Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

Arquivo de ‘Sérgio Azevedo’

Sergio Azevedo A propósito do concerto de amanhã, na Gulbenkian, incluído no ciclo Nova Música Portuguesa que atrás divulguei, será executado o Concerto para dois Pianos e Orquestra de Sérgio Azevedo.
Nasce em Coimbra, Sérgio Azevedo (link), em 1968, sendo, além de compositor (link), professor da Escola Superior de Música de Lisboa e membro da direcção da Academia de Amadores de Música, instituições onde estudou. Efectuou seminários com Emmanuel Nunes. Tristan Murail, Philippe Manoury, Jorge Peixinho, Gilbert Amy, Robert Sherlaw-Johnson, Louis Andries-en, Luca Francesconi e Mary Finstereres.

Notas sobre o Concerto para dois Pianos e Orquestra gentilmente enviadas pelo compositor:

«O Concerto para Dois Pianos foi composto entre 1999 e 2003. Se o Quinteto de Clarinete (1996) provou ser um ponto de viragem na minha música, Atlas’ Journey (1998) foi sem dúvida a culminação desse ponto de viragem. Tanto o Concerto para Dois Pianos e Atlas’ Journey são, sem dúvida, os pontos culminantes desse período, no qual comecei uma aproximação mais sistemática a técnicas de composição baseadas em grupos de tons inteiros, harmonia espectral, heterofonia, campos harmónicos e um cuidado extremo com certos efeitos peculiares de produção do som. As ideias poéticas e formais são agora completamente baseadas na análise de pinturas tais como a série das Catedrais de Monet, os desenhos impossíveis e enigmáticos de Escher, as pinturas surrealistas e contraditórias de Magritte, estruturas topológicas, fractais, séries numéricas, o mundo de escritores como Gombrowicz, Kafka, Mann, Borges e Musil, o cinema mudo dos primeiros 30 anos do século XX (particularmente os filmes de Murnau, Lang, Wiener, Dreyer e Chaplin), a ideia de caos, a nova física e as novas teorias matemáticas e cosmológicas, tempo e relógios, labirintos, mitos e estranhos mecanismos, a música louca e funcional dos “cartoons” e marionetas, as velhas teorias de ritmo e acentuação, o folclore da Europa Central, as novas teorias da percepção e da psicologia auditivas, e ainda a música de compositores como Stravinsky, Prokofief, Ligeti, Lindberg, Adams, Francesconi, Maxwell-Davies, Berio ou Birtwistle, entre outros. Todas estas variadas influências e ideias são tornadas coerentes pela análise dos seus pontos comuns. O uso de software especialmente desenhado para a edição musical foi também importante para mim, uma vez que posso agora facilmente analisar, por exemplo, mudanças extremas de tempo, ou cortar camadas e secções e combiná-las de novo num contexto completamente diverso. O Concerto para Dois Pianos, juntamente com Atlas’ Journey, aponta pois para uma nova direcção estilística. Quis escrever uma peça extremamente brilhante e luminosa, rápida e virtuosística, como Petruska, na qual o humorístico e catastrófico mundo das marionetas estivesse presente. Porém, se em Atlas’ Journey existe uma espécie de “história” por detrás da música, mesmo se não invectivando a música, no Concerto esta “história” não existe de todo. Pela primeira vez (sem contar com as obras tonais do meu catálogo), compus uma peça dividida em vários andamentos, uma fórmula que faz mais sentido para mim agora do que fazia há uns anos atrás, talvez uma consequência da nova claridade e direccionalidade harmónica da própria música. No Concerto, tal como já em Atlas’ Journey, utilizo algumas citações “falsas” de outras peças, a maior parte escondida na estrutura profunda da obra, ou contendo tantas características comuns com a minha própria música, que raramente se “ouvem”. Tais citações servem unicamente propósitos simbólicos e poéticos pessoais, não tendo pois outro papel estrutural que não o de enfatizar alguns momentos da obra. A única citação real que é possível perceber claramente pode ser ouvida no primeiro andamento, uma espécie de rapsódia de sabor húngaro, cheia de ideias diferentes e um pouco caótica na sua construção. A fanfarra que serve como “sinal” inicial partilha algum humor com a bizarra música de “levantar de cortina” que se pode ouvir no início da ópera Le Grand Macabre de Ligeti. Também é evidente alguma música rápida, em atmosfera de tocata, que provém em linha directa de obras como os 2º e 3º Concertos para Piano de Prokofiev, ou do Concerto para Piano de Ligeti. Mas as única verdadeiras citações são de Ligeti (10 Peças para Quinteto de Sopros) e de Nielsen, da 6ª Sinfonia. No terceiro andamento, só para cordas e harpa, é o Adagietto da 5ª Sinfonia de Mahler que serve de elemento desconstrutivo, numa quase-citação em que é apenas sugerido o ambiente harmónico dessa obra.»

Sérgio Azevedo

O Serviço de Música da Gulbenkian fez uma belíssima aposta ao integrar na sua programação um ciclo chamado Nova Música Portuguesa que inicia já esta 5ª feira, dia 25, no Grande Auditório e se repete no dia seguinte.
Serão estreadas duas obras de compositores portugueses encomendadas pela Gulbenkian com a Orquestra residente dirigida por Pascal Rophé (link):
- Paradeisoi de Isabel Soveral
- Concerto para dois Pianos e Orquestra de Sérgio Azevedo.
Gulbenkian - pormenor programa Saliento, ainda, o bom gosto de convidar dois pianistas portugueses para interpretar o concerto: António Rosado e Miguel Borges Coelho.
Apesar de ser estreia em Portugal, o Concerto para dois Pianos e Orquestra de Sérgio Azevedo foi já estreado e difundido radiofonicamente em Espanha, interpretado, na altura, por Artur Pizarro e António Rosado.
Os dois compositores portugueses farão um comentário pré-concerto uma hora antes do início do concerto.
Parabéns ao Serviço de Música da Gulbenkian!

O Concerto Final do Prémio Internacional de Composição Fernando Lopes-Graça terá lugar amanhã, dia 26, pelas 21h30 no Auditório do Colégio Marista de Carcavelos e dia 27, pelas 22 horas na Sala Elíptica do Convento de Mafra. (via Tonalatonal onde encontrará informação mais detalhada)

Lopes-Graca - concerto

Programa:

Sílvia Colasanti
Rifrazioni in Canto (Estreia absoluta, prémio de Composição Fernando Lopes-Graça 2006)
Lopes-Graça
Cinco Velhos Romances Portugueses
Sérgio Azevedo
Sinfonietta Semplice
Lopes-Graça
Sinfonietta em Homenagem a Haydn

Orquestra Metropolitana de Lisboa sob a direcção de Cesário Costa.