Via Improvisos ao Sul, tomei conhecimento que, finalmente, o Conservatório Regional do Baixo Alentejo, mais conhecido por Conservatório de Beja, aderiu a alargar o seu projecto educativo à área do Jazz, tendo assegurado António Branco como dinamizador do projecto.
De momento pouco mais sei do que está no Improvisos ao Sul e no site do Conservatório Regional do Baixo Alentejo, ou seja, a abertura de um curso de ‘Iniciação ao Jazz’ já a partir de Outubro.
É uma boa notícia para Beja, aproveitando para endereçar votos de sucesso ao António Branco, assim as condições que lhe proporcionarem permitam desenvolver o projecto que ele terá em mente.
Noto, contudo e com tristeza, que apesar de o Jazz entrar no projecto educativo do CRBA, o Cante Alentejano continua fora da única escola de ensino artístico especializado do Baixo Alentejo.
Arquivo: ‘Música’ Category
Poder-se-á pensar que as referências à música do Ricardo Serrano são já abusivas ou até indiciadoras de publicidade amigável. Burrifo-me.
A 9 de Maio passado o Ricardo disponibilizou o seu mais recente tema, ‘a José Afonso‘, no Peremela. Aqui fica, não pelo facto assumido de sermos amigos de longa data (mas também), mas porque sinto o Zeca, uma homenagem à sua música sem condescender com paternalismos ou colagens de suas canções. Sinto o Zeca Afonso, a sua música, a guitarra (mesmo em piano solo) e uma força… Da terra…, viva e vivida.
Obrigado, Ricardo.
A 4ª edição do ‘INJAZZ - Jazz em Português’, festival de jazz itinerante de projectos originais de músicos portugueses, organizado pela ‘Lado B - Produções Artísticas’, traz Maria João e Bernardo Sassetti ao Pax Julia - Teatro Municipal de Beja no próximo fim-de-semana.
Dos quatro projectos em cartaz no INJAZZ de 2008, ‘Zé Eduardo Unit’, LUME Big Band’, ‘Maria João 4tet’ e ‘Bernardo Sassetti piano solo’ saudamos a escolha destes dois últimos por parte de quem teve de escolher apenas dois para apresentar no Pax Julia.
Assim como na edição do ano passado lamentei não se ter optado por João Paulo Esteves da Silva e pelo Sexteto de Mário Barreiros em vez de Carlos Martins e Marta Hugon, não poderia deixar de manifestar a minha satisfação pela escolha deste ano.
No dia 16, sexta-feira, teremos então Maria João em quarteto, num projecto que será novidade, com uma formação que já há algum tempo não experimentava e.., sim, sem Mário Laginha.
Estou muito curioso.
A 17, Sábado, Bernardo Sassetti apresenta-se a solo com uma projecção multimedia associada de fotografias da autoria do músico.
Sassetti é Sassetti mas, ainda assim, estou com receio do piano que lhe colocarão à disposição numa sala com a volumetria do Pax Julia. Espero que seja um piano de concerto (cauda inteira), que nos ilumine acusticamente a alma sem amplificações absolutamente desnecessárias que desvirtuam, sem remissão, a sonoridade de um piano acústico por melhor que sejam as intenções e a competência de um técnico de som.
A ver vamos.
25 de Abril com José Mário Branco
O Primavera Musical deste ano (link), o 14.º Festival Internacional de Música de Castelo Branco, produzido pela APSARA (link), com a direcção artística de Carlos Semedo e Guenrikh Elessine, inicia no próximo dia 29 de Abril e prolonga-se até 5 de Junho.
Carlos Semedo habituou-nos em edições anteriores a um assinalável registo de qualidade na programação e produção, traduzido este ano não só na programação (link), como na forma como se encontra harmoniosamente integrada. Sobre o mote Do Místico ao Mestiço poder-se-á assistir a 14 concertos, 5 sessões de cinema, um ensaio aberto e a uma Oficina de Construção de Instrumentos Musicais.
