Durante a campanha eleitoral houve silêncio absoluto sobre o BPP e a nacionalização do BPN. No entanto, Sócrates afiança agora que:
Jose Socrates

O que nós decidimos fazer na proposta de Orçamento do Estado, é assegurar os depósitos. Em segundo lugar, constituir um fundo para que todos os cidadãos portugueses que tinham o seu dinheiro aplicado no retorno absoluto possam recuperar até 250 mil euros. (via Expresso)

Há mais de 30 anos que nos dizem que vivemos numa democracia sob um regime de liberdade de funcionamento de mercados, havendo uma separação clara entre o domínio público e o privado. Nesta conformidade, e constatando