Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

Arquivo de: ‘Piano’

A propósito dos 30 anos de carreira de António Rosado, Teresa Cascudo edita no seu blogue, Contemporá/âneas, uma das mais intimistas entrevistas que li ou ouvi do entrevistado.
A ler e reler, em especial, a referência, sem tibiezas, a Gilberta Paiva, mais um dos nossos génios que os sucessivos ‘geniais’ grupos que dominam as artes pretenderam (e pretendem) safar da história.

Gonzalo Rubalcaba, ainda muito escondido pelos “puristas” do jazz que sempre desconfiam do apuro técnico dos músicos, é seguramente um dos pianistas mais inventivos e respeitadores da tradição “afro” do Jazz da actualidade, que junta esses predicados a uma técnica e sensibilidade raras.
Quem puder não perder, ele estará amanhã no Auditório de Espinho, e 3ª feira, dia 8, no Seixal, no Auditório Municipal.
Deixo dois registos vídeo em duo com Chick Corea absolutamente inadjectiváveis. São para ouvir…

Fausto Neves apresenta-se hoje em recital, pelas 21:30h, no Auditório de Espinho com o seguinte programa:

Fausto NevesI Parte

 

DOMENICO SCARLATTI - Sonata “Pastorale” em Dó Maior

 

BEETHOVEN - Sonata op. 28 em Ré Maior (Pastoral)

 

- Allegro
- Andante
- Allegro Vivace (Scherzo)
- Allegro ma non troppo (Rondo)

 

CHOPIN - Primeiro Scherzo op. 20 em Si Menor

 

II Parte

 

LOPES-GRAÇA - Natais Portugueses (Primeiro Caderno)

 

I (Melodia de Proença-a-Nova – Beira Baixa)
II (Velha Melodia de Évora – Alentejo)
III (Melodia de Paul – Beira Baixa)
IV (Melodia de S.Miguel d’Acha – Beira Baixa)
V (Velha Melodia de Évora – Alentejo)
VI (Melodia de Rio de Onor – Trás-os-Montes)
VII (Melodia de Póvoa de Lanhoso – Minho)
VIII (Original)

 

OLIVIER MESSIAEN - Noël (de “Vingt Regards sûr l’Enfant-Jésus”)

Um recital de Fausto Neves, por cada vez mais raros, é sempre motivo de regozijo e uma (quase) obrigação para quem gosta de piano descolar-se para ouvir.

Je me refuse de me laisser classer dans un genre. Ce qui m’intéresse, c’est de m’inscrire dans une démarche de recherche. L’instrument a cette particularité de permettre d’embrasser de larges horizons.
Je veux éviter de tomber dans cette ornière qui invite au produit industriel impeccable qui passe à côté du message
. Pierre-Laurent Aimard

Regresso a Pierre-Laurent Aymard desta vez a interpretar os Estudos Sinfónicos de Schumann, para piano para insistir em pianistas que recusam o mediatismo efémero e pelo facto de ainda hoje o catalogarem com o rótulo de especialista em música contemporânea. É certo que esteve no Ensemble Intercontemporain desde a sua fundação; é certo que se notabilizou a interpretar Ligetti, Boulez, Eötvös e Bartok, mas ouçam esta interpretação de Schumann e vejam se corroboram as afirmações de Aimard do início do post.

Bom fim-de-semana.

Deixo-vos um dos expoentes máximos do swing no piano - Errol Garner. Bom fim-de-semana.

Maria Joao Pires



Levo para férias Maria João Pires, como é costume aliás, mas aproveito para partilhar nestes dias de interregno a sua superlativa interpretação da Sonata n. 6 in D Major KV284 de Mozart, gravada em 1974…, ainda em Steinway…, ainda na editora Denon. Desculpem o superlativa, mas não tenho mesmo verbo capaz para exprimir o que na alma me vai quando escuto! O génio não é descritível, nem narrativa sustentável aguenta; revela-se, sente-se, é tudo!
O podcast está feito num só post para não interromper muito os andamentos nem as variações, sendo a Sonata composta por:
I - Allegro;
II - Rondeau en polonaise; Andante;
III - Andante (Theme and Variations) - XII variações.
Até breve e fruam do talento, génio e musicalidade que Maria João Pires exala.