Não é fácil destacar nomes ou momentos mas, ainda assim, não resisto a chamar a atenção, por ordem cronológica, para o recital de Miguel Borges Coelho a inaugurar o festival, a 29 deste mês, o filme “O Grande Silêncio” de Phillip Gröning a 6 de Maio, o Mediae Vox Ensemble (link) a 7 do mesmo mês, ao Takács Quartet (link) a 14 e a Maria João, em quarteto, a 5 de Junho.
Parabéns à organização e a Castelo Branco que muito beneficiará, atendendo à qualidade do programação, pela promoção da cidade e da região.
Via JPT do Ma-schamba tomo conhecimento da programação do IV Festival Internacional de Música de Maputo. Mais um festival, dir-se-á, mas atentem na riqueza da programação lá consta.
Começo a crer, cada vez com mais convicção, que dos países ditos em desenvolvimento, nomeadamente dos lusófonos, poderão advir iniciativas que nos mostrem que a inovação, hoje tão, mas tão politicamente correcta, poderá estar, e bem, aliada à tradição, à cultura e à identidade.
Após tomar conhecimento da morte do seu amigo Johnny Hodges, Ben Webster, com Teddy Wilson ao piano, dá-nos esta interpretação de Old Folks:
Gonzalo Rubalcaba, ainda muito escondido pelos “puristas” do jazz que sempre desconfiam do apuro técnico dos músicos, é seguramente um dos pianistas mais inventivos e respeitadores da tradição “afro” do Jazz da actualidade, que junta esses predicados a uma técnica e sensibilidade raras.
Quem puder não perder, ele estará amanhã no Auditório de Espinho, e 3ª feira, dia 8, no Seixal, no Auditório Municipal.
Deixo dois registos vídeo em duo com Chick Corea absolutamente inadjectiváveis. São para ouvir…
Paul Robeson, esquecido? Acho que sim. Continuo a ouvir e a sentir o mesmo que da primeira vez que o escutei vai para 35 anos - a negritude , a cutura afro-americana, a sinceridade, a minha janela para o Jazz que viria a seguir.
Deixo-vos com Nobody Knows the Troubles I’ve Seen, Ol’ Man River, Deep River, Curly Headed Baby, Go Down Moses, Sometimes I Feel Like a Motherless Child, Shenandoah, Summertime e America’s Low Octave. Boa Páscoa!
Concerto de Páscoa hoje em Espinho
Rumo a Espinho, hoje, para ouvir o Concerto de Páscoa no belíssimo auditório da cidade com a Orquestra Clássica de Espinho e o Coro dos Amigos da Academia de Música de Espinho a interpretarem a Sinfonia nº 104 em Ré M “Londres” de Haydn e a Gloria em ré M de Vivaldi. (ver programa completo)
Para além da Orquestra e do Coro dos Amigos de Espinho serão intérpretes solistas as soprano Margarida Reis e Cláudia Pereira Pinto, estando a direcção da orquestra entregue a Pedro Neves e a direcção do Coro a Fausto Neves.
Estreia hoje, 18 de Março, às 21:00h, o STABAT MATER de Eurico Carrapatoso para Barítono, Coro de Câmara e Ensemble, uma encomenda do Centro Cultural de Belém, para ser apresentado em contraponto com a obra de Boccherini que será executada, no Grande Auditório, no mesmo parte do concerto.
Serão intérpretes Armando Possante (barítono), o Coro Olisipo e a OrchestrUtópica, dirigido por Cesário Costa.
Entrevistado por Maria Ana Freitas, entrevista cuja leitura integral recomendo, transcrevo algumas palavras de Eurico Carrapatoso sobre este seu STABAT MATER:
(…) o meu tratamento do texto “Stabat Mater” é fundamentalmente silábico e homofónico, para que não se perca uma única gota que seja da sua essência, e para que a sua mensagem não sofra qualquer distúrbio no seu percurso entre o intérprete e o ouvinte. Mais a mais, quando este texto plangente assume tamanha actualidade na época que vivemos. Lembremo-nos, por exemplo, das mães dolorosas das milhares de crianças iraquianas mortas desde o início da bárbara ocupação militar em Março de 2003: os infames “danos colaterais”. O Ocidente globalizado digere bem os seus crimes com estes doces epítetos: “danos colaterais”. Mas a verdade é que os “danos colaterais” são, no fundo, uma matança dos inocentes que faz corar Herodes. E é a estas mães dolorosas do país onde nasceu a civilização ocidental que eu dedico o meu “Stabat Mater”, sempre com o timbre de Messiaen em pano de fundo: “tout ceci reste essai e balbutiement, si l’on songe à la grandeur écrasante du sujet.”
