Abr 212013
 

Concretizado o primeiro consenso, o que ocorreu dentro do PSD, conseguido através do apoio de Cavaco Silva a Passos Coelho e do regresso dos cavaquistas ao poder – Poiares Maduro e Marques Guedes – estamos agora em plena vigência de um governo de iniciativa presidencial. (ver texto)
Cavaco SilvaOs cavaquistas, desavindos com o governo devido à política desastrosa de Vítor Gaspar, parecem agora optar pela continuidade, acreditando que Marques Guedes e, em especial, Poiares Maduro poderão fazer a diferença na condução de uma política negocial activa com os poderes da União Europeia, em contraponto com o seguidismo cego do Ministro das Finanças. Com Passos Coelho não contam (como poderiam se ninguém crê na sua estatura política?), indiferentes ao que o CDS possa fazer, os cavaquistas partem à conquista da comunicação social e das redes sociais para clamarem um consenso urgente com o PS!
Com o PS? Será?
Passos Coelho não atirou a toalha ao chão conforme anunciou, mas toalha já não tem, tornando-se um Primeiro-Ministro pardo, na sombra de um poder que se lhe viu fugir com o desastre anunciado e a tomada de assalto por parte dos fiéis a Cavaco Silva. Joga agora nos bastidores, na esperança de que, mais uma vez, Vítor Gaspar o consiga salvar. Com efeito, os indefectíveis de Cavaco sempre dominaram a bancada do PSD e dominam agora Primeiro-Ministro.
Mas não lhes basta. É curto. Unidos a não quererem eleições, o PSD encontrou o consenso por essa via (e não foi assim que esta Europa do Euro se construiu desde Maastricht, fugindo de eleições e referendos, tudo combinando e resolvendo pelos burocratas mandatários da alta-finança nas costas dos cidadãos?), mas não quer suportar o ónus da queda do governo sem arrastar o PS!
Mas porquê o PS? Não têm eles maioria absoluta? Não precisam de 2/3 para nada se não querem rever a Constituição!
Será paranóia esta repentina urgência de consenso com o PS?
Não, não é paranóia. Não, não é urgente para os interesses de Portugal. Não, não há necessidade de um entendimento com o PS para encetar negociações com a troika – trata-se de medo!!! Medo, sim, apenas e só isso!
O consenso entre as facções do PSD e Cavaco Silva necessitam de prender António José Seguro a eles, não um consenso com o PS, mas tão-só António José Seguro, pois é o medo do regresso de Sócrates que os une!!! Não se uniram por Portugal, mas por medo que um outro político chegue novamente ao poder! Trata-se do “efeito Sócrates”. (ver texto)
E assim, com politiquices e jogos do poder vai andando este país, governado entre amores de circunstância, apesar dem sólidos compadrios, e ódios pessoais!
E de Portugal quem trata? Os tratantes, ao que vemos!

Abr 212013
 

Vitor GasparNão foi conhecida a razão que Vítor Gaspar terá encontrado para desistir da sua demissão durante o último fim-de-semana em Dublim – partiu daqui com a demissão agendada para depois da negociação das maturidades dos empréstimos e regressa com ânimo para prosseguir.
Sente-se que Gaspar estará convicto de que, abnegadamente, aceitou ir o governo para prestar um enorme serviço ao país e que, volvidos 2 anos, Portugal é demasiadamente pequeno para ele e suas gentes muito pouco inteligentes para o entender. Bateu com a porta por não compreender que o seu orçamento era inconstitucional e disse basta a esta “cambada de energúmenos”, uma vez que só os seus pares das altas instâncias europeias o compreendem e fazem jus ao seu brilho de funcionário da globalização selvagem.
Será que o apoio e solidariedade obtidos nesse fim-de-semana em Dublim foi suficiente para que mudasse de ideias? Não creio, definitivamente. Talvez o apoio de Cavaco Silva a este governo e a nomeação de Poiares Maduro, um académico que Gaspar entenderá estar à sua altura, um par, poderão ter sido decisivos para Gaspar cedesse à pretensão de permanência de Passos Coelho, Primeiro-Ministro cujo conhecimento de governação o Ministro das Finanças pouco respeitará. Aliás, Passos Coelho sem Gaspar não existe sem Gaspar e ambos conscientes disso.

Poiares MaduroA nomeação de Poiares Maduro inicia uma nova era para este governo, um novo fôlego que quase todos só pensavam ser possível com a demissão de Gaspar. Tem sido enfatizado no currículo no novo Ministro a sua excelência académica e a sua ‘falta de experiência’ prática e política. Lamento não estar de acordo com esta visão simplista porque considero que, para além do brilhante currículo universitário, Poiares Maduro tem experiência como poucos na negociação com os poderes da Europa, salientando o facto de ter sido o advogado da Islândia no processo contra os capitalistas agiotas holandeses e ingleses da Icesave, vencendo o processo junto do Tribunal da Associação Europeia de Livre-Comércio (EFTA), onde se pretendia que os islandeses os indemnizassem pela falência daquela instituição! Poiares Maduro ganhou a causa e libertou a Islândia de pagar a credores agiotas de bancos privados falidos, abrindo um precedente na jurisprudência europeia. Esquecer este facto, dizendo que Poiares Maduro tem pouca experiência, é no mínimo muito pouco sério.

