Out 292010
 

Jorge Peixinho - composição de Guida Almeida (2007)Regresso ao programa Câmara Clara dedicado “Música Erudita Contemporânea” com os entrevistados Miguel Azguime e Isabel Soveral, pelo facto de alguns amigos no meu inacessível perfil do Facebook terem colocado pertinentes comentários, como o António Tilly, investigador do “INET-md – Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança“, coordenador executivo da recentíssima “Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX“, e o Edward Luís Abreu, presidente do “MPMP – Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa“, o mais ambicioso projecto de divulgação dos compositores portugueses, ao qual estão associados o ATRIUM – base de dados de compositores portugueses e a revista “Glosas“, cujo número 2 sairá agora em Novembro.

Após esta demorada, mas necessária, introdução detenho-me sobre as críticas que ambos colocaram sobre o programa. Vejamos:

1 – António Tilly:
«nenhum dos presentes tem trabalho de investigação nesse domínio da “problemática da recepção” da “Música de Hoje”…. e isso é um assunto muito mais complexo do que o que transpareceu nessa conversa televisiva.»

É verdade, sim, que nenhum dos entrevistados tem trabalho de investigação no domínio da “problemática da recepção” da “Música Nova”. Nem eles nem ninguém que seja do meu conhecimento. Mas há um saber que estes entrevistados têm – a sua já longa experiência – a qual me parece ser tão válida como outras de colegas seus.

2 – António Tilly sobre os entrevistados:
«(…) continuam a dizer o mesmíssimo que ouviram aos outros (…)»

Também é verdade, porque disseram o mesmo que ouço desde que nasci e que ouvi a outros, mais antigos, o mesmo dizerem até ao dealbar do sec. XX, até onde a memória lhes permitia. Nada há de novo (salvaguardo, que eu conheça) sobre o problemas específicos da (permitam a utilização da expressão defendida por Dina Resende) “Música Erudita de Tradição Europeia”. Diria, até, estou de pleno acordo com o que Miguel Azguime e Isabel Soveral disseram no programa, vivemos uma “época de ouro” no que à criação diz respeito e, permita-me a veleidade, reitero o que venho dizendo sem estudo nem ciência que me ampare: nunca em nenhum outro momento da nossa história, tivemos tantos e tão bons músicos! E este aspecto, que parece de somenos, pelo facto de não ter sido objecto de investigação, poderá ter concluído o seu ciclo com as pseudo-reformas do Ensino Artístico que este governo vem produzindo em sucessivos Despachos, à boleia de um “Relatório de Avaliação do Ensino Artístico” que, como a seu tempo denunciei, carecia da validade cientifica.

3 – Edward Luiz Ayres d’Abreu:
«Este programa começa desde logo com uma falácia tremenda. Nós gostamos de repeti-la, porque o português gosta disto: “Somos mais conhecidos lá fora do que cá dentro”.

Também é verdade que o programa inicia com essa falácia, mas quem a emite? A jornalista, Paula Moura Pinheiro, não sendo, em momento algum corroborada por nenhum dos entrevistados. Bem pelo contrário, ambos referiram sempre os aspectos positivos de todo o grupo profissional, os compositores portugueses, sem destacar nem menosprezar nenhum, à excepção do Peixinho sobre quem o programa era também objecto.

4 – Edward Luiz Ayres d’Abreu:
«(..) é claro que se falarem de Emmanuel Nunes, ele é mais conhecido «nos …corredores do Ircam e do Conservatório de Paris» do que em Portugal. Mas Emmanuel Nunes & afins não são a música contemporânea portuguesa (são, no máximo, parte dela). E parte dela são, também, nomes como Luís Tinoco, Sérgio Azevedo, António Pinho Vargas… »

Pela parte dos entrevistados notei sempre, do princípio ao fim, o cuidado de sobre assuntos que a todos preocupam, ou deveriam preocupar, sem nunca menosprezar nenhum compositor, antes valorizando o valor de todos em conjunto. Até fui reouvir o programa a ver se me tinha escapado algo, mas não, tanto Azguime como Soveral nunca destacaram nenhum dos seus colegas de profissão pela negativa, sendo que Peixinho teve maior espaço e uma valoração especial compreensível pela temática do programa.

5 – Edward Luiz Ayres d’Abreu:
«O problema da música contemporânea não é português mas universal, e levanta muitas outras questões.»

Quase totalmente de acordo, com uma única excepção – há países ou cidades onde, devido à sua dimensão, se consegue fazer muito mais fora dos meandros dos instalados poderes, sejam eles os das multinacionais discográficas, sejam os das características ‘capelas’ profissionais que sempre tentam abafar quem a elas não se arrebanhou.

6 – António Tilly:
«Gostava é que o assunto não se ficasse pela necessária divulgação. Gostava mesmo que houvesse debate, que se iniciasse uma reflexão séria sobre o assuntos.»

