Anunciada a interrupção da edição durante o mês de Agosto para remodelação, comprarei hoje aquele que sinto ser o último número de “O Primeiro de Janeiro”, o jornal lá de casa, a de meus pais, aquele que, desde que de mim memória tenho, sempre era colocado na soleira da porta pelo jornaleiro, antes da leiteira e depois da padeira.
Nada é eterno, mas nada morre enquanto a nossa memória vida der. A morte não está ligada apenas ao desaparecimento fÃsico, mas ao apagamento da memória individual e colectiva. Assim é para mim, com as pessoas e com as coisas, sem necessidade de me socorrer de qualquer aculturação religiosa. Tudo está vivo desde que os vivos guardem memória, ou seja, atribuam relevante significância para a sua existência.
O Primeiro de Janeiro está ligado, sem dúvida alguma, à história da cidade do Porto, sendo importante, independentemente do que vier a acontecer, que as entidades competentes zelem pela conservação do seu acervo.
Arquivo de: ‘Porto’
Arranca hoje, no Porto, e durará até 8 de Junho a XXXI edição do ‘FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica‘.
Nascido em 1977 pela mão da ‘Companhia Seiva Trupe’, o FITEI tornou-se um festival de referência mundial do teatro de lÃngua portuguesa e castelhana.
Este ano haverá 24 espectáculos produzidos por 15 companhias em vários espaços da cidade, desde o Teatro Nacional de São João, a Serralves, passando pela Casa da Música e pela Avenida dos Aliados, incluindo ao ar livre, com grupos oriundos de Portugal, Espanha e Brasil. (ver programa)
Saliente-se que a ‘Xunta de Galicia -ConsellarÃa de Cultura e Deporte’ e o ‘Instituto Galego das Artes Escênicas e Musicais’, escolheram o FITEI para a apresentação em Portugal do Plano Galego das Artes Cénicas, um documento que visa promover a difusão social, reforçar a estabilidade das empresas, fomentar a criatividade e promover a protecção exterior do sector cultural na Galiza, cruzando as dimensões social, artÃstica e económica das artes do espectáculo.
Sempre à s segundas-feiras, à noite, noite dentro, numa cave, cave de fumo, de fumo e de álcool, e de pouca luz e de fumo, mas sempre a propósito da poesia e de a bem dizer, de a amar, de a sentir, de irmos por onde ela…, ela e Joaquim Castro Caldas nos transportava.
Foi ontem, há 20 anos, que me iniciei a descer à cave do Pinguim Café para ouvir não já música, mas Castro Caldas, ele e quem queria dizer, dizer o que há muito no Porto o hábito se perdera - poesia.
Na quinta-feira, 13 deste mês, regressaremos ao Pinguim Café para homenagear quem bem nos fez, Joaquim Castro Caldas, 20 anos depois, onde estará, com certeza, o seu último livro - Mágoa das Pedras.
Bem-hajas Joaquim Castro Caldas pelo que de ti por amor à poesia (nos) deste.
Da Associação Guilhermina Suggia, em boa hora formada e mantida por VirgÃlio Marques, autor do blogue Guilhermina Suggia, recebemos um convite que é expansÃvel a toda a população do Porto e, em particular, a todos que, como eu, acham que ainda muito há a fazer para manter viva a memória desta nossa insigne violoncelista.
A Associação Guilhermina Suggia e a Câmara Municipal do Porto têm a honra de o convidar a assistir à colocação de uma placa evocativa na casa onde viveu e morreu a Grande Violoncelista – Rua da Alegria, n.º 665, Porto. A placa, da autoria da Escultora Irene Vilar, será descerrada no próximo dia 27 de Junho, às 18.30 horas.
Em memória da memorável ante-estreia da encenação de La Féria de Jesus Cristo Superstar no Rivoli não queria deixar passar este elevado momento sem ofertar à selecta clientela deste blogue algo de apropriado e inesquecÃvel.
