Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

Arquivo de: ‘Homenagens’

Ernestina Pinheiro, fundadora da Academia de Música do Centro Cultural de Beja que mais tarde, em 1993, estaria na origem do actual Conservatório Regional do Baixo Alentejo, do qual foi a primeira directora pedagógica, deixou-nos esta madrugada.
Beja, e o Alentejo em geral, ficam devedores à Senhora D. Ernestina e seu marido, Henriques Pinheiro, de um exemplo de vidas dedicadas à cultura e à educação artística em momentos bem mais áridos que os de hoje, à custa de grande labor, tenacidade, seriedade e integridade, sem nunca terem aceitado recorrer a expedientes de tráfico de influências, cujo preço é sempre incalculável, embora de pagamento obrigatório e prolongado.
Fecha-se, definitivamente com o seu desaparecimento, um ciclo para o Ensino da Música, nomeadamente para o Conservatório Regional do Baixo Alentejo, pelo que construiu e pelo que em legado nos deixou.
Bem haja Senhora D. Ernestina.

Joaquim Castro CaldasSempre às segundas-feiras, à noite, noite dentro, numa cave, cave de fumo, de fumo e de álcool, e de pouca luz e de fumo, mas sempre a propósito da poesia e de a bem dizer, de a amar, de a sentir, de irmos por onde ela…, ela e Joaquim Castro Caldas nos transportava.
Foi ontem, há 20 anos, que me iniciei a descer à cave do Pinguim Café para ouvir não já música, mas Castro Caldas, ele e quem queria dizer, dizer o que há muito no Porto o hábito se perdera - poesia.
Na quinta-feira, 13 deste mês, regressaremos ao Pinguim Café para homenagear quem bem nos fez, Joaquim Castro Caldas, 20 anos depois, onde estará, com certeza, o seu último livro - Mágoa das Pedras.
Bem-hajas Joaquim Castro Caldas pelo que de ti por amor à poesia (nos) deste.

Maurice Béjart
un minimum d’explication, un minimum d’anecdotes, et un maximum de sensations - em Un instant dans la vie d’autrui

Inconsolável

«(…) il exige de ses interprètes une parfaite maîtrise de la danse académique et une grande faculté d’adaptation aux courants néoclassiques. Adepte d’un spectacle total, il mêle les univers musicaux, lyriques, théâtraux et chorégraphiques, mettant en valeur les qualités individuelles de ses solistes, tout en étant très exigeant pour les mouvements d’ensembles.» (via Wikipédia)

Joe Zawinul

Faleceu hoje Joe Zawinul. (via Público)
A melhor homenagem que posso dedicar a este fundador dos Weather Report já foi concretizado no post Weather Report com dedicatória, onde apus um vídeo com o tema Birdland.

Temo que Pavarotti fique apenas conhecido como o maior divulgador de árias de canto lírico e não como o maior tenor de ópera de todos os tempos, como ele gostaria.

J’espère qu’on se souviendra de moi comme d’un chanteur d’opéra, comme représentant d’une forme d’art qui a trouvé sa plus forte expression dans mon pays. (via Ljubomir MILASIN em APF)

Guardo para mim o Pavarotti da La Bohème, da Aïda, por exemplo esta, representada em 1984 no Vienna State Opera, e dedico-lhe o que Deus, através dele, nos concedeu: Una Furtiva Lagrima do Elixir de Amor de Donizetti.

Guilhermina Suggia - casaDa Associação Guilhermina Suggia, em boa hora formada e mantida por Virgílio Marques, autor do blogue Guilhermina Suggia, recebemos um convite que é expansível a toda a população do Porto e, em particular, a todos que, como eu, acham que ainda muito há a fazer para manter viva a memória desta nossa insigne violoncelista.

A Associação Guilhermina Suggia e a Câmara Municipal do Porto têm a honra de o convidar a assistir à colocação de uma placa evocativa na casa onde viveu e morreu a Grande Violoncelista – Rua da Alegria, n.º 665, Porto. A placa, da autoria da Escultora Irene Vilar, será descerrada no próximo dia 27 de Junho, às 18.30 horas.