Breves notas biográficas de Eurico Carrapatoso:
Eurico Carrapatoso nasceu em 1962 e é natural do distrito de Bragança.
É licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Iniciou os seus estudos musicais em 1985, tendo sido sucessivamente aluno de composição de José Luís Borges Coelho, Fernando Lapa, Cândido Lima e Constança Capdeville. Concluiu em 1993 o Curso Superior de Composição no Conservatório Nacional de Lisboa com Jorge Peixinho.
Foi assistente de História Económica e Social na Universidade Portucalense.
Leccionou na área da composição em várias instituições, nomeadamente na Escola Superior de Música de Lisboa e na Academia Nacional Superior de Orquestra. É desde 1989 professor de Composição na Academia de Amadores de Música e no Conservatório Nacional, sendo professor do quadro desta última instituição. Recebe regularmente encomendas das principais instituições culturais portuguesas e a sua música tem vindo a ser executada, editada e difundida desde 1987 não apenas na Europa bem como nos restantes continentes.
Ganhou as primeiras edições do Prémio de Composição Lopes Graça da Cidade de Tomar e do Prémio Francisco de Lacerda.
A sua música representou três vezes Portugal na Tribuna Internacional de Compositores da UNESCO, realizadas em Paris em 1998, 1999 e 2006, com “Cinco melodias em forma de Montemel” (para soprano, trompa e piano), “Deploração sobre a morte de Jorge Peixinho” (para grande orquestra) e “O meu poemário infantil” (para tenor e orquestra)
Em Maio de 2001 foi distinguido pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal com o Prémio da Identidade Nacional.
Foi condecorado pelo Presidente da República com a Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique em 10 de Junho de 2004.
ps: fotografia de João Tuna
O Mediae Vox Ensemble, especializado em polifonia medieval, dirigido por Filipa Taipina, tem já agendados para este ano bastantes concertos, indiciando a confirmação da sua qualidade.
Este mês apresenta-se no Porto, no dia 7 de Março pelas 21:30h na Igreja de S. João da Foz e inserido “Ciclo de Músicas Religiosas” em Santander, organizado pela Caja Cantabria, nos próximos dias 17 e 22 de Março, na Igreja de Sta. Lucía (21h) e Santuario de la Bien Aparecida (20h), respectivamente.
Madalena Sá e Costa, uma das mais insígnes discípulas de Guilhermina Suggia e neta do fundador do Conservatório de Música do Porto, Bernardo Moreira de Sá, lança um livro há muito prometido e aguardado - “Memórias e Recordações“.
O lançamento de “Memórias e Recordações” ocorrerá na Casa da Música, dia 24 de Fevereiro, às 19:00h, na sala 2, iniciativa enquadrada numa série de 6 concertos a decorrer de hoje a Domingo na Casa da Música em homenagem a Guilhermina Suggia.
Pode ser que o violoncelo “Montagnama” que Suggia legou ao Conservatório do Porto apareça, mais uma vez, de relance…
Não será demais relembrar o hercúleo trabalho de Virgílio Marques na constituição da Associação Guilhermina Suggia para que uma das melhores violoncelistas de sempre não fosse definitivamente apagada da nossa memória colectiva.
A OrchestrUtopica apresenta hoje, pelas 22:00 horas, no Centro Cultural de Belém Futuros 1.2, série de dois concertos de câmara dedicados em exclusivo à audição de obras da nova geração de compositores portugueses.