Poiares Maduro tem revelado ser uma pessoa que pensa pela a sua própria cabeça, conhece como poucos os meandros do edifício legal da União Europeia e já demonstrou não limitar a sua inteligência a espartilhos ideológicos defuntos como o socialismo sem classes, a social-democracia onde a Europa se construiu e agora se desmorona e ao liberalismo que o capital agiota está, no momento, a derrotar em toda a linha, não obstante não ceder no fundamento – a democracia e a liberdade dos cidadãos.

Conseguirá o novo Ministro fazer a diferença? Não creio, mas sinto que será uma voz com propriedade e muito activa na defesa possível dos nossos interesses junto dos poderes europeus, eleitos e não eleitos.
E é do que estamos precisados e muito – de inteligência, de uma segurança que não ceda nem a interesses nem a histerismos, e de uma mente que sirva os interesses particulares de Portugal, sem preconceito ideológico que não seja o da defesa dos interesses dos cidadãos, da sua liberdade e da democracia.

Abr 062013
 

jose socratesOdiado ou endeusado o certo é que Sócrates não deixa os agentes e comentadores políticos indiferentes, desde os membros do seu partido, passando pelas facções do PSD, até a Cavaco Silva. Parece que, num assomo de ânimo, todos mudaram de atitude, passando de um estado de “banho maria” ou acentuada letargia para uma euforia interventiva que há muito não assistíamos.
Seguro, ainda antes de Sócrates ser entrevistado, em tempo de apenas anunciada, transforma-se de um “respeito pelas instituições democráticas” a um firme adepto de uma renegociação inadiável com a troika (desde sempre exigida pelo BE e pelo PCP), anunciando uma moção de censura ao governo no mesmo dia que não votava a favor de uma exigência do PCP para a demissão do governo. Ontem, depois do anúncio do Acordão do Tribunal Constitucional, veste a pele do intransigente face à continuidade do governo e à posição de Cavaco Silva, exigindo a demissão do governo e eleições imediatas, denunciando, talvez, a pressa, a sua urgência de chegar a Primeiro Ministro enquanto é líder do PS!
Passos Coelho, que vinha preparando o caminho para a sua demissão através de uma estratégia de confronto aberto contra a Constituição através de pressões ao Tribunal Constitucional, evidenciando uma anemia governativa cada vez mais acentuada, surge agora com o não me demito, não fujo e estou aqui numa missão de serviço até ao final do mandato.
Cavaco Silva, após longos períodos de silêncio, minando junto dos cavaquistas uma oposição surda, mas impiedosa, ao governo, surge agora, mais concretamente no dia anterior ao anúncio do acórdão, a mandar em Passos Coelho, quase exigindo que não se demita e a acusar o PS de se estar a afastar de um entendimento no cumprimento do actual status quo e, não menos peremptoriamente, anunciando que não encontra nenhum sinal que indique uma crise política (deve ter estado fora do país a 15 de Setembro do ano passado e a 2 de Março deste ano), transformando-se, assim, no maior apoiante explícito de Passos Coelho. Cavaco Silva rasgou, afinal,o tal livrito que escreveu sobre o que deve ser um Presidente da República, transfigurando-se num Presidente não só publicamente interveniente como, muito especialmente, no principal actor político do momento.
Sócrates deve estar agarrado à barriga de tanto rir com o que vai assistindo, constatando que, gostem ou não dele, ao não deixar nem apoiantes nem adversários indiferentes, é ele que está, só com o seu regresso, a marcar as atitudes dos outros e a agenda política.
E isto digo sem apreciação da bonomia do constatado. Digo-o para o bem e para o mal.

Mar 282013
 

Dois anos após silêncio voluntário, Sócrates regressa sem surpresas e sem admitir os graves erros que cometeu, mas é verdade que regressa inteiro, com a pujança que se lhe reconhece.
Jose SocratesNão tenho eu a mínima dúvida de que o seu 1º governo foi o melhor governo português desde Abril, o único que reduziu despesa e, simultaneamente, conseguiu que a economia crescesse acima de 2%, mesmo recordando o autoritarismo da Ministra da Educação, responsável pela destruição do sistema de ensino artístico especializado, e reconheço, sem qualquer rebuço, que na área dos partidos da governação, nunca houve um político com semelhante arcabouço, seja na retórica, seja na truculência, seja na capacidade de convencer e arrastar eleitorado consigo.
Sobre a entrevista, reconheço que esteve muito bem onde se esperava, onde não precisava de simular – na denúncia, à vista de todos, da deslealdade de Cavaco Silva para com o seu 2º governo, em especial na força que deu a um Passos Coelho para não aceitar o PEC IV e, por outro lado, em afirmar que a inviabilização desse pacote é que esteve na origem do pedido de resgate, sendo que os responsáveis foram aqueles que o inviabilizaram.
Em abono da verdade, até à inviabilização do PEC IV, Sócrates tudo fez, reconheçamos com humildade a verdade, para evitar um resgate que colocasse em causa a soberania nacional, tal como o caminho que Rajoy vem trilhando, optando por um resgate parcial à banca.
No entanto, Sócrates falou de si, falou em sua defesa, não se dirigindo em momento algum aos portugueses, nunca admitindo erros gravíssimos que cometeu e é isto que exijo, enquanto cidadão, dos governantes – assumir a quota parte de responsabilidade. Vejamos:

1 – se é verdade que Sócrates tudo fez para evitar um resgate total, tentando seguir de PEC em PEC sempre com a aprovação de todas as instâncias europeias, não consegue explicar o inexplicável – como é que, se sabia as gravíssimas consequências de um resgate, aceita negociar e assinar um memorando para o efeito num governo de gestão.
O facto de Sócrates ter feito um acordo para o resgate, quando sempre se mostrou contra ele e diz foi a oposição que o provocou levando à sua demissão, só podemos deduzir que o fez como vendeta para os vindouros. Ora a sua vendeta não atrapalhou os governantes vindouros, mas sim os cidadãos.