Ora, caro António Tilly, haver debate…, eis o pomo da questão. É que o debate entre os músicos, compositores e intérpretes, nunca em Portugal foi possível, se não por breves momentos e pontuais. E é neste particular que a minha experiência de vida me mostrou que num meio onde se passa a vida a cultivar invejas mesquinhas, no diz-que-disse de mal dizer, o debate inter-pares é ou inviável ou infrutífero, condenado ao insucesso!
Imperiosas reflexões inter-pares, onde a voz de cada um valha e conta por si para se conseguir, para que sobre o que à profissão importa uma só voz se ouça é precisamente o que me move, uma vez que se tem revelado como o maior entrave a que a “música erudita de tradição europeia”, mormente a contemporânea, seja socialmente conhecida e reconhecida e não um nicho de vaidades de valor presumido.

7 – António Tilly:
«O Pinho Vargas tem dado um contributo precioso levantando algumas questões fundamentais.»

Com certeza! Quem nega essa evidência? O António Pinho Vargas, o Miguel Azguime, o Pedro Amaral, o Peter Rundel, o Christopher Bochmann, o João Pedro Oliveira, o Sérgio Azevedo, o Eurico Carrapatoso, a Isabel Soveral e…, e vós próprios e…, e não nos deteríamos tão cedo a enumerar, mas o que tem isso a ver com o programa em questão? Não vejo correspondência! A questão que se pretende colocar será a de que deveria ser o António Pinho Vargas a ser convidado? E para um programa que tinha por sub-temas os 25 anos do Miso Ensemble e os 70 de Jorge Peixinho? Não me pareceria razoável. Achariam sensato?
E, a propósito dos contributos para a divulgação dos compositores portugueses, não vos parece que à cabeça e distanciadamente de todos os demais, deveria estar o nome de Manuela Paraíso, seja através do seu programa “Na Outra Margem“, seja em diversos espaços na net? E o próprio Edward Luiz Ayres d’Abreu que tanto tem feito pela causa?

Estimados António Tilly e Edward Luiz Ayres d’Abreu
Somos poucos, muito poucos os que teimam em dar visibilidade à “Música Erudita de Tradição Europeia” para nos deixarmos levar por enredos muito ‘déjà vu’ de invejas e auto-promoções, em capelinhas erigidos. O Miguel Azguime e a Isabel Soveral foram e serão sempre, aqui ou no estrangeiro, digníssimos representantes da “Música Nova”, como outros seus pares, o que não podemos é desunir o que à partida é uno – a nossa música e os nossos compositores.

Out 222010
 

A “Música Erudita Contemporânea” estará em debate com Isabel Soveral e Miguel Azguime no próximo “Câmara Clara” de Domingo, 24-10-2010, na RTP 2, cerca das 22:30h, convidados de Paula Moura Pinheiro, em edição a não perder.
Camara ClaraA autora do programa pretende elucidar sobre o que é isto da música erudita contemporânea e sobre a sua (difícil) recepção, partindo do pressuposto de que

Portugal conta com um improvável número de “estrelas” na música erudita contemporânea. Mais que na interpretação, é na composição que os portugueses se têm destacado internacionalmente – algo que a opinião pública desconhece. E, contudo, esta é uma “caminhada” que tem décadas no nosso país.

Isabel SoveralMiguel AzguimeNum ano em que o “Grupo de Música Contemporânea de Lisboa“, fundado pelo pioneiro Jorge Peixinho, cumpre 40 anos de vida, o “Miso Ensemble” 25 anos e o “Remix Ensemble” 10 anos de existência, Paula Moura Pinheiro convida para conversar sobre estes assuntos, relativos à Música Contemporânea de Tradição Europeia, Isabel Soveral, compositora e Professora, e Miguel Azguime, compositor e intérprete.

Set 102010
 

Musica Viva Festival 2010A XVI edição do Festival Música Viva 2010, organizado pela Miso Music Portugal, abre hoje as suas portas no Mosteiro dos Jerónimos com o concerto de abertura intitulado “Cinema dos Sons Sob as Estrelas“, com os solistas Frances M. Lynch (soprano) e Nuno Pinto (clarinete) e com Miguel Azguime na electrónica, Paula Azguime na projecção sonora e o Miso Studio com a informática musical, decorrendo até 25 de Setembro.

Em 11 concertos, distribuídos pelo Mosteiro dos Jerónimos, Gulbenkian, Centro Cultural de Belém e Instituto Franco-Português, haverá mais de 30 estreias, serão apresentadas 11 obras em estreia absoluta, 23 em estreia nacional, num total de 70 obras; para além das 40 obras apresentadas no Sound Walk, das obras premiadas pelo Concurso de Composição Música Viva 2010 e ainda das diversas obras novas de alunos da Escola Superior de Música de Lisboa.

Dentro do Música Viva 2010 terão lugar também 3 Conferências e 2 Master Class de Composição.

De parabéns, antecipados estão, mais uma vez, a ‘Miso Music Portugal’ e seus mentores – Miguel e Paula Azguime.

PS: consultar toda a programação.