Será interpretado:
Bruno Soeiro | Prominent rising disillusionment | piano
Bruno Gabirro | Entre murmúrios e silêncios | quinteto de sopros
Hugo Ribeiro | Quatro personagens saídas de um conto | cl, pf, vl, vc
José Luís Ferreira | Existence 1.2 | fl, cl, pf, vc
Patrícia Sucena Almeida | Silens clamor | fl, cl, vl, vla, vc
O Ministério da Educação ultima uma Portaria para destruir a Educação Artística em Portugal, a única que funciona, a única que já produziu e produz resultados - as Escolas de Ensino Artístico Especializado, segundo informou o Prof. Wagner Diniz após reunião no Ministério da Educação!
Já o tentaram no ano transacto o que me motivou a escrever sobre: Relatório de Avaliação do Ensino Artístico Especializado (estudo encomendado a um Professor Doutor com Agregação em Ciências da Educação de seu nome Domingues Fernandes que fez o frete de obrar um estudo sem qualquer fundamento científico, uma vez que da sua equipa não constava ninguém ligado às artes e sua educação, nem trabalho de campo relevante efectuou); sobre o perigo de entender que se tratava de um ataque ao Conservatório Nacional quando há perto de 100 escolas de ensino especializado, englobando cerca de 30.000 alunos; o despautério que foi a realização da Conferência Nacional de Educação Artíistica, encenação para o que aí viria; coloquei à disposição de quem quisesse (ou queira) escrever, mesmo sob pseudónimo, sobre o que se adivinhava, o Educação Artística FORUM!
Basta! Não me atafulhem a caixa de correio! Não sou artista nem arte para professor tenho! Estou cansado de estar só, da cobardia de esperarem pelo incêndio em vez de o prevenirem! E estou incomodado … (desculpem o tom deste post).
Peço que se impliquem, todos em uníssono, no combate contra a destruição da Educação Artística de qualidade em Portugal pelo Ministério da Educação - música, dança e teatro. Se cada um de nós conseguir ver que afinal é disso que se trata e não do encerramento do Conservatório Nacional, poderá ser que ainda vamos a tempo.
Lisonjeias-me, Henrique Silveira, eu não mereço tal atenção! Longe de mim pensar que seria capaz de te estimular a escrever o que talvez pudesses ter escrito antes. Cuida, no entanto que o que escrevi, não te era dirigido particularmente, mas a um uníssono rol de dizer mal do qual ressalta uma constante - desacreditar não Das Märchen, mas o próprio Emmanuel Nunes, para relembrar o Sr. Pinamonti.
Não leves a mal este “gonzo” tecer algumas considerações sobre o que agora escreves, e sabes porquê? Por ser bem mais interessante para análise, por teres tocado onde se pode tocar, ou seja, estás certo de que eu disse que não se pode criticar uma obra de arte musical como Das Märchen? Mesmo seguro?
Não me lembro de ter escrito isso! Lembro-me, isso sim, de falar do tempo necessário para se reflectir sobre a arte moderna! Sabes porquê? Porque nem sequer estou certo de que se possa considerar Das Märchen um obra de arte? Tens já tu essa certeza? Eu não, de momento ainda é um muito elaborado artefacto proposto para obra de arte.
A obra de arte impõe-se-nos esteticamente ou por deslumbramento sensitivo-emocional (que tal como em ti Das Märchen em mim não despoletou) ou pela abordagem criteriosa de um produto de matiz eminentemente racional e logicamente reflexivo. Neste contexto (se não estiveres de acordo diz) se o artefacto não te tocou emocionalmente, dever-se-ia ou não dar-nos algum tempo? No teu caso, pelo que escreves, fico com a ideia (corrige-me se estiver enganado) de que poderias ter escrito porque descreves sensações que viveste durante a sua estreia e cito-te: Já senti, à náusea, a repetição exaustiva do mesmo material, manipulado computacionalmente, repetido friamente e sem emoção. Sinto o corte e costura marcado nos ouvidos e ressoando no cérebro. Sinto a artificialidade sem vontade, sem nada para dizer, criando efeitos e mais efeitos, fazendo chocar permutações.