2 – diga Sócrates o que disser, o teor constante nos acordos para as PPP’s das SCUT são autênticos contratos onde todos os riscos de exploração são garantidos pelo Estado e os lucros seguros para os privados. Por outo lado, ´contas todos fazemos, a questão está em como as fazemos – em abono da verdade àqueles 19 mil milhões assumidos há que acrescentar mais uma parcela a adir, a receita conseguida pela pagamento das portagens pelos cidadãos!!! O Estado assumiu um compromisso de 19 mil milhões, mas os cidadãos ficaram com esse mais os custo das portagens – foram taxados 2 vezes sem remissão!!!

3 – não há candura de olhar ou de expressão facial que consiga explicar ou fazer esquecer o maior desconchavo da sua governação – a nacionalização do BPN (ver aqui)e dos depósitos do BPP! De momento a conta vai já acima dos 7 mil milhões e Sócrates sabe bem que, não fora este erro imperdoável de colocar os cidadãos a pagar a falência de um banco privado, o PEC IV não teria sido, pelo menos tão cedo, necessário nos termos em que foi acordado, afinal com quase os mesmos termos que viria a ser assinado o memorando de empobrecimento.

4 – não lhe foi perguntado nem teve a iniciativa de explicar qual a razão, decidida a nacionalização do BPN, de não nacionalizar a SLN, Sociedade Lusa de Negócios (ver aqui), a principal accionista do banco, detentora de outras empresas lucrativas, permitindo que os accionistas responsáveis pela iminente falência, não respondessem diante dos credores, dandom início a uma fuga de capitais

Dito isto, ficou a saber-se, se é que alguém duvidava, de que o PS tem um líder natural que não prevejo que pretenda querer vir a ser Presidente da República tão cedo e, por outro lado, que o PSD não tem nenhum político no activo com as capacidades de José Sócrates.
Fiquei, contudo, sem saber se já haverá um acordo para um futuro governo com Paulo Portas. Sim, isso fiquei sem saber.

Dez 062012
 

A Assembleia da República debaterá hoje e, certamente, aprovará a Reorganização Administrativa do Território das Freguesias através do projecto de Lei n.º 320/XII e o mapa das freguesias.
Nunca este projecto de Lei seria aprovado se os candidatos a deputados só pudessem concorrer pelos círculos onde residem, se os deputados representassem quem os elegeu e não os partidos que os nomeiam candidatos, ou seja, se vivêssemos numa democracia mais directa e profunda.
Miguel RelvasExtinguir umas quantas freguesias que os deputados, se calhar, nem no mapa conseguem apontar, constitui a maior prova da abissal distância entre eleitores e eleitos, a desresponsabilização dos eleitos diante da vontade de quem os elege, configurando que o centralismo estatal absurdo em que vivemos é fruto de um “dictat”, transversal a todos os partidos, iniciado por Estaline – o centralismo democrático.
A causa prima do centralismo reside na organização dos partidos políticos e é uma das principais facetas de um regime de partidocracia instalada, que se manifesta através da defesa de um poder não constituído pelos eleitores e alheio à vontade dos cidadãos.
Será este regime uma democracia que nos defende das tentações totalitárias? Não creio. Promove, antes, e configura uma tirania de meia-dúzia de pessoas que dominam o poder central, atentando contra o desenvolvimento de uma cidadania participativa e activa.

Nov 122012
 

Fatima - basilica novaNum momento em que alguns países, cuja maioria da população professa a religião católica apostólica romana, se encontram em situação de imposição de uma enorme austeridade, a qual, através de sucessivos agravamentos de impostos, redução de rendimentos e previsíveis cortes nas participações sociais desses mesmos Estados, conducente a um empobrecimento generalizado, afecta, muito especialmente, as pessoas mais fragilizadas, questiono-me se a Igreja Católica, na prossecução do seu princípio de solidariedade cristã para com os mais pobres, não poderia, à semelhança dos demais, pagar o imposto sobre o património imobiliário, no caso português, o IMI.
Seria, para tal efeito, necessário revisitar (ou refundar) a Concordata entre o Estado português e o Vaticano porque, convenhamos, se o maior proprietário do país – o Vaticano – pagasse IMI como todos os demais, talvez não fosse necessário os Estados avançarem com a refundação anunciada, de proceder a um corte de 4 mil milhões de euros nas suas prestações sociais junto dos desfavorecidos e ainda sobraria dinheiro.
Ele pensando há muita coisa que se poderia refundar e revisitar, em especial, junto de instituições cujo principal objecto, logo a seguir ao religioso, é o da solidariedade cristã e, no caso, um dos Estados mais ricos do mundo.

Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus?
1 João 3:17-18

Set 042012
 

O António Pinho Vargas produziu um texto sob o título “Contado ninguém acredita (excepto aqueles que passaram por isso)” sobre o ensino especializado da música em Portugal nos últimos 30 anos que é, apesar de necessariamente resumido, uma visão histórico / factual alargada do sector, apontando para muitos aspectos que não correram conforme deveriam, em especial no que diz respeito às “disfunções da legislação e dos conflitos práticos verificados (…)”, o qual preferiu, como forma, apelidar de “relato pessoal”.
Antonio Pinho VargasO que ora escrevo não faz qualquer sentido sem previamente se ler o texto original, a fonte, que me motiva e orienta nas considerações que se me oferecem, não tanto relativamente à justeza dos factos e consequências, com os quais estou de acordo, mas em contribuir, também com factos vividos na 1ª pessoa, que possam ficar assim escritos para quem um dia pretenda investigar com profundidade e fazer História, não correr riscos de cometer, involuntariamente, inverdades como o de atribuir a autoria do teor da reforma do Conservatório de Lisboa de 1919 a Vianna Da Motta e a Luís de Freitas Branco.
António Pinho Vargas atribui, de um modo geral, a responsabilidade sobre o sucedido no ensino especializado de música a uma «manifestação esplenderosa de uma carecterística atávica e medíocre e de uma falta de visão de futuro nos marca o ser colectivo e, também ao “medo do debate”, “o medo do confronto entre ideias diferentes”, ao “medo da divergência” (…) que “remete para hábitos autoritários enraizados há longo tempo (…).»
Não descartando estas evidências, não posso deixar de acrescentar que há que juntar, a perseguição pessoal, o arregimentar de interesses, o compadrio, influências partidárias funestas e até corrupção como origem da muita asneirada que foi feita, para além da vulgar incompetência, transversal à sociedade portuguesa, incompetência essa que sempre se revela tanto mais atrevida quanto se encontra aliada à consciência da pequenez de alguns agentes e grupos.
Comprovar o que acabo de escrever implica, não necessariamente a invocação de nomes, mas o relato de muitos episódios e processos que, por força de circunstâncias familiares e, mais tarde, no decorrer da minha actividade profissional e também enquanto interessado em conhecer e reflectir sobre o assunto em apreço, bem como bem como no desenvolvimento de actividades de cidadania que me pareceram adequadas.

1 – Pinho Vargas inicia o seu “relato” aquando da constituição das Escolas Superiores de Música (ESM’s) de Lisboa e do Porto ocorrido entre 1983 e 1985 e anos seguintes. Começarei por aí, então, tentando respeitar a ordem cronológica factual, muito embora tenha de recuar, por vezes, algumas dezenas de anos para justificar algumas das considerações que me parecem pertinentes.
Com efeito, a 1ª alteração digna de registo ao sistema de ensino artístico especializado após o 25 de Abril (a anterior ocorrera com Veiga Simão em 1973) ocorreu com a implementação de 2 processos concomitantes que não podem ser dissociados para melhor se compreenderem – retirar o nível de ensino superior dos Conservatórios com mais de 200 anos de experiência e a sua inserção em 2 novas escolas criadas para o efeito, as ESM’s. O arranque das ESM’s iniciou-se através da nomeação governamental de 2 pessoas, uma para Lisboa e outra para o Porto, para nomearem uma Comissão Instaladora para as ESM’s, desde logo enquadradas no ensino politécnico, enquanto que aos professores dos Conservatórios era pedido, com muita veemência, com ameaças de represálias, que assinassem um documento onde se assumiam como professores do ensino não superior e a sua integração no quadro do ensino genérico até ao 12º ano.
Ensino MusicaAntónio Pinho Vargas (APV) denuncia vários aspectos risíveis no seu entender sobre este desmando, com os quais estou plenamente de acordo, aos quais acrescento mais algumas considerações. As tais comissões instaladoras das ESM’s foram constituídas por pessoas indigitadas pelo Ministério da Educação (ME), que me recuso a avaliar o mérito por não ser relevante para o efeito, pessoas essas que, apesar de cumprirem com a constituição das mesmas, os critérios que terão sido utilizados são incompreensíveis por não respeitarem a experiência profissional dos professores, nem a pedagógica nem a artística e, mais grave, sem respeitar aqueles que anteriormente tinham entrado por concurso público, com prestação de provas públicas, nos Conservatórios no tempo da ditadura nos Conservatórios, sede de recrutamento dos novos professores de ensino superior.
É certo que o ME não fez o que seria evidente, qualificar os professores com reconhecido mérito com habilitações próprias para leccionar no ensino superior como faziam há décadas nos Conservatórios, mas a verdade é que esse atavismo e incompetência servia que nem uma luva os intentos dos nomeados para as comissões instaladoras para assim, a seu bel-prazer, convidarem quem bem entendiam sem ter de dar explicações de qualquer teor. Diz APV que se exigia aos novos professores das ESM’s uma licenciatura para poderem leccionar, mas aqui trata de um lapso, esquecimento do autor, uma vez que nessas comissões instaladoras havia pessoas não licenciadas e os professores escolhidos por quem, realmente, despotamente os nomeou, a esmagadora maioria não tinha licenciatura alguma, a começar pelos próprios nomeados pelo ME!
Paralelamente a este processo, nos Conservatórios a perplexidade, a incompreensão e a revolta ia-se adensando, fosse pelas pressões e chantagens exercidas pelo ME, então representado por umas estruturas apelidadas de GETAP, para as quais tinham sido nomeados ex-alunos da pessoa que tinha obtido a nomeação governamental as quais, por coincidência ou não, eram militantes do PCP, partido que muito se empenhou internamente em fazer cumprir os dictats desses seus dois membros, fosse por verem ser nomeados para as ESM’s professores com menos experiência profissional, com menor relevo artístico e, mais grave, que não tinham ficado aprovados para leccionar curso superior nos tais concursos públicos a que se tinham submetido!!!
Neste contexto, a revolta dos músicos e professores foi-se tornando mais audível durante cerca de 2 anos ( como entender que, por exemplo, no Porto, Manuela Araújo, Hélia Soveral ou até Fernanda Wandscheider não fossem convidadas para a ESM e, em Lisboa, a Gilberta Paiva ou a Ana Domingues o mesmo acontecesse, entre outros?) até que foi abrandando, vergando-se diante das chantagens exercidas, nomeadamente a de que se não assinassem não pertenceriam a quadro nenhum, tendo terminado este processo com a assinatura de todos os professores dos Conservatórios de Lisboa e do Porto com a excepção de um que nunca assinou, que obrigou a secretaria a continuar a aceitar a inscrição de alunos para o curso superior da sua classe, situação que manteve até à sua morte, mesmo com a ameaça não cumprida de não passar diploma nem certificados de habilitações aos alunos que concluíssem o curso superior de piano. (o facto de este professor nunca ter assinado obrigou ao não enquadramento dos professores no quadro do ensino regular e a constituição de um quadro provisório que se manteve até há 2 ou 3 anos, o qual veio a provocar injustiças mais tarde, uma vez que os professores contratados posteriormente deixaram de poder entrar para o quadro devido a não haver nenhum e permaneceram na condição de contratados anualmente até há bem pouco tempo)
A situação dos “medos” que referes, APV, é verdadeira, tudo começa no sector do ensino especializado de música com grandes conversas de corredores, mas na hora da verdade todos se tornam coniventes, ou melhor, quase todos. Este alarido de revolta foi muito idêntico ao que viria a verificar em 2007 com a 2ª reforma pós 25 de Abril, ocorrida em 2007 – muita revolta, gente na rua de punho erguido mas, paulatinamente, todos foram aceitando acomodados à nova e ainda mais empobrecedora reforma, como falarei mais adiante.
É também diante deste autêntico despotismo tirano, levado a cabo por 2 pessoas, que eram quem, de facto, tudo urdiam e ordenavam, que esteve sempre presente na constituição das ESM’s e na retirada dos cursos superiores dos Conservatórios que não posso deter-me pelos adjectivos de atavismo ou de incompetência ou de medo e me obrigue, por respeito pela verdade, a falar cabala, de compadrio, de perseguição pessoal e da mais dura das injustiças infligidas com intenção e orientadas pela maldade!
Relatados estes pormenores não dispiciendos e relevantes para o apuramento da verdade, confirmo o afirmado por APV e, neste particular, “a desconfiança estava presente desde início em relação à actividade artística” e, por outro lado, a desvalorização do saber prático face ao teórico, muito embora como bem aduz que, no «momento da “verdade”» (…), quando era preciso contratar um músico para um concerto, “sempre foram os da competência especificamente musical” os escolhidos! É curioso até que quando um músico estrangeiro chagava a Portugal e precisava de um pianista, para além de não serem os tais nomeados pelo ME os escolhidos, estes indicavam outros, pelos vistos em reconhecimento da sua mediocridade.

