Bento XVI - Angola 2009A visita de Bento XVI a Angola foi mediaticamente marcada pela sua recorrente campanha, de consequências humanitárias graves, contra o uso do preservativo.
Compreende-se! Leia-se o que escreve a propósito JPT no Ma-Schamba.
O que já é muito difícil de compreender é a ausência de relevo e notoriedade nos media nacionais e internacionais relativamente à condenação da corrupção, em plena Angola, de Bento XVI, coisa que não lembro de algum político ousar.
Uma mão não lava a outra mas, se calhar os ‘puros’, que rápida e vorazmente o condenaram, serão os mesmos que negoceiam arranjos bancários e outros negócios com corruptos, mais aqueles que não sentem que tais ‘affaires’ belisquem minimamente a ética e muito menos a causa humanitária.

À bolina de um texto do Rini Luyks no ANACRUSES o pensamento levou-me até à justiça, o que é, donde vem, se existe uma Divina e outra do Homem, se o Vaticano ou outra qualquer humana instituição pode reivindicar a prática de justiça em nome de Deus.
A história conta-se meia-dúzia de linhas: uma menina de 9 anos foi estuprada e engravidada pelo padrasto e desse criminoso acto foi aconselhada pela mãe a fazer uma interromper a gravidez, vulgo a abortar. Esta decisão da mãe apoiada pelos dos médicos entendeu o cardeal Giovanni Battista Re, presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, excomungá-los, enquanto que em relação ao criminoso afirmou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil: Repudiamos veementemente este ato insano e defendemos a rigorosa apuração dos fatos, e que o culpado seja devidamente punido, de acordo com a Justiça (…). (via O Povo)
Não me detenho na insanidade da hierarquia da Igreja Católica e do Vaticano sobre este melindroso caso, mas confesso não compreender o que pretende a sua hierarquia transmitir ao defender que o violador deve ser entregue à justiça humana e a mãe e os médicos à dita “Divina”! É que a excomunhão é uma das penas mais severas do designado “direito penal canónico”, ainda em 1983 promulgado por João Paulo II. Para o Vaticano existem duas justiças: a dos homens e uma outra que defendem ser de ‘inspiração divina’, sendo certo que observam as duas e não fazem depender uma da outra.
Ora, ao afirmarem que o padrasto violador deve ser entregue à justiça que pretenderão dizer? Mais um mistério, certamente…
Mas este assunto coloca os crentes (onde me incluo) diante de outras problemáticas: Deus é justo? Deus faz justiça pelos homens na vida terrena? Qual a fonte de toda a justiça?
Deus é justo? Sim, eu creio.
Deus faz justiça neste vida pelos homens? Se fosse verdade, para os cristãos, como entender que aos homens Deus tivesse conferido a faculdade de zelar pela justiça, castigar e repor em casos de injustiça?
Talvez Deus tenha confiado mais em nós do que nós Nele, uma vez que se pretendesse que algum de nós (ou alguns) recebessem a graça de conhecer a Justiça Divina, não nos confiaria, certamente, a capacidade de reconhecer e fazer justiça e de sermos julgados pelos nossos julgamentos:

Aos justos está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso a primeira ressurreição e o Juízo (…) (Hebreus 9:27, I Tessalonicenses 4:13-18)

Durante a segunda vinda do Messias (Jesus Cristo) à terra, os mortos justos são ressuscitados. Logo em seguida, os justos serão arrebatados juntamente com eles, entre as nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, estando assim, para sempre juntos como o Senhor. (I Tessalonicenses 4:13-18)

Sermos justos é uma das provações que teremos de comprovar no momento em que Deus julgar o Homem. Até lá, foi-nos concedido o livre juízo de o sermos ou não e dessa liberdade nunca é dito que devemos abdicar em nome de outra qualquer justiça, mesmo que alguns homens se arroguem na ousadia de se apresentarem como representantes da Justiça Divina.

Um monte de sarilhos foi a ‘profecia’ de ontem de D. José Policarpo em relação a um casamento com muçulmanos. A Conferência episcopal aparece agora a dizer que se trata de um “justo conselho de realismo” e não “discriminação ou menosprezo” pelo islamismo.
Mas o nosso D. José não se ficou por aqui! Considerou ainda “muito difícil” o diálogo com os muçulmanos em Portugal, observando que o diálogo serve para a comunidade muçulmana demarcar os seus espaços num país maioritariamente católico, isto neste país de brandos costumes, onde parece não haver nenhum problema de convivência inter-religioso, para lá das benesses que a Igreja Católica ainda goza do Estado, como por exemplo, as fiscais!
Notáveis, estas declarações do Cardeal Patriarca no Casino da Figueira da Foz, ano e meio depois de definir o que seria uma sexualidade normal! Notáveis, edificantes e propiciadoras para o tal diálogo, mesmo ciente da falta de liberdade das mulheres e desigualdade de tratamento em países de maioria islâmica.
Mas uma coisa é estarmos cientes dessa realidade; outra bem diferente é um Cardeal Patriarca meter-se por esses caminhos tão mediaticamente perversos como inconsequentes e, diga-se, muito pouco cristãos.

Pois não, não é, mas o mínimo que se esperaria de quem diariamente clama por uma superioridade moral era que, mal tomassem conhecimento de actos de pedofilia por parte dos seus membros, os denunciassem à polícia e os expulsassem de seu seio.
Nestes mercantis tempos fica a ideia de que o Vaticano considera bastante a reparação pecuniária que acordou, 550 milhões de euros, para ressarcir as vítimas de 113 sacerdotes nos últimos 75 anos só na Arquidiocese de Los Angeles! (notícia Globo)

No novo documento pode ler-se que Cristo “constituiu sobre a terra” uma única Igreja e instituiu-a como “grupo visível e comunidade espiritual”, que “desde a sua origem e no curso da história sempre existe e existirá, e na qual só permaneceram e permanecerão todos os elementos por Ele instituídos”.
(…)
“Enquanto, segundo a doutrina católica, é correcto afirmar que, nas Igrejas e nas comunidades eclesiais ainda não em plena comunhão com a Igreja católica, a Igreja de Cristo é presente e operante através dos elementos de santificação e de verdade nelas existentes, já a palavra ’subsiste’ só pode ser atribuída exclusivamente à única Igreja Católica”, pode ler-se. (via Agência Eclesia)

O Vaticano continua muito preocupado em afirmar a primazia da sua igreja sobre as demais na representação da comunidade cristã.
Sou muito menos dado a preocupações com sacramentos e hipotéticas heranças (por onde andam os 33 Evangelhos desaparecidos e tidos por apócrifos) do que com atitudes e comportamentos cristãos, que me parecem, esses sim, cada vez menos visíveis ou de todo desaparecidos, pelo menos da vida pública.

Não há sexualidade sem responsabilidade. Mas estamos numa de «faz o que te apetecer que depois resolve-se». Há perigo da sida? Tem solução… Há uma gravidez indesejada? Faz-se um aborto! Mas nunca ninguém levantou a hipótese de educar estes cidadãos para terem uma vida sexual… vá lá, normal! (D. José Policarpo à Visão)

Ora aí está o primeiro candidato a professor de educação sexual! D. José Policarpo irá, seguramente, dar a sua vida como o exemplo do que será uma vida sexual normal!
Aguardamos a sua catequese neste capítulo…, ou pregação? Bom, aguardemos, serenamente.