Mai 192005
 

Anteontem deixei aqui um link para a extensa entrevista de Susana Ralha, concedida à Cesaltina Pinto e editada na VISAOONLINE, reservando qualquer comentário para mais tarde, de forma a não influenciar, previamente, a sua leitura. É o que farei agora.
Sem relevar a mágoa que se pressente na entrevistada, parece que este folhetim é apenas mais um, englobado no descalabro que se vem assistindo na gestão da Casa da Música após o belíssimo trabalho feito e deixado, em apenas 8 meses, por Alves Monteiro, apesar das demissões de Pedro Burmester e, por lealdade, de Fausto Neves, o motor do Serviço Educativo desde o seu início, que foram perfeitamente extemporâneas.
Após a incompreensível retirada de apoio a Alves Monteiro por parte da ex-Ministra da Cultura de Santana Lopes e de Rui Rio (só entendida pelos relatórios das auditorias de empresas privadas e do Tribunal de Contas que comprometiam todas as administrações anteriores, incluíndo as que Rui Rio apadrinhou), nunca mais a boa gestão regressou à Casa da Música!
O que estamos a assistir desde então é uma corrida para a colocação dos amigos antes desta aprazada administração do Dr. Couto dos Santos sair!
Conhecida a intenção do Estado e dos financiadores privados de demitir todos os membros deste Conselho de Administração ligados a Rui Rio, a ex-Ministra com a conivência de Couto dos Santos, sem rebuço, nomeia e contrata desalmadamente funcionários e directores para que os vindouros sejam confrontados com uma limitação séria à constituição de equipas de confiança, por via de pesadas indemnizações!
Esta gente é séria (embora possa não parecer), entenda-se mas, por grande obséquio, Sra. Ministra da Cultura, trave, o mais breve possível, esta administração a prazo de causar mais danos do que os que já ousou!
Para mim não são os notáveis que estão em causa, sejam eles Pedro Burmester, Fausto Neves ou Susana Ralha, mas a constituição de equipas consistentes enquadradas numa gestão harmoniosa e eficiente de um projecto que não começou bem, que foi reposto na boa gestão e que agora está, novamente, purgado do mínimo bom-senso!
No Público de 13 de Maio, Henrique Ribeiro, porta-voz da administração da Casa da Música, esclarecia que «o Serviço Educativo não foi extinto: houve um reforço (…) ao passar a direcção autónoma com funções na área da educação e da investigação.» e, mais adiante: «Achou-se que uma direcção destas devia ser dirigida por alguém com habilitações literárias ao nível do doutoramento. A Susana Ralha não cumpria esse requisito». Ora aí está, a senhora que lá estava e admitia que não conseguia erguer um projecto é agora a tal, doutorada senhora, a recém-nomeada Directora do Serviço Educativo e de Investigação!!!
Sra. Ministra da Cultura, por favor, tire de lá esta gente antes que nada reste a não ser o recurso a pesadas indemnizações para correr com a bestialidade e, já agora, não são necessárias muitas reflexões, basta ler o que Alves Monteiro deixou pronto e avançar, com honestidade e bom-senso, a bem da Casa da Música!

Abr 202005
 

(aviso: texto longo só para quem se interessar pelo assunto)

Àcerca deste post do Rui A. e deste outro do João Miranda no Blasfémias apus lá 2 comentários que aqui reproduzo:

1 – «Um pouco de memória não faz mal a ninguém:

1.1 – Pedro Burmester saíu do projecto Casa da Música de sua livre e espontânea vontade quando era assessor pessoal do Presidente do Conselho de Administração, M. Alves Monteiro;

1.2 – Apesar da “birra” incompreensível de Rui Rio em teimar não querer Pedro Burmester na administração da Casa da Música, M. Alves Monteiro, bateu o pé e chamou-o para o seu lado, como seu único assessor;
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Out 312004
 

