Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

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LER - revista Este ano, no Dia Mundial do Livro, limito-me a transmitir-vos a minha alegria por voltar a ter para ler a LER, a revista, novamente dirigida por Francisco José Viegas (link), que quando vivi por outras paragens me confortou e ligou a esta terra, que parece ser cada vez mais só de terra e da língua.
Amanhã irei correr as bancas a ver se já a encontro.

ps: imagem retirado do blogue “LER Blogue

Já hoje menos se fala de educar preferindo o objectivo de ensinar no que à escola diz respeito, mas para quê? Para saber? Sim, para saber mas, gostaria eu, que ensinar fosse antes do mais cultivar o gosto de aprender, de fazer da vida um caminho de aprendizagem que possa ser transmitido.
Não a este propósito, mas encaixando que nem luva de cetim, a Catarina escreveu no 100nada um texto deslumbrante sobre o caminho e a chegada a ler e sorver na íntegra.

No meio de muitas tão in blogosféricas correntezas, uma me chega, via Zazie, que achei engraçada - quais os livros que mudaram a minha vida? Engraçada a ideia? Talvez nem tanto, mas o que me deu para rir foi pensar nisso e constatar que, afinal, os que me mudaram não foram os melhores, nem os que mais recordações guardo, nem sequer os que mais releio. Mudaram-me e mudaram a minha forma de estar e pensar, é (foi) assim!
Aqui vai, então uma lista por ordem cronológica:

- Cartilha Maternal de João de Deus, por onde a minha tia-avó me ensinou as primeiras letras e a ler;

- Os Cinco na Ilha do Tesouro de Enid Blyton (de quem se comemora este ano o centenário do nascimento), o primeiro da colecção dos cinco que me despertou para a leitura;

- A Queda de um Anjo de Camilo Castelo Branco, livro que me apresentou o encanto da arte de bem escrever em português;

- O Capital de Karl Marx que marcou definitivamente o meu pensamento e que durante alguns anos (poucos felizmente), devido à apropriação ideológica de outros autores e políticos, implicou que o viesse a reler por ter induzido conclusões apriorísticas que lá não se encontravam;

- Uma Família Inglesa, Os Fidalgos da Casa Mourisca, A Morgadinha dos Canaviais e As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Diniz, cuja releitura me valeu mais para compreender os quadros mentais de oitocentos do que todos os livros, manuais, sebentas e resenhas de historiadores;

- A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo de Max Weber, livro que me obrigou a reler e a compreender o que Marx, afinal, escreveu e quis dizer em O Capital;

- O Paradigma Perdido de Edgar Morin por me centrar naquilo que o Homem pode e deve fazer em vez da indignação e revolta sobre aquilo que de mau fez e continua a fazer e sempre fará;

- A Era do Vazio de Gilles Lipovetski por me desamarrar de prisões ideológicas e me colocar nos dias que correm.

Bom, segue a corrente para o António Costa Amaral, para o Francisco Nunes, para o Piotr Korpotkine, para a Alice Valente, para a Gi, para o Tiago Barbosa Ribeiro, para a Maria do Rosário Fardilha, para o HVA, para o Paulo Bastos e para o Rui Rebelo.

Neste Dia Mundial do Livro deixo estes quadros para reflexão:
Leitores em Portugal
(via Marktest)
Leitores por grupo etário
(via Marktest)

Para o livro isto interessa, aumento de 58% de leitores de livros na última década, atigindo os 3 milhões de leitores de livros em 2006, mas ficamos sem saber, neste estudo da Marktest, que livros são esses.

é um blogue novo de antigo e bom bloguista - José Manuel Fonseca.
Recomenda-se o uso e abuso sem moderação, mas cautela que é homem com ideias próprias e sustentadas.

15-01-07

Leituras

Quando o tempo ressuscita pela T-Regina.

«(…) Há condenados à morte, há discursos sobre ética, há debates e campanhas e votações e movimentos e… e… e… e… e… e…. e…. à exaustão, num simulacro de consciência como um papel de parede que se cola e se tira quando cansa e que até tem carrocéis e palhaços e pinceladas que tanto podem ser chuvas como árvores como pessoas - só que a inocência é outra. (…)»

Pertinente reflexão da Cristina Santos no A Baixa do Porto, sobre o Norte, em geral, e o Porto, em particular.