Tens toda a legitimidade em exprimir o que sentiste, mas constituir a partir desta premissa toda uma retórica crítico-reflexiva parece-me pulo inverosímil!
Para além disto, Henrique, sobre o que escreves? Sobre IRCAM, o Boulez, o Stockhausen e sobre Nunes? Que tem a ver esta amálgama que te atiça? Pego nas tuas palavras exactas sobre o IRCAM aplicadas a outro contexto e vê se não se encaixam mesmamente:
Infelizmente muitas das criações saídas de Mozart (substituí IRCAM por Mozart), apesar destes rótulos geniais (substituí intelectuais por geniais), acabam por ser Intestinais. Pode ou não aplicar-se?
Outro exemplo a propósito de Bach? Não vale a pena, pois não, são suficientes os quase 100 anos que decorreram após a sua morte para descobrirem que existiu o génio criador que hoje reconhecemos.
Há um acordo entre nós (não sei se te passou despercebido) em relação ao modernismo se atentares na citação de Lipovetsky, a qual repito por em parte me identificar:
O dispositivo modernista que se incarnou de modo exemplar nas vanguardas encontra-se hoje exausto, tal é a sua condição desde há meio século. As vanguardas não param de girar no vazio, incapazes de inovação artística maior. A negação perdeu o seu valor criador, os artistas mais não fazem do que reproduzir e plagiar as grandes descobertas do primeiro terço do século (XX).
A obra de Emmanuel Nunes é ainda um produto deste modernismo que quis rasgar com o passado (com a tradição) e embuído de uma, digo eu, quase paranóica tentativa de invovação, a qual, muitas vezes, não passou disso mesmo, de uma coisa nova! Ainda com Lipovetsky:
O impasse da vanguarda liga-se ao modernismo, a uma cultura radicalmente individualista e extremista, no fundo suicidária, que afirma a inovação como único valor.
(…)
A inovação modernista tem de particular o facto de se aliar ao escândalo e à ruptura: surgem obras em contradição com a harmonia e o sentimento, divorciadas da nossa experiência familiar do espaço e da linguagem. Numa sociedade assente no valor do insubstituível, último, de cada unidade humana, a arte organiza figuras deslocadas, abstractas, herméticas; surge como inumana.
No entanto, e apesar disto, se incorporasse este conceito de forma fundamentalista, equivaleria a fechar-me a qualquer manifestação de natureza artística, correndo sério risco de me tornar mesmo no tal gonzo, “luxo” que eu, arrogantemente, recuso !
Conhecemo-nos há tempo suficiente, Henrique, para saberes que a música para mim ou me toca emocionalmente ou desinteressa-me, mas precisamente por isso me obriguei, não a uma exegese ou hermenêutica do texto musical (deixo esse empreendimento para os analistas), mas a repetidas audições do período moderno, ou se preferires, a partir de Schöenberg e esta experiência ensinou-me que esta exposição aberta a estéticas para mim até então estranhas, modificou o meu sentir em relação a muitas obras, por exemplo e sucintamente: Le Marteau sans Maître, Répons (sublime) de Boulez, Concerto de câmara para 13 instrumentos de Ligeti, Il Ritorno degli Snovidenia de Berio, Al gran sole Carico d’Amore de Nono…
Estou (…), fora do meio musical e dou-me ao luxo de dizer o que penso (não é só citação, estou mesmo fora), mas dizendo o que penso não digo tudo. E tal como tu, um dia voltarei a ler estes textos e vou divertir-me com aquilo que pensava há uns anos atrás. Talvez até mude de opinião, o que será normal, em nítida atitude pós-modernista, o da incerteza, da perenidade e da pequenez do conhecimento racional no contexto de constructo da compreensão cosmológica humana.