Aqui vos deixo o meu singelo tributo, uma montagenzita com as imagens constantes no sÃtio da Câmara do Porto com uma música que me pareceu adequada à s personagens, à circunstância e ao mui cultural e performativo ambiente.
ps: Como seria devido gostaria de divulgar o(s) autor(es) das fotografias, mas depois de muito procurar no sÃtio da Câmara do Porto não encontrei as devidas referências.
Lindo, lindo esta coisa da cultura Rio / Féria! Cenas do Rivoli ontem fotografadas por Estela Silva.
As superestares da Caras lá estiveram como figuras incontornáveis do Porto.


ps: as fotografias foram sacadas, gentilmente, do Art&manha.
A vontade de Rui Rio concessionar o Rivoli a La Féria, bem como o respectivo inviezado processo, já por aqui foi por demais debatido, neste post e numa série deles ligados à polémica.
Que aconteceu de novo de então para cá? Aconteceu que La Féria entendeu vir para os órgãos de comunicação social dizer que a manifesta onda de má vontade existente quanto ao projecto de concessão de exploração (…) resultaria num “nÃvel de risco superior” ao previsto e que, em calhando, até não aceitaria a concessão, embora aceitasse o convite para apresentar a sua nova produção, Jesus Cristo Superstar, que estreia hoje!
Mais tarde ainda voltou ao palco mediático para dizer que encontrou o espaço tecnicamente obsoleto embora houvesse muitos computadores nos escritórios, tendo sido obrigado a investir um milhão de euros em equipamento de som e luz, importado de Londres! Para quem ainda não aceitou a concessão investir 1.000.000,00€ é coisa de um autêntico mecenas!!! Qual encenador ou criador, o homem é um verdadeiro mecenas da cidade! Medalha de ouro, impõe-se ou cidadão honorário e benemérito!!!
Neste contexto o seu protector Rui Rio, através de uma coisa chamada Comissão Liquidatária de Gestão do Rivoli criou a figura de Criador Convidado, quiçá inspirado, precisamente, no tÃtulo da encenação.
E assim somos chegados à estreia da peça de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice encenada por La Féria que ontem vem avisar que afinal a sua decisão sobre se aceita ou não a concessão do Rivoli dependerá do êxito do espectáculo “Jesus Cristo Superstar”, que estreia amanhã à noite no Porto. “Eu não posso arriscar a ter fiascos. As empresas privadas vivem sempre desta angústia. Tenho 122 salários para pagar no final de cada mês”, sublinhou, ontem, o encenador em conferência de Imprensa. Deixou claro que só assumirá a gestão do teatro municipal, se o público aderir ao musical, que funcionará como um “teste”. (via Jornal de NotÃcias).
Eu não tenho dúvidas sobre o sucesso desta encenação de La Féria, nem muito menos o Criador Convidado, mas confesso o nojo que me assola quando ouço e vejo estas tricas de marquetingue barato! Não há pachorra!
O Criador Convidado terá sucesso, Rui Rio evitará despesa, o Porto ficará culturalmente mais pobre, não por permitir que La Féria lá apresente as suas produções, mas por o fazer em concessão exclusiva!
Entretanto, via Ana C. tomo conhecimento de que está programado um protesto silencioso junto ao Rivoli, mas para mais pormenores o melhor é ler no Art&manha.
Bon voyage messieurs Rio e La Féria!
Ainda não recebi a dita cuja programação da Casa da Música, mas a avaliar pelo que o Heitor vai adiantando no desNorte só espero que a Sra. D. Gabriela Canavilhas continue a comentar uns concertozitos porque é uma grande mais valia para a instituição!
É caso para perguntar: que seria da Casa da Música sem a Sra. D. Gabriela Canavilhas?
Faz hoje 25 anos que Pinto da Costa venceu as primeiras eleições para a presidência do F C do Porto.
Num momento conturbado da sua vida e defendendo eu que todos, sem excepção, devem prestar contas à justiça, não quero deixar de prestar a minha homenagem a quem desmontou um sistema de décadas onde apenas cabiam dois clubes, catapultando o F C do Porto para a ribalta do futebol mundial.
Com ou sem apito dourado, Pinto da Costa foi até agora um dirigente desportivo sem paralelo, conseguindo que o clube que dirige rivalize com os melhores do mundo, dotados de orçamentos 10 a 15 vezes superiores.