ou

Casa da Música um nado-morto

Os folhetins da Casa da Música vão-se sucedendo sem parança desde a chegada de Rui Rio à Câmara Municipal do Porto. Ou antes ainda, aquando da sua campanha eleitoral cujo marketing montado tratou de diarimante denegrir a imagem daquele projecto, per si, ou enquadrado na “Porto 2001″.
Certo é que mal chega ao poder Rui Rio consegue afastar a administração de Pedro Burmester que em muito, tempo e dinheiro, inflaccionou o projectado, nomeando uma administração com 2 comparsas e, claro, Pedro Burmester pois não tinha à época arcaboiço para o afastar definitivamente.
Pouco tempo decorrido Pedro Burmester vem para os jornais dizer que batia com a porta porque aquela administração queria aumentar a volumetria do espaço administrativo em prejuízo dos camarins, esquecendo-se que o inicial projecto, o de sua lavra, se tinha também esquecido de alguns pormenores, como sejam um fosso de orquestra e locais adequados para arrecadação de equipamento cénico.
Rui Rio sai em defesa da sua administração e desanca Pedro Burmester na praça pública, i.e., o ódio contido vem para a praça pública, não o andamento do projecto, as causas dos sucessivos adiamentos, o disparar do investimento, não a falta de profissionalismo de quem projectou, apenas e tão-só o veneno particular e pessoal.
Entra em cena sem por dele se dar conta o tal Ministro do qual se habituaram a dizer mal, por discreto, Pedro Roseta, tomando a decisão mais sensata – nomeia um administrador com experiência mais do que comprovada de seriedade e competência, Manuel Alves Monteiro.
Na “mouche”, nem Rui Rio nem Pedro Burmester puderam inviabilizar o nome, mas Rui Rio consegue ainda impor o seu veto ao nome de Pedro Burmester para o Conselho de Administração.
Alves Monteiro, que só aceitou a incumbência com o pressuposto de não aceitar pressões externas, chama Pedro Burmester para seu assessor directo e pessoal, na sua única dependência e deita mãos ao trabalho:
1 – estudar um modelo de gestão que assegurasse o regular financiamento da Casa da Música;
2 – fazer um ponto de situação sobre o cumprimento do projectado – atraso, desvios e investimento necessário;
3 – anunciar uma data credível para a abertura da Casa da Música;
4 – tratar da programação para os dois primeiros anos de funcionamento
5 – pedir auditorias ao Tribunal de Contas sobre todas as administrações, incluindo a sua, que passaram pela Casa da Música.
Há pessoas, mesmo com cargos de gestão da coisa pública, que não entendem que a melhor forma de gerir é de mão dada com a entidade reguladora e competente que assegure conhecer, por um lado, o ponto de situação de cada momento e, por outro, os desvios de que o próprio possa incorrer sem disso se aperceber.
Foi o caso de Rui Rio que se sentiu despeitado por ser pedida auditoria à administração dos seus meninos.
É curioso que Rui Rio condenou na praça pública a “Porto 2001″ e a administração de Pedro Burmester sem nunca recorrer ou esperar pelos resultados de auditorias do Tribunal de Contas.
Mais curioso foi o inesperado anúncio, após conhecer o pedido das auditorias, de que a Câmara não daria nem mais um tostão para a Casa da Música.concomitantemente Rui Rio sensibiliza o PSD para não viabilizar de imediato as soluções apresentadas na Assembleia da República por Alves Monteiro, levando-o (supomos nós) à sua demissão, soluções que, por acaso, “hélas”, correspondiam na íntegra às exigidas no Relatório Final do Tribunal de Contas e que ainda se mantêm! Ou seja, mantêm-se até ao final do dia de hoje. A partir de hoje, precisamente às 00:00h de amanhã a Casa da Música encontrar-se-á novamente em incumprimento legal sobre o modelo de financiamento e a forma institucional a adoptar!!!

Hilariante, Alves Monteiro em 8 meses reorganizou todo o projecto, calendarizou-o ao mínimo detalhe, apresentou a solução para modelo de gestão institucional mais adequado e agora, a nova administração, novamente composta por meninos de mão do Dr. Rui Rio, nada disse até ao momento nem sequer apresentou o que Alves Monteiro deixou pronto.
É inacreditável que a Sra. Ministra da Cultura tenha adiado para 5 de Novembro pronunciar-se sobre tal assunto! Adiar porquê, se contas rigorosamente feitas, a anterior administração provou serem necessários 12,5 milhões de euros anuais para o orçamento da Casa da Música e no PIDDAC deste ano só lá vemos 4.676 milhões?
Isto é uma vergonha, a Casa da Música é um nado-morto porque o Sr. Presidente da Câmara do Porto assim o quer, ou seja, ou manda directa ou por interposta pessoa, ou boicota sistematicamente o projecto!
É pena, também, que Pedro Burmester não tenha compreendido o alcance das medidas de Alves Monteiro e que o tenha abandonado a meio do percurso só porque não foi o eleito para director-artístico. Pedro Burmester teria um papel muito mais importante a desenvolver se não não se tivesse deixado enredar na teia das politiquices ruianas. Pedro Burmester provou, assim espero, a si próprio, não ter experiência bastante para liderar um projecto desta envergadura e ficou-lhe muito mal vir mais uma vez para os jornais mal-dizer de Alves Monteiro, o único, afinal, que pôs a Casa em ordem e que, por isso mesmo, lhe tiraram o tapete.
É por tudo isto, talvez, que o director artístico da Casa da Música, Withworth-Jones, em entrevista ao Jornal de Notícias de ontem a propósito do aniversário do “Remix Ensemble”:

