Não foi conhecida a razão que Vítor Gaspar terá encontrado para desistir da sua demissão durante o último fim-de-semana em Dublim – partiu daqui com a demissão agendada para depois da negociação das maturidades dos empréstimos e regressa com ânimo para prosseguir.
Sente-se que Gaspar estará convicto de que, abnegadamente, aceitou ir o governo para prestar um enorme serviço ao país e que, volvidos 2 anos, Portugal é demasiadamente pequeno para ele e suas gentes muito pouco inteligentes para o entender. Bateu com a porta por não compreender que o seu orçamento era inconstitucional e disse basta a esta “cambada de energúmenos”, uma vez que só os seus pares das altas instâncias europeias o compreendem e fazem jus ao seu brilho de funcionário da globalização selvagem.
Será que o apoio e solidariedade obtidos nesse fim-de-semana em Dublim foi suficiente para que mudasse de ideias? Não creio, definitivamente. Talvez o apoio de Cavaco Silva a este governo e a nomeação de Poiares Maduro, um académico que Gaspar entenderá estar à sua altura, um par, poderão ter sido decisivos para Gaspar cedesse à pretensão de permanência de Passos Coelho, Primeiro-Ministro cujo conhecimento de governação o Ministro das Finanças pouco respeitará. Aliás, Passos Coelho sem Gaspar não existe sem Gaspar e ambos conscientes disso.
A nomeação de Poiares Maduro inicia uma nova era para este governo, um novo fôlego que quase todos só pensavam ser possível com a demissão de Gaspar. Tem sido enfatizado no currículo no novo Ministro a sua excelência académica e a sua ‘falta de experiência’ prática e política. Lamento não estar de acordo com esta visão simplista porque considero que, para além do brilhante currículo universitário, Poiares Maduro tem experiência como poucos na negociação com os poderes da Europa, salientando o facto de ter sido o advogado da Islândia no processo contra os capitalistas agiotas holandeses e ingleses da Icesave, vencendo o processo junto do Tribunal da Associação Europeia de Livre-Comércio (EFTA), onde se pretendia que os islandeses os indemnizassem pela falência daquela instituição! Poiares Maduro ganhou a causa e libertou a Islândia de pagar a credores agiotas de bancos privados falidos, abrindo um precedente na jurisprudência europeia. Esquecer este facto, dizendo que Poiares Maduro tem pouca experiência, é no mínimo muito pouco sério.
Poiares Maduro tem revelado ser uma pessoa que pensa pela a sua própria cabeça, conhece como poucos os meandros do edifício legal da União Europeia e já demonstrou não limitar a sua inteligência a espartilhos ideológicos defuntos como o socialismo sem classes, a social-democracia onde a Europa se construiu e agora se desmorona e ao liberalismo que o capital agiota está, no momento, a derrotar em toda a linha, não obstante não ceder no fundamento – a democracia e a liberdade dos cidadãos.
Conseguirá o novo Ministro fazer a diferença? Não creio, mas sinto que será uma voz com propriedade e muito activa na defesa possível dos nossos interesses junto dos poderes europeus, eleitos e não eleitos.
E é do que estamos precisados e muito – de inteligência, de uma segurança que não ceda nem a interesses nem a histerismos, e de uma mente que sirva os interesses particulares de Portugal, sem preconceito ideológico que não seja o da defesa dos interesses dos cidadãos, da sua liberdade e da democracia.


Mas quem pedir uma SCUT para esta zona?
Não poderia ter sido mais errado no meu vaticínio e, como deveria ser norma nestes casos, há que apresentar, humildemente, desculpas ao ‘chairman’ da PT, bem como a toda a sua administração. Com efeito, Henrique Granadeiro afiança que a intervenção de partidos políticos, governos e, pelos vistos agora, a Presidência da República não são casos virgens, mas recorrentes e sistemáticos, estranhando o entrevistado não a intervenção estatal em negócios de empresas privadas, mas o alarido político que em torno do caso se fez.