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Arquivo da Categoria ‘Reflexões’

Eleições Europeias – derrota, lumbago e usurpação do poder

Muito gostaria de me alongar, com detalhe, sobre a análise dos resultados das eleições europeias, mas o diacho de um lumbago, que me impede de tomar assento e até de com juízo pensar, inviabiliza a prossecução do meu intento.
Ainda assim, pretendo deixar, desde já, registado que o resultado deste acto eleitoral revela, antes de tudo o mais, uma penosa derrota de TODOS os democratas, em geral, e do sistema partidário que suporta a nossa democracia, em particular.
Esteve bem Cavaco Silva ao não endereçar, na sua qualidade de Presidente da República de todos os portugueses, os parabéns a nenhum dos partidos, uma vez que é repugnante, ou, no mínimo, eticamente irresponsável, um partido regozijar-se com desavergonhados festejos, quando alcançou 11,7% de votos entre o universo eleitoral.
63% de abstenção representa, insisto, uma penosa derrota de todos nós – os que votaram e os que não votaram -, devendo obrigar-nos a todos, enquanto cidadãos democratas civicamente empenhados, a reflectir sobre a melhor forma de promover o exercício de uma cidadania activa (que inicia muito antes do voto e nele não se pode esgotar), que proteja a liberdade e promova uma democracia onde os cidadãos se revejam e sintam vontade de participar.

O facto de não me ser possível reconhecer a vitória de qualquer dos partidos envolvidos, não posso deixar de sublinhar que existe um que saiu derrotado nesta liça, o PS, já que foi o único partido com assento parlamentar que perdeu votos. Não ousando concorrer com a ilustre plêiade de comentadores que pululam em todos os órgãos de comunicação social, não posso deixar de manifestar a minha estranheza pelo facto de não ter ouvido um único que o partido socialista tenha sido, nestas eleições, penalizado por faltar ao compromisso assumido na sua campanha eleitoral para as eleições legislativas de chamar os cidadãos a referendarem o novo Tratado Constitucional, o qual, com cosméticos retoques, travestiram-no de ‘Tratado de Lisboa’.
O sistema partidário, tanto cá como pela Europa a fora adensa-se numa partidocracia cada vez mais distante dos europeus e da construção do sonho, cada vez mais distante, de uma ‘Europa dos Cidadãos’. A usurpação do poder parece ter-se tornado normal, e com naturalidade aceite, por todos os partidos da União Europeia ao assumirem a representação e tomarem assento em parlamentos sem a legitimidade do voto que deveria, eticamente, ser condição, sine qua non, da constituição de representatividade democrática.
Peço desculpa por mais não me alongar, mas este lumbago não é fácil, nem simples, nem cómodo de aturar.

OCDE contradiz Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite

A OCDE, através do seu secretário-geral, contradisse, categoricamente, o que Manuela Ferreira Leite e Cavaco Silva, este por via mais implícita do que explícita, vêm a transmitir aos portugueses numa feroz e muito pouco limpa pré-campanha eleitoral. Angel Gurria, afirmou, sem possibilidade de diversa interpretação, que as reformas da segurança social e a da administração pública e o controlo do défice, levadas a cabo por este governo, permitem que

Portugal esteja agora melhor preparado para responder à crise internacional do que no passado, e que tal se deve às reformas implementadas pelo Governo.
(…)
Portugal, no passado, sofria mais do que a média durante as crises internacionais, mas desta vez isso não está a acontecer. (via Público)

Há muito por onde criticar este governo, mas a estratégia montada para derrubar Sócrates, não suspeitando, embora parecendo até que por acordo, veiculada por Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite, associações empresariais, alguns empresários e comentadores a eles afectos, entrou numa espiral de inverdades que carecem de fundamento político e ético, tão mais grave quanto é de ética política que dizem pretender falar e defender.
Façam oposição a Sócrates, à sua governação, mas peguem naquilo em que, de facto, não governou ou governou mal (não falta matéria, desde a educação, passando pela cultura, a falta de apoios específicos destinados à a classe média / baixa endividada e dizimada pela banca, pela ajuda a bancos, eu sei lá que mais…), senão correm o risco de, como agora aconteceu com a OCDE, de serem publicamente envergonhados.

Crise, depressão, advento de nova ordem mundial?

Crise foi termo que abandonei por vergonha e respeito por mim, adoptando o de ‘Depressão Neoliberal’ para caracterizar as consequências que começamos a sentir devido às políticas neoliberais implementadas nas democracias ocidentais no início dos anos 80 do século passado.
Convicto estou de que seja que retoma for que possa, eventualmente, surgir, nada voltará a ser como dantes – ou enveredamos por um neoliberalismo ainda mais feroz, cavando a sul-americanização da União Europeia e dos EUA, ou cairemos na tentação de sobrepor uma estatização da economia que abafa a liberdade individual e a respectiva criatividade, seja económica, social ou cultural. Meio termo, temo que não haja coragem. Coragem para continuarmos a defender um modelo liberal assente em Estados sólidos na compensação e defesa dos que mais necessitam.
No entanto, entre ontem e hoje, surgem dois indicadores que adensam as minhas interrogações:

Vendas a retalho nos EUA caem inesperadamente pelo segundo mês consecutivo (Jornal de Negócios)

Vendas a retalho na China aumentaram 14,8 por cento em Abril (Público)

Não estaremos mesmo no advento de uma nova ordem mundial, com o pólo central a deslocar-se, tão camuflada quão vertiginosamente, para o Extremo Oriente, onde a aliança entre o capitalismo e as ditaduras será o novo paradigma?