« (…) Depende. Às vezes pode ser normal. Habitualmente, os programadores são revelados com mais antecedência. Mas Portugal é um país diferente, não é?
(…)

Tenho opinião sobre o modo como devem funcionar – e, concretamente, como funcionam -, as instituições culturais no Reino Unido. Mas não tenho conhecimento suficiente sobre o modo como funcionam aqui. Estou a começar a entender como funcionam as instituições culturais no vosso país (risos)
(…)
De qualquer maneira , o anterior presidente continuava a encorajar-me a programar, programar, programar – coisa que eu fiz. Infelizmente, ele saiu. E agora temos um novo presidente. E temos um novo ministro da cultura. E tudo mudou. E não posso dizer mais nada …
(…)
Obviamente ele é uma figura inspiradora (Pedro Burmester). Sem ele a Casa da Música não estaria a acontecer.
(…)
A programação tem de ser séria – isto é uma instituição nacional, não é uma casa comercial»

Para bom entendor metade destas palavras chegariam. Chegariam para perceber que ou a Casa da Música será totalmente dominada por Rui Rio ou este prefere dar o nado como morto!
E, já agora, qual a razão do silêncio do Mandatário para a eleição de Rui Rio à Câmara do Porto sobre estes sucessivos abusos de poder – José Pacheco Pereira?

Fev 252004
 

Depois de ler esta denúncia no Crítico, que parece só agora ser do conhecimento público, dá que pensar o que se vai fazendo por este país e, talvez, o porquê de ter sido recentemente pedida pela nova administração mais uma inspecção às contas, desta vez recaindo sobre anterior administração.
Não sei se a Pedro Burmester poderá ser assacada a responsabilidade dos factos, mas que o deveria ter denunciado pública e atempadamente, não me resta dúvida.

Nov 172003
 

Manuel Alves Monteiro, já há 4 meses como Presidente do Conselho de Administração da Casa da Música, ousou prestar, pela primeira vez, declarações públicas, demonstrando conceitos bem precisos sobre a arte de bem gerir a cultura. Luís Miguel Queirós e Sérgio Andrade conduziram a entrevista e Nelson Garrido fotografou, tendo sido este trabalho publicado no Público de ontem, nas pags. 46 e 47.

O resultado todos poderão constatar, a serenidade, a prudência, o respeito e a atitude de decidir e fazer avançar um projecto com um espírito de missão, não curando que ele seja contra alguém. Somos convidados a em silêncio sorver, palavra por palavra, imagem a imagem, a pertinência e profundidade das questões e respostas.

Em tempos defendi, aquando da salgalhada da Metropolitana, que a gestão de empreendimentos de envergadura, mesmo os artísticos, deveriam ser entregues a profissionais da área de reconhecida competência, dando como exemplo a solução encontrada por Pedro Roseta para a Casa da Música. Não me enganei! Os links estão ali em cima para que possam ler, mas não resisto a transcrever algumas passagens que deverámos encontrar num manual (se ele existisse…) de gestão da coisa cultural. Não farei qualquer comentário, apenas pretendo humildemente aqui registar o que de muito bem neste país ainda se vai conseguindo fazer.

Vamos a isto.

Citação 1:

TÍ?TULO: Alves Monteiro manifesta-se contra as especulações feitas a partir de relatórios preliminares das auditorias em curso à anterior gestão da Casa da Música.

PÚBLICO: Baseando-se num relatório intercalar da empresa Ernst & Young, à qual encomendou uma auditoria, Rui Amaral acusou a administração presidida por Teresa Lago de ter cometido diversas irregularidades. O que pôde apurar confirma este cenário? Quando estará de posse do relatório final desta auditoria, bem como da que está a ser feita pelo Tribunal de Contas?

ALVES MONTEIRO: Não há ainda relatórios definitivos. O Tribunal de Contas não produziu ainda qualquer documento, mesmo que preliminar, e da Ernst & Young existem dois relatórios intercalares, embora o último seja já bastante avançado em termos conclusivos. Acredito que, nos próximos meses, possa já estar na posse de ambos os relatórios finais, o que permitirá fazer uma mais detalhada apreciação das conclusões, que serão, sempre, do domínio público. Tendo em conta que o objecto e o contexto das duas auditorias são os mesmos, o mais sensato será esperar pelas conclusões do Tribunal de Contas.