Eugénio dos Santos, Professor de História da F.L. da U.P. apresenta hoje, pelas 18:30h, na FNAC de Sta. Catarina no Porto, o último livro de Rogério Santos, A Fonte não quis Revelar.

Uma questão de meios - mais uma labareda do Dragão que chamusca muito boa e seriíssima gente.

é o título deste bem esgalhado texto da T-Regina a propósito de votações.
leiam este post do Besugo.
Não há anonimato que esconda o ser que se é!
ainda vamos encontrando blogues recentes que nos conseguem prender pela sua sensibilidade e qualidade de escrita como é o caso da T-Regina no Blogosaurius_Loch.
o humor com que Pedro Mexia aborda a tontice da ultrapassada onda da criatividade pela criatividade.
escreveu a Ali_se em comentário a este texto.
De repente, iluminado por este belo encontro de sentido em verbo desencontrado, dei comigo a pensar nas opiniões que ultimamente tenho lido sobre a blogosfera e sua qualidade (seja lá o que por isso se entender se é que alguém, entre dezenas de milhar de blogues, só portugueses, em seu juízo perfeito consegue achar que deve achar alguma coisa).
Eu nada sei sobre a blogosfera, apenas de uns poucos quantos blogues que leio, mas é-me bastante para agradecer as afinidades e amizades que fui fazendo em pouco mais de 3 anos.
Esta blogosfera fez-me bem, enriqueceu-me, faz-me bem. A que me tenta fazer mal também, por valorizar a que me quer bem e a restante, a imensa maioria, as tais dezenas de milhar que dela fazem parte, lamento sinceramente não ter tempo nem capacidade para conhecer ou alguma ideia fazer.
Estou grato à blogosfera, era só isto, afinal, que eu pretendia transmitir.

esta do Francisco:
«Choca-nos que alguém diga que é dono da sua barriga. (Nós, pessoalmente, em casos de diarreia dificilmente controlamos a nossa…)
Acresce só dizer, Francisco que mesmo nesse caso e que em plena rua nos acontecesse, não nos atirariam com os costados em tribunal nem apareceriamos em todos os noticiários. >

O Dragão, mais uma vez, prontos, tá bem, é um dos meus blogues preferidos, aborda agora, de seguideira, questões tão prementes como a cultura e a necessidade de um ministério e um antropo-escatológico ensaio sobre Asterix.
Imperdível!

é o título de 2 textos do Masson sobre as reformas educaticas (link e link) no Almocreve das Petas que aconselho vivamente.
Não é que esteja em total acordo, mas está lá uma análise calma e bem entrelaçada sobre os riscos que poderão advir.

Ler E o anel de ruby pelo Besugo no Blogame Mucho.

Eu gostaria de ter escrito isto, mas ainda bem que foi o Francisco José Viegas que o fez, muito melhor do que eu conseguiria.
O FJV entende que os professores são o elo mais fraco na cadeia de comando da organização e gestão da educação em Portugal. Entende bem, pois é na escola (diz o autor) que tudo acontece.
No entanto, eu gostaria de tentar ser mais assertivo, para dizer que é na relação particular que se estabelece entre cada aluno e cada professor, nessa comunicação que se pretende biunívoca, onde se cruza o ensino e a aprendizagem, o que quer dizer, onde se joga o sucesso de ambos os actores do processo educativo.
Quem já passou por empresas comerciais sabe o que pretendo dizer, é líquido, é na relação vendedor/comprador que o negócio se gera e, embora possa parecer estranho ao professor (ele não vende, no sentido literal) as técnicas a utilizar para uma rápida percepção de quem é o interlocutor (o aluno) e as de persuasão na comunicação são exactamente as mesmas.
O resto, o resto é como diz FJV, são génios, os génios que saíram das escolas para num qualquer gabinete, esquecendo-se de que para lá foram por professores terem sido, se entregarem aos mais inquietantes e compulsivos devaneios pedagogeses!
E a propósito, utilizando o título de FJV, o post do Dragão sobre a Violência Doméstica tem muito a ver com a indisciplina nas escolas, com a facilidade com que os pais se desresponsabilizam pela educação dos filhos e com o muito enfraquecido poder de persuasão dos professores quando comparado com o audiovisual.
Mesmo mais ausente da blogosfera do que outrora é sempre bom regressar para encontrar textos como estes.