Para que servem a arte e o conhecimento em geral? – Valter Hugo Mãe

Sócrates – entrevista de mainstream

Sócrates saiu-se mais uma vez bem da entrevista na RTP1 conduzida por Judite de Sousa e José Alberto Carvalho. É natural: por um lado Sócrates tem provas dadas nestas andanças e, por outro, as perguntas não poderiam ter sido mais óbvias. Sócrates preparou-se, concentrou-se e teve até tempo para dar uma de ‘luva branca’ a Cavaco Silva.
Os jornalistas não conseguem mesmo sair do ‘mainstream’ que eles próprios criam no dia-a-dia e por isso ficámos sem saber o que pensa o Primeiro-Ministro de assuntos tão prementes como os meandros da nacionalização do BPN, os avales ao BPP e que pensará sobre o papel do ‘lobbie’ da indústria farmacêutica na querela entre médicos e farmacêuticos com profundos reflexos na bolsa dos cidadãos.
Curiosamente as dezenas de comentadores e políticos de outros partidos, que prontamente reagiram, ficaram-se, também eles, pelo Freeport, pelos investimentos públicos e pelas relações com Cavaco Silva! Políticos e comentadores ficaram satisfeitos, ora dizendo mal, ora bem, mas satisfeitos, sim, porque lhes foi dado espaço e tempo de antena para dizerem coisas.
Sobre gestão pública, nada! O ‘mainstream’ de sempre, para bem do espectáculo mediático e gáudio de seus artistas de entretenimento!

Fernanda Câncio e TVI24

Sem adiantar motivos o JN noticia que Fernanda Câncio deixou de ser comentadora do programa ‘A Torto e a Direito’, exibido na TVI24.
Em tempos evitei abordar um muito soez comentário a propósito de um convite a Fernanda Câncio dirigido pela RTP2. Agora, sobre esta saída do ‘A Torto e a Direito‘, francamente, não me espanta. Espantou-me, sim, foi Constança Cunha e Sá tê-la convidado e mais ainda Fernanda Câncio ter aceite…, ter aceite a defesa do PS (sentada à esquerda da entrevistadora) num programa de comentário político / partidário!

Dia Mundial do Teatro 2009 – reflexões

Comemora-se hoje mais uma Dia Mundial do Teatro com poucas, muito poucas razões para festejos. Não tenho memória de um momento tão constrangedor para a cultura em Portugal. Nem no tempo de Salazar! Inconveniente, não é, mas é isso que sinto mesmo sem vestígios de saudade desses tempos.
A SPA – Sociedade Portuguesa de Autores, através dos laureados este ano, Filomena Oliveira e Miguel Real, colocam o dedo bem funda na chaga:

Hoje, encontrar um político culto, que encare a arte como uma respiração vital da sociedade, é uma raridade. A sociedade actual, na qual escrevemos, representamos e encenamos, arrancou a alma ao homem, desespiritualizou-o, fez do homem um consumidor eufórico, asfixiado em objectos que o não deixam respirar. (ver notícia)

Ressalvo o consumidor das suas palavras só porque me parece de que nem já para isso, de futuro, socialmente seremos relevantes. Excedentários, talvez, nas palavras de Viviane Forrester.
Falam de uma luta, ainda, uma luta que há uns 30 anos julgaríamos tratar-se de um anacronismo:
A luta do teatro, hoje, “é contra a mediocrização geral da sociedade e a violência dos quadros legais que servem os interesses do Estado em nítido desprezo pelo sector cultural”.
Não muitos dias o Diário de Notícias publicava uma proposta apresentada no início deste ano do actual embaixador da UNESCO Manuel Maria Carrilho para Portugal, onde denuncia:

(…) a atonia e a desorientação que têm marcado áreas tão vitais como as do livro e da leitura, do cinema e do audiovisual, em que não se vislumbram, ao nível da tutela do sector, quaisquer opções, orientações ou políticas. A política cultural tornou-se assim cada vez mais invisível, ilegível e incompreensível (…).

Francisco José Viegas, entre outros dá notícia do texto de Carrilho, mas vai mais além da proposta óbvia de Carrilho, ao equacionar, muito a propósito, que papel deve assumir o Estado numa educação para a cultura, ou como tenho insistido, um Educação em Cultura e na valorização dos projectos de itinerância transversais às diversas manifestações artísticas.
Francisco José Viegas afirma, e subscrevo eu, que o texto de Carrilho é corajoso. Corajoso, sim, mas óbvio, permitam-me. É que Carrilho, apesar do diagnóstico certeiro, apela a mais do mesmo, do mesmo que outrora como ministro fez, parecendo esquecer que a UNESCO, da qual é embaixador de Portugal, parece ter desaparecido ou, pelo menos, acoitada em serviços mínimos e duvidosos!

A interrogação que hoje nos assoma será para que servirá o Estado despender largos recursos a apoiar a criação e a disponibilizar manifestações culturais de qualidade se abandonou o ensino da música, do teatro, da dança, das artes plásticas, ao retirar-lhes a possibilidade de poderem prosseguir com uma educação artística que prepare para procurar e compreender a qualidade artística?
A continuação da separação estanque entre a política cultural e a educativa é um erro crasso nestes novos tempos, uma vez que as elites de outrora, as que procuravam e frequentavam e incentivavam as manifestações artísticas recebiam uma educação precoce em casa, fosse por imitação dos pais, fosse por dedicação dos mesmos ao cultivo do espírito. Hoje esses tempos estão passados e não se antevê qualquer possibilidade de regresso, bem pelo contrário – os pais já não têm o cabedal de instrução necessário, não têm tempo para dedicar incentivar os filhos e as novas tecnologias, mormente a televisão, primeiro, e a net, hoje, são os principais canais de transmissão de valores assimilados pelas crianças e adolescentes.

A conjunção destes factores coloca-nos diante de uma realidade completamente nova que o Estado deve saber que quer, se pode e de que forma intervir, colocando, desde logo outra questão: será viável tecer uma política cultural e educativa sem associar uma política para o audiovisual? Será que, neste quadro, alguém em seu sano juízo advogará que um serviço público de audiovisual se bastará com fazer telenovelas portuguesas e com o despejar, de qualquer forma e a qualquer hora e a todas as horas, notícias e comentadores de notícias? Isso é que é serviço público de audiovisual?
Meus senhores, sem me deter sobre telenovelas, através da internet notícias temos hoje na hora e os comentadores escolhemo-los nós! Para quê pagar um serviço público de notícias que já conhecemos e comentadas sempre pelas mesmas pessoas que nem serão as que mais interessarão a cada um dos telespectadores?
Será que um serviço público de audiovisual não poderia passar por encomendar e (tele) difundir conteúdos culturalmente adequados aos currículos escolares, tanto no que concerne às artes como às demais expressões culturais, como a literatura e a história? Não será que esta seria uma medida para remunerar o trabalho de artistas, gente das letras e da cultura em geral, em vez de fomentar um a política que promova a subsídio-dependência?

