Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

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Pierre-Laurent Aimard, solista do Ensemble Intercontemporain durante vários anos, interpreta esta Sonata para Piano de Boulez de forma sublime.
Bom fim-de-semana.

Susana Malkki
fotografia de Tanja Ahola

Sucedendo a Peter Eötvös (que saudades), David Robertson e Jonathan Nott a maestrina Susana Mälkki (ver, ver, ver) é a nova Directora Musical do Ensemble Intercontemporain, fundado por Pierre Boulez.
Note-se que apesar da fama de ditador do fundador, para se ser director deste agrupamento só é possível com a concordância de dois terços dos seus solistas, conseguidos através de votação secreta.
O currículo de Susana Mälkki, em especial como maestrina residente do Birmingham Contemporary Music Group, que ainda o ano passado se apresentou entre nós, e o trabalho já desenvolvido no Ensemble são indicadores de uma belíssima e consistente aposta de futuro.

Sua mulher, Ivonne, que acabava de interpretar 4 obras suas - “Sept Haikai“, “Couleurs de la Cité Céleste“, “Un Vitrail et des Oiseaux” e “Oiseaux Éxotiques” - por ocasião dos seus 80 anos.

Memorável concerto este, no Théatre des Champs-Élysées a 26 de Novembro de 1988, com Ivonne Loriod e o Ensemble Intercontemporain, dirigidos por Pierre Boulez, editado em CD, pela “Disques Montaigne”, sob o título “Hommage à Olivier Messian - Le Concert Officiel du 80e Anniversaire“, no mesmo ano.

Nas notas que Claude Samuel escreveu a propósito lê-se a seguinte passagem:

Pratiquant de longue date la vertu de l’humilité, Olivier Messian n’ignore pas que le rôle fondamental d’un créateur, que la survie de son oeuvre n’ónt qu’un lointain rapport avec ces signes de reconaissance, et toute l’histoire de la musique est jalonnée de gloires éphémères. Néanmoins, ces signes rélèvent que la musique moderne n’est pas nécessairement un territoire sulfureux où ne peuvent s’aventurer que quelques guerriers protégés; ils sanctionnent aussi l’originalité d’une démarche que rien ne prédisposait apparemment à l’irruption sur la place publique.

A propósito deste texto do meu amigo Henrique Silveira onde, entre outras coisas afirma «Depois dos anos 20 do século passado o modernismo de Boulez é serôdio, é apenas uma radicalidade obrigatória e reaccionária, porque deve ser assim, porque é obrigatório rasgar.» apeteceu-me, para já, dedicar-lhe a transcrição de um excerto de uma entrevista que Pierre Boulez concedeu a Joshua Cody em Fevereiro pretérito:

«That’s very difficult to judge immediately, because we tend to relate value and style especially when looking at the past. When you are in the present, that is not always the case, because some works that don’t have an immense value nevertheless may have a kind of stylistic impulse which is necessary for this period. There are some works which are much better made, let’s say, much better fabricated; and they are not interesting because they don’t bring anything. So we are always too close to the fact, although you can have your personal judgement, of course; and I have my own judgements on things.

There are many ways of approaching the problems of music nowadays. But I think there are two things which I don’t like. First, the explicit reference to the past; because I think that’s useless. Second, oversimplistic solutions, which I find really useless. Sometimes when I read some manifestos not manifestos, but declarations of composers who want very simple styles, and so on, I think of what we have gone through historically in 1947, 1948, when you had the Stalinists saying that people should be happy…This kind of simplistic view is completely contradictory to the human being! The human being is not simple. The human being is really complex. When you have composers behind you like Wagner or Mahler, just to take two examples, who did find solutions which are challenging to you, you cannot say that they did not exist or were too complex, so let’s do something simple. Sometimes these kinds of solutions remind me of fast-food restaurants: convenient but completely uninteresting