A ALI_SE escreveu o processo interior de “(re)construção” com o intuito de analisar uma forma, hipotética a meu ver, o acto criativo, sob o título “Imagina-se o INCONSCIENTE“, investindo contra a psicanálise pelo facto de, no seu entender, que ela poderá “«matar»por completo todo este processo tão natural do desenvolvimento das capacidades criativas inscritas no inconsciente”. A polémica ficou instalada, como será evidente, na sua caixa de comentários, em especial com a troca de impressões entre a Ana Almeida do Salpicos e a autora.
É interessante o lá é dito, mas o debate ficou-se, um pouco, entre o sim e o não, entre os totems - a afirmação e a negação. Tudo se joga no objecto da psicanálise e na forma como ela é desenvolvida na prática clínica: se “a psicanálise tem como objectivo a cura do inconsciente” como entende a ALI_SE e, como eu acho que muitos psicanalistas têm, mesmo que inconscientemente, essa tentação clínica, ou se a psicanálise tem por o objecto ajudar as pessoas a conhecerem-se melhor a si próprias.
Afinal é neste ponto que reside a diferença já que, se este objecto fosse cumprido, o risco de formatação seria bem mais reduzido.

À boleia desta polémica apetece-me inserir um outro factor: o excessivo valor que hoje atribuimos ao corpo, por via de um inevitável movimento de libertação sexual, que conduziu ao hedonismo que hoje vivemos, reduzindo o corpo, quase, a um mero objecto sexual, como se mente não tivesse, ou, a ter, tudo o que contém é pelo sexo determinado!

Deixo um excerto de um ensaio de José Augusto Mourão, “SEXO, TEXTO E CORPO VIRTUAL” que pode ser lido aqui na íntegra.

«(…)
Que está a mudar? Depois da repressão sexual, a libertação. Ao fim e ao cabo, continuamos a reproduzir o negativo ou o positivo absoluto, não a ambivalência.
Depois de ter libertado a sexualidade do repressão da era vitoriana, Freud acabou por a canalizar para o quadro restrito da economia doméstica. Quem não respeita o esquema que circunscreve a sexualidade ao território dos fantasmas parentais, vidé triângulo edipiano que codifica a sexualidade e a retira de qualquer ambivalência é, ou doente, ou perverso ou louco. O erotismo endémico (e outras formas de êxtase como o misticismo, a embriaguez e a toxicodependência), associada à rapina, é um sinal de bifurcação ópio para o esquecimento, gozo da morte alheia. Em qualquer bem conquistado, esse rumor éperfeitamente audível.
Os bens da rapina (e da retina) são bem conhecidos: o ouro, as mulheres, os escravos e a tirania. Só em tempos de fome é que o estômago domina. O eros só é possível se o corpo preserva toda a sua ambivalência e não se reduz a essa significação unívoca que é o sexo, codificado. Não há todo (ou o todo), dizia Lacan. Dois não fazem um, mas um par de forças. O que o sexo faz é distinguir. Ninguém é homem ou mulher sem resto como ninguém é homo ou heterosexual sem resto, escreve Jean-Luc Nancy. Afinal não é essa a questão do nome próprio que para Deleuze designa um efeito, um zigzag, algo que se passa entre dois como sob uma diferença de potencial?
A maior parte do tempo, a libertação sexual reduz-se à libertação da roupa. Que é a moda senão a encenação do corpo através dessa única significação que é o sexo? Triunfo da equivalência, derrota da ambivalência simbólica. Por isso o strip- tease fascina: provocando o desejo sexual, mantém-no à distância encanto da ambivalência. Para os povos que têm ainda o sentido do adorno, a roupa é a glória do corpo: Rien ne va aussi profond que la parure.
Deve ser por isso que a apocalíptica judaica e cristã apelam ao tema da roupa para dizer o brilho dos corpos gloriosos. O perigo que nos espreita é a libertação do corpo que não o abre à ambivalência, antes o encerra na monovalência duma sexualidade que se torna inteiramente positiva. Se os primitivos se passeavam nus é porque o seu corpo era visto como um rosto, como expressão simbólica.
Ora, se o rosto é invisível, o sexo também o é. O corpo não é apenas força de trabalho nem apenas fonte de prazer: libertá-lo apenas reforça a sua estrutura codificada.
A ambivalência não quer a revolução, ela é revolucionária em si, ao interromper a circulação ordenada dos signos através dum equivalente geral. A lei éo lugar em que se acumula o valor. Transgredir a lei significa medir-se ainda com ela, logo não sair da família. Escreve Galimberti, Se a lei do pai ou a moral puritana é hoje anulada pela pressão dos movimentos de libertação sexual, aquilo que se anuncia, quando não se abandona a lei mas nos limitamos a transgredi-la, é uma regressão ao seio da mãe que esta sociedade, que se tornou permissiva, tolerante, gratificante e lenificante tolera, suprimindo qualquer censura, qualquer repressão com a qual outrora defendia a lei do pai.
É preciso que a miséria sexual seja muita para que o sexo seja hoje uma preocupação dominante. Quando o corpo muda, então tudo está a mudar. O corpo tornou-se um campo de batalha: The body is a battleground, diz Bárbara Krueger numa das suas montagens.
A época anunciada por Donna Haraway em que o monstro, o híbrido vem extremar a categoria de corpo, substituirá o enigma de um corpo demasiado orgânico, logo viscoso e enigmático, por um outro, agora biotécnico, sem órgãos, limpo de paixões e de sentido?»