Voltando um pouco atrás, quais as contribuições da UNESCO para responder a estas novas realidades, ou seja, ao advento da ’sociedade digital’? Em poucas palavras, o silêncio. Absoluto. Ignora. Continua a tratar a cultura ou como algo só revelado a uma elite bem-pensante ou, em jeitos de insanas manhas ‘democraticamente’ travestidas advogar o financiamento de toda a porcaria que se lhes apresente com a designação de ‘educação artística’! Educação Artística com pedagogia adequada para crianças burrinhas! Existem pedagogias específicas para despertar e sensibilizar as crianças para artes e para a formação de identidades cultas? Claro que sim. Mas depois desse despertar exigem-se escolas que facultem um ensino de qualidade, exigentes no ensino e na avaliação, para formar pessoas e não ‘burrinhos’!

Este embuste cultural e educativo partiu também da UNESCO e chegou a toda a Europa, com mais ou menos força, mas não se pense que o facilitismo educativo e cultural não está a assolar o conjunto da União Europeia, impedindo as novas e futuras gerações de fruir manifestações culturais de qualidade.

O Estado tem hoje, se pretender intervir na cultura, de equacionar transversalmente uma política de gestão cultural que englobe acções concertadas entre tutelas ainda estanques e inconsequentes no que à formação cultural diz respeito.

À boleia do Dia Mundial do Teatro vai este texto já muito longo, mas permitam-me a vaidade de me parafrasear do que já em 2006 defendia em ‘Perspectivas para uma nova Escola‘:

Sem esquecer a essência da escola – ensinar – o que está hoje em causa, em especial nos primeiros anos de escolaridade, diria até aos 16 anos, é dotar as crianças e adolescentes de uma vivência multidisciplinar integrada o mais abrangente possível, onde o habitat digital seja natural, permitindo-lhes adquirir uma consciência crítica que propicie a construção de identidades, com fundamentos éticos e morais, capazes de participar e interagir criativamente na construção deste novo mundo – a passividade na sociedade digital conduz, inevitavelmente, a fracturas na coesão social.
Neste contexto, as soluções não poderão continuar a ser um exclusivo do Ministério da Educação! A questão é educativa, é certo, mas antes do mais, é cultural, de gestão cultural, mais precisamente (política cultural se se preferir), onde a interdisciplinaridade será obrigatória, envolvendo, profissionais de educação, sim, mas sociólogos, antropólogos, psicólogos, artistas, especialistas de audiovisual e media digital e, necessariamente, de gestores capazes de traçar objectivos precisos e objectivamente quantificáveis e avaliáveis.

Weisman e cara vermelha - teatro da RainhaPara hoje, sim, porque tudo começou com teatro, sugeria uma ida ao Carlos Alberto para ver uma produção do ‘Teatro da Rainha‘ a apresentar Weisman e Cara Vermelha de George Tabori.

Ficha Técnica:

tradução: Carlos Borges

encenação: Fernando Mora Ramos

interpretação: Bárbara Andrez, Carlos Borges, Fernando Mora Ramos, José Carlos Faria/Octávio Teixeira

cenografia e figurinos: José Carlos Faria

música: Carlos Alberto Augusto

desenho de luz: António Anunciação, Fernando Mora Ramos

Cavaco Silva – o desemprego e o conhecimento

Os títulos dos media são muitos e variados sobre a mensagem que Cavaco Silva deixou hoje aos desempregados do Distrito de Braga:

deixo-vos a minha solidariedade, o que é pouco, mas não tenho mais para dar.

Parece pouco? Pois a mim parece-me muito. Muito mais do que esperaria de Cavaco Silva ou de qualquer outro político ou economista – a humildade de reconhecer que não sabe, não tem solução, mas que está ao lado deles.
Estou surpreendido? Mais do que isso. Estou rendido!
O que mais me tem incomodado neste início de depressão é a facilidade com que políticos e especialistas ou especialistas políticos apontam causas, afirmam conhecer a dimensão, têm previsões e curandeiras soluções, seja através do anúncio de medidas para combater o que chamam de “crise”, sejam as chuvas críticas sobre medidas tomadas e o anúncio de que deveriam ser, antes, outras.
A única verdade que retirei, ou melhor, confirmei é a do logro, de cientificidade investido, que os economistas incorriam, sem pudor, ao fazerem futurologia através do tratamento estatístico das continuidades. Denunciaram os planos quinquenais de Estaline sem curar de reconhecer que o que os distanciava deles não era a intenção, mas tão-só o prazo.
Das descontinuidades a ferramenta estatística de nada serve para ajudar a compreender. De rigorosamente nada.
Ao dizer o que disse hoje, Cavaco Silva deu uma lição de humildade a todos aqueles que ainda tempo não tiveram para olhar para o cosmos e reconhecer que o conhecimento humano não representará mais do que um grão de areia diante da magnitude do que ainda não compreendemos, e que será da assunção dessa humildade que as interrogações nos sobressaltam que surge a motivação para busca da compreensão, do conhecimento científico.

“Chapeau”, Presidente Cavaco Silva, mas…

não sabendo, pois não é obrigado a saber o que se não conhece, não permita que a nossa ignorância se constitua em motivo para não exigir muita prudência na sustentação de entidades bancárias, com e sem produtos tóxicos, uma vez que deverão os Estados preparar-se para assegurar, na medida do possível, os que mais irão sofrer com o que ainda estará para vir. E isso sem pensar em neoliberalismos nem socialismos, mas sim nas pessoas.