Antes de qualquer consideração sobre a estreia da ópera Das Märchen de Emmanuel Nunes, sossegue quem me possa ler, porque não será ainda desta vez que ousarei aventurar-me pelo caminho do imediatismo crítico. Primeiro porque não possuo a necessária bagagem para o ser, por outro lado, a arte moderna impõe (-me) uma necessária distanciação temporal que permita viajar pelos caminhos da incerteza da reflexão. Três citações, antes de mais, sobre o modernismo do qual Nunes é ainda filho adoptante:
A Arte não se apresenta pelo que é óbvio. Arte vai para além das fronteiras de tudo o que é óbvio. Por sua vez, tudo o que é óbvio jamais está inserido no que é Arte e por isso, esta só conseguir assomar-se nas margens das impositivas regras e amarras do que lhe é óbvio.(…)
E uma obra de arte estima-se enquanto arte se o óbvio não se verificar. A partir do momento em que o óbvio transpareça numa obra de arte, imediatamente a peça que tida de obra deixará de o ser e reduz-se assim a uma qualquer situação de não-comunicação.
[Alice Valente em Ali_se (link)]
O modernismo ganha toda a sua amplitude com o abalar do espaço da representação clássica (…). Os artistas não param de destruir as formas e sintaxes instituídas, insurgem-se violentamente contra a ordem oficial e o academismo: o ódio à tradição e raiva de renovação total.
O modernismo não se contenta com produzir variações estilísticas e temas inéditos, quer romper a continuidade que nos liga ao passado, instituir obras absolutamente novas.
O dispositivo modernista que se incarnou de modo exemplar nas vanguardas encontra-se hoje exausto, tal é a sua condição desde há meio século. As vanguardas não param de girar no vazio, incapazes de inovação artística maior. A negação perdeu o seu valor criador, os artistas mais não fazem do que reproduzir e plagiar as grandes descobertas do primeiro terço do século (XX).
Como falar acerca de obras cujas construções insólitas, abstractas ou deslocadas, dissonantes ou minimais, que provocam o escândalo, confundem a evidência da comunicação, desordenam a ordem reconhecível da continuidade espaço-temporal e levam por isso o espectador a receber menos emocionalmente a obra do que a interrogá-la de modo crítico?
[Lipovetsky]
Toda a arte moderna, devido às suas preocupações experimentais, baseia-se no efeito de distanciação e provoca espanto, suspeição ou recusa, interrogação sobre as finalidades da obra e da própria arte!
[Brecht]
Presente o citado, é com alguma perplexidade que leio as críticas a Das Märchen, sem aguardarem, prudentemente, em si, pelas interrogações que o que viram e ouviram poderá suscitar, uma vez que a arte moderna (não ainda a pós-moderna) não está construída para nos tocar sensitiva-emocionalmente, embora o possa fazer, mas sim para questionar e reflectir! Que crítica é esta que tem uma ânsia de dizer antes de deixar a obra exalar todo o intrincado simbólico de referências e interrogações?
Ultrapassa-me, de todo, este imediatismo, esta social necessidade de no dia seguinte ter de ter, porque é de bom tom ter, que dizer, qual comentador desportivo, seja para dizer bem ou nem por isso ou mais ou menos!
Constato, contudo, duas ideias constantes, não ingénuas, em quase todas as leituras que corri - a desertificação da sala após o intervalo e a referência ao facto de a encomenda ter sido efectuada por Pinamonti (anterior director do S. Carlos). As neblosas, sim, fantasmas erguidos quais penadas almas, sobre certas colegiadas “bem-pensantes” cabeças pairam! Ah, Pereira Leal, o que a tua anunciada aposentação anda por Lisboa a arrebatar de enredos em putativas consciências!
Qual é o mais duro dos críticos? O amador malogrado.
[Goethe]
De meu deixo uma nota: o S. Carlos não está (nunca esteve) talhado para as “aventuras” da modernidade. Esses “devaneios” há muito estão comprometidos com a Gulbenkian e seu público específico.
Marco Pereira, um dos nossos jovens violoncelistas mais promissores, aluno de Paulo Gaio Lima na AMEC e depois, como bolseiro, na Escuela Superior de Música Reina Sofía, em Madrid, apresenta-se hoje em concerto no Auditório 2 da Gulbenkian, incluído no ciclo Jovens Músicos, às 19:00h, com Ofelia Montalván ao piano.