2 – Por todos estes motivos, e agora em desacordo, as ESM’s não começaram nada bem nem produziram nos primeiros anos resultados superiores aos antigos Conservatórios, quando tinha um Plano de Estudos bem mais ambicioso.
Aconteceu que, paralelamente ao facto de não terem sido nomeados os músicos / professores mais competentes, o processo de instalação destas escolas infligiu-lhes um descrédito generalizado entre quem pretendia prosseguir estudos, provocando um autêntico êxodo para o estrangeiro dos jovens músicos, fosse para arranjar o tal diploma que afinal o Conservatório deixou de proporcionar (e arranjar diplomas lá fora não é tão difícil assim em muitas escolas e doutoramentos idem aspas, veja-se actualmente a procura de sei lá que escolas no Reino Unido, por exemplo), fosse porque pretendiam conhecer e viver o ambiente cultural noutras paragens onde ele sempre foi mais rico, fosse porque pretendiam estudar com determinado mestre. É curioso, APV, que é ainda a romântica ligação mestre/discípulo que melhor resultados produz, mesmo que exterior ao ensino formal. Este fenómeno, que está ainda por estudar, diz-me a constatação pessoal que, talvez por ser na estreita relação cada professor e cada aluno constituem, que o ensino e a aprendizagem se encontram e se fundem numa troca enriquecedora para ambos e que os sistemas de ensino formal ainda não conseguem respeitar por mais tentativas que se façam.

3 – Dito este aparte, repito o que venho dizendo há cerca de 10 anos a esta parte – nunca tivemos tantos e tão bons músicos como hoje! A pergunta é, como é que apareceu esta geração? A falta de resposta científica a esta questão viria em 2007 a sair-nos muito cara!
Os motivos poderão ser vários, conseguindo eu descortinar nos meus pensamentos 3 ou 4, mas 2 há que sobrelevo: o aumento exponencial de escolas de ensino artístico especializado a partir de finais da década de 80 do sec. passado e os “estrangeirados” que chegaram ao ensino superior e não superior, os tais que tinham partido para estudar fora e regressaram.
Temos hoje 6 escolas públicas e cerca de 90 particulares e cooperativas, cobrindo quase todo o território nacional de Norte a Sul, do litoral ao interior, criando um sistema global onde, ao contrário do que alguns possam pensar, muitas particulares e cooperativas em nada ficam aquém na qualidade em relação às públicas, contra 14 escolas em 1985 e apenas 5 em 1974. É obra!
Por outro lado, aumentaram também de nº as ESM’s bem como os cursos de pedagogia musical nas Escolas Superiores de Educação e fora delas, cujos professores são, antes de mais, músicos e com algum desdém, diga-se, pela pedagogia.
A maioria destas escolas foram alimentadas ou dirigidas pedagogicamente pelos tais estrangeirados que rumaram mundo afora para aprender e pelos frutos das ESM’s, em especial, através dos cursos que não de instrumentistas (estes resultados tardariam mais a obter-se por razões que não cabe aqui desenvolver).
Convém é dizer que os músicos que, de repente se viram obrigados a conseguir diplomas universitários que os habilitassem a leccionar, rumaram em larga escala para o estrangeiro e quando regressaram foram os maiores obreiros da substancial melhoria do ensino da música em Portugal.

