Agitaram-se ontem as águas com o anúncio de uma fusão do 1º e 2º ciclos do ensino básico, a propósito de um estudo coordenado não pelo Conselho Nacional de Educação, mas por Isabel Alarcão e que está em fase de apreciação, onde se fala de transições por vezes traumáticas na passagem do pré-escolar para o 1.º ciclo e deste para o 2.º ciclo. (via Público)
Desde cedo surgiram as mais diversas reacções:
1 – Valter Lemos a dizer que As bases já estão criadas, o perfil dos professores já foi alterado de modo a que, se for preciso, estejam preparados para a mudança; (via Portugal Diário)
2 – a ‘confap’ do Dr. Albino a dizer que pretende 3 professores desde 0 1º ciclo e não o Professor Único que há muito advoga Valter Lemos; (via Público)
3 – um pediatra que aparece não sei de onde a dizer que Não se pode fazer uma transição tão brusca. Do 1º para o 2º ciclo muda-se de espaço, de colegas, de matérias e também de um professor para uma data deles. (via Público)
4 – Maria de Lurdes Rodrigues, apesar do que disse Valter Lemos, afirma que Não é o meu objectivo e isso não estava no programa do Governo, não estava no nosso programa. (via RTP)

Valter LemosDesde que Valter Lemos profetizou sobre o ‘Professor Único’ (ver atrás) e que a Ministra da Educação anunciou o alargamento da ‘Escola a Tempo Inteiro’ que se adivinhava uma série de alterações no que concerne ao ensino básico. Aliás as Escolas Superiores de Educação já estam a licenciar professores generalistas e a graduar mestres, com as facilidades de Bolonha, em educadores de infância, professores do 1º ciclo e professores do 2º ciclo. Tudo se conjuga para haver alterações no ensino básico até ao 6º ano, para já, e até ao 9º em breve.

Convém, no entanto, ler, ler atentamente o estudo em causa que me aprece bastante completo e bem feito e não nos limitarmos às suas conclusões, ainda que ricas e não só assentes no que vem sendo propagado. (pode fazer o download directo do pdf daqui)
Para já ficam algumas notas que saliento:
1 – alguma desarticulação entre Maria de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos;
2 – a irrelevância da observação da Ministra sobre o facto de não constar no programa de governo! A alteração dos regimes de frequência do ensino artístico especializado também não constavam e nem tal facto demoveu a Ministra nos seus intentos e tudo poderá ir avante sem utilizar a expressão ‘fusão’.
3 – sempre que o Ministério da Educação pretende alterar profundamente algo no sistema educativo surgem sempre conferências e estudos elaborados por académicos reputados.

Apesar destas constantes, leia-se o estudo porque vale a pena e tem matéria para reflectir.
Volto só a referir que nos exemplos de outros países falta, como vem sendo já habitual em estudos sobre educação, o caso alemão que, por sinal, no que ao assunto diz respeito, opta pela diversidade de professores em detrimento da mono-docência desde o 1 º ano do 1º ciclo para evitar o tal ‘choque’ ou ‘trauma’ na referida transição.

Anterozóide, ora vejam aqui! O seu a seu dono!
Já agora, o Anterozóide é um blogue de excelentes cartoons que desconhecia.

A Jacky, que não brinca em serviço, apresenta a 1ª candidatura a PU – Professor Único – com este criterioso currículo.

Para meu espanto, reagindo ao que aqui escrevi, o Prof. Piotr Kropotkine, entende que a medida terá sido aventada a pençar nos superiores intereçes das crianças e, indo mais longe, adianta: aliás há que pruteger os adulescentes e purtanto puderiamus estender o concçeito mais além e o prufeçor único ir até ao doutoramento…..
Mas leiam o post completo para conhecerem as elaboradas considerações que o levaram a sustentar estas afirmações.

Ainda sobre o PU (utilizando a sigla da Jacky) há um aspecto que neste post não foquei, mas que não passou despercebido à Susana Serrano num comentário – as ESE’s! Transcrevo parte dele:

«É uma absoluta irresponsabilidade ministerial!
Durante os últimos 20 anos investiram nas ESEs, em cursos semi-especialistas, de má qualidade geral, para cobrir o 2º ciclo essencialmente e dar formação “mais credível� aos professores do 1º ciclo, deixando mais uma vez “as disciplinas artísticas, menores� de fora do currículo. É verdade, estas últimas, pagas a recibo verde agora e dadas como actividades extra-curriculares, estão na lei, no currículo do 1º ciclo há já muitos anos.Na realidade só o Inglês ainda não fazia parte do currículo do 1º ciclo, era só intenção.
Os resultados do investimento nas ESEs são também muito contraditórios e ainda não foram nem analisados, nem investigados e muito menos avaliados seriamente, assim como tudo neste ME que temos; como tal parte-se para outra mudança. Acho que a maioria das pessoas não acredita nisso e os sindicatos mais uma vez vão pegar no assunto pelo único lado que não deviam.
» Susana Serrano

Com efeito, num momento em que toda a gente já sabe do logro que as Escolas Superiores de Educação (ESE’s) representaram para a diminuição da qualidade do ensino superior em Portugal (com honrosas excepções, claro), esta medida do Professor Único viria dar um novo fôlego ao incrementar as inscrições nessas instituições em detrimento das universitárias, sabendo nós que elas correm sério risco de desaparecer por falta de alunos, i.e., por desinteresse do mercado! (ver notícia do Público 11 de Julho de 2006)
Então, para além da medida ser má para a qualidade do ensino pelas razões adiantadas, ainda se acrescenta esta desconfiança (para não dizer suspeição) de favorecimento encapotado das ESE’s, para mais sabendo que o Secretário de Estado Valter Lemos foi um dos grandes impulsionadores destas instituições, tendo sido Presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco desde 1996 e Presidente da Politécnica – Associação dos Institutos Politécnicos do Centro desde 2003, funções só deixou quando foi convidado para este governo!

«O primeiro-ministro, José Sócrates, garantiu hoje que a educação será uma prioridade do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) 2007/2013» (Público)

«O Governo quer que os alunos até ao sexto ano tenham um único professor a leccionar as áreas básicas.» (Público)

Atão qrenem ou não?
Eu, por mim, assim no mesmo dia, ò pessoal, tomem as gotas! Dasss

Contrariando a tendência que se constata em quase toda a Europa, excluindo França donde teimamos decalcar, o governo ensaia na comunicação social a ideia de prolongar o professor único até ao 6º ano.

«Segundo Valter Lemos, secretário de Estado da Educação, o que se quer evitar é que, do quarto para o quinto ano, os alunos passem de um professor para dez, amenizando a transição curricular das crianças, algo que tem sido uma das críticas mais frequentes feitas por outros sistemas educativos europeus ao sistema português.» (Público)

Amenizar a transição curricular das crianças é um objectivo salutar mas, enquanto na Europa se caminha para, desde o 1º ano, os alunos terem professores por disciplina e horário semanal fixo para cada uma (bastaria o Sr Secretário de Estado ir ao Colégio Alemão, por exemplo), por cá a via é cortar ao n.º de professores, implicando uma redução assustadora da qualidade do ensino prestado, já que a especialização individual e o trabalho de equipa são um caminho sem retorno no que ao conhecimento diz respeito.
Francamente, acho que esta ideia cairá por ela própria sob pena de regredirmos dezenas de anos, mas espero que os sindicatos, em vez de se porem aos berros contra a redução de professores que a medida implica, abordem o assunto pelo lado da preservação e incremento da qualidade do ensino nas escolas, desde o 1º ano!
Esta ideia é das tais que nem a um guarda-livros lembraria!