Agostinho da SilvaO que faço só importa
se traduz o que vou sendo
se assim não for tudo é nada
só finjo que estou fazendo.

Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

Agostinho da SilvaO primeiro anjo pecou
pois não viu que liberdade
é dada só para a busca
não conquista da verdade.

Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

Paulo Rangel afirma, via Expresso, que a candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República lhe faz lembrar, “num certo sentido” a de Maria de Lurdes Pintassilgo, há uns anos atrás.
Paulo RangelOra, esses há uns anos atrás era 1986, altura em que não sei se Paulo Rangel já deixara o bibe, mas que, por imperativo legal, ainda não podia votar – era menor.
Quanto ao “num certo sentido” é que não sei, a não ser lembrar que há pessoas que não precisariam de ter já desaparecido para que qualquer um, em todos os sentidos, saiba que deve guardar recatado respeito pelo sentido ético e moral que imprimiram às suas vidas.

Manuel Sobrinho Simões há muito que nos habituou à lucidez do seu pensamento científico, seja através da qualidade do seu trabalho, seja na insistência com que clama a inserção da investigação no paradigma da complexidade, i.e., na interactiva compreensão do Ser Humano, de uma forma global e não tão-só através da análise de elementos parcelares, desenquadrados da sua observação em relação.
Sobrinho SimoesRegisto e saúdo, por isso mesmo, mais esta machadada no ‘cientismo’, ou se preferirem no positivismo científico, em que a investigação se tem vindo a afundar há décadas a esta parte, através de suas afirmações colhidas via Expresso:

Porque
os desafios do mundo atual são muito mais culturais e políticos do que científicos (…) as chamadas ciências duras (ciências exatas) têm de rapidamente ganhar a humildade suficiente para se articularem com as ciências ditas não duras, humanas ou humanidades.

A França, que despertou para o problema do suicídio laboral após as alterações dos critérios de avaliação do trabalho introduzidas da ‘France Telecem’, tem hoje especialistas que se dedicam ao ’sofrimento ético’ e ao reconhecimento do trabalho, como Christophe Dejours que esteve há pouco entre nós, mas os problemas que detecta de relacionamento não são exclusivamente laborais, nem tão pouco sectorias, são de natureza transversalmente social – o desaparecimento da solidariedade!
Deixo um excerto retirado do Público:
Christophe Dejors

O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador – é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição – a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco.

Nas empresas há muito que assim é, como na rua ou nos condomínios. Ninguém quer saber do que o não atinge directamente. Não há causas que mereçam o nosso envolvimento, a não ser as das ‘redes sociais’ que não têm custos pessoais, restando apenas as que mexem com a vidinha de cada um!

Não há nada no presenteAgostinho da Silva
que eu não louve
embora venham saudades
de futuros que não houve.

Agosinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

65 anos após a libertação de Auschwitz pelo exército russo, 27 de Janeiro de 1945, data escolhida para ‘Dia do Holocausto’, há ainda quem hoje ouse esquecer, escamotear, ou negar, o brutal genocídio cometido pelo regime nazi alemão. Auschwitz começou por ser um campo de concentração para prisioneiros políticos, para logo um ano depois, em 1941, se tornar num campo de extermínio principalmente de judeus, mas também ciganos, prisioneiros de guerra, em especial russos, e homossexuais através das câmaras de gás então instaladas, que libertavam ‘zyklon b’, o qual asfixia em alguns minutos. Os corpos eram posteriormente incinerados em massa para não deixar vestígios.
AuschwitzAuschwitz também serviu para inumanas experiências com seres humanos, perpetuadas sob a chefia do médico Josef Mengele, que decidia semanalmente quem seguiria para as experiências e para a câmara de gás.
Calcula-se que mais de 1 milhão e cem mil pessoas terão sido barbaramente tratadas e mortas em Auschwitz.
O horror do que o homem é capaz deve ser recordado e ensinado para que os mais jovens saibam que a capacidade de praticar o mal é intrínseca a todo o Ser Humano, sendo que a diferença reside apenas na intenção que cada um confere às suas acções e omissões.

Via Facebook, através da Paula Abreu e Lima, cheguei a este pensamento de Clarice Lispector que, por tão apropriado aos tempos, não resisti a transcrevê-lo aqui:
Clarice Lispector

Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viv…er de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre.

O anúncio da disponibilidade de Manuel Alegre para candidatar-se à Presidência da República parece estar a incomodar bastante – Mário Soares e Ramalho Eanes já manifestaram que Cavaco Silva até nem vai mal… (ver notícia)
Mais mal e maior mossa criou, foi a urgência do Bloco de Esquerda em apoiar a candidatura de Manuel Alegre, fazendo lembrar a antiga estratégia do PCP. Ser o primeiro a dizer, sem cuidar das repercussões, poderá ser muito prejudicial a Manuel Alegre!

Incomoda-me, sim, o despudor da exploração mediática do sofrimento humano; da pronta chegada dos abutres da putrefacção humana, enquanto a da ajuda humanitária se preparava. Incomoda-me, sim, o espectáculo da dança do número de vítimas, mas em especial a ausência da necessidade de procurar reportar motivos, mesmo que ténues, de esperança. Incomoda-me, sim…
Mas ontem, no meio desse exultar da morte, comovi-me, não pelo que via, mas por ouvir a quantidade de países onde instituições e voluntários rumaram ao Haiti para ajudar. Vi ontem uma equipa de protecção civil de Miami a resgatar pessoas com vida dos escombros ao fim de 5 dias e rejubilarem por isso, por salvar uma, uma e cada vida, e cada um.
O mundo poderia ser assim. E seria. Seria se os interesses que dominam o mundo não se sobrepusessem à natural fraternidade e solidariedade humana.
E é também no meio deste género de atitudes que me lembro de Maria de Lurdes Pintasilgo! E de Kofi Annan!
Sim, se nós quiséssemos poderíamos ser mais humanos, ser mais daquilo de que a natureza nos fez, mais fraternos. Ser mais como os outros demais bichos, fraternos, afinal.