A mensagem de Carlos Paredes une as pessoas em vez de as dividir.
João de Freitas Branco
Era sempre assim! Um homenzinho, alto, seco de carnes, com um fato que lhe parecia mais pendurado que vestido, sempre encostado à parede mais distante dos camarins, olhos postos no chão como a pedir desculpa por ali estar, meio escondido por detrás dos arranjos de flores que íam depositando entre abraços efusivos de “bravo?, “divinal? e por aí adiante, deixando-se sempre ficar para último para, aproximando-se em passos hesitantes, dizer, “desculpa, Manuela, eu não deveria ter vindo aqui, mas não resisti a dizer-lhe que mais uma vez me ajudou a viver (…)?. Era um homenzinho que minha Mãe teimava em dizer que era o melhor músico português vivo e que eu não via. Não percebia como é que alguém assim tão importante podia apresentar-se sempre tão .. coitadinho!
Ainda de calções fui ouvindo os discos proibidos e não percebia porque é que se proibiria ouvir “Lá vai uma, lá vão duas, três pombinhas a voar (…)?. Era absurdo, o que é que aquilo tinha de mal? Meus Pais diziam-me que eu não devia fazer aquelas perguntas - era proibido, acabou! Ouvíamos em casa e nem uma palavra lá fora. E quando o Carlos lá jantasse ou pernoitasse, nem uma palavra a ninguém. Nem sobre ele nem sobre o Graça! Bom, eu não percebia mas cumpria e aquele secretismo conferia-me algum orgulho e importância, claro está!
Em 1972, em Moscovo, minha Mãe apresenta o Carlos a dois amigos, Khatchaturian e Schostakovitch, como um dos melhores músicos que conhecia e um exímio executante de guitarra portuguesa. Não sabia onde se havia de enfiar, amarfanhado só pela presença daqueles músicos que ele tanto apreciava e eles, para seu espanto, não desistiam de o incentivar a tanger a sua guitarra. O serão durou quase até ao amanhecer com o Carlos e a guitarra (ou eram um só?) e lágrimas emudecidas entre as quais as do Graça e de Khatchaturian!
Mais tarde, em 1986, em Paris, o Carlos fora convidado para fazer a primeira parte de um espectáculo dos Trovante. A casa estava cheia e a ovação era arrepiante! Por detrás do palco a irritação era crescente “agora é que o velhinho deveria sair para nós entrarmos; esta malta não está para ouvir esta música de velhos!” O Carlos saiu, fizeram-lhe sinal! Ele pediu desculpa, que não tinha dado conta do tempo passar. Entraram os Trovante! O público pediu o regresso do Carlos ao palco. Ele apareceu, sem a guitarra, agradeceu e pediu para serem mais gentis com os Trovante pois eram a melhor banda portuguesa do momento e saíu.
Ao serão, na casa onde eu estava, o Carlos tocou, tocou para gáudio de alguns amigos meus, solistas do Ensemble Intercontemporain, que não compreenderam como era possível alguém tocar fosse que instrumento fosse da forma que o Carlos o fazia. Ele não tocava, diziam, ele fazia com que a guitarra falasse, sentisse e se emocionasse, tal como nós, as pessoas!
Hoje não morreu apenas o Carlos Paredes, morreu um dos Homens mais bons que alguma vez conheci! Muitas lições deixa, a maior, talvez, a força e a dignidade que o amor confere a quem por amor faz.
«E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.»
Herberto Helder