Apesar de não defender nem a Festa da Música nem os Dias da Música por entender que o Estado não deveria dedicar grande parte do seu orçamento em eventos culturais pontuais em detrimento de uma programação continuada, diversificada, territorialmente abrangente e, sempre que possível, conjugada com a educação (entenda-se escolas regulares de ensino público e não serviços educativos de variadíssimas índoles e esquemas) e formação de novos públicos nas camadas mais jovens (quem se interessar ver arquivo Educação em Cultura), senti necessidade de regressar a este assunto pelo facto de me parecer que Mega Ferreira não estará a corresponder como gestor nem como programador do Centro Cultural de Belém (CCB) ao que é exigível a um gestor cultural público.
De facto, depois de Mega Ferreira ter vindo para os media anunciar que por culpa da Ministra da Cultura o CCB não poderia realizar a Festa da Música este ano e que se soubesse, quando chegou ao cargo, que o Governo iria instalar a colecção Berardo em todo o centro de exposições e que o Ministério da Cultura iria cortar os seus apoios anuais, “provavelmente não teria aceitado o convite” (excerto de notícia do Público de 10/02/2007), não é compreensível que, feitas as contas como o Raposa Velha as apresentou, a diferença se situe nuns parcos 88.000,00€, ou seja, 17.643 contos em moeda antiga!
Sobre a comparação entre a Festa da Música e os Dias da Música já o Henrique Silveira e a Teresa Cascudo escreveram bem para além do que eu conseguiria, mas o que me apoquenta é o que poderá estar por detrás de toda a encenação mediática que o presidente do CCB montou com o único objectivo (aparentemente, depois de feitas as contas) de atingir Isabel Pires de Lima. Note-se que Mega Ferreira não mostrou uma indignação bastante para apresentar a sua demissão por não concordar com as alterações introduzidas, limitando-se a afirmar que se, aquando da sua aceitação do cargo, soubesse do acordo com Joe Berardo e dos cortes orçamentais, não o teria aceite.
Isto é, no mínimo, muito estranho! Os cortes do Ministério da Cultura já tinham sido feitos no Orçamento de Estado de 2007 e o acordo com Joe Berardo transcendia já, como todos sabiam, Isabel Pires de Lima, uma vez que o dossier estava na mesa do Primeiro-Ministro!
Assim sendo, o show mediático de Mega Ferreira só poderá compreender-se se o seu objectivo (aquele que poderá estar por detrás da sua animosidade contra a Ministra) for o de alcançar a função de Ministro da Cultura com o apoio de um lobbie na comunicação social, o qual não deverá estar isento do circo mediático montado sobre o affaire Pinamonti / Mário Vieira de Carvalho, que envolveu jantar de homenagem e tudo com cerca de centena e meia de participantes a maior parte dos quais, estou plenamente convencido, estão totalmente alheios a estes meandros do poder!
Dito isto, é evidente que a Ministra da Cultura também não terá andado bem nestes assuntos muito especialmente ao dar dois tiros no pé, logo a a montante: ter convidado Mário Vieira de Carvalho para Secretário de Estado e Mega Ferreira para Presidente do Centro Cultural de Belém!
É caso para dizer que, se Isabel Pires de Lima soubesse o que sabe hoje não os teria convidado só que, se assim fosse, colocar-se-ia também na incómoda posição de ninguém perceber por que é que ainda não os demitiu!. Mas esta é outra questão…, daquelas que só mesmo os políticos poderão almejar entender!
É certo de que nunca fui grande adepto, mas o fim de algo que esteve sempre esgotado dá-nos que pensar…
A Festa da Música tornou-se no evento de música dita clássica mais mediático de Portugal – ele era um corrupio de comentadores, de candidatos a comentador, de críticos, de sociólogos da música, de músicos sociólogos, de antropólogos, de Cinhas, de Caras, caía lá tudo, todo este mundo e mais outro! Essa festança acabou!
Merecia o evento continuar? Sem dúvida, havia qualidade na programação, nos músicos, na montra que era para os músicos portugueses, no renascer da vivência da música clássica, mas o que era o CCB para além desses 3 dias? Nada será demasiado e algo muito! (ver tristeza da Teresa Cascudo)
A verdade é que não há dinheiro para pagar ao René Martin, mas também nada há a agradecer pois muito pouco fez para a internacionalização dos músicos portugueses que afinal convidava para as suas festas.
Fim do contrato. Ponto, parágrafo.., por uma questão orçamental, mas parágrafo!
E agora, finda a festança, poderemos continuar a ter música? Ou seja, será que o CCB poderá, como diz, ter uma programação mais regular, melhor, gastando menos?
Eu acho que pode, francamente, mas pelo que já vi não me parece que não o consiga. E o problema reside justamente neste ponto: será que não temos entre nós capacidade para programar com excelência. (ver o que escreveu o Tiago Bartolomeu Costa a propósito)
A resposta é demasiado óbvia – o fim da Festa da Música acaba com a festa, mas é a própria programação do CCB que arrasa com a música!
Boa pergunta!
Porque razão não teve a semana de inauguração da Casa da Música no Porto o mesmo impacto mediático que a Festa da Música do CCB está a ter, com directos televisivos a todas a horas e dias seguidos de primeiras páginas nos jornais?»
esta do “Contrabaixo” à qual cheguei via Portugal dos Pequeninos.
