uma campanha cega contra o estatuto social dos professores quando, afinal, tudo o que está a montante é que não funciona, ou seja, o próprio Ministério da Educação! Para cúmulo, para entendermos melhor o resultado dessa campanha difamatória contra o professor podemos ainda ler, para nossa vergonha, a inevitável, apesar de ingénua, arrogância da ignorância:

Os alunos portugueses de 15 anos são dos que mais valorizam a importância do conhecimento científico. Em toda a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), são mesmo os que mais desejam seguir uma carreira nesta área, apesar de apenas dominarem as competências mais simples.
A maioria acredita que o seu desempenho é bom e que aprendem rapidamente o que é ensinado nas aulas, demonstrando uma atitude bem mais confiante do que os seus colegas finlandeses, que lideram o ranking. Mas na hora de mostrar as suas competências, só três países se saem pior - Grécia, Turquia e México.
(via RTP)

Este país em Agosto anda sempre muito depressa! É de louvar o trabalho estival, em especial, aquele que um gajo só dá conta quando nele tropeçar, no caso quando nos apercebermos que os nossos filhos vão para a escola enriquecer em vez de aprender!
Não é que o Sr. ex-Presidente dos Institutos Politécnicos e actual Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, parece querer que todos os alunos sejam enriquecidos em vez de ensinados, trocando professores experientes por técnicos de enriquecimento avençados a 12 meses e directamente dependentes da superior boa-vontade dos Conselhos directivos?
A ideia até nem parece má, pôr os filhos na escola a enriquecer e, quem sabe, daqui a uns anos eles até já nascerão a ganhar para casa!!!
Vamos ler…

Escolas podem começar a contratar directamente professores a partir de 17 de Setembro. Esta medida serve para assegurar a substituição temporária de docentes, o recrutamento de formadores para as áreas técnicas e profissionais e ainda a contratação de professores para projectos especiais de enriquecimento curricular e de combate ao insucesso escolar.
Segundo a portaria, que aguarda ainda publicação em Diário da República, os estabelecimentos de ensino podem começar a 17 de Setembro a contratação directa, caso seja necessário, de professores dos grupos de recrutamento de Electrotecnia, Ciências Agro-Pecuárias e Música.
De acordo com o documento, assinado pelo secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, a 20 de Agosto, as contratações cíclicas mantém-se até 8 de Outubro para nove grupos de recrutamento, entre os quais Francês, Alemão, Espanhol, Geografia e Informática. (via Público)

Os projectos de Educação para a Saúde, que incluem a educação sexual obrigatória, vão ser desenvolvidos em cada escola do 2º e 3º ciclos por um professor coordenador nomeado pelos conselhos executivos (…) (Portugal Diário)

Vou informar-me se o meu currículo sexual dá para meter uma cunha às Câmaras e aos Conselhos Executivos tal como aconteceu com os professores do enriquecimento curricular do 1º ciclo.
Tomem as gotas, pá, da-se!

O Governo manifestamente encravou em matéria de política educativa e um dos sinais é a gestão das escolas, onde não há evolução no modelo”, disse o dirigente democrata-cristão, que defende um modelo de “escolas capazes de desenvolver o seu próprio projecto educativo e a sua autonomia (Ribeiro e Castro via Público)

Às vezes fico com a impressão de que os blogues servem para alguma coisa. Mas é muito pouco às vezes…

Ontem no “Diga lá Excelência”, Marçal Grilo mostrou estar em sintonia com a Ministra da Educação, em especial no que concerne à revisão do estatuto da carreira docente e à autonomia das escolas, o que não é para admirar já que mantém-se coerente com o que sempre defendeu.
No entanto, Marçal Grilo sabe que não há reforma de gabinete que resulte se ela for feita contra os seus executores, os professores, no caso. Sabe e defendeu mais uma vez a Ministra aduzindo a deficiente comunicação…Ao Domingo à noite a coisa ainda vai, mas à 2ª feira, dasss meu, não há pachorra. Nem para o Dr. Marçal Grilo nem para a Sra. Ministra!
Como é que estes senhores, com os quais até simpatizo, acham possível a autonomia das escolas enquanto não alterarem a sua forma de gestão? Como é que estes senhores, bem intencionados, repito, acreditam que a avaliação dos professores vai funcionar se irão ser avaliados pelos colegas que elegeram e irão eleger?
Estará tudo doido varrido ou será mesmo que ainda estarão toldados pelo “bom selvagem” de Rousseau?
Entre S. Tomás e Rousseau, o homem é intrinsecamente mau ou intrinsecamente bom, vai um mundo de acasos onde o bem e o mal, o bom e o mau, se mesclam em ininterruptas reacções aos mais diversos estímulos e, portanto, não há sistema que funcione se não houver condições objectivas para que ele seja implementado, controlado e avaliado.

Eu gostaria de ter ouvido que antes de qualquer genial reforma educativa haveria que implementar 4 condições essenciais para que, sejam elas quais foram, poderem ser aplicadas e avaliadas:

1 – os pais devem ser civilmente responsáveis pela educação dos seus filhos, devendo este dever estar no Código Civil formalmente inscrito no conceito de paternidade e com penas aplicáveis;

2 – acabar com os conselhos directivos eleitos (resquícios do PREC) e contratar, por concursos público, directores aos quais estejam atribuídos objectivos específicos e quantificáveis para a escola em causa tendo, para o efeito, autonomia para contratar quem bem entenderem para a direcção pedagógica que deverá fazer parte de um conselho composto por representantes eleitos dos professores, dos pais e da comunidade;

3 – exames nacionais nos 4º, 6º, 9º e 12º anos a todas as disciplinas e, anualmente, provas globais internas a todas as disciplinas, corrigidas cegamente;

4 – cada professor deve ter objectivos particulares por classe a cumprir, acordados entre ele e o director, perante os quais, e apenas por eles, deverá ser avaliado anualmente, contribuindo, assim, para o cumprimento dos objectivos gerais do director, i.e., da escola.

Depois desta merda implementada então, porra, façam lá as geniais reformas vindas da cadeia de comando, pois já existirão condições locais para que elas possam ser implementadas e quem as poderá executar – professores, pais e alunos.

Não há pachorra! Comecem o edifício pelos alicerces!!!