Eu tenho a certeza de que o Henrique será sensível a estes textos e que talvez possa repensar, ou melhor, reequacionar o reaccionarismo de Boulez. É que se Boulez foi um modernista reaccionário, foi-o como reacção ao simplismo/facilitismo, à música para as grandes massas e para o povo, ao sucesso imediato a qualquer preço, repondo a exigência de uma complexidade perdida após os admiráveis da “Escola de Viena”!
Se a obra de Boulez ficará ou não para a história, Henrique, estou perfeitamente de acordo com A. Pinho Vargas: não sei! É a única resposta séria, se expurgada de cinismo. Ainda não se pode enquadrar Boulez na História, é cedo, enquanto que julgamentos, condenações ou profundas adesões serão sempre motivo para grandes audiências e, claro, a glória, a glória de atacarmos o mais célebre sem ele saber ou sequer dar conta e muito menos se ralar!

O “Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique”, (IRCAM, com link aqui mesmo ao lado na secção “confortos”), numa iniciativa intitulada “Invitations au tour du réportoire”, convidou este ano o Remix Ensemble, do Porto, para se mostrar ao público de Paris e proporcionar-lhe, durante uma semana uma aproximação e familiarização com o que chamam de “música mista” em estreita colaboração com os compositores do IRCAM e seus assistentes. As peças saídas destes “ateliers” serão apresentadas ao público juntamente com o reportório que os convidados já levam preparado:

- Luis Fernado Rizo Salom Al Umbral del abismo, para piano e ensemble
- Emmanuel Nunes Nachtmusik I, para 5 instrumentos e orquestra
- Salvatore Sciarrino Introduzione all’oscuro, para 12 instrumentos
- Gérard Grisey Jour, contre-jour

dirigidos por Peter Rundel e assistência musical de Éric Daubresse, beneficiando com a capacidade informática do IRCAM, numa co-produção da Casa da Música e do IRCAM-Centre Pompidou que ocorrerá a 20 de Janeiro no IRCAM e a 22 no Teatro Helena Sá e Costa, no Porto. (link)

Para os menos familiarizados com estas coisas da música electroacústica, o IRCAM foi fundado pelo Centro George Pompidou em 1969 tendo então sido convidado para a sua direcção o compositor e maestro Pierre Boulez, a quem deve o seu sucesso, sendo hoje o maior e mais bem apetrechado centro de investigação científica exclusivamente dedicado às tecnologias para a criação musical do mundo, contando com cerca de 90 investigadores permanentes e sede de estágios dos mais reputados compositores da área.

Sinceros parabéns ao Remix Ensemble que consegue ser mais um dos que demonstra que os portugueses sabem e conseguem fazer bem quando a politiquice não perturba e deixa trabalhar.

Então se calhar vamo-nos cruzar amigo Crítico, mas confesso que terei de quebrar uma promessa, a de que não sairia à noite sem o meu mais pequeno completar 2 anos. Regressei aos 18 anos, quando pupulava por um concerto no estrangeiro ou de mochila às costas dava um pulo à saudosa Swing, em Andorra, a melhor discoteca de Jazz e Clássica que eu conhecia à época. O fim de semana é alucinante:
- Emmanuel Nunes no Porto com o Remix Ensemble;
- Webern, Berg, , Elliott Carter, Stravinsky e Boulez com Valdine Anderson e o Ensemble Intercontemporain dirigido por Boulez na Gulbenkian, 6ª e Sábado;
- The Saxofone Summit? no Coliseu, quem? É…, Joe Lovano, Dave Liebman e Michael Brecker juntos pela primeira vez, com Phil Markowitz no piano, Cecil McBee em contrabaixo e Billy Hart na bateria, no Sábado.

Dom da ubiquidade ainda não, mas porra, um homem não pode resistir pelo menos a uma escapadelazita, a bem da alma!
Já perguntei mas não obtive ainda resposta se porventura algum destes notáveis músicos se pronunciará sobre o processo Casa Pia, o das escutas ou se Paulo Pedroso deve ou não permanecer no Parlamento! Da Metropolitana também ninguém disse se os músicos anuíam ou se os estudantes poriam cadeados e sequestrariam alguém! Há que arriscar!