A justiça não pode ser unÃvoca nem sequer biunÃvoca - deve ser multilateral - sendo neste contexto que este post me pareceu apropriado.
Parabéns Sr. Pinto da Costa pelo que tem feito pelo F C do Porto!
Isso seria ouro sobre azul, Tiago A. Fernandes, embora duvide que ele aceitasse!
Basta recuarmos um pouco para vermos que de há uns anos a esta parte Artur Santos Silva evita, por uma questão de dedicar-se mais à vida pessoal, suponho, assumir funções de elevada responsabilidade executiva. Não obstante, não tem deixado enquanto cidadão de indicar as pessoas certas para os lugares certos, podendo talvez tentar formar-se um movimento encabeçado por ele, onde se possam incluir as pessoas que considera mais adequadas para levar a cabo a revitalização do Porto e da região que representa.
Casa da Música a… resvalar?
A propósito do concerto que Murray Perahia deu anteontem na Casa da Música o HVA, no desNorte, escreve um texto que subscrevo na Ãntregra, pelo que escreve diz e pela elegância com que justamente se indigna!
A Casa da Música está a mudar, vai mudando, vai refazendo-se, vai esquecendo o que Alves Monteiro legou! (ver aqui, aqui e aqui)
Deixo um breve excerto do texto do HVA:
Não sei se tem a ver com o regresso do filho pródigo, mas sei que a programação já não tem o fulgor (leia-se qualidade) de tempos não muito distantes. Parece que está mais variada, dizem-me. Naquilo que me diz respeito, quem quiser variedade(s) que vá ao Rivoli.
Rio, La Feria productions corporated
Devia à Cristina Vieira e ao Rui Rebelo uma posição sobre a troca de opiniões que deixaram nesta entrada. A Cristina ia exasperando com a demora, mas entendi esperar pela confirmação oficial(?) da concessão do Rivoli à Bastidores/Produções La Feria.
Confesso que valeu a pena esperar não pelo anúncio público do Presidente da Câmara antes de o apresentar à assembleia municipal, mas pelas reacções. Um espanto!
Uns calaram-se, vergados, talvez por considerarem que, pelo facto de La Feria ser uma garantia de bilheteira, será uma gloriosa vitória polÃtica de Rui Rio, enquanto outros, os do regabofe, toca a deitar abaixo La Feria por ser o diabo feito gente.
Rapidamente, porque nisto de posts não convém gastar muita tinta, La Feria merece-me a consideração que devo a quem faz, e com qualidade (não é pouco, não) e adianto que não tenho dúvida de que o produtor/encenador ancalçará êxitos de bilheteira nem dificuldade em admitir uma vitória “polÃtica” de Rui Rio.
Certo estou é de que, num momento em que se fala tanto em promiscuidade, em compadrios, em tráfico de influências, abrir um concurso de concessão para o Rivoli onde se exige que o concessionado produza quatro grandes produções anuais para a sala grande e mais quatro para a sala é, no mÃnimo, muito, mas muitÃssimo insuspeito…
Certo estou que uma sala de espectáculos como a do Rivoli apresentar na sala principal 4 espectáculos num ano é ridÃculo! Imagine-se o que para aà não se diria quanta folha de jornal não se gastaria se a Casa da Música, o CCB, Serralves, S. Luiz, para só citar alguns, fizessem 4 produções/ano! Cairia ao Carmo e a Trindade!
Certo estou de que esta vitória da politiquinha é uma derrota pesada para a cultura e um grave precedente para a gestão das cerca de 70 salas de espectáculo em Portugal, pois permite que as pessoas continuem a não querer saber que a formação de públicos não passa por estes equipamentos, mas pela escola, onde o ensino artÃstico continua a ser considerado como enriquecimento extra-curricular no 1º ciclo!