Sócrates e Manuela Ferreira Leite – presunção e água benta

Enquanto que Sócrates afirma no último congresso do seu partido que os Portugueses podem continuar a contar com o PS, Manuela Ferreira Leite queixa-se que não se ouviu uma palavra sobre os problemas do país e era isso que eu julgo que os portugueses deveriam ouvir (…) adiantando ainda que (…) as conclusões que tirou não serão diferentes das “que todos os portugueses tirarão”.
Ora acontece, Sra. Dra. Manuela Ferreira Leite que, se uma sondagem fosse feita, ficaria, certamente, muito surpreendida pelo facto de mais de 90% dos portugueses não fazerem a mínima ideia do que foi dito ou não dito no congresso do PS; por outro lado, e mais grave, é que por sua responsabilidade, o Eng. Sócrates não terá razão na sua afirmação – em boa verdade seria mais correcto afirmar que não podemos é contar com mais ninguém para além do PS, uma vez que a sua liderança fez o PSD, pura e simplesmente, esfumar-se como alternativa e até como partido.
Julgo que nem será preciso o Eng. Sócrates carregar muito com o tema da regionalização para ‘enfrangalhar’ de vez o PSD.

Justiça – Mesquita Machado é o senhor que se segue

Mesquita MachadoMesquita Machado, após denunciar, alto e bom som, que o Braga foi ‘roubado’ nos jogos contra o Benfica e o Porto, demitiu-se de presidente da assembleia geral da Federação Portuguesa de Futebol, tendo a TSF reproduzido que:

Mesquita Machado mostrou-se esperançado de que a sua renúncia à presidência da Mesa da Assembleia-geral da Federação Portuguesa de Futebol «sirva para uma reflexão profunda no futebol».

Pinto MonteiroOra, a “profunda reflexão” parece feita e o destino traçado – a Procuradoria-Geral da República acaba de anunciar a sua intenção de abrir novo inquérito acerca de um processo de alegado enriquecimento ilícito do presidente da Câmara de Braga. (via DN).
Justiça ‘à la carte’? Não sabemos, mas reforça as interrogações que atrás deixei sobre o estabelecimento de prioridades de investigação dos serviços coordenados por Pinto Monteiro, bem como a desconfiança sobre o carácter persecutório das mesmas, salientando agora a atenção com que a Procuradoria-Geral da República segue quem denuncia o ’status quo’ ditado pela Federação Portuguesa de Futebol e pela Liga de Clubes.

Absolvição de Pimenta Machado – interrogações sobre a justiça

26, Fevereiro, 2009 Carlos Araújo Alves 2 comentários

Pimenta Machado absolvicaoA absolvição de Pimenta Machado (notícia), cujo nome foi pungente, reiteradamente e ad nauseum vilipendiado, durante mais de 6 anos, em todos os órgãos de comunicação social reforça minhas interrogações anteriores sobre o estabelecimento de prioridades da investigação judiciária em Portugal, se não mesmo, se conterá ou não alguma carga persecutória em relação a algumas pessoas e instituições investigadas.
Tanto crime que desconfiamos existir tão danoso para a generalidade da sociedade, como o da área financeira que parece agora investigar-se quase que por obrigação, reforça a minha preocupação sobre a política de investigação da Procuradoria-Geral da República, comprovada por mais esta absolvição de Pimenta Machado, a quem o Vitória de Guimarães muito, mas muito mesmo, deve e grato deveria estar.

Sócrates e a regionalização

Depois de anunciar um pouco timidamente a regionalização na moção de estratégia, Sócrates afirma agora que ela será uma das bandeiras da campanha eleitoral do PS para as próximas as legislativas de 2009.
Este assunto poderá revelar-se de capital importância no desenrolar da campanha, uma vez que agitará, de modo fracturante, todos os partidos, incluindo o seu, e a sociedade, em geral.
Sócrates aguarda…, aguarda os efeitos da sua “bomba retardatária”…

(…) sobre a regionalização, José Sócrates, disse almejar que o PS lute, primeiro “por um consenso político” e também por um referendo que institua cinco regiões administrativas em Portugal.

Regressarei ao assunto já por demais abordado, por exemplo, aqui: Regionalização – Soares e Cavaco como há 25 anos atrás.

Ciência, Crenças e Poder – o cientismo

Há dias o Rui Curado Silva insurgia-se, muito acertadamente, com desconhecimento do método científico. Seguindo as suas palavras, cito:

(…) o desconhecimento do método científico é assustador, as recentes discussões na blogosfera sobre ciência revelam uma ignorância profunda do assunto. E o pior é quando este desconhecimento vem da parte de cientistas (das ciências sociais e humanas às ciências exactas).

Não deixei de corroborar esta sua impressão nos comentários do Klepsydra, uma vez que em nome da ciência e do método científico, se têm produzido os mais hilariantes estudos, nomeadamente no domínio das ciências sociais e humanas que melhor domino. Então estudos ‘encomendados’ por governos principescamente remunerados estamos, de facto, prenhos.
Crencas Religioes e Poderes - dos Individuos as SociabilidadesMas pretendia cruzar, precisamente a assertividade do Rui com o texto da Alice Valente Alves, Crenças e poder – do dever em não devir, fruto de uma comunicação produzida na ‘11.ª Mesa-Redonda De Primavera – Crenças, Religiões E Poderes‘ da FLUP, cujas comunicações foram reunida em livro a apresentar hoje no Porto, na Livraria Leitura ao Centro Comercial Cidade do Porto, pelas 18:30h, sob o título CRENÇAS, RELIGIÕES E PODERES – dos Indivíduos às Sociabilidades, em especial, quando afirma, também com toda a propriedade:

É comum à tradição da Filosofia que sempre por demasiado associada ao teológico e ao científico, comodamente fechar os olhos e deixar-se tornar irredutível ao sensível e ao conceptual. E apesar da Filosofia se ter associado nas suas formalidades mais à Ciência do que à Artes é depois e sempre nas Artes que encontra a Razão e a Verdade fundamental para justificar a existência do Devir. (ler texto na íntegra em formato pdf)

Aparentemente parecem dois excertos contraditórios. Aparentemente… É que o que em em nome da ciência se tem produzido, como científico, e claro, incontestável por com o científico se adornar. Então no que à percepção e expressão artísticas concerne é de uma pungente redução positivista que enclausura as artes num positivismo analítico incapaz de compreender (é disso que a ciência deve tratar – compreender) o acto criativo e a forma como a criatividade se emancipa de uma identidade (ou cultura, se preferirem) pessoal, colectiva e sempre em (re)construção.
No fundo, tanto o Rui Curado e Silva como a Alice Valente Alves, por caminhos diferentes, indignam-se pelo mesmo motivo – o cientismo, um constructo pseudo-científico que nos invade e pretende amordaçar, ao impor verdades absolutas e incontáveis.