Jan 162009
 

Itinerario do Sal - Miguel AzguimeItinerário do Sal‘, criação em formato de Teatro Electroacústico / Ópera Hypermedia de Miguel Azguime que, conforme referi, ganhou o Prémio ‘Music Theatre Now’ na categoria ‘Other Forms Beyond Opera’, incluída num concurso destinado a novas óperas e música para teatro, será hoje, às 21:30h, apresentada no Auditório Phillippe Friedman – Instituto Franco-Português.

Um performer/autor em palco talha ao vivo novos trilhos na música electrónica; o som, a luz, as imagens e o movimento como que desenhados, pintados ou esculpidos, desafiam de forma poderosa, intensa e emocionante as convenções e os limites entre Música, Teatro e Ópera. (transcrito de Miso Music)

Esta Ópera Multimedia tem já um DVD disponível que pode ser adquirido online directamente no sítio da Miso Music, onde poderão consultar o libreto, uma galeria de fotografias, uma demo do vídeo e textos musicológicos que vale a pena consultar.

Ficha técnica:
Miguel Azguime – composição, textos e performance
Paula Azguime – desenho de som, electrónica em tempo real, encenação e realização vídeo
Perseu Mandillo – realização vídeo e vídeo em tempo real
André Bartetzki – programação vídeo

Nov 242008
 

Miguel AzguimeMiguel Azguime ganha Prémio ‘Music Theatre Now‘ com a sua obra ‘Itinerário do Sal’, estreada em Abril de 2006 sob a direcção de Paula Azguime, atribuído pela ‘Musiktheaterkomitee des Internationalen Theaterinstituts (ITI)’ na categoria ‘Other Forms Beyond Opera’, incluída num concurso destinado a novas óperas e música para teatro. (ver notícia do Público)
Mantendo a secular tradição portuguesa em relação aos seus criadores e artistas, o reconhecimento do trabalho de Miguel Azguime vem de além-fronteiras, pese embora o extenso e profícuo trabalho que tem desenvolvimento em prol da música electroacústica, seja como compositor, como fundador, mentor e membro do Miso Ensemble, do ‘Festival Música Viva’, da ‘Orquestra de Altifalantes’ e do sítio Miso Music Portugal, onde poderá encontrar as notícias mais actualizadas sobre música contemporânea, mormente a electroacústica, músicos portugueses que a interpretam, cursos, encontros seminários, enfim, tudo o que à temática diz respeito.
A obra premiada, o ‘Itinerário do Sal’, estará em digressão pela Hungria, Polónia e Alemanha durante o mês de Dezembro, esperando-se, como é óbvio, que as instituições com responsabilidade sobre a programação cultural, públicas e privadas, promovam a sua execução nas várias salas deste país.

Set 082004
 

Vai no 10.º ano o Festival Música Viva organizado pela Miso Music Portugal, sob a direcção artística de Miguel Azguime, que decorre entre 6 e 12 de Setembro no Teatro Aberto.
Trata-se de um Festival de música contemporânea na sua variante electroacústica e electrónica ou combinada com instrumentos acústicos. Sem faltar ao respeito para com a Gulbenkian o Música Viva será, talvez, a melhor e mais vasta mostra do trabalho dos compositores e intérpretesportugueses desta área bem como alguns dos mais conhecidos nomes da cena internacional.
Pierre Henry, o “louco” pioneiro da música electrónica (vai para 40 anos as suas primeiras experiências) era o grande consagrado desta edição, com uma “conversa” com o Miguel Azguime no dia 6, anulada infelizmente por razões de saúde e a apresentação das sua obras “Pierres Réfléxies” e “Le Livre des Morts Egyptien” pela novíssima Orquestra de Altifalantes da responsabilidade da Miso Music que, nas palavras do Miguel, trata-se de «um instrumento de difusão e interpretação que o compositor toca em concerto, instrumento de expressão e valorização da sua obra musical».
O programa pode ser consultado no link acima, mas não substitui a versão impressa de rara qualidade e beleza cuja capa poderão visualizar no Abaixo de Cão (ao qual aproveito para enviar parabéns antecipados pelo seu aniversário) único blogue, diga-se, que notei ter feito alusão a esta relevante iniciativa.
É notável que dentro de tão rica programação se possam escutar 26 obras de 21 compositores portugueses vivos (se não errei nas contas) e muitos intérpretes como o Ensemble 20/21, o Grupo de Flautas da Universidade de Aveiro lideradas pelo Jorge Correia e, claro, a Orquestra Gulbenkian que, sob a direcção de Guillaume Bourgogne, interpretará o “Melodian” de Ligeti e a “Ode” de João Rafael, entre outras obras.
Uma última palavra para o excelente trabalho que a Miso Music Portugal vem desenvolvendo, em especial, ao Miguel Azguime que, pelo que sei, está a ultimar uma exaustiva base de dados sobre a música e os músicos contemporâneos portugueses que brevemente encontrar-se-á disponível on-line.
É curioso constatar que a par de uma continuada e profunda depauperização da educação cultural em Portugal se vão realizando cada vez mais eventos de excelente qualidade! Uma contradição sobre a qual não deixo de reflectir.