O negócio da cultura depende da sua compra, i.e., da vontade de a fruir, e após tantos anos a esbanjar dinheiro na oferta sem qualquer resultado (para mim, peço desculpa se firo alguém, existe um evidente excesso de eventos culturais em Portugal) ainda não aprenderam ou não querem saber que (vou repetir alguém) será através da fruição dos clássicos, da literatura, do teatro, das artes plásticas, da música desde tenra idade, que poderemos almejar a que daqui a uns 20 anos haja público interessado em manifestações culturais, clássicas e experimentais, e que as sustente.
Bem pode argumentar a Cristina que demora e que no entretanto o La Feria chama gente ao teatro. Bem pode ser…, o que não há é dinheiro para tudo nem a “palhaçada” prevista para a sala pequena colmata esta tontice!
4 produções/ano no Rivoli é uma ousadia que só uma pessoa invulgar poderá atingir! Não é o meu caso…, nem me habituo a comer de tudo e a calar, mesmo quando me esfregam nas ventas concursos, como direi, “enfeitiçados”…, talvez!
O Rivoli e a mediocridade lamacenta
Primeiro esvaziou-o de verbas, depois de programação, depois da sua directora e agora diz que se gasta muito dinheiro para o manter!
Quem é que pôs este homem à frente da Câmara do Porto sustentado no chavão publicitário - “acabar com a promiscuidade entre a polÃtica e o futeboll” - e agora ninguém o ouve falar dele? Ora puxem lá pela memória!
Entretanto, a ler “Rui Rio fecha as portas do Rivoli” pelo Tiago Bartolomeu Costa.
Via a Baixa do Porto vou tomando nota dos escritos do Arq. Alexandre Burmester sobre o projecto de Koolhaas.
Eu acho é que aquela merda devia botar-se toda abaixo e começar tudo de novo!
Entrega-se o projecto ao Alexandre (Burmester), a direcção ao Pedro (Burmester) e, por que não, a decoração ao Gerardo (Burmester) e, em vez de Casa da Música (foda-se, raio de nome tão mixuruca), Casa Burmester, em homenagem à gloriosa, homónima e familiar sociedade de vinhos espirituosos, recentemente alienada a espanhóis, por um daqueles patrióticos empresários que em idos tempos (pr’aà há uns 2 anos), em excursão rumaram a Belém para, pungentemente, clamarem junto do Presidente da República, contra a invasão de capital espanhol nas empresas portuguesas, privadas, pois então!
Esta era de leão! Porra, o Porto já não é o Porto? Já não há respeito pela gloriosa tradição familiar?
A Casa (da Música) não veio com manual de instruções. É um edifÃcio único no mundo, tanto em conteúdos como em definição arquitectónica”, esclareceu Francisco Pires, director de produção, remetendo para a génese do projecto - e para a figura de Pedro Burmester enquanto autor central da ideia da Casa da Música - a filosofia geral que deve ser aplicadaJornal de NotÃcias.
Como é Sr. director, a Casa da Música à espera do salvador? Tomem as gotas, de manhã e ao deitar, de preferência!!!
Via “a Baixa do Porto” tomei conhecimento de que a Ministra da Cultura pediu ao IPPAR para abrir um processo, com carácter de urgência, no sentido de classificar o edifÃcio da Casa da Música como património nacional, uma medida que protege, em certa medida, a área envolvente de construções futuras. (ver DN).
Desconheço o que terá motivado a Ministra a tomar esta medida, mas dá-me prazer ver que, aparentemente, “pequenos nadas” podem fazer alguma coisa, como seja a petição on-line para o efeito, contando neste momento com 879 subscritores, que aqui divulguei a dia 13 de Abril e cuja hipótese aventei aqui, a 18 de Abril, onde se pode ler o incómodo que esta medida provoca ao Dr. Rui Rio.
Enquanto se vai discutindo sobre se o conceito de “sociedade civil” é de direita ou de esquerda, enquanto se vão aquilatando sobre o que serão “causas de fundo” ou “micro causas”, os cidadãos, dentro das suas possibilidades e alheios à estéril verborreia, vão fazendo o que podem!
Quanto ao resto, “palavras, leva-as o vento”!
