Odiado ou endeusado o certo é que Sócrates não deixa os agentes e comentadores políticos indiferentes, desde os membros do seu partido, passando pelas facções do PSD, até a Cavaco Silva. Parece que, num assomo de ânimo, todos mudaram de atitude, passando de um estado de “banho maria” ou acentuada letargia para uma euforia interventiva que há muito não assistíamos.
Seguro, ainda antes de Sócrates ser entrevistado, em tempo de apenas anunciada, transforma-se de um “respeito pelas instituições democráticas” a um firme adepto de uma renegociação inadiável com a troika (desde sempre exigida pelo BE e pelo PCP), anunciando uma moção de censura ao governo no mesmo dia que não votava a favor de uma exigência do PCP para a demissão do governo. Ontem, depois do anúncio do Acordão do Tribunal Constitucional, veste a pele do intransigente face à continuidade do governo e à posição de Cavaco Silva, exigindo a demissão do governo e eleições imediatas, denunciando, talvez, a pressa, a sua urgência de chegar a Primeiro Ministro enquanto é líder do PS!
Passos Coelho, que vinha preparando o caminho para a sua demissão através de uma estratégia de confronto aberto contra a Constituição através de pressões ao Tribunal Constitucional, evidenciando uma anemia governativa cada vez mais acentuada, surge agora com o não me demito, não fujo e estou aqui numa missão de serviço até ao final do mandato.
Cavaco Silva, após longos períodos de silêncio, minando junto dos cavaquistas uma oposição surda, mas impiedosa, ao governo, surge agora, mais concretamente no dia anterior ao anúncio do acórdão, a mandar em Passos Coelho, quase exigindo que não se demita e a acusar o PS de se estar a afastar de um entendimento no cumprimento do actual status quo e, não menos peremptoriamente, anunciando que não encontra nenhum sinal que indique uma crise política (deve ter estado fora do país a 15 de Setembro do ano passado e a 2 de Março deste ano), transformando-se, assim, no maior apoiante explícito de Passos Coelho. Cavaco Silva rasgou, afinal,o tal livrito que escreveu sobre o que deve ser um Presidente da República, transfigurando-se num Presidente não só publicamente interveniente como, muito especialmente, no principal actor político do momento.
Sócrates deve estar agarrado à barriga de tanto rir com o que vai assistindo, constatando que, gostem ou não dele, ao não deixar nem apoiantes nem adversários indiferentes, é ele que está, só com o seu regresso, a marcar as atitudes dos outros e a agenda política.
E isto digo sem apreciação da bonomia do constatado. Digo-o para o bem e para o mal.
Dois anos após silêncio voluntário, Sócrates regressa sem surpresas e sem admitir os graves erros que cometeu, mas é verdade que regressa inteiro, com a pujança que se lhe reconhece.
Não tenho eu a mínima dúvida de que o seu 1º governo foi o melhor governo português desde Abril, o único que reduziu despesa e, simultaneamente, conseguiu que a economia crescesse acima de 2%, mesmo recordando o autoritarismo da Ministra da Educação, responsável pela destruição do sistema de ensino artístico especializado, e reconheço, sem qualquer rebuço, que na área dos partidos da governação, nunca houve um político com semelhante arcabouço, seja na retórica, seja na truculência, seja na capacidade de convencer e arrastar eleitorado consigo.
Sobre a entrevista, reconheço que esteve muito bem onde se esperava, onde não precisava de simular – na denúncia, à vista de todos, da deslealdade de Cavaco Silva para com o seu 2º governo, em especial na força que deu a um Passos Coelho para não aceitar o PEC IV e, por outro lado, em afirmar que a inviabilização desse pacote é que esteve na origem do pedido de resgate, sendo que os responsáveis foram aqueles que o inviabilizaram.
Em abono da verdade, até à inviabilização do PEC IV, Sócrates tudo fez, reconheçamos com humildade a verdade, para evitar um resgate que colocasse em causa a soberania nacional, tal como o caminho que Rajoy vem trilhando, optando por um resgate parcial à banca.
No entanto, Sócrates falou de si, falou em sua defesa, não se dirigindo em momento algum aos portugueses, nunca admitindo erros gravíssimos que cometeu e é isto que exijo, enquanto cidadão, dos governantes – assumir a quota parte de responsabilidade. Vejamos:
1 – se é verdade que Sócrates tudo fez para evitar um resgate total, tentando seguir de PEC em PEC sempre com a aprovação de todas as instâncias europeias, não consegue explicar o inexplicável – como é que, se sabia as gravíssimas consequências de um resgate, aceita negociar e assinar um memorando para o efeito num governo de gestão.
O facto de Sócrates ter feito um acordo para o resgate, quando sempre se mostrou contra ele e diz foi a oposição que o provocou levando à sua demissão, só podemos deduzir que o fez como vendeta para os vindouros. Ora a sua vendeta não atrapalhou os governantes vindouros, mas sim os cidadãos.