ATENÇÃO: clique em posts para escolher e regule o volume.


Sir Roland HannaDe regresso aos bons pianistas e porque ainda não é assim tão vulgar colocar um músico de Jazz ao nível de um da música clássica deixo 3 temas interpretados a solo por Sir Roland Hanna, Sofly as in a Morning Sunrise, Oleo e This Can’t Be Love, gravados ao vivo em 1994 e editados em CD sob o título The Maybeck Recital Hall, Volume Thirty-Two.
Gostaria de dedicar este podcast à amiga do Ponto de Vista, primeiro porque se danou comigo, depois por desconfiar que por ser admiradora de Oscar Peterson deverá ser sensível ao piano de Sir Roland Hanna, que evidencia toda a sua cultura afro-americana ao contrário de outros que estão demasiadamente na moda e têm tanto de demasiadamente branco como de demasiadamente chatinho…
Bom fim-de-semana.

A XVI edição do Concurso Internacional de Música Vianna da Motta decorre desde 18 de Julho até ao próximo dia 30 no Centro Cultural de Belém.
Este concurso celebra este ano o seu 50.º aniversário fundado e presidido por Sequeira Costa que acaba de anunciar a passagem de testemunho a Artur Pizarro. Ficará, com toda a certeza, bem entregue.
A edição deste ano conta com 52 concorrentes dos quais apenas um português e o júri é formado por: Sequeira Costa (Presidente), António Saiote, Elisso Virssaladze, Fernando Eldoro, Liana Isakadze, Luís Pereira Leal , Natália Gutman e Sergei Dorenski.

Nada mais sei a edição deste ano do mais conhecido evento pianístico português, uma vez que o Centro Cultural de Belém praticamente não fornece informação relevante e muito menos uma actualização diária como se imporia.
Não me quero alongar sobre esse pormenor, e muito menos associar o nome de Vianna da Motta e o Concurso a assuntos menos elevados e, por isso, aqui transcrevo tudo quando o Centro Cultural de Belém disponibiliza online:

XVI EDIÇÃO DO CONCURSO INTERNACIONAL DE MÚSICA VIANNA DA MOTTA
Calendário

Programa:
CALEND?RIO DA XVI EDIÇÃO DO CONCURSO INTERNACIONAL DE MÚSICA VIANNA DA MOTTA – 2007

18 Julho
Grande Auditório / 21H
CONCERTO INAUGURAL
Natália Gutman violoncelo / Elisso Virssaladze piano
SONATAS PARA VIOLONCELO E PIANO DE LUDWIG VAN BEETHOVEN E JOHANNES BRAHMS
Preços: De 5€ a 15€

19 Julho
1ª Eliminatória
Pequeno Auditório Entrada Livre
10h - 12h45 / 14h15 – 19h15 / 20h45 – 22h45

20 Julho
1ª Eliminatória
Pequeno Auditório Entrada Livre
10h00 – 12h45 / 14h15 – 19h15

21 Julho
1ª Eliminatória
Pequeno Auditório Entrada Livre
10h00 - 11h30
Anúncio dos resultados – 22H

22 Julho
2ª Eliminatória
Pequeno Auditório Entrada Livre
9H – 13H / 14H – 18H45 / 19H45 – 23H

23 Julho
2ª Eliminatória
Pequeno Auditório Entrada Livre
9H – 13H / 14H – 19H
Anúncio dos resultados – aprox. às 22H

24 e 25 Julho
Prova final a solo
Pequeno Auditório Entrada Livre
17H – 22H

26 e 27 Julho
Prova final com Orquestra
Orquestra Gulbenkian
Grande Auditório / 20H
Preço único 5€

28 e 29 Julho
Prova final com Orquestra
Sinfonia Varsóvia
Grande Auditório / 19H
Preço único 5€
Anúncio dos resultados finais – dia 29 Julho / aprox. às 23H – Pequeno Auditório

30 Julho
Cerimónia de entrega dos prémios
Grande Auditório Entrada Livre
19H
(Esta cerimónia contará ainda com a interpretação de uma obra ou excerto dela por cada um dos laureados, e por ordem decrescente).