(aviso: texto longo só para quem se interessar pelo assunto)
Àcerca deste post do Rui A. e deste outro do João Miranda no Blasfémias apus lá 2 comentários que aqui reproduzo:
1 - «Um pouco de memória não faz mal a ninguém:
1.1 - Pedro Burmester saÃu do projecto Casa da Música de sua livre e espontânea vontade quando era assessor pessoal do Presidente do Conselho de Administração, M. Alves Monteiro;
1.2 - Apesar da “birra” incompreensÃvel de Rui Rio em teimar não querer Pedro Burmester na administração da Casa da Música, M. Alves Monteiro, bateu o pé e chamou-o para o seu lado, como seu único assessor;
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A Arte da Cultura bem Gerir
Alves Monteiro já há 4 meses como Presidente do Conselho de Administração da Casa da Música ousou aceder, pela primeira vez, prestar declarações públicas. LuÃs Miguel Queirós e Sérgio Andrade conduziram a entrevista e Nelson Garrido fotografou, tendo sido este trabalho publicado no Público de ontem, nas pags. 46 e 47, podendo aceder através dos seguintes links: a, b e c.
O resultado todos poderão constatar, a serenidade, a prudência, o respeito e a atitude de decidir e fazer avançar um projecto com um espÃrito de missão, não curando que ele seja contra alguém. Somos convidados a em silêncio sorver, palavra por palavra, imagem a imagem, a pertinência e profundidade das questões e respostas.
Em tempos defendi, aquando da salgalhada da Metropolitana, que a gestão de empreendimentos de envergadura, mesmo os artÃsticos, deveriam ser entregues a profissionais da área de reconhecida competência, dando como exemplo a solução encontrada por Pedro Roseta para a Casa da Música. Não me enganei! Os links estão ali em cima para que possam ler, mas não resisto a transcrever algumas passagens que deverámos encontrar num manual (se ele existisse…) de gestão da coisa cultural. Não farei qualquer comentário, apenas pretendo humildemente aqui registar o que de muito bem neste paÃs ainda se vai conseguindo fazer.
Vamos a isto.
Citação 1:
T�TULO: Alves Monteiro manifesta-se contra as especulações feitas a partir de relatórios preliminares das auditorias em curso à anterior gestão da Casa da Música.
PÚBLICO: Baseando-se num relatório intercalar da empresa Ernst & Young, à qual encomendou uma auditoria, Rui Amaral acusou a administração presidida por Teresa Lago de ter cometido diversas irregularidades. O que pôde apurar confirma este cenário? Quando estará de posse do relatório final desta auditoria, bem como da que está a ser feita pelo Tribunal de Contas?
ALVES MONTEIRO: Não há ainda relatórios definitivos. O Tribunal de Contas não produziu ainda qualquer documento, mesmo que preliminar, e da Ernst & Young existem dois relatórios intercalares, embora o último seja já bastante avançado em termos conclusivos. Acredito que, nos próximos meses, possa já estar na posse de ambos os relatórios finais, o que permitirá fazer uma mais detalhada apreciação das conclusões, que serão, sempre, do domÃnio público. Tendo em conta que o objecto e o contexto das duas auditorias são os mesmos, o mais sensato será esperar pelas conclusões do Tribunal de Contas.
PÚBLICO: A informação prestada nos relatórios intercalares da Ernst & Young confirma as acusações de Rui Amaral?
ALVES MONTEIRO: Preferia não comentar isso. Os resultados de auditorias devem ser divulgados no momento próprio, e quando os trabalhos estão fechados. Não sou nada adepto de especular em torno de relatórios intercalares.
Citação 2:
PÚBLICO - O que levou um gestor de instituições financeiras, com um longo percurso nas bolsas, a aceitar o desafio de administrar uma Casa da Música?
MANUEL ALVES MONTEIRO - Devo confessar que, após a cessação de funções como presidente da Bolsa portuguesa, em Março deste ano, estava longe de pensar que viria a ter, poucos meses volvidos, uma ligação profissional a um projecto com as caracterÃsticas da Casa da Música, uma área distinta, mas onde, afinal, idênticos princÃpios de rigor, de profissionalismo, de espÃrito de missão e, se quiser, de serviço público devem estar presentes. Aliás, por ser assim, sinto pouco a mudança e a diferença em relação a outros projectos por onde andei, ou que presentemente partilho com a gestão da Casa da Música. Sem dúvida que este projecto é muito aliciante, com uma ambição que o torna único no panorama cultural português, até pela expectativa que o rodeia e pela evidente complexidade que encerra.