Freeport – Sócrates e a perda de legitimidade

SocratesPoderá ser estranho (ou nada estranho) que o caso ‘Freeport’ tenha surgido agora envolvendo José Sócrates com toda a pujança mas, em boa verdade, de que interessará isso? O que importa, jurídica e politicamente, é que ele está aí e Sócrates não se livrará de ir ‘pagando’, junto da opinião pública, por ele, assanhados que os media estão, fragilizando a governação de Portugal.
A Sócrates não basta defender-se (o que até nem tem feito da melhor forma, diga-se): Não lhe basta dizer que não nada a ver com o assunto; que não foi influenciado por ninguém; que não recebeu nem deu a receber nada em troca pela decisão do então Ministério do Ambiente. Não basta dizer que o Ministério do Ambiente nada decidiu para além de matéria ambiental, mas sim o Conselho de Ministros; que pretende celeridade na justiça (que não vai haver, porque é impossível concluir investigações e, eventualmente, constituir réus ou arguidos e julgá-los durante 2008).
Sócrates terá de tomar a iniciativa muito rapidamente para impedir que os media prossigam com um desgaste contínuo da sua imagem e, francamente, só encontro uma solução – a apresentação de uma moção de confiança sem condicionar os deputados do PS a disciplina de voto, vendo se os restantes partidos têm, ou não, a coragem de votar contra ou se, ajuizadamente, se absterão.
É que uma coisa é ser-se da oposição; outra, bem diferente, será permitir que se condene um Primeiro-Ministro na praça pública, por pressão mediática, antes de as instituições jurídicas competentes se pronunciarem.
A responsabilidade política de termos um Primeiro-ministro enfraquecido ou, bem pelo contrário, reinvestido de legitimidade política, nestes tempos difíceis que vivemos e os mais constrangedores que se advinham a breve prazo, seria assim distribuída por todos (e por cada um) os deputados da nação e não por esboços de defesas desajeitadas lançadas nos mesmos media que acossam Sócrates.
Preocupo-me com José Sócrates? Desenganem-se! Preocupo-me com Portugal governado por um Primeiro-Ministro fragilizado em plena depressão de todo o mundo ocidental.

Gaza – lucidez de Gordon Brown e Angela Merkel

Referi atrás ser absolutamente demagógico estar a exortar por um cessar-fogo em Gaza sem desarmar pessoas e congregações que apenas tratam de fomentar o ódio, no caso, o Hamas.
Saúdo Gordon Brown e Angela Merkel por virem, muito sensatamente, alertar para esse facto.

Os dois dirigentes concordaram também na necessidade de pôr fim ao contrabando de armas para a faixa de Gaza. “Isto facilitaria pôr em vigor um cessar-fogo imediato que seja durável”, disse Brown. (via Público)

Gordon BrownAliás, do Reino Unido parece regressar alguma sensatez, perdida desde Margaret Tatcher e adensada com Tony Blair. David Miliband, actual Ministro dos Negócios Estrangeiros, em carta ao ‘Guardian’, coloca o dedo na ferida ao denunciar como absolutamente contraproducente a estratégia adoptada por Bush de, sob a designação ‘guerra ao terrorismo’, aglutinar grupos terroristas que nada têm a ver uns com os outros, comprometendo um combate eficaz à sua aniquilação, a qual, como bem refere, só será viável através da cooperação entre Estados e não com acções armadas indiscriminadas.

“Quanto mais se agrupa os grupos terroristas mais se estabelece a linha da frente como uma simples luta binária entre moderados e extremistas, ou entre o bem e o mal, mais se faz o jogo dos que querem unir grupos que têm pouco em comum”
(…)
“Apenas a cooperação entre Estados poderia enfraquecer as redes terroristas”
(via Público)

Faixa de Gaza – cessar-fogo e retirada imediata de Israel?

Cavaco Silva, agora, Miguel Portas há pouco, exortam por um cessar-fogo permanente e uma retirada imediata de Israel da Faixa de Gaza.
Eu também, mas sei que tem sido esta Europa, condescendentemente amorfa quanto ao armamento de terroristas como o Hamas e o Hezbolah, que tem fornecido os motivos para que Israel continue a massacrar palestinianos!
Não me esqueço, também, daqueles que apearam Arafat (ver atrás) e obrigaram à realização de eleições para o futuro Estado Palestiniano, entregando, assim, o poder ao Hamas!
Democracia? Pois claro, mas só existe democracia onde houver democratas! Não são umas eleições que fazem uma democracia. São as pessoas, por incrível que possa parecer!
Retirada de Israel dos territórios ocupados? Cessar-fogo imediato? Não poderia estar mais de acordo, mas já deveriam estar forças da ONU a desarmar, efectiva e permanentemente, todos os que não pretendem a paz!

Cavaco Silva incomodado com lei ordinária

Cavaco Silva manifestou-se ontem, mais uma vez, embora com muito menos ’show’ que nas férias de Verão, contra a ordinária lei que altera o estatuto administrativo dos Açores tal qual a Assembleia da República pretende impor.
A ordinária lei é contudo, extraordinária, uma vez que altera a Constituição sem os deputados terem mandato para o efeito. Daí serem as razoes de Cavaco Silva claras, lineares (agora) e compreensíveis – evitar abrir o precedente de alterar a Constituição através de Lei ordinária.
A Assembleia da República, unanimemente, borrifou-se para o assunto, incluindo o próprio PSD que impediu seus deputados de votar contra, mas os paridos que compreendem o Presidente da República e votaram a favor, não ficaram melhor no retrato, como o PC, o BE e o CDS que optaram, populisticamente em vésperas de ano de eleições, votar favoravelmente.
Só compreendi a atitude do PS que fez a birra que fez apenas por entender (saber) que afrontaria o líder da oposição – Cavaco Silva, uma vez que Manuela Ferreira Leite não se lhe conhece iniciativa que não tivesse origem na Presidência da República.
Manuela Ferreira Leite? Pois, impediu os seus deputados de votar contra, mas agora lesta surgiu a apoiar Cavaco Silva. Próprio desta liderança do PSD, afinal, que se afirmou e afirma prenha de ética e princípios e demais adornos discursivos.