Ludwig van Beethoven - Sonata para Violoncelo e Piano Nº 5, em Ré maior, op.102 nº 2
Luís de Freitas Branco - Sonata para Violoncelo e Piano.
Olivier Messiaen - Louange à l’Eternité de Jésus (do Quatuor pour la fin du temps)
Sergei Rachmaninov - Sonata para Violoncelo e Piano em Sol menor, op.
Em Straight Ahead Joshua Redman glosa sobre St. Thomas de Sonny Rollins de forma sublime. Defunto o Free Jazz, Joshua Redman representa um dos expoentes máximos da nova geração de saxofonistas tenor que busca inspiração na tradição afro-americana da sua música - o Jazz.
Joshua Redman - saxofone tenor, Jonny King - piano, Christian McBride - contrabaixo, Brian Blade - bateria
Bom fim-de-semana.
Estou ansioso por deitar a mão ao CD dos A Imagem da Melancolia, com o título A Arte da Usurpação, com o seguinte alinhamento:
La Ragione (pavana e saltarello) P. Hessen
La Morte della Ragione Anon
Batalha P. Arauxo
Tiento A. Cabezon
Canção A. Carreira
Daphne Anon
Almaine A. Holborne
The Fairie Round A. Holborne
Pavane, Galliarde, Basse Dance, Branle Simple, Branle Double, Branle Gay, Tourdion P. Attaignant
Fantasia Super Io Son Ferito Lasso S. Sheidt
Paduana, Allemade, Courante, Balletto, Sarabande J. Rosenmüller
Canzona Sopra la Bassa Fiaminga G. Frescobaldi
Sonatella A. Bertali
Os A Imagem da Melancolia é um “consort de flautas” que se dedica à música antiga, composto por: Inês Moz Caldas, Marco Magalhães, Paulo Gonzales, Pedro Castro e Pedro Sousa Silva. Lembrem-me hoje deles por estarem, neste momento, a actuar na Casa da Música, em concerto inserido no festival “À Volta do Barroco”.
Bom, há que aguardar…
A Sony BMG, useira e vezeira em bloquear o acesso aos seus produtos sem curar de aprender a livre circulação deles é o melhor meio publicitário, por um lado e, por outro, que o canal de distribuição de música via net está para ficar, anunciou que retirará os códigos “DRM” (Digital Rights Management) por si inventados.
A protecção contra cópias da Sony BMG - DRM - consiste num software inserido no CD que se instala automaticamente nos computadores de secretária que usam o sistema operativo Windows, criando problemas sérios de segurança, pelo facto de interferirem na protecção contra vírus e spywares.
Mas o mercado falou mais alto (ainda se lembram na guerra no início do vídeo entre o sistema VHS e o Beta da Sony nos anos 80?) obrigando a Sony BMG a anunciar que irá retirar esse software dos seus CD’s e abrir-se à venda online. (ver notícia na Folha de S. Paulo)
Com efeito, a WEB 2.0 abriu (e continua a abrir) possibilidades de edição (ver Web 2.0 coloca mercado da música em ebulição), difusão e venda directa de música directamente pelos músicos, sendo que quem está em causa e a perder espaço são precisamente as editoras como avisou, atempadamente, o Paulo Gomes:
Dias de Música Electroacústica
Os Dias de Música Electroacústica #3 decorrerão entre 16 e 18 deste mês no Auditório do Conservatório de Música de Seia, edifício Casa das Artes. A direcção artística está a cargo de Jaime Reis e a produção de Ricardo Andrade e Gustavo Martins.
Do programa constam 3 concertos interpretados pelo Trio Endphase composto por Alberto C. Bernal, João Miguel Pais e Johannes Kreidler:
- 16-Dez-07
Concerto com obras de Alberto C. Bernal, João Miguel Pais, Johannes Kreidler - 21:00h
- 17-Dez-07
Performance Endphase 13b e 13c - 21:00h
- 18-Dez-07
Concerto de apresentação da Workshop Endphase para jovens - 21:00h
Para mais informações visitar o blogue Dias de Música Electroacústica.