PÚBLICO: Se esta administração herdou o mandato da que antes foi presidida por Rui Amaral, a sua missão resume-se a assegurar a conclusão da obra. Encara este lugar como uma tarefa a prazo certo, ou, se os accionistas assim o entenderem, admite manter-se no cargo, já com a Casa da Música a funcionar em pleno?
ALVES MONTEIRO: A herança que menciona não se resume a concluir uma obra de construção civil, por mais grandiosa que esta seja. O projecto que está cometido a este Conselho de Administração é bem mais do que isso. Desde logo, trata-se de criar as bases e os princÃpios centrais de uma componente editorial e de programação que se quer ambiciosa e que é, afinal, o coração substantivo do projecto. De seguida, pretende-se criar uma estrutura organizacional que suporte o projecto e o desenvolva, assente numa equipa de profissionais de elevada competência e espÃrito de missão. Pretende-se ainda que seja presente ao poder polÃtico uma proposta de modelo futuro de gestão do projecto, com uma clara ideia sobre a forma jurÃdica de organização, de governação e, naturalmente, de financiamento. Acompanhar as auditorias que vêm correndo na Casa da Música é também uma missão da administração. Tudo isto, em paralelo com a gestão de um conjunto vasto de intervenções no contexto da Porto 2001 - Capital da Cultura: obras de requalificação urbana e intervenções várias em equipamentos culturais. Quanto à questão que me colocam, o meu futuro imediato neste projecto está dependente da confiança que os accionistas tenham em mim, a cada momento. Sobre o futuro mais distante, não me quero pronunciar, até porque entendo que qualquer resposta poderá constituir um exercÃcio inoportuno de especulação, fragilizador do projecto ou da minha missão.
citação 3:
PÚBLICO: Quando fala em componente editorial, está a referir-se, por exemplo, a edições discográficas?
ALVES MONTEIRO: Um dos caminhos que a Casa da Música pode seguir tem a ver com a edição discográfica, mas não é nesse sentido que uso a expressão. Qualquer manifestação cultural consistente deve sustentar-se num princÃpio editorial. A Casa da Música deverá acolher um espectro extremamente alargado de tipos de música, desde as expressões mais populares, incluindo as bandas filarmónicas, até expressões mais eruditas. O jazz, nas suas diversas dimensões, terá uma expressão muito forte, mas também, por exemplo, o pop-rock, o fado ou a cibermúsica. Mais do que popularidade, pretende-se que haja qualidade. Muitas manifestações culturais começam por ser marginais, e por vezes vivem muito tempo na marginalidade, mas não é por isso que não devem ser acarinhadas.
Citação 4:
PÚBLICO: A comissão parlamentar de Ciência e Cultura vai ouvi-lo, já na terça-feira, recebendo, depois, os anteriores presidentes da administração da Casa da Música. Não receia que estas audições acabem por resultar numa apropriação do projecto para efeitos de disputa partidária?
ALVES MONTEIRO: Os deputados têm o direito de querer estar informados sobre matérias que considerem relevantes. E todo o historial da Casa da Música, com as correcções nas datas de finalização da obra e os sucessivos valores alocados ao investimento, suscitou e ainda suscita preocupação. É natural que os deputados queiram perceber qual é hoje a situação, e também ficar com uma ideia de como se chegou aqui. E julgo que poderão ter interesse em conhecer quem está à frente da instituição. Agora, se me pergunta se temo que possa haver uma apropriação polÃtica da Casa da Música, é evidente que temo. Acharia preferÃvel que um projecto com estas caracterÃsticas se mantivesse distante do debate polÃtico-partidário, e creio que os próprios partidos reconhecerão isso, mas a realidade é o que é e temos de conviver com ela. O meu objectivo é trazer serenidade para o projecto, o que implica fornecer informação tão exaustiva quanto possÃvel, mas, ao mesmo tempo, mostrar que estamos aqui com sentido de responsabilidade e espÃrito de rigor.