Greve dos Professores interessa ao Governo

Lendo o título de que a greve dos professores interessa ao governo, poderá achar-se que tomei algo a mais que me toldou o discernimento, mas..
Mas, meus amigos, desde que os professores se emanciparam do tentáculo dos sindicatos e compareceram em massa nas manifestações marcadas em dias de fim-de-semana, que Sócrates sabia que o impasse criado pelos sucessivos disparates de Maria de Lurdes Rodrigues e sua equipa colocavam, seriamente, em causa uma futura maioria absoluta ou até a vitória nas próximas legislativas, atendendo à progressiva sensibilização da opinião generalizada dos eleitores face às reivindicações dos professores.
Como poderia Sócrates inverter tão funesta tendência? Fácil! Nada melhor que empurrar os sindicatos a cumprir a tonta promessa de greves às aulas e às avaliações dos alunos, de forma a transtornar, cruelmente, o dia-a-dia dos alunos e dos pais.
O Ministério da Educação nunca desistirá de chamar de ‘avaliação dos professores’ seja lá ao for, nem que tenha de ceder até e apenas aos níveis de assiduidade (veja-se a tendência), enquanto os professores, incautos, tratarão, desta vez a reboque dos pavões dos sindicatos, de voltar a opinião dos cidadãos contra eles com greves penalizadoras dos cidadãos!
É pena, não por Sócrates sair a ganhar, mas porque ainda me dá para entristecer quando vejo perder causas justíssimas e importantes para Portugal sempre que a inteligência é necessária.
Como é que os professores, aqueles que em boa hora se emanciparam dos sindicatos ao ponto de os fazer andar a correr atrás deles nas manifestações onde exuberantemente desfilaram, caíram nesta esparrela de ‘ana caprina’?

Governo não dá aval ao Banco Privado Português

O governo, e bem, não dá o aval solicitado pelo Banco Privado Português e, adianta Teixeira dos Santos, não o nacionalizará por entender não ser, e cito o Ministro das Finanças, “um caso de polícia” nem “um banco comercial”. Ao Banco Privado Português restará ou a aceitação de um plano de recuperação pelo Banco de Portugal ou a falência. (ver Público)
Parece-me bem, mas deixe de fazer, se é que fazia, o mínimo de sentido e coerência a nacionalização do BPN, já que o montante em causa é similar e, por outro lado, se este é “caso de polícia”, fica-se com a ideia de que o Estado impediu a falência de um banco devido a gestão danosa e não a de um banco cujo problema é derivado da crise financeira internacional!
Critérios precisam-se e precisa-se de os saber e dar a conhecer antecipadamente, até para que depois não recaiam suspeitas de que poderão as decisões enfermar de interesses particulares.

A Nacionalização do BPN – banco e não grupo

BPNGrupo BPNA nacionalização do BPN em curso comprova o delírio em que os governantes europeus entraram aquando o capital deixou de se interessar, em definitivo, pela democracia e pela liberdade.
Primeiro não se compreende o papel de Vítor Constâncio, que sabia do assunto desde 2003 (quem não sabia, deste e doutros bancos?), e menos ainda a opção pela nacionalização do banco BPN por parte Ministro das Finanças, ou seja, a oneração dos contribuintes em cerca de 800.000.000 de euros, e não da totalidade do grupo que engloba outras empresas, algumas lucrativas, conforme se pode ver na imagem da direita.
Real SegurosNão quero chamar nomes a ninguém, mas a não nacionalização da totalidade do grupo, nomeadamente da Real Seguros, permitirá que os accionistas malfeitores possam aliená-la a bom preço, encaixar dividendos e, em calhando, livrarem-se da responsabilidade civil, criminal (gestão danosa) e a reversão da dívida da empresa para os accionistas, individualmente!
A dimensão deste dislate ultrapassa qualquer adjectivação, para mais quando a Real é uma das principais (senão mesmo a principal) angariadora comercial de poupanças de particulares através dos seus produtos “Investimento Real”, “Rendimento Real” e “PPR”, cujos fundos são geridos pelo próprio BPN. Por outro lado, só a privatização da Real Seguros, após nacionalização, permitiria ao Estado (aos contribuintes, entenda-se), ressarcir-se da totalizade do prejuízo assumido e realizar mais-valias.
Isto, meus senhores governantes, não é uma questão de esquerda nem de direita, nem uma questão de mais ou menos Estado, de ser neoliberal ou social-democrata, é antes do mais uma questão ética, de preservar os interesses dos cidadãos.
Não engolindo (já não dá…, já regurgito) que tudo o que se está a passar é derivado a falhas na regulação (só se fôr a das pessoas, eventualmente) e, diante da perplexidade, duvidar que haja uma intenção deliberada de penalizar os cidadãos devido à evidência (estas coisas costumam ser mais camufladas), só congigo conceber este gravoso dislate como mais uma demonstração do delírio colectivo em que entraram os governantes americanos e europeus.