2 – diga Sócrates o que disser, o teor constante nos acordos para as PPP’s das SCUT são autênticos contratos onde todos os riscos de exploração são garantidos pelo Estado e os lucros seguros para os privados. Por outo lado, ´contas todos fazemos, a questão está em como as fazemos – em abono da verdade àqueles 19 mil milhões assumidos há que acrescentar mais uma parcela a adir, a receita conseguida pela pagamento das portagens pelos cidadãos!!! O Estado assumiu um compromisso de 19 mil milhões, mas os cidadãos ficaram com esse mais os custo das portagens – foram taxados 2 vezes sem remissão!!!
3 – não há candura de olhar ou de expressão facial que consiga explicar ou fazer esquecer o maior desconchavo da sua governação – a nacionalização do BPN (ver aqui)e dos depósitos do BPP! De momento a conta vai já acima dos 7 mil milhões e Sócrates sabe bem que, não fora este erro imperdoável de colocar os cidadãos a pagar a falência de um banco privado, o PEC IV não teria sido, pelo menos tão cedo, necessário nos termos em que foi acordado, afinal com quase os mesmos termos que viria a ser assinado o memorando de empobrecimento.
4 – não lhe foi perguntado nem teve a iniciativa de explicar qual a razão, decidida a nacionalização do BPN, de não nacionalizar a SLN, Sociedade Lusa de Negócios (ver aqui), a principal accionista do banco, detentora de outras empresas lucrativas, permitindo que os accionistas responsáveis pela iminente falência, não respondessem diante dos credores, dandom início a uma fuga de capitais
Dito isto, ficou a saber-se, se é que alguém duvidava, de que o PS tem um líder natural que não prevejo que pretenda querer vir a ser Presidente da República tão cedo e, por outro lado, que o PSD não tem nenhum político no activo com as capacidades de José Sócrates.
Fiquei, contudo, sem saber se já haverá um acordo para um futuro governo com Paulo Portas. Sim, isso fiquei sem saber.
Cavaco Silva foi, de facto, encostado à parede, quando menos gostaria que acontecesse, pelo PSD, quando este votou contra a proposta do PEC para 2011 apresentada por Sócrates ao Conselho Europeu e aprovada por este, pelo Banco Central Europeu e pela Comissão Europeia.
De nada adianta agora o jogo de atribuição de responsabilidades à jogada de Sócrates e à ingenuidade de Passos Coelho e , ainda menos sobre quem deve pedir o ‘resgate’ de Portugal, se o governo de gestão se a Assembleia da República demissionária, disputa em que se envolveram todos os políticos, eminentes constitucionalistas, comentadores e o próprio Cavaco Silva!
Em boa verdade, mesmo que se admita a exigência de uma ‘jogada’ política de Sócrates, a questão não é constitucional, nem política, mas sim de defesa de Portugal. Cavaco Silva, ao dizer, e bem, que não pode governar, não pode exigir a um governo que a Assembleia da República negou a sua proposta de solução que faça o que não quer, e menos que corrija o ingénuo erro do PSD!
Exigir a um governo de gestão que viu a sua proposta de solução ser recusada pela Assembleia da República, que assuma responsabilidades em nome de todos os cidadãos para três, quatro ou mais anos, mesmo que constitucionalmente viável, é politicamente inaceitável!
É ao Presidente da República e a mais ninguém que cabe defender os últimos interesses de Portugal, em especial, num momento em que existe um governo de gestão e que se irá, por sua vontade expressa, iniciar um processo eleitoral conducente à formação de um novo governo.
Até lá, independentemente da opinião mais avalizada, Cavaco Silva tem de ter a coragem de cumprir com a sua obrigação de assumir o controlo de Portugal, nomeadamente, a de demitir, de imediato, um governo que entende que não cumpre o exigível e a constituição de outro, de sua iniciativa, temporário, até ao final do processo eleitoral!
Assuma as suas responsabilidades, Sr. Presidente da República, em vez de se envolver em escaramuças partidárias de sobre quem deverá fazer o que o Senhor entende que deve ser feito e tem obrigação de fazer!
A derrota de um sistema único de cobrança, através de ‘chip’, das portagens nas SCUT, representa uma vitória para os cidadãos que pugnam pela liberdade de escolha, contra o cerco que o poder lhes tem infligido. Como se já não bastasse o governo e o PS, sofremos ainda ontem a pressão indescritível do Presidente da República e do ex-Presidente da República Mário Soares. (ver links: Cavaco Silva; Mário Soares)
No entanto, aqueles que como eu pretendem que os cidadãos tenham a alternativa de poder efectuar pagamentos sem ser obrigados a identificarem-se, nem a pré-pagamentos de serviços a não ser por livre escolha, devem estar atentos, porque o PSD pode ainda vir a inviabilizar essa liberdade na discussão na especialidade do diploma, uma vez que afirma ainda haver possibilidade de consenso com o PS, e cito do Público, se houver bom senso, lucidez, capacidade de entendimento do Governo em relação à situação que está criada e se o Governo não quiser criar uma enorme trapalhada no país, acho que isso é possível.