Nota: introduzi parágrafos no excerto para melhor se ler num blogue, salvaguardando que o original não os contém.

19-09-06

Leituras

Já não há pachorra irmãos…” é o título de um texto do CBS sobre as palavras de Bento XVI, onde encontramos uma muito rica a troca de comentários entre a Zazie e o autor do La Force des Choses.

Recentemente editado pela Campo das Letras (tem loja online), Rogério Santos aborda neste livro «as relações entre fontes de informação e jornalistas e tem como estudo empírico notícias produzidas nos anos de 1982 a 1994 acerca da saúde (mais propriamente VIH-sida).»

«As aparências compensam» por Adolfo Mesquita Nunes, a propósito da ausência de crítica fundamentada a Cavaco Silva e a José Sócrates.

« (…) interditar à psicanálise a intromissão onde nada tem a dizer: no poético (obra de arte), no simbólico, na antropologia (primitiva)» no ALI_SE.

28-06-06

Leituras

Blogues cuja leitura sintamos falta são cada vez menos, ou melhor, cada vez mais difíceis de encontrar entre tantos e tamanhos…
Eu não sei quantas vezes já botei links pró Dragão, mas não me cansa nem dinheiro me custa e, daí, vai mais este.
Encostem-se para trás e saboreiem o humor e a ironia que condimentam a razão na arte de bem escrever!

a ler «A leitura e a virtude cívica» de Franscisco José Viegas no JN de ontem. O texto parte de premissas tão óbvias que não se compreende porque é que não são aplicadas! 2 excertos:

«Penso que o conhecimento dos clássicos é um dos melhores caminhos para conhecer a nossa história, a nossa língua e a nossa cultura. E que a leitura de um clássico é melhor do que a leitura de um regulamento do Big Brother, um artigo de jornal ou cartaz publicitário. Mas estes anos de insistência nas “virtudes cívicas do ensino do português” em vez do ensino da literatura, “produz técnicos de ensino” do português mas não forma professores disponíveis para cativar estudantes do secundário para os desafios da leitura.»

«é necessário que a escola mude alguma coisa nos seus hábitos. A escola e as famílias. Mas a escola cumpre um papel essencial, razão porque há a esperar alguma coisa desta iniciativa (…)»

Relembro, no entanto, o texto da Jacky a que fiz referência na entrada anterior, que poderá ser um entrave ao que Francisco José Viegas, muito lucidamente, defende.

De quando em vez a Jacky dá-lhe para escrever sobre coisas sérias e o mais curioso é que se sai tão bem como noutros assuntos que se entendeu rotular de menos sérios. A ler «Plano Nacional de Leitura» e reflectir, talvez, que às vezes, muitas, em calhando, as boas intenções gerais esbarram em inverosímeis impossibilidades locais.

Lendo o Mundo Pessoa chego à notícia de que a “Ler Devagar” encontrou um novo espaço a convite do ZBD> - “Zé dos Bois”, no r/c da Rua da Barroca.
Ele há gente, até pode ser pouca…, mas ele há gente… que vale a pena e que nos faz acreditar.