4 – o sistema ia fluindo sem grandes modificações até a Maria de Lurdes Rodrigues se lembrar que o ensino da música deveria ser para todos com a qualidade e exigência dos Conservatórios, encomendando um cientistas da educação que lavrassem um estudo que dissesse isso mesmo, considerando o último bastião de ensino de qualidade como elitista, como se todas as crianças fossem obrigadas a ter vontade para o fazer. Inventaram de tudo nesse estudo, sobre o qual me pronunciei oportunamente, até que cientificamente não se provava que fosse benéfico começar a estudar música desde tenra idade! Mas pergunta-se isso a um ginasta? A um jogador de futebol? Porque equacionar e pôr em causa uma coisa que toda a gente sabe, mas não consegue cientificamente provar? Todos sabemos que qualquer actividade que obrigue a grande aprendizagem de destreza físico-motora e psíquica, quanto mais cedo se começar mais esse desenvolvimento se torna natural, não obstante o desenvolvimento intelectual indispensável à interpretação possa vir mais tarde. Mas foi por aí que pegaram e pelo facto de como é elitista devemos generalizá-lo e torná-lo curso profissional. Foi isto que iniciou o referido estudo e que uma tal de Agência Nacional para a Qualidade (ANQ) tratou de pôr em prática – abolir sem conhecer os métodos de avaliação dos Conservatórios e obrigarem-nos a seguir o modelo do ensino genérico, introduzir o regime integrado, desenvolver o articulado e abolir o supletivo ( coisa que poucos sabem, mas o regime onde todos nós estudamos não é mais financiado pelo Estado nem sequer reconhecido!!! ).
E em 2007, começa outra onda de indignação junto do ensino artístico especializado não superior com este desmando de gente incompetente e apostada em destruir um sistema que estava a produzir excelentes resultados como vimos atrás, já com as ESM’s a funcionarem com qualidade. Várias petições foram feitas, uma das quais me orgulho de ter elaborado e que conseguiu, no dia em que foi entregue aos destinatários, o ME a reconhecer, pela primeira vez, a existência não de 6 escolas públicas, mas de um sistema de 93 escolas que abrangiam todo o território nacional. Este facto obrigou os estudiosos e refazer o estudo, só elaborado junto das 6 públicas, e publicar, sem nada dizerem um outro relatório final já com as 93. Diga-se que relatórios finais desse estudo tenho 3 versões à escolha, nunca tendo os autores assumido tratar-se de mais do que um estudo. (ler textos aqui e aqui)
No entanto, António, mais uma vez, após o ruído inicial, tudo se acomodou e calou e há até já quem defenda esse despautério onde os Planos de Estudos foram reduzidos, os programas de exame quase basta saber onde é o dó e pouco mais. Primeiro o medo da mudança, depois o medo de ficar sem trabalho, depois a acomodação, e assim vai sendo sempre.

5 – Depois de 2007, em 2009, o governo Sócrates ainda descobre mais uma malfeitoria – retirar do Orçamento de Estado o financiamento das escolas de ensino artístico especializado e financiá-las através de um fundo europeu, o POPH, com excepção das regiões da Grande Lisboa, Algarve e Madeira que não podem receber financiamentos do QREN pelo facto de se tratarem de regiões onde o rendimento per capita se encontra perto da média da União Europeia.
Tudo isto se passou no maior silêncio, sem o menor clamar por parte das direcções das escolas afectadas e até com alguns directores a dizer que seria bom!!! A coisa era boa de ver: o QREN só estava negociado até ao final de 2013; a disponibilização das verbas é sempre tarde e más horas, sendo hoje os ordenados com meses de atraso uma constante e não uma excepção; nenhum governo futuro terá coragem de voltar a inscrever verba para financiar o sistema no OE! Isto foi a machadada com uma triste perspectiva de, a muito breve prazo, muitas escolas se tornarem insolventes, com o consequente despedimentos colectivo.

6 – E essa coisa do Processo de Bolonha? Todos sabemos do embuste que isso é, mas então aplicá-lo às ESM’s é uma perfeita barbaridade, quebra os Planos de Estudo, interrompe os estudos pela existência de 2 ciclos superiores trazendo ao ensino e à aprendizagem apenas confusão, confusão essa que é impossível de aplicar a não ser formalmente para “inglês ver”!

Mas será que tudo vai mal, António? É minha convicção que hoje temos, apesar da veracidade do que escrevi, um sistema de ensino especializado de música que é mais eficiente e eficaz que o de outrora a atender ao facto que acima disse: nunca houve tantos e tão bons músicos em Portugal em tempo algum e, se assim é, os professores terão de ser, obviamente, melhores, mais bem preparados e melhores músicos.