Integrado no XXXIII Festival de Música do Estoril Artur Pizarro apresenta-se hoje apresentou-se ontem na sala Atlântico do Hotel Palácio com o seguinte programa:

Haydn - Andante e variações em fá menor
Beethowen - Sonata em fá menor op. 23, Apassionata
Vianna da Motta - Balada op. 16
Granados - Allegro de Concierto
Rachmaninov - Sonata em Si bemol m. op. 36

Pierre-Laurent Aimard, solista do Ensemble Intercontemporain durante vários anos, interpreta esta Sonata para Piano de Boulez de forma sublime.
Bom fim-de-semana.

Dias da MusicaAnunciado o fim da Festa da Música por iniciativa de Mega Ferreira, uma parceria entre a Câmara de Lisboa e a UNICER permite os Dias da Música, dedicados ao piano, que decorrem este fim de semana.
Nesta iniciativa do Centro Cultural de Belém destaco a aposta em patrocínios privados e a programação que, se bem que à semelhança do que disse em relação à Casa da Música, sente-se, aqui e ali, uma tendência para a inclusão de amigos, traz alguns excelentes pianistas que, se pudesse, tentaria não perder:

portugueses:
Maria João Pires, Artur Pizarro, António Rosado, Miguel Henriques, Miguel Borges Coelho, Bernardo Sassetti.

estrangeiros:
Pascal Rogé, Piotr Anderszewski, Elena Rozanova, Valentina Igoshina, Ami Hakuno.

Maria Manuela Araújo proporcionou a 1.ª audição em Portugal desta obra para piano depois de, durante alguns anos, a analisar e trabalhar com a preciosa ajuda de Dimitri Schostakovitch, da qual não restou qualquer das gravações efectuadas. Antes de a apresentar em Portugal, a sua interpretação foi aplaudida pelo público e pela crítica em Moscovo, Berlim, Leningrado (na época), Kiev, Budapeste e Varsóvia entre outras cidades europeias.
Deixo-vos durante uns dias a interpretação de Evgeny Kissin, ao vivo, para ouvir com calma e sem dar tempo ao tempo…
ps: volume baixo pois a gravação tem o audio saturado.


João Paulo Esteves da Silva

Memórias de Quem é o trabalho já gravado e brevemente editado que João Paulo Esteves da Silva apresenta hoje, às 21:30h, no grande auditório da Culturgest.
É curioso que o João Paulo, um dos excelentes pianistas portugueses, aluno brilhante do Conservatório Nacional, credor de vários prémios em Paris, aclamado em várias salas da Europa e EEUU, seja ainda pouco conhecido e reconhecido pelos meios e meandros jazzísticos nacionais. É certo que fez a escola clássica, é certo que hesitou sobre o género de música a que se dedicaria mas, depois de incorporar que o seu caminho se situaria algures entre a música portuguesa e o jazz, o que falta para que o coloquemos no plano que merece? Será que terá de passar pelo beija-mão ao Hot para a sua excelência ser assumida?
Não será necessário percorrer toda a sua biografia, deveria bastar a Roda, les suites portugaises para reconhecermos o seu génio enquanto compositor, pianista e improvisador mas, hélas, não pertence ao clã do Hot!
É um outsider, felizmente, mas quem gosta de música e de bons músicos e não se interessa por capelas vá ouvi-lo, ficará a ganhar!


Deixo-vos com Cecil Taylor (que saudade!!!) a solo durante uns dias que estarei fora.

A não perder hoje, na Gulbenkian, Artur Pizarro interpreta o 1º concerto para piano de Tchaikovsky.