Tempos de certeza incerta

Giacomo Balla - El Futuro - 1923

Giacomo Balla - el Futuro - 1923

Tempos de incerteza, estes que vivemos. Como todos os os outros, ademais. Novidade não é a incerteza, a insegurança, mas a certeza, nas ventas do consciente arremessada, da incerteza dos futuros.
Incerto não será o passado. A sua análise crítica é o caminho não para a certeza, mas para a consciência de quem somos, donde viemos e, no caso, do que temos andado a fazer.
É que é no que temos andado a fazer que poderemos encontrar alguma luz bastante para enxergarmos onde estamos; para, alicerçados no quem somos e donde vimos, conseguirmos equacionar para onde devemos e poderemos ir.
Há quem proclame o fim disto ou o advento daquilo ou o fim de um paradigma (é mais ‘in’); tratemos talvez de olhar para o que fizemos, o que não fizemos e o que permitimos que se fizesse.
Este blogue começou por ser (e foi-o principalmente) um blogue de causas, perdidas, a maioria, é certo, porque quem por bem pensa e faz sabe que será esse o destino mais provável – o seu sentido de utilidade tornou-se bastante volátil. Mas, que diacho, não serão estes os momentos em que se vê a massa de que somos feitos?
Estou de regresso (não foram férias, mas desânimo diante da inutilidade do que se diz e escreve para quem decide) com casa arejada, muito embora menos prolífico em textos. Contra os ‘dictates’ da web, privilegiarei textos mais analíticos, mais longos, por tal, para quem deles se pretender servir.
Obrigado a todos que perguntaram e até breve.

O Primeiro de Janeiro – a comprar

O Primeiro de Janeiro Anunciada a interrupção da edição durante o mês de Agosto para remodelação, comprarei hoje aquele que sinto ser o último número de “O Primeiro de Janeiro”, o jornal lá de casa, a de meus pais, aquele que, desde que de mim memória tenho, sempre era colocado na soleira da porta pelo jornaleiro, antes da leiteira e depois da padeira.
Nada é eterno, mas nada morre enquanto a nossa memória vida der. A morte não está ligada apenas ao desaparecimento físico, mas ao apagamento da memória individual e colectiva. Assim é para mim, com as pessoas e com as coisas, sem necessidade de me socorrer de qualquer aculturação religiosa. Tudo está vivo desde que os vivos guardem memória, ou seja, atribuam relevante significância para a sua existência.
O Primeiro de Janeiro está ligado, sem dúvida alguma, à história da cidade do Porto, sendo importante, independentemente do que vier a acontecer, que as entidades competentes zelem pela conservação do seu acervo.

A decisão da UEFA sobre o Apito Final

Por ausência de decisão definitiva da Federação Portuguesa de Futebol que tem em mãos um recurso de Pinto da Costa que, a ser deferido, implica a anulação dos castigos aplicados ao F. C. do Porto, a UEFA entendeu aguardar por essa decisão e manter para 2007/2008 o F. C. Porto na ‘Champions’.
Tudo que estará para além disto, do carácter, afinal, não definitivo dos castigos aplicados ao F. C. do Porto, pouco entendo sobre todos os trâmites administrativo / disciplinares que têm envolvido este caso, abstendo-me, por isso, de emitir juízos que seriam, seguramente, infundados.
Não posso, contudo, estar ao lado dos portistas que se dão por satisfeitos com este desenlace, uma vez que sobre o F. C. do Porto pairarão, por mais uma época, as pressões mediaticamente exploradas de corrupção, ou tentativas, da porra do ’sistema’ e tudo o que a propósito se lembrarem para desmerecer, influenciando indirectamente arbitragens, todo e qualquer sucesso desportivo.
Gostaria de uma decisão final, fosse qual fosse, para colocar um ponto final sobre o assunto, para bem do F. C. do Porto e do futebol português.

Noites do EURO – RTP N

Incluído no ‘Jornal das 22′ da RTP N o ‘Noites do Euro‘, conduzido por Carlos Daniel e com o comentador residente Luís Freitas Lobo e mais 2 convidados por sessão, é o único programa sobre o Euro 2008 que vou seguindo. O de ontem foi dos mais bem conseguidos devido à presença de Rui Costa, jogador até há bem pouco tempo, pessoa instruída, conhecedora do meio, dono de uma honestidade intelectual rara, revelando isenção, assertividade e sabedoria em todas as suas intervenções, contrastando com muitos outros convidados que por lá passaram.
Apostar em convidados deste gabarito é meio caminho para o sucesso do programa e é neste sentido que, se pouco me importa saber o motivo que norteou Scolari a ostracizar Vítor Baía, me questiono que razões haverá para o não convidarem para este programa, uma vez que, tal como Rui Costa, é um dos ex-jogadores da ‘geração de ouro’ que prima pela dignidade, isenção ética e dedicação à selecção nacional? Digo este porque me parece que Carlos Daniel tenta imprimir qualidade e rigor e não compreendo a ausência de Baía de todo e qualquer programa sobre o Euro 2008, seja neste canal ou noutro qualquer, muito menos num público, uma vez que, tal como Rui Costa foi, é uma mais-valia evidente.
Haverá algum acordo tácito (coisa que tenho dificuldade em admitir) ou será esquecimento?

O Poder e a ilusão das Massas

São as massas que dão a energia ao poder e quando as massas privilegiam o poder, o poder sacrifica-as, tiraniza-as
Alice Valente em Ali_se

Mas, sendo assim, Alice não será verdade, também, que o motivo que leva as massas a privilegiar o poder, não será a sua natural propensão de buscar conforto através de dele se acercarem?

Final da Taça de Portugal – rescaldo e apitos

1 – Parabéns ao Sporting por ter sido a melhor equipa em campo. Muito se poderá dizer (e direi, adiante) sobre circunstâncias criadas por Olegário Benquerença, mas ao entrar em jogo sem Bosingwa, com João Paulo, sem Tarik Sektioui nem Marek Chec, foi entregar o ‘ouro ao bandido’ desde o início. Ganhou quem foi mais equipa, mais consistente, sendo sempre agradável chegarmos ao fim de um jogo e vermos que o empenho e a competência se aliam ao resultado, pese embora o facto da justiça ser um conceito alheio ao jogo – lembremo-nos mais recentemente que se a justiça fizesse parte do jogo, mais concretamente do futebol, nem o F C Porto teria sido eliminado pelo Schalke 04 nem o Sporting pelo Glasgow Rangers.

2 – Dados os parabéns ao vencedor sem qualquer cinismo, a verdade é que desde que Olegário Benquerença exibiu o amarelo ao Paulo Assunção na primeira falta que cometeu, depois de 3 bem durinhas de Grimmy, senti o caminho que o árbitro traçara para a sua actuação naquele jogo. Consequências do ‘apito dourado’ ou do ‘apito final’? Não saberemos nunca a causa, mas a motivação desde cedo ficou à vista.