Citação 5:
PÚBLICO: Pedro Burmester é consultor da administração, reportando directamente ao presidente. Existe algum contrato que garanta que ele exercerá efectivamente a função de direcção artÃstica do projecto, ou isso depende apenas da solidez da relação de confiança que mantiver com o presidente?
ALVES MONTEIRO: O trabalho que tenho desenvolvido com o dr. Pedro Burmester tem incidido na definição do modelo de programação para a abertura da Casa da Música e para a primeira temporada, bem como na definição das acções e eventos que deverão ser desenvolvidos. É evidente que este trabalho tem implÃcita uma vasta reflexão sobre os princÃpios editoriais futuros da Casa da Música, criando as bases programáticas do que deverá ser este equipamento. O dr. Pedro Burmester mantém o estatuto de consultor do presidente para a programação, tal como anunciei publicamente aquando da minha nomeação, e assim temos trabalhado. A organização futura da Casa da Música está ainda em fase de definição, e somente a essa luz será possÃvel enquadrar a actuação futura do dr. Pedro Burmester, assim ele queira manter-se ligado a este projecto, como é minha convicção e intenção.
Citação 6:
PÚBLICO: A construção da futura sede do BPN nas traseiras da Casa da Música é um dado adquirido, ou acredita que possa ainda negociar-se uma solução alternativa?
ALVES MONTEIRO: Se tiver em conta a abertura que desde sempre senti da parte do presidente da Câmara do Porto e dos promotores do empreendimento, não estranharia que este “dossier” não esteja definitivamente encerrado e possa, ainda, sofrer mais evoluções positivas para a Casa da Música. Faz todo o sentido conceber que a zona a construir possa beneficiar de uma edificação que acumule a virtude de delimitar a área e de preservar dos olhares um espaço algo degradado e que em nada dignifica a grandiosidade do projecto do arquitecto Koolhaas. O que é necessário é que esta edificação possa ter a volumetria necessária e suficiente para garantir estes objectivos. O exercÃcio de conceber uma volumetria obediente aos interesses da Casa da Música não foi feito logo após a decisão da sua implantação, o que poderá ditar, agora, resultados que colidam com os legÃtimos direitos adquiridos dos promotores. Daà que a composição final destes interesses seja difÃcil. Pena é que se tenha permitido que o terreno em questão tenha caÃdo na esfera de interesses privados, legÃtimos e totalmente respeitáveis, sem que tenha sido feito o exercÃcio que referi. Por certo que teria desvalorizado o valor do encaixe da venda que a Câmara do Porto no passado realizou; porém, o projecto pedia essa medida de boa gestão, tanto mais que, segundo julgo saber, a venda ocorreu em fase bem posterior à decisão de implantação da Casa da Música no local actual. Afinal, um acto de pequena visão a embrulhar um projecto grande. Queiramos que as gerações futuras perdoem as fraquezas de alguns que as precederam.
Citação 7:
PÚBLICO: Quando fala de crianças, está a sublinhar que é preciso investir no Serviço Educativo da Casa da Música?
ALVES MONTEIRO: Sim, mas as crianças, e a juventude em geral, também deverão ter um grande espaço espelhado na própria programação, que atenda aos seus diversos gostos, mesmo os mais vanguardistas e radicais.
Citação 8:
PÚBLICO: A programação da Casa da Música tem sido várias vezes acusada de elitismo. Parece-lhe uma crÃtica pertinente?
ALVES MONTEIRO: O que vem sendo feito está longe de ser exemplificativo daquilo que deverá ser a futura programação. Não se pode esquecer que não temos ainda a Casa da Música a funcionar. O que fazemos hoje é investir naquilo que irá ser um conjunto de agrupamentos residentes, que merecem e exigem um trabalho prévio, para garantir que amanhã terão um bom desempenho. Mas o princÃpio que, no futuro, deverá orientar a programação é o de um grande eclectismo, ao nÃvel das manifestações e, sobretudo, do público.
Fim de citações.
Com humilde serenidade reflictemos.
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