PÚBLICO: A informação prestada nos relatórios intercalares da Ernst & Young confirma as acusações de Rui Amaral?

ALVES MONTEIRO: Preferia não comentar isso. Os resultados de auditorias devem ser divulgados no momento próprio, e quando os trabalhos estão fechados. Não sou nada adepto de especular em torno de relatórios intercalares.

Citação 2:

PÚBLICO – O que levou um gestor de instituições financeiras, com um longo percurso nas bolsas, a aceitar o desafio de administrar uma Casa da Música?

MANUEL ALVES MONTEIRO – Devo confessar que, após a cessação de funções como presidente da Bolsa portuguesa, em Março deste ano, estava longe de pensar que viria a ter, poucos meses volvidos, uma ligação profissional a um projecto com as características da Casa da Música, uma área distinta, mas onde, afinal, idênticos princípios de rigor, de profissionalismo, de espírito de missão e, se quiser, de serviço público devem estar presentes. Aliás, por ser assim, sinto pouco a mudança e a diferença em relação a outros projectos por onde andei, ou que presentemente partilho com a gestão da Casa da Música. Sem dúvida que este projecto é muito aliciante, com uma ambição que o torna único no panorama cultural português, até pela expectativa que o rodeia e pela evidente complexidade que encerra.

PÚBLICO: Se esta administração herdou o mandato da que antes foi presidida por Rui Amaral, a sua missão resume-se a assegurar a conclusão da obra. Encara este lugar como uma tarefa a prazo certo, ou, se os accionistas assim o entenderem, admite manter-se no cargo, já com a Casa da Música a funcionar em pleno?

ALVES MONTEIRO: A herança que menciona não se resume a concluir uma obra de construção civil, por mais grandiosa que esta seja. O projecto que está cometido a este Conselho de Administração é bem mais do que isso. Desde logo, trata-se de criar as bases e os princípios centrais de uma componente editorial e de programação que se quer ambiciosa e que é, afinal, o coração substantivo do projecto. De seguida, pretende-se criar uma estrutura organizacional que suporte o projecto e o desenvolva, assente numa equipa de profissionais de elevada competência e espírito de missão. Pretende-se ainda que seja presente ao poder político uma proposta de modelo futuro de gestão do projecto, com uma clara ideia sobre a forma jurídica de organização, de governação e, naturalmente, de financiamento. Acompanhar as auditorias que vêm correndo na Casa da Música é também uma missão da administração. Tudo isto, em paralelo com a gestão de um conjunto vasto de intervenções no contexto da Porto 2001 – Capital da Cultura: obras de requalificação urbana e intervenções várias em equipamentos culturais. Quanto à questão que me colocam, o meu futuro imediato neste projecto está dependente da confiança que os accionistas tenham em mim, a cada momento. Sobre o futuro mais distante, não me quero pronunciar, até porque entendo que qualquer resposta poderá constituir um exercício inoportuno de especulação, fragilizador do projecto ou da minha missão.

citação 3:

PÚBLICO: Quando fala em componente editorial, está a referir-se, por exemplo, a edições discográficas?

ALVES MONTEIRO: Um dos caminhos que a Casa da Música pode seguir tem a ver com a edição discográfica, mas não é nesse sentido que uso a expressão. Qualquer manifestação cultural consistente deve sustentar-se num princípio editorial. A Casa da Música deverá acolher um espectro extremamente alargado de tipos de música, desde as expressões mais populares, incluindo as bandas filarmónicas, até expressões mais eruditas. O jazz, nas suas diversas dimensões, terá uma expressão muito forte, mas também, por exemplo, o pop-rock, o fado ou a cibermúsica. Mais do que popularidade, pretende-se que haja qualidade. Muitas manifestações culturais começam por ser marginais, e por vezes vivem muito tempo na marginalidade, mas não é por isso que não devem ser acarinhadas.

Citação 4:

PÚBLICO: A comissão parlamentar de Ciência e Cultura vai ouvi-lo, já na terça-feira, recebendo, depois, os anteriores presidentes da administração da Casa da Música. Não receia que estas audições acabem por resultar numa apropriação do projecto para efeitos de disputa partidária?