Mas as tais maldades, a tal incompetência, o desprezo pelos artistas já não existe? Existe, como antes, mas o que há é mais músicos e professores:
- Como entender que continuem os habilitados com o Curso Superior dos Conservatórios continuem sem equivalência académica superior!
- Como entender, por exemplo que um Eurico Carrapatoso tenha saído do ensino superior por falta de habilitações académicas? Não se entende! Como é que um Virgílio Melo não tem lugar no ensino superior? Ninguém entende!
- Como entender um concurso público onde só podem concorrer os contratados anteriormente como aconteceu há 2 ou 3 anos nos Conservatórios? Corrigiu-se uma injustiça (haver professores há muitos anos contratados sem vínculo) com um concurso público onde só podem concorrer alguns? Não, não me ajeito com estes arranjos nem que sejam para repor justiça. A solução era reconhecer a injustiça e admiti-los no quadro sem concurso!
- Como entender, António, que este ano, ouve bem, este ano, alguns Conservatórios tenham aberto concursos públicos onde um dos pontos de valorização mais elevado era o de terem já estado nesse Conservatório? Isto é hediondo, nada tem a ver com legalidade nem com igualdade, nem com respeito pelas pessoas que trabalham! Se querem admitir os que já lá estão, tenham os directores a coragem que se exige de, junto de ME, admitirem para o quadro quem sabem que precisam e estão satisfeitos com o trabalho, mas não abram concursos públicos, é uma intrujice.

Com um abraço me despeço, agradecendo o teu texto que me fez reviver estes assuntos. Como vês em nada obsto ao que dizes, bem pelo contrário, tratou-se apenas de adiantar mais alguns factos e processos que corroboram as tuas conclusões.

ps: sobre o ensino artístico especializado de Música ver textos por ordem cronológica inversa.

Ago 272012
 

A entrevista concedida por António Borges a Judite de Sousa marcou a verdadeira “rentrée” política – as suas palavras sobre a RTP caíram como uma bomba no “Sol” e, com mais estilhaços na TVI, agitando todos os partidos, fora e dentro da coligação governamental, incluindo no próprio PSD. Mas o que há, concretamente, de novo nelas?
Antonio BorgesNada, rigorosamente nada, para além de uma manobra politiqueira ao jeito de Miguel Relvas! Em descrédito no seu partido e até entre os seus pares, Miguel Relvas não ousou ser ele próprio a encetar esta manobra, tendo António Borges anuído a ser seu mandatário para o efeito, não se sentindo mal na pele de defesa dos interessados em deitar a mão à RTP para deterem o domínio do audiovisual e, evidentemente, os seus próprios.
Mas qual a necessidade desta manobra que apelidaram de concessão? Porque não avançou Relvas para o anúncio da privatização, que são os seus intentos e, para mais, é matéria que está incluída no programa deste governo de desmantelamento do Estado? O Serviço Público de Audiovisual, assunto tão caro para a dita esquerda? Não, com esse assunto pode Relvas bem, uma vez que nunca os seus defensores se juntaram para definir o que deve ser este serviço para além de despejar notícias e de dar voz aos partidos parlamentares – sempre se detiveram a reclamá-lo apenas em momentos em que se fala de privatização, mas nunca o definiram, nunca mostraram o quão é um serviço fundacional para a identidade, cultura e soberania nacional. (ver o escrito sobre o assunto em: 2003; 2004; 2009)
Miguel RelvasO que verdadeiramente entalava Relvas era a oposição da TVI e, em especial, da SIC, cujo patrão, Francisco Balsemão, moveu todas as suas influências para evitar o que a privatização implica – a falência da SIC e da TVI por ausência de mercado de publicitário que sustente 4 canais ou mesmo 3!
Devido a este obstáculo é que Relvas teve de engendrar esta manobra politiqueira, aliviando já a carga aos canais privados existentes através do anúncio do encerramento da RTP 2, para o qual não se encontra justificação que não esta, uma vez que poderia permanecer aberto, para prestar apenas o Serviço Público Audiovisual financiando-o através da taxa na energia eléctrica! Mais tarde, depois de lançada esta bomba e deixando os estilhaços produzirem o efeito esperado, desistirá, magnanimemente, da concessão, revertendo-a em privatização, para apaziguar o CDS, e distribuirá o valor da taxa incluída na energia eléctrica pelos outros canais privados a troco de quebrar o limite imposto de 6 minutos/ hora de publicidade do canal a privatizar, a contento de Balsemão e da TVI.
O que Miguel Relvas esquece com frequência é que ele não é o único espertalhaço e, por outro lado, o ditado de “todo o burro come palha…” nem sempre funciona. É certo que já há muitas pessoas bem intencionadas revoltadas com o que António Borges anunciou, mas urge que nos unamos em torno do essencial – a defesa da manutenção da continuidade da RTP 2, da sua posse total pelo Estado, para acautelar a soberania nacional e, por outro lado, encontrar uma lata definição do que deve ser o Serviço Público de Audiovisual, em especial no que concerne à identidade, educação e cultura e sua divulgação, que tarda há anos, parecendo que a esquerda só se mobiliza para este assunto quando os sinos já dobram, em vez de atempadamente trabalhar para evitar o descalabro que se anuncia há décadas.
Por último, mas não menos importante, estranho, com perplexidade, o silêncio do Secretário de Estado da Cultura e das pessoas ligadas ao sector pelo silêncio em relação à preservação do património imaterial, de valor inestimável, que representa o espólio da RTP e da Antena 2, constituído ao longo de décadas, nada fazendo para que ele se mantenha na posse do Estado e que haja um canal público para o divulgar.

