Regresso ao programa Câmara Clara dedicado “Música Erudita Contemporânea” com os entrevistados Miguel Azguime e Isabel Soveral, pelo facto de alguns amigos no meu inacessível perfil do Facebook terem colocado pertinentes comentários, como o António Tilly, investigador do “INET-md – Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança“, coordenador executivo da recentíssima “Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX“, e o Edward Luís Abreu, presidente do “MPMP – Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa“, o mais ambicioso projecto de divulgação dos compositores portugueses, ao qual estão associados o ATRIUM – base de dados de compositores portugueses e a revista “Glosas“, cujo número 2 sairá agora em Novembro.
Após esta demorada, mas necessária, introdução detenho-me sobre as críticas que ambos colocaram sobre o programa. Vejamos:
1 – António Tilly:
«nenhum dos presentes tem trabalho de investigação nesse domínio da “problemática da recepção” da “Música de Hoje”…. e isso é um assunto muito mais complexo do que o que transpareceu nessa conversa televisiva.»
É verdade, sim, que nenhum dos entrevistados tem trabalho de investigação no domínio da “problemática da recepção” da “Música Nova”. Nem eles nem ninguém que seja do meu conhecimento. Mas há um saber que estes entrevistados têm – a sua já longa experiência – a qual me parece ser tão válida como outras de colegas seus.
2 – António Tilly sobre os entrevistados:
«(…) continuam a dizer o mesmíssimo que ouviram aos outros (…)»
Também é verdade, porque disseram o mesmo que ouço desde que nasci e que ouvi a outros, mais antigos, o mesmo dizerem até ao dealbar do sec. XX, até onde a memória lhes permitia. Nada há de novo (salvaguardo, que eu conheça) sobre o problemas específicos da (permitam a utilização da expressão defendida por Dina Resende) “Música Erudita de Tradição Europeia”. Diria, até, estou de pleno acordo com o que Miguel Azguime e Isabel Soveral disseram no programa, vivemos uma “época de ouro” no que à criação diz respeito e, permita-me a veleidade, reitero o que venho dizendo sem estudo nem ciência que me ampare: nunca em nenhum outro momento da nossa história, tivemos tantos e tão bons músicos! E este aspecto, que parece de somenos, pelo facto de não ter sido objecto de investigação, poderá ter concluído o seu ciclo com as pseudo-reformas do Ensino Artístico que este governo vem produzindo em sucessivos Despachos, à boleia de um “Relatório de Avaliação do Ensino Artístico” que, como a seu tempo denunciei, carecia da validade cientifica.
3 – Edward Luiz Ayres d’Abreu:
«Este programa começa desde logo com uma falácia tremenda. Nós gostamos de repeti-la, porque o português gosta disto: “Somos mais conhecidos lá fora do que cá dentro”.
Também é verdade que o programa inicia com essa falácia, mas quem a emite? A jornalista, Paula Moura Pinheiro, não sendo, em momento algum corroborada por nenhum dos entrevistados. Bem pelo contrário, ambos referiram sempre os aspectos positivos de todo o grupo profissional, os compositores portugueses, sem destacar nem menosprezar nenhum, à excepção do Peixinho sobre quem o programa era também objecto.
4 – Edward Luiz Ayres d’Abreu:
«(..) é claro que se falarem de Emmanuel Nunes, ele é mais conhecido «nos …corredores do Ircam e do Conservatório de Paris» do que em Portugal. Mas Emmanuel Nunes & afins não são a música contemporânea portuguesa (são, no máximo, parte dela). E parte dela são, também, nomes como Luís Tinoco, Sérgio Azevedo, António Pinho Vargas… »
Pela parte dos entrevistados notei sempre, do princípio ao fim, o cuidado de sobre assuntos que a todos preocupam, ou deveriam preocupar, sem nunca menosprezar nenhum compositor, antes valorizando o valor de todos em conjunto. Até fui reouvir o programa a ver se me tinha escapado algo, mas não, tanto Azguime como Soveral nunca destacaram nenhum dos seus colegas de profissão pela negativa, sendo que Peixinho teve maior espaço e uma valoração especial compreensível pela temática do programa.
5 – Edward Luiz Ayres d’Abreu:
«O problema da música contemporânea não é português mas universal, e levanta muitas outras questões.»
Quase totalmente de acordo, com uma única excepção – há países ou cidades onde, devido à sua dimensão, se consegue fazer muito mais fora dos meandros dos instalados poderes, sejam eles os das multinacionais discográficas, sejam os das características ‘capelas’ profissionais que sempre tentam abafar quem a elas não se arrebanhou.
6 – António Tilly:
«Gostava é que o assunto não se ficasse pela necessária divulgação. Gostava mesmo que houvesse debate, que se iniciasse uma reflexão séria sobre o assuntos.»
Ora, caro António Tilly, haver debate…, eis o pomo da questão. É que o debate entre os músicos, compositores e intérpretes, nunca em Portugal foi possível, se não por breves momentos e pontuais. E é neste particular que a minha experiência de vida me mostrou que num meio onde se passa a vida a cultivar invejas mesquinhas, no diz-que-disse de mal dizer, o debate inter-pares é ou inviável ou infrutífero, condenado ao insucesso!
Imperiosas reflexões inter-pares, onde a voz de cada um valha e conta por si para se conseguir, para que sobre o que à profissão importa uma só voz se ouça é precisamente o que me move, uma vez que se tem revelado como o maior entrave a que a “música erudita de tradição europeia”, mormente a contemporânea, seja socialmente conhecida e reconhecida e não um nicho de vaidades de valor presumido.
7 – António Tilly:
«O Pinho Vargas tem dado um contributo precioso levantando algumas questões fundamentais.»
Com certeza! Quem nega essa evidência? O António Pinho Vargas, o Miguel Azguime, o Pedro Amaral, o Peter Rundel, o Christopher Bochmann, o João Pedro Oliveira, o Sérgio Azevedo, o Eurico Carrapatoso, a Isabel Soveral e…, e vós próprios e…, e não nos deteríamos tão cedo a enumerar, mas o que tem isso a ver com o programa em questão? Não vejo correspondência! A questão que se pretende colocar será a de que deveria ser o António Pinho Vargas a ser convidado? E para um programa que tinha por sub-temas os 25 anos do Miso Ensemble e os 70 de Jorge Peixinho? Não me pareceria razoável. Achariam sensato?
E, a propósito dos contributos para a divulgação dos compositores portugueses, não vos parece que à cabeça e distanciadamente de todos os demais, deveria estar o nome de Manuela Paraíso, seja através do seu programa “Na Outra Margem“, seja em diversos espaços na net? E o próprio Edward Luiz Ayres d’Abreu que tanto tem feito pela causa?
Estimados António Tilly e Edward Luiz Ayres d’Abreu
Somos poucos, muito poucos os que teimam em dar visibilidade à “Música Erudita de Tradição Europeia” para nos deixarmos levar por enredos muito ‘déjà vu’ de invejas e auto-promoções, em capelinhas erigidos. O Miguel Azguime e a Isabel Soveral foram e serão sempre, aqui ou no estrangeiro, digníssimos representantes da “Música Nova”, como outros seus pares, o que não podemos é desunir o que à partida é uno – a nossa música e os nossos compositores.