Nesta guerra sem tréguas, cada vez mais clara, que os partidos do poder encetaram contra os cidadãos, urge que os cidadãos europeus, que não tenham enfeudado a sua liberdade, não hesitem em fazer ouvir a sua voz através da denúncia e da indignação!
É verdade que a intenção de cobrar portagens nas SCUT não nasceu com este governo do PS – os anteriores de Durão Barroso já insistiam nesse assunto – e Rui Rio, alto e bom som, defendeu na altura o que chama de ‘utilizador / pagador’ como justificativo. O PSD, preso, agora, pelos fundilhos, vem atirar com poeira para os olhos (link), agitando uma bandeira de regionalismo pacóvio que não lhes assenta.
Sem negar aquela máxima ignóbil, fazem cenas de agitação e propaganda próprias de outros partidos, colando aos nortenhos a necessidade de que se cobrem portagens aos outros!
Bardamerda, meus senhores! Estou farto, fartíssimo de vos aturar! Não me dá gozo nenhum, nem sinto justiça feita com o mal dos outros! Não atirem poeira para os olhos!
Não deve haver portagens em redor do Porto porquê?
- Não existem estradas alternativas às que pretendem ser cobradas; como se pode ir para Aveiro, para Lousada, Póvoa, Viana, Valença?
- Não me lembro de algum cidadão pedir para construir apenas auto-estradas, ou SCUT ou o diabo que os carregue, em vez de estradas nacionais;
- O princípio do utilizador / pagador está cumprido há muitos anos, seja através do mais mais elevado imposto automóvel da União Europeia, seja através do selo anual que quando foi instituído foi precisamente para ser entregue às ‘Estradas de Portugal, para fazer estradas nacionais.
Se em vez de, como dizem no PSD, pretenderem obrigar o governo PS a cobrar todas as SCUT do país, passarão a existir alternativas em estradas nacionais?
Tenham vergonha nas ventas!
Se em nortenho pretende o Dr. Rui Rio agora erguer-se, admita que errou quando defendeu, com demagogia, o argumento utilizador / pagador e exija que a cobrança de portagem só pode ser admissível desde que construam alternativas nacionais credíveis.
Outro assunto é a cobrança através dos chamados ‘chips’ nas matrículas. O CDS tem aqui toda a razão. Basta de invadirem a privacidade dos cidadãos e de pretenderem segui-los por tudo quanto é lado!
Não é admissível obrigarem os cidadãos a identificarem-se sem motivo, nem a pré-pagamentos sem ser por opção própria – os cidadãos têm o direito de pagar sem serem identificados e pelo método que escolherem, em especial, de decidir se têm ou não confiança em pagar um serviço antes de o utilizar!
Quem não quiser ouvir a verdade e bater-se por ela, não serve. Vai-se é servindo!
Com este PS (link) e com este PSD (link) os cidadãos estão a ser alvo dos mais vis ataques (não é o euro) e apanhados completamente indefesos no deboche da ignomínia desta partidocracia!
Entendeu o PCP apresentar uma moção de censura por considerar que o Governo PS e o PSD estão juntos numa ofensiva brutal contra os portugueses e contra o interesse nacional.
Compreender a razão do momento, agora e não logo após a aprovação do PEC, é já de si difícil, mas adiantar, no texto, que condenam a política de direita que praticam é um tiro no pé que não lembraria ao mais ingénuo!
Caso a inteligência prevalecesse, uma moção de censura cujo texto criasse dificuldades a uma abstenção do CDS, colocaria graves problemas ao PSD, uma vez que o ‘Bloco Central’ revelar-se-ia com a mascarilha por terra tombada!
Mas, hélas, acima do interesse dos cidadãos, os do partido. Neste ou em qualquer outro!
Longe vai a utopia de uma ‘Europa dos Cidadãos’, sonho por onde se aventuraram os políticos no poder da União Europeia desde meados de 80. À bolina desse devaneio:
- entregaram a produção de riqueza não fiduciária aos países de mão-de-obra barata, ditos mercados emergentes;
- celebraram Maastricht sem ouvir cidadãos;
- empurraram os cidadãos para o Euro sem nada lhes perguntar;
- impuseram o Tratado de Lisboa ao arrepio da opinião dos eleitores;
- desprezaram a crescente abstenção que lhes diminuiu a legitimidade, mas não a representatividade, a qual, através de artifícios legislativos, camuflam e tomam assento em lugares para os quais ninguém os elegeu;
- mantiveram artificialmente o euro elevadíssimo para, controlando a inflação, assegurarem chorudos juros ao rendimento do capital não-produtivo!