Mais uma perda de vulto em escassos dias…
O legado de Helena Sá e Costa fala por si só - uma vida inteira dedicada ao ensino do piano tendo passado pelas suas lições largas centenas, ou mesmo, milhares de alunos.
Entre os actuais pianistas portugueses mais conhecidos que não tenham beneficiado das suas lições só me recordo, assim de repente, de Maria João Pires, António Rosado, Artur Pizarro, Miguel Henriques ou Dina Resende.
Helena Sá e Costa foi a figura mais proeminente da música clássica no Porto durante os últimos 50 anos, estando nós devedores de tudo que esta ímpar personalidade de bem fez à música e à cultura portuguesas.

Escrito entre 1834 e 35 o “Carnaval” de Schumann não é uma das obras para piano mais afamadas, mas é uma das que revisito regularmente, uma questão de paixão!
Ontem dei comigo a escutar as versões de Arrau, Michelangeli, Rubinstein, Rachmaninov e Gabrilov, as que possuo. A separar estas gravações correm cerca de 90 anosl. A separar estas gravações estão concepções estéticas muito distantes, opostas quiçá, da visão do que foi o romantismo musical do qual Schumann foi pioneiro.
Ora se em Rubinstein não podemos saber com propriedade se a versão que gravou seria ou não aquela que autenticamente sentia (este excelente pianista tinha a invulgar capacidade de interpretar consoante o(s) padrão(s) estético(s) do público a quem se dirigia) já Arrau era mais fiel a si próprio embora as suas interpretações variassem, naturalmente, consoante o estado de espírito de que momentaneamente se encontrava embuído, conseguindo-se uma visão mais próxima do que pretendia dizer e fazer sentir. A interpretação de Arrau afasta-se muito da estética predominante à época, a da lirismo quase etério do piano romântico introduzido por Rubinstein, muitas vezes com menor respeito pelo texto dos compositores, exagerando rubatos e acelerandos.
Aliás, o “Carnaval” de Arrau é esteticamente mais moderno e respeitador do texto que a posterior gravação de Michelangeli. Mais que Rubinstein, Michelangeli leva ao extremo do “mau gosto? a estética “lamechas? que se impôs um pouco por todo o mundo do pós-guerra. Não é só não respeitar o texto, é toda uma concepção da obra que entronca radicalmente numa visão doentia e entristecida do romantismo de Chopin que teimosamente imperou e ainda hoje nos agride em certa escola pianística portuguesa muito em voga e aclamada “ad nauseum”!
Curiosamente, muito antes de Rubinstein, Arrau e Michelangeli, Rachmanivov dá-nos uma visão apaixonada e violenta da obra, visão essa que radicava no final do romantismo musical entronado por Liszt e, mais tarde pelos pós-românticos. O piano era abordado orquestralmente e as obras românticas interpretadas com o exagero sentimental da paixão incontroladamente arrebatada. Rachmaninov cumpre o texto? Nem por isso, a sua invulgar capacidade técnica aliada ao extremismo passional conduz a uma interpretação emocionalmente intensa, intercalando andamentos muito mais rápidos que aqueles que Schumann indicava com pianíssimos bem pronunciados, introduzindo-nos numa atmosfera assaz densa e plena de emoções. Diga-se, contudo, que Rachmaninov não explora os rubatos e acelerandos intercalados que no futuro viriam a descaracterizar a interpretação romântica do piano.
É, no entanto, com a interpretação de Gabrilov que encontramos o equilíbrio entre o escrupuloso respeito pelo compositor e o arrebatamento passional que a interpretação romântica tem de encerrar. Alia a intensidade à quase etéria emoção, nunca se desviando das pretensões iniciais do compositor. De todos estes Carnavais, o de Gabrilov é aquele que sinto o meu “Carnaval”, aquele que Schumann concluiu em 1835.
É assaz curioso vermos a evolução da estética aplicada no tempo! Tal qual a história é a visão do passado com os olhos de cada presente!
Gabrilov foi melhor que os restantes? É evidente que sim, para mim!
Para outros não? Pois bem, gozem as emoções os estados de alma a que a música nos conduz, tão-só! Este é o real valor da arte!
Porque escrevi sobreisto? Não sei, aconteceu, apeteceu-me, enfim…, porque acho que, de facto, o “Carnaval”, op.9 de Schumann, é uma das grandes obras de arte do início do romantismo, contrariando o vulgo dos musicólogos.