Fausto Neves apresenta-se hoje em recital, pelas 21:30h, no Auditório de Espinho com o seguinte programa:
I Parte
DOMENICO SCARLATTI - Sonata “Pastorale” em Dó Maior
BEETHOVEN - Sonata op. 28 em Ré Maior (Pastoral)
- Allegro
- Andante
- Allegro Vivace (Scherzo)
- Allegro ma non troppo (Rondo)
CHOPIN - Primeiro Scherzo op. 20 em Si Menor
II Parte
LOPES-GRAÇA - Natais Portugueses (Primeiro Caderno)
I (Melodia de Proença-a-Nova – Beira Baixa)
II (Velha Melodia de Évora – Alentejo)
III (Melodia de Paul – Beira Baixa)
IV (Melodia de S.Miguel d’Acha – Beira Baixa)
V (Velha Melodia de Évora – Alentejo)
VI (Melodia de Rio de Onor – Trás-os-Montes)
VII (Melodia de Póvoa de Lanhoso – Minho)
VIII (Original)
OLIVIER MESSIAEN - Noël (de “Vingt Regards sûr l’Enfant-Jésus”)
Um recital de Fausto Neves, por cada vez mais raros, é sempre motivo de regozijo e uma (quase) obrigação para quem gosta de piano descolar-se para ouvir.
Já por diversas vezes divulguei o projecto Música nos Hospitais promovido pela Associação Portuguesa de Música nos Hospitais e Instituições de Solidariedade - APMHIS em parceria com a Orquestra Metropolitana de Lisboa (link). Vejam a reacção das crianças nesta reportagem da SIC no Hospital de Santo António e
comprem, vá lá, comprem um cachecol para financiar o projecto.
Transcrevo email da APMHIS:
A Modalfa e a RTP, através do concurso Operação Triunfo, associaram esforços e decidiram apoiar a Associação Portuguesa de Música nos Hospitais e Instituições de Solidariedade - APMHIS, lançando um produto cujas receitas revertem para a Música nos Hospitais, permitindo assim que a sua acção se possa estender a mais instituições
(neste momento estamos no Hospital Garcia de Orta- Almada e no Hospital Geral de Santo António-Porto - serviços de pediatria, na Maternidade Júlio Diniz-Porto - serviços de maternidade e obstetrícia, no Hospital Nossa Senhora do Rosário-Barreiro e Hospital de São Bernardo-Setúbal - nos serviços de hospital de dia oncológico adultos, na Santa Casa da Misericórdia de Almada e no Lar Mansão de Marvila-Lisboa - lares de idosos e no Lar de Santa Catarina-Casa Pia-Lisboa - residência de crianças e jovens).
O produto consiste num cachecol (muito giro, com várias combinações de cores), produzido pela Modalfa, que foi lançado pelo programa Operação Triunfo e que tem vindo a ser promovido pelos concorrentes. Pode-se encontrar em várias lojas por todo o país, custa 4,95€ revertendo 2€ por peça para a Música nos Hospitais.
Deixamos aqui o nosso convite para que se associem a esta iniciativa e que, aproveitando o frio que parece ter-se instalado, adquiram o cachecol, para uso próprio para oferta, …, sabendo que estão a unir esforços para que o nosso trabalho possa chegar a mais pessoas.
Ler na íntegra o desgosto ou a mui justa indignação do Henrique Silveira face ao alheamento ou desprezo da nossa suposta “intelligentia” face aos eventos musicais e, acrescento eu, à educação artística, onde a musical se inclui.
Deixo um excerto:
Portugal é um país onde a cultura musical é miserável e onde os tais opinion makers não dedicam o menor interesse à música. É natural assim que um recital de Schubert com dois dos mais excelsos intérpretes fique às moscas enquanto numa recôndita aldeia da Aústria (1800 habitantes) encha sistematicamente uma sala (Angelika Kauffmann Hall) com mais de seiscentos lugares, que se situa a mais de três horas de carro de Viena e de Salzburg, para a Schubertiade.
Maurice Béjart - Bolero
intérpretes: Jorge Donn solista e The Art Of The 20th Century Ballet