Mai 022012
 

1 de Maio - promoção cadeia de hipermercadosUma cadeia de supermercados anunciou para o dia de ontem, 1º de Maio, Dia do Trabalhador, uma promoção de 50% na compra de qualquer produto desde que o montante total despendido ultrapassasse os 100 euros. Aparentemente de nada mais se tratou que não fosse mais uma acção promocional destinada a aumentar o volume de vendas, por um lado e, por outro, a chamar novos clientes e a fixar os existentes.
Tudo assim seria não fora fazer coincidir esta acção com o dia feriado de comemoração do Dia do Trabalhador, para tentar, através do inusitado, provocando a sensibilidade de alguns e o espanto de outros, dar uma notoriedade e uma divulgação que transformasse esta promoção numa acção publicitária em larga escala, ou seja, fazer dela notícia relevante.
O sucesso foi estrondoso! O assunto foi o tema de destaque de todos os noticiários televisivos, radiofónicos, de programas de informação com os comentadores habituais, hoje capa de grande parte da imprensa escrita e assunto mais falado nas redes sociais! Julgo que nem os marketeers responsáveis por esta operação ousaram equacionar a amplitude que a sua estratégia e acção viria a tomar.
Chappeau para quem gizou esta campanha publicitária, que sem gastar um cêntimo, conseguiu o que muitos tentam durante uma vida de trabalho sem conseguirem – transformar uma acção eminentemente comercial em notícia de relevo em todos os media e redes sociais!
E acrescente-se a este sucesso primo, vários outros também relevantes como o facto de, através da maciça adesão da procura, fazer esquecer tratar-se de uma cadeia que deslocou para fora de Portugal a sua sede, atitude que a fez perder alguns clientes, o agradecimento de muita gente que passa momentos de grande aflição financeira, o contentamento dos trabalhadores que estiveram a ganhar a triplicar e outros benefícios, como poderem fruir, eles próprios da referida promoção noutro qualquer dia.
Um sucesso em todas as frentes, transformando-se, seguramente, num case study em muitos bancos de ensino superior de marketing e publicidade.

Paralelamente a este sucesso inquestionável colocam-se, para muitos, questões de outra índole, desde políticas, éticas e até morais.
Será que tentou esta rede de supermercados desvirtuar politicamente a importância da celebração do Dia do Trabalhador e, consequentemente, da relevância do trabalho, como alguns se indignam?
Não me parece. Atente-se que as manifestações do 1º de Maio tiveram adesão muito significativa, mesmo em dia de chuva. Por outro lado, pergunto eu, será que algum trabalhador viraria costas ao trabalho para mais recebendo a triplicar? Mas não é esta característica que valorizamos nos nossos compatriotas que emigram? Será que dar trabalho e possibilidade de aumentar o rendimento dos trabalhadores é condenável? Não me parece de todo!

Será eticamente condenável fazer uma promoção no 1º de Maio?
Por que razão haveria de ser mais reprovável neste dia do que noutro qualquer? Se os cidadãos mostraram, por diversas vezes, a vontade de que as grandes superfícies estivessem abertas aos Domingos e feriados não me parece sustentável que venham agora bradar sacrilégio pelo 1º de Maio ser especial! Se quisessem acautelar a situação de aliciar trabalhadores a trabalharem em dias de descanso, então não mostrassem interesse em que esses espaços comerciais estivessem abertos e se legislasse nesse sentido!

E moralmente, será reprovável por se entender como desrespeito por outros que não podem trabalhar e por chamarem clientes para uma enchente sem precedentes dos seus espaços?
Quem atira uma pedra que seja a famílias, que estiveram horas dentro desses espaços superlotados e sem condições para tanta gente acolherem, para poderem abastecer-se com produtos que sem esta promoção não lhes seria possível? Eu não serei!

Fica um último ponto que, propositadamente, deixei para final por ser de somenos importância: não terá sido esta promoção uma atitude de mau gosto e provocatória a muitos cidadãos?
Foi sim, de muito mau gosto e aviltante para quem lutou e luta pela dignidade do trabalho e do trabalhador, mas como deixei de entrar em qualquer espaço dessa rede de supermercados quando deslocaram a sua sede para fora de Portugal, não me senti afectado e muito menos surpreendido com o sucedido, até porque foi muito menos grave a promoção de 1º de Maio do que a desconsideração de zarparem, numa atitude de desprezo pela Pátria e pelo momento que os cidadãos atravessam, com a sede para a Holanda!

Dez 222011
 

Jose Augusto MouraoEm tempos de comunicação galopante, tudo é feito para nos cortar o sopro. Querem fazer de cada um entre nós gente que apenas tem de escutar sinais, gente obediente e dócil, executores, falantes monossilábicos. Perfeitas criaturas domadas para comprar, rir e chorar ou bater palmas; cortam-nos o sopro para tentarem sujeitar-nos a fórmulas, slogans – e que nos tornemos animais bem domados para executar palavras vazias, desencarnadas, formatadas, ou telégrafos que transmitem os sinais recebidos. Para que a carne obscura e impura da linguagem seja banida para dar lugar a uma língua asséptica.

José Augusto Mourão, Quem vigia o vento não semeia, 2011, Lx, Pedra Angular