Agora falam em DEFENDER o EURO! À custa de quem? Dos responsáveis pela situação?
Nem pensar, esses andam de reunião em reunião à procura de meios para castigar os cidadãos com o pagamento dos seus devaneios, dos seus sonhos, das suas utopias!
A Europa hoje assiste ao mais degradante duelo – euro vs cidadãos! Quem ganhará? Ninguém conhece o desenlace…, apenas se conhece o derrotado, os cidadãos, embora o mais certo é perderem ambos, porque a elite do poder não admite o erro da aventura para onde nos vem empurrando!
Exemplos? Deixemos que eles falem por si:
Durão Barroso: (…) we will do whatever is necessary to defend the stability of the Euro;
Angela Merkel: o mais importante das negociações dos últimos dias entre governantes da Zona Euro, em Bruxelas, foi o facto de Portugal e Espanha se “comprometerem a cortar na despesa pública”;
Conclusões da reunião dos responsáveis pelas Finanças da U.E. – Saudamos e apoiamos firmemente o compromisso de Portugal e Espanha em tomar medidas adicionais significativas de consolidação [orçamental] em 2010 e 2011, e a sua apresentação no Conselho ECOFIN [reunião dos ministros das Finanças dos 27] de 18 de maio;
Cavaco Silva: É preciso defender a moeda única;
José Sócrates: Tenho fundadas esperanças de que esta cimeira (…) possa ser uma cimeira (…) de defesa intransigente do euro e da moeda única.
Os aventureiros da utopia conseguiram transformar a ‘Europa dos Cidadãos’ na ‘Europa do Euro’, a lei do monetarismo global impõe-se-lhes, contra, e ao arrepio, dos cidadãos, aos quais eles entregam, sem a menor hesitação, as indignas facturas!
BPP – Sócrates garante depósitos
Durante a campanha eleitoral houve silêncio absoluto sobre o BPP e a nacionalização do BPN. No entanto, Sócrates afiança agora que:

O que nós decidimos fazer na proposta de Orçamento do Estado, é assegurar os depósitos. Em segundo lugar, constituir um fundo para que todos os cidadãos portugueses que tinham o seu dinheiro aplicado no retorno absoluto possam recuperar até 250 mil euros. (via Expresso)
Há mais de 30 anos que nos dizem que vivemos numa democracia sob um regime de liberdade de funcionamento de mercados, havendo uma separação clara entre o domínio público e o privado. Nesta conformidade, e constatando que a esfera privada da economia tem sido (como deve ser) muito zelosa da sua liberdade e independência, não me conformo que os contribuintes tenham de suportar prejuízos pessoais de cidadãos que, no pleno gozo de sua liberdade individual, entenderam colocar as suas poupanças em instituições bancárias que faliram ou já deveriam ter falido, em especial, porque em Portugal existe a alternativa de um banco público.
ISTO NÃO É SÉRIO! A obrigação distributiva do Estado não tem de reparar as sórdidas distorções do funcionamento dos mercados, nem as gestões danosas! Isto nada tem a ver com liberalismo, nem com social-democracia nem com socialismo! A ter a ver com algum ‘ismo’ será o neoliberalismo, cujas políticas têm conduzido os Estados e os cidadãos a uma cada vez maior dependência da agiotagem do capital global!
Maria de Lurdes Rodrigues segue na peugada de Jorge Coelho e Pina Moura, aquela nomeada por Sócrates para a presidência da Fundação Luso-Americana.
Atendendo a estas novas oportunidades hoje muito em voga, parecem estes nomeações dentro da normalidade, mas para aqueles quem tiverem empedernidos pais que educaram a que a experiência, o empenho e o saber acumulado eram as únicas vias para aceder a funções mais nobres, estranham…
Paciência, que estranhem! Não há pachorra para aturar esses ‘cotas’!
Dos discursos de Cavaco Silva e Sócrates de hoje sente-se que ambos usaram da franqueza para anunciar os seus fios de rumo:
É necessário encontrar compromissos com as outras forças políticas, ouvir os agentes sociais e as organizações da sociedade civil (…)
– Cavaco Silva
Os dados estão lançados, ambos recordando o “Chico Fininho” de Rui Veloso e Carlos Tê:
“Gingando pela rua
Ao som do lou reed
Sempre na sua
Sempre cheio de speed
Segue o seu caminho
(…)”
Duvido que seja ao som de Lou Reed, mas enfim…
Certo fiquei de que Sócrates sente urgência no regresso à maioria absoluta e esse, sim, será o que norteará o seu rumo.