25 de Abril - menino e cravo Dia do trabalhador, sim, eu sei mas, preciso, o 1 de Maio de 1974 em Portugal.
Depois do 25 de Abril anterior, aquando do golpe militar para acabar com a guerra ultramarina e derrubar a ditadura, seguiu-se uma semana que muito poucos terão o privilégio de viver - a ingenuidade de um punhado de militares vitoriosos e a espontânea adesão popular de norte a sul do país.
Nessa semana o povo e os militares desmantelaram, sem sangue, a estrutura policial da ditadura, resgatando os presos políticos, acolhendo os exilados, destruindo os edifícios da Pide/DGS, perseguindo e denunciando (por vezes injustamente) os seus funcionários e informadores, desenvolvendo e consolidando uma livre aliança que culminou com a presença de milhões de pessoas na celebração do 1 de Maio.
A beleza de Abril, consubstanciada na espontaneidade do Povo e do MFA, durou uma semana, cujo auge se atingiu no 1 de Maio. A partir daqui as estruturas partidárias já montadas e outras que se foram formando, arregimentaram militares e pessoas que se deixaram, mais uma vez ingenuamente, acantonar sob a égide de ideologias paradisíacas e de religiões tuteladas e tutelares, que estavam ao serviço de interesses internacionais poderosos e bem prosaicos.
Foi uma semana, uma semana em que houve Povo, onde este livremente se exprimiu e os militares acolheram - uma semana que, apesar de irrepetível, recordo com alegria e sonho, também na minha própria e muda ingenuidade, que um dia, talvez, até poderia ser possível!

25 de Abril - menino e cravo Sempre me interroguei por que razão os media gastam dezenas de horas a dar a palavra e a entrevistar políticos!?
Sei e tenho um enorme respeito por todos os que se baterem contra a ditadura, alguns com graves prejuízos familiares e até físicos, mas não esqueço que o 25 de Abril foi uma revolta de militares que queriam e conseguiram pôr termo à guerra do ultramar.
Sem estes homens, que demonstraram grande coragem, a democracia não teria chegado tão cedo, nem aos democratas teria sido entregue o poder político!
Neste dia a minha homenagem vai sempre e só para o MFA - Movimento das Forças Armadas.

Faz hoje 25 anos que Pinto da Costa venceu as primeiras eleições para a presidência do F C do Porto.
Num momento conturbado da sua vida e defendendo eu que todos, sem excepção, devem prestar contas à justiça, não quero deixar de prestar a minha homenagem a quem desmontou um sistema de décadas onde apenas cabiam dois clubes, catapultando o F C do Porto para a ribalta do futebol mundial.
Com ou sem apito dourado, Pinto da Costa foi até agora um dirigente desportivo sem paralelo, conseguindo que o clube que dirige rivalize com os melhores do mundo, dotados de orçamentos 10 a 15 vezes superiores.
A justiça não pode ser unívoca nem sequer biunívoca - deve ser multilateral - sendo neste contexto que este post me pareceu apropriado.
Parabéns Sr. Pinto da Costa pelo que tem feito pelo F C do Porto!

Abbé Pierre

«On ne possède vraiment que ce que l’on est capable de donner. Autrement on n’est pas le possesseur, on est le possédé.»

«Ce qu’il faut revendiquer, ce n’est pas l’égalité qui est illusoire. De la naissance à la mort il y a inégalité : quand l’enfant naît, le père et la mère sont forts et il est faible ; et quand il sera devenu fort, ses parents seront devenus faibles. Ce qui est nécessaire à la vie même, c’est la solidarité.»

«L’école n’est pas faite seulement pour enseigner ce que sont les choses mais pour ouvrir les esprits à la connaissance de ce qui est notre être commun d’hommes. Elle doit ouvrir les coeurs aux faims et aux soifs de justice, à la volonté de servir premiers les plus souffrants, à ce qu’il faut appeler les colères de l’amour.»