ALVES MONTEIRO: Os deputados têm o direito de querer estar informados sobre matérias que considerem relevantes. E todo o historial da Casa da Música, com as correcções nas datas de finalização da obra e os sucessivos valores alocados ao investimento, suscitou e ainda suscita preocupação. É natural que os deputados queiram perceber qual é hoje a situação, e também ficar com uma ideia de como se chegou aqui. E julgo que poderão ter interesse em conhecer quem está à frente da instituição. Agora, se me pergunta se temo que possa haver uma apropriação política da Casa da Música, é evidente que temo. Acharia preferível que um projecto com estas características se mantivesse distante do debate político-partidário, e creio que os próprios partidos reconhecerão isso, mas a realidade é o que é e temos de conviver com ela. O meu objectivo é trazer serenidade para o projecto, o que implica fornecer informação tão exaustiva quanto possível, mas, ao mesmo tempo, mostrar que estamos aqui com sentido de responsabilidade e espírito de rigor.

Citação 5:

PÚBLICO: Pedro Burmester é consultor da administração, reportando directamente ao presidente. Existe algum contrato que garanta que ele exercerá efectivamente a função de direcção artística do projecto, ou isso depende apenas da solidez da relação de confiança que mantiver com o presidente?

ALVES MONTEIRO: O trabalho que tenho desenvolvido com o dr. Pedro Burmester tem incidido na definição do modelo de programação para a abertura da Casa da Música e para a primeira temporada, bem como na definição das acções e eventos que deverão ser desenvolvidos. É evidente que este trabalho tem implícita uma vasta reflexão sobre os princípios editoriais futuros da Casa da Música, criando as bases programáticas do que deverá ser este equipamento. O dr. Pedro Burmester mantém o estatuto de consultor do presidente para a programação, tal como anunciei publicamente aquando da minha nomeação, e assim temos trabalhado. A organização futura da Casa da Música está ainda em fase de definição, e somente a essa luz será possível enquadrar a actuação futura do dr. Pedro Burmester, assim ele queira manter-se ligado a este projecto, como é minha convicção e intenção.

Citação 6:

PÚBLICO: A construção da futura sede do BPN nas traseiras da Casa da Música é um dado adquirido, ou acredita que possa ainda negociar-se uma solução alternativa?

ALVES MONTEIRO: Se tiver em conta a abertura que desde sempre senti da parte do presidente da Câmara do Porto e dos promotores do empreendimento, não estranharia que este “dossier” não esteja definitivamente encerrado e possa, ainda, sofrer mais evoluções positivas para a Casa da Música. Faz todo o sentido conceber que a zona a construir possa beneficiar de uma edificação que acumule a virtude de delimitar a área e de preservar dos olhares um espaço algo degradado e que em nada dignifica a grandiosidade do projecto do arquitecto Koolhaas. O que é necessário é que esta edificação possa ter a volumetria necessária e suficiente para garantir estes objectivos. O exercício de conceber uma volumetria obediente aos interesses da Casa da Música não foi feito logo após a decisão da sua implantação, o que poderá ditar, agora, resultados que colidam com os legítimos direitos adquiridos dos promotores. Daí que a composição final destes interesses seja difícil. Pena é que se tenha permitido que o terreno em questão tenha caído na esfera de interesses privados, legítimos e totalmente respeitáveis, sem que tenha sido feito o exercício que referi. Por certo que teria desvalorizado o valor do encaixe da venda que a Câmara do Porto no passado realizou; porém, o projecto pedia essa medida de boa gestão, tanto mais que, segundo julgo saber, a venda ocorreu em fase bem posterior à decisão de implantação da Casa da Música no local actual. Afinal, um acto de pequena visão a embrulhar um projecto grande. Queiramos que as gerações futuras perdoem as fraquezas de alguns que as precederam.

Citação 7:

PÚBLICO: Quando fala de crianças, está a sublinhar que é preciso investir no Serviço Educativo da Casa da Música?

ALVES MONTEIRO: Sim, mas as crianças, e a juventude em geral, também deverão ter um grande espaço espelhado na própria programação, que atenda aos seus diversos gostos, mesmo os mais vanguardistas e radicais.

Citação 8:

PÚBLICO: A programação da Casa da Música tem sido várias vezes acusada de elitismo. Parece-lhe uma crítica pertinente?

ALVES MONTEIRO: O que vem sendo feito está longe de ser exemplificativo daquilo que deverá ser a futura programação. Não se pode esquecer que não temos ainda a Casa da Música a funcionar. O que fazemos hoje é investir naquilo que irá ser um conjunto de agrupamentos residentes, que merecem e exigem um trabalho prévio, para garantir que amanhã terão um bom desempenho. Mas o princípio que, no futuro, deverá orientar a programação é o de um grande eclectismo, ao nível das manifestações e, sobretudo, do público.

Fim de citações.

Com humilde serenidade reflictemos.