3 – Há anos que muitos falam da existência de corrupção no futebol, de um sistema montado de batota nos resultados corporizado nas pessoas de Valentim Loureiro e Pinto da Costa e que levaram o Ministério Público a montar uma perseguição, dir-se-ia, não à corrupção nem à batota, mas a essas duas pessoas, em particular a Pinto da Costa, que viria a consubstanciar-se nos processos ‘apito dourado’ e no ‘apito final’ protagonizado pela Liga de Clubes.
Desenganem-se, se é que alguém andava ao desengano, os que pensam que alguém está interessado em combater, generalizadamente, a corrupção no futebol! Não há interessados em acabar com a batota, mas sim em ser donos dela. Se assim não fora, os arautos anti-corrupção estariam mais uma vez a clamar por ela no fim do jogo de ontem e não a festejar. O que vi (para além do F C Porto nada jogar) foi o regresso àquela outra batota, a que assisti durante 19 anos, ou seja, desde que nasci até 1977.
Nem o ‘apito dourado’ nem o ‘apito final’ têm a ver com o fim da batota no futebol, mas tão-só com a passagem de mãos de quem detém poder para a fazer, sendo a satisfação patenteada no rosto do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, no fim do jogo de ontem um verdadeiro atentado à honestidade intelectual depois da arbitragem a que assistiu.
Desengane-se quem pensa que existe apenas um ataque pessoal a Pinto da Costa; o que existe é um ataque soez contra a superioridade desportiva do F C Porto nos últimos 30 anos, que terá de ser creditada ao seu presidente.

4 – Uma palavra de solidariedade para António Costa, Presidente da Câmara de Lisboa, que recebeu com dignidade e elegância o vencedor da Taça de Portugal, o Sporting, pois será, muito certamente, apontado como mais um que cedeu à promiscuidade entre o futebol e a política pelos comentadores dos media que elaboram e gerem campanhas de interesses pessoais, partidários e políticos, mas que não são promíscuos…
Promiscuidade entre futebol e política só tem a ver, ao que parece, com quem abrir a porta ao F C Porto ou a Pinto da Costa…

Laurentino Dias – impressiona-me a sua magnanimidade

Espero que sejam decididas com rapidez, com eficácia, de maneira a que interfiram o menos possível na vida do desporto. O desporto tem de ter regras que têm de ser cumpridas. Quando não são, têm de ter os seus efeitos correspondentes. (Laurentino Dias via Portugal Diário)

Estou certo de que ao proferir estas palavras teria em mente (também) a aplicação das punições previstas para clubes que não pagam salários atempadamente. É que ainda agora, via Público, soubemos que apenas o Porto e o Benfica este dever cumprido!

Manuela Ferreira Leite – classes ou castas?

Manuela Ferreira Leite É interessante a veemência com que Manuela Ferreira Leite se insurge contra os epítetos de “barões” e de “notáveis” do PSD, classificando esses termos como “divisionistas”. O PSD é um partido interclassista, clama via Público.
Em tese, a tese é interessante, dando até ideia de que Manuela Ferreira Leite pretende posicionar-se numa candidatura que una todos os militantes, mas não foi a própria candidata que, aludindo à presidência de Luís Filipe Menezes, afirmou que o partido não é respeitado, da forma como foi em 34 anos de história? E que dizer de todos os seus “notáveis” e “barões” apoiantes que durante sete meses zurziram, sem dó nem intermitência, em todos os órgãos de comunicação social que dominam e minam, numa recém apelidada falange “populista” que tinha tomado conta do partido?
Não haverá “classes”, até poderá ser, mas uma casta que domina os órgãos de comunicação social, que raramente se expôs a votos e que está habituada a pôr e dispor no PSD, isso parece-me por demais evidente.
Manuela Ferreira Leite está no gozo do seu pleno direito de fazer campanha eleitoral embora, quando questionada sobre o que a distinguia de José Sócrates, só lhe tenha ocorrido dizer que não mentia. Acredito piamente que não minta – hoje ninguém mente, dizem-se “inverdades” – mas também não será através de míngua de linguagem demagógica que se distinguirá do actual Primeiro-Ministro.

Cavaco Silva – a repentina ode à autonomia da Madeira

Primeiro foi Jaime Gama, agora Cavaco Silva, a cantar as virtudes do desenvolvimento madeirense e as virtualidades da autonomia.
Confesso que, assim de repente, estes novos cantares de musas obscurecidas, deixou-me perplexo mas, passados estes dias, assaltou-me a ideia de que se trata de preparar os cidadãos para uma regionalização que sempre se recusou e agora parece todos acreditarem que ela tudo resolverá.
O PS, ganhando as Legislativas de 2009, avançará com toda a certeza para a Regionalização e Cavaco, apercebe-se agora que, para além de estar de acordo, assume-se como “educador” das consciências mais avessas à ideia (ver Regionalização – incompreensão e pavor).
A ver vamos…, a ver vamos o que é que essa regionalização trará sobre o que importa – a descentralização da decisão e a autonomia financeira.

Ângelo Correia – quem no PSD enfia a carapuça?

Para mim, é totalmente insatisfatória a situação. É preciso o partido dedicar-se muito mais a pensar, a reflectir e a falar com o País.
(…)
Os meses de Janeiro a Março foram três meses perdidos, com disputas internas por razões menores”. “Espero que retomemos a linha que tinha sido pensada em Outubro e Novembro. (Ângelo Correia via Público)

Todas as sensibilidades do PSD poderão afirmar que as palavras de Ângelo Correia eram dirigidas aos adversários ou até, como Daniel Oliveira, entender que se tratará do primeiro sinal de debandada mas, cá para mim, Ângelo Correia falou na qualidade de presidente da mesa do congresso do PSD, ou seja, falou para todos os que pouco têm feito pelo partido e se têm envolvido em “disputas internas menores”, sendo que se há disputas há contendores de todas as partes envolvidas.
Se assim é, Ângelo Correia falou em nome do PSD para todos, dizendo tão-só, que assim não vale a pena! Enfie a carapuça quem quiser…

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