Abbé Pierre na wikipédia
Emaús na wikipedia
Emaús.org

Decorrerá hoje, pelas 17:00 horas, a mais que merecida homenagem a Ernestina Pinheiro, professora de piano em Beja durante mais de 40 anos, fundadora da Academia de Música de Beja, fundadora do Centro Cultural de Beja, fundadora do Conservatório Regional do Baixo Alentejo, enquadrada numa programção variada levada a cabo por esta última instituição.
O programa da homenagem desconhecemos quase por completo e, consultados o Diário do Alentejo e a Rádio Voz da Planície, o destaque é dado a uma performance institulada “Peças Soltas” a ocorrer no Pax Julia, à noite, sem desvendar de que se trata, quem toca, quem dança, o que será tocado e dançado, quem serão os coreógrafos (se é que os há), encenadores (em caso disso), de que consta, afinal.
Num dia em que homenageia a Sra. D. Ernestina Pinheiro, apenas e só como antiga Directora Pedagógica, experiência que ela própria afirma não ter sido muito gratificante, seria mais do que apropriado fazer desse momento o ponto alto do dia, senão mesmo, o único.
A Sra. D. Ernestina Pinheiro e seu marido, o Sr. Dr. Henriques Pinheiro, formaram uma dupla sem paralelo no panorama cultural da região, à custa de grande labor, tenacidade, seriedade e integridade, sem nunca terem aceitado recorrer a expedientes de tráfico de influências, cujo preço é sempre incalculável, embora de pagamento obrigatório e prolongado.
Bem hajam Sra. D. Ernestina e Dr. Pinheiro!

Mais uma perda de vulto em escassos dias…
O legado de Helena Sá e Costa fala por si só - uma vida inteira dedicada ao ensino do piano tendo passado pelas suas lições largas centenas, ou mesmo, milhares de alunos.
Entre os actuais pianistas portugueses mais conhecidos que não tenham beneficiado das suas lições só me recordo, assim de repente, de Maria João Pires, António Rosado, Artur Pizarro, Miguel Henriques ou Dina Resende.
Helena Sá e Costa foi a figura mais proeminente da música clássica no Porto durante os últimos 50 anos, estando nós devedores de tudo que esta ímpar personalidade de bem fez à música e à cultura portuguesas.

Quando o sofrimento é intenso e prolongado a morte é mais assumidamente sentida como uma espécie de libertação. De Ilse Lieblich Losa recebemos uma nova forma de bem escrever para crianças (quem não se lembra de “A Flor Azul” e “Faísca conta a sua História”) e o testemunho de uma refugiada de origem judia que foge da Alemanha nazi, perdendo temporariamente o rasto à sua família e chegando a Portugal depois de passar por Inglaterra, em dois livros de referência - “O Mundo em que Vivi”, um sucedâneo de instantâneos de sua própria experiência e “Sob Céus Estranhos”, uma exortação, diria, à adaptação dos refugiados aos países de acolhimento.
Um dos livros que com Ilse Losa mais se identificava era o “Diário de Anne Frank”, por razões óbvias, em especial por, nas suas palavras, Anne não ter escrito “o seu diário a pensar na publicidade, nem porque fosse incitada a fazê-lo, mas única e simplesmente porque tinha de o escrever para si própria (…)”, a mesma razão que a autora experimentou com “O Mundo em que Vivi”, tendo escrito o texto de apresentação daquele livro para a tradução portuguesa editada por “Livros do Brasil”. (excerto)
A sua predilecção pelas crianças, talvez devido ao infortúnio que experimentou na sua adolescência, não se esgotava na escrita, aliás, para Ilse Losa o trabalho de um escritor não se completava se os livros não fossem lidos, manuseados, vividos, tendo aceitado todos os convites que as escolas (onde tudo começa e definitivamente se formata) lhe endereçaram para ler seus livros mesmo em momentos em que a sua saúde já não aconselhava. Costumava dizer que não via as crianças como seus leitores, mas como a sua fonte de inspiração.
Uma última palavra para “Silka” um livro muito belo, prenho de simbolismo ao jeito da autora, magnificamente ilustrado por Manuela Bacelar do qual deixo um excerto:

Nisto os meus olhos caíram sobre um grupo de quatro árvores que naquele lugar ermo, sem mais nenhuma vegetação, faziam o efeito de terem sido expulsas para o deserto. Eram Silka e os filhos, soubemo-lo no fim da história. Um cipreste, um choupo e um pinheiro, protegidos por uma faia de folhas vermelhas.

Henriques PinheiroFaleceu hoje, com 87 anos, o primeiro responsável pelo meu amor pelo Alentejo.
Médico de profissão, Henriques Pinheiro notabilizou-se como o mais profícuo promotor e organizador de eventos culturais no Alentejo, nomeadamente no âmbito da música clássica, de conferências e saraus sobre várias áreas do conhecimento e de reflexão, bem como pioneiro na batalha por um ensino artístico de qualidade.
Antes de Abril de 74 foi representante da Juventude Musical Portuguesa e, mais tarde, da Pró-Arte para o Distrito de Beja.
Consolidada a liberdade, funda, com sua mulher, o Centro Cultural de Beja do qual nasceu a Academia de Música de Beja que, mais tarde, constituída já uma equipa de professores, dá origem ao actual Conservatório Regional do Baixo Alentejo (instituições associativas sem fins lucrativos e das quais Henriques Pinheiro nunca auferiu qualquer vencimento ou honorário), onde se manteve sempre como Presidente do Conselho de Administração, tendo conseguido o feito ímpar de envolver como associados neste projecto todos os municípios do Baixo Alentejo, juntamente com o Centro Cultural de Beja.
Faleceu hoje um homem grande, um homem de causas, de grande exigência consigo próprio, sem medo de contratar profisssionais competentes que o ajudassem a erguer os seus sonhos e não meros “papagaios” que lhe garantissem a ausência de protagonismos alheios, tendo deixado obra feita sem nunca ter cedido a tentações facilitistas de redução dos níveis de qualidade tão em voga nos dias que correm, que apenas atraem incultos em busca de entretenimento em vez de cultivar.
Eu devo-lhe muito, o exemplo de uma vida de lutas em prol da cultura, o Alentejo também, seguramente, exigindo-nos agora o agradecimento e respeito pela sua memória, bem como a continuidade da obra e dos princípios em que ela se erigiu.

ps: fotografia retirada do Diário do Alentejo.

Eugenio de Andrade
Escuta, escuta: tenho ainda

uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém - mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar,

para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

Alvaro Cunhal

Álvaro Cunhal

Vasco

Vasco Gonçalves

Morre-se,
Morre-se na exactíssima quantidade com que se nasce.
Morre-se,
Morre-se e vamos exactissimamente para donde viemos,
Para o “nada”!
Não para o nada relativo,
Não,
Para o absoluto,
Para o absoluto com que o obscurantismo do cientismo nos enforma.

Do “nada” todos viemos e iremos,
De igual forma,
De igual maneira
E neste breve hiato,
Entre a vinda e a ida a que chamamos vida,
Cada um a seu jeito
Procura sulcar perenes marcas,
Sobre o corpo dos outros, com ferro em brasa, se caso for,
Na vã tentativa de nos distinguirmos, de nos emanciparmos
Do “nada” que somos.

Não é o “nada” que nos aflige
É o nosso “nada” ser tão “nada” quanto o dos demais.
Tudo fazemos para que o nosso “nada” seja menos
Nada que o “nada” do nosso semelhante
ou que o “nada” deles seja um “nada” inferior ao nosso e ao do nosso grupo!

É quando um de nós regressa a esse “nada” que aqueles que ainda permanecem neste breve hiato fazem balanços, balanços que curam detectar as tais perenes marcas que quem partiu terá deixado sulcadas.
Foi um desses momentos que vivi recentemente ao procurar os sulcos que Alberto Pinto de Resende possa ter procurado deixar neste sua breve passagem.
Vã busca, a minha! O Alberto nunca procurou emancipar-se desse “nada” donde veio e sabia que retornaria, parece ter sabido que é desse “nada” que obtemos a essência da vida, o “verbo”, dedicando-a, sem esperar por espúrio reconhecimento social, à família e aos semelhantes que precisavam da mão de alguém para que o seu “nada” - a vida - fosse menos doloroso, menos infeliz, menos vilipendiado por aqueles que arrogantemente tentam sulcar as suas perenes marcas sobre o corpo dos seus párias.

Devo-te a honra de, por ti, o meu filho mais novo ser teu homónimo e sinto-me envergonhado por só neste hora ter alcançado a dimensão que deste à tua vida, fazendo sempre e incalsavelmente pelos outros e nunca sobre os outros.

Obrigado, Alberto, por mostrares que não é necessário deixar marcas, mas exemplos que possam ser seguidos! Descansa em paz nesse “nada” onde um dia todos nos encontraremos despojados de tudo menos do que somos e fizemos.

A mensagem de Carlos Paredes une as pessoas em vez de as dividir.

João de Freitas Branco

Era sempre assim! Um homenzinho, alto, seco de carnes, com um fato que lhe parecia mais pendurado que vestido, sempre encostado à parede mais distante dos camarins, olhos postos no chão como a pedir desculpa por ali estar, meio escondido por detrás dos arranjos de flores que íam depositando entre abraços efusivos de “bravo?, “divinal? e por aí adiante, deixando-se sempre ficar para último para, aproximando-se em passos hesitantes, dizer, “desculpa, Manuela, eu não deveria ter vindo aqui, mas não resisti a dizer-lhe que mais uma vez me ajudou a viver (…)?. Era um homenzinho que minha Mãe teimava em dizer que era o melhor músico português vivo e que eu não via. Não percebia como é que alguém assim tão importante podia apresentar-se sempre tão .. coitadinho!
Ainda de calções fui ouvindo os discos proibidos e não percebia porque é que se proibiria ouvir “Lá vai uma, lá vão duas, três pombinhas a voar (…)?. Era absurdo, o que é que aquilo tinha de mal? Meus Pais diziam-me que eu não devia fazer aquelas perguntas - era proibido, acabou! Ouvíamos em casa e nem uma palavra lá fora. E quando o Carlos lá jantasse ou pernoitasse, nem uma palavra a ninguém. Nem sobre ele nem sobre o Graça! Bom, eu não percebia mas cumpria e aquele secretismo conferia-me algum orgulho e importância, claro está!

Em 1972, em Moscovo, minha Mãe apresenta o Carlos a dois amigos, Khatchaturian e Schostakovitch, como um dos melhores músicos que conhecia e um exímio executante de guitarra portuguesa. Não sabia onde se havia de enfiar, amarfanhado só pela presença daqueles músicos que ele tanto apreciava e eles, para seu espanto, não desistiam de o incentivar a tanger a sua guitarra. O serão durou quase até ao amanhecer com o Carlos e a guitarra (ou eram um só?) e lágrimas emudecidas entre as quais as do Graça e de Khatchaturian!

Mais tarde, em 1986, em Paris, o Carlos fora convidado para fazer a primeira parte de um espectáculo dos Trovante. A casa estava cheia e a ovação era arrepiante! Por detrás do palco a irritação era crescente “agora é que o velhinho deveria sair para nós entrarmos; esta malta não está para ouvir esta música de velhos!” O Carlos saiu, fizeram-lhe sinal! Ele pediu desculpa, que não tinha dado conta do tempo passar. Entraram os Trovante! O público pediu o regresso do Carlos ao palco. Ele apareceu, sem a guitarra, agradeceu e pediu para serem mais gentis com os Trovante pois eram a melhor banda portuguesa do momento e saíu.
Ao serão, na casa onde eu estava, o Carlos tocou, tocou para gáudio de alguns amigos meus, solistas do Ensemble Intercontemporain, que não compreenderam como era possível alguém tocar fosse que instrumento fosse da forma que o Carlos o fazia. Ele não tocava, diziam, ele fazia com que a guitarra falasse, sentisse e se emocionasse, tal como nós, as pessoas!

Hoje não morreu apenas o Carlos Paredes, morreu um dos Homens mais bons que alguma vez conheci! Muitas lições deixa, a maior, talvez, a força e a dignidade que o amor confere a quem por amor faz.

«E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
»

Herberto Helder

Giacometti - Michel

Se vivo estivesse Michel Giacometti teria completado 75 anos no passado mês de Janeiro.
O Centro Cultural de Cascais promove Michel Giacometti - a caminho de um museu, uma exposição sobre o trabalho do etnomusicólogo mais profícuo em Portugal. E cito do site da Gaita de Foles:

(…) Através desta exposição, que foi construída a partir do acervo existente no Museu da Música Portuguesa, pretende-se dar a conhecer a vida e obra de Michel Giacometti e, também, o trabalho e o programa do Museu.
A primeira parte da exposição conta-nos a história e dá-nos a conhecer o plano de trabalho, o contexto e o percurso da sua investigação. Na segunda parte são apresentadas a colecção de instrumentos e o seu legado documental, como os discos da Antologia da Música Regional Portuguesa, os filmes Povo que Canta e toda a documentação levantada nas suas missões pelo país. A exposição termina com os “sons escolhidos?, partindo da selecção de quatro instrumentos musicais, que são tocados por quatro músicos convidados.

O etnomusicólogo está sepultado em Ferreira do Alentejo não tendo a sua sepultura nenhuma especial alusão a quem foi Michel Giacometti. Merecia mais respeito, ele e quem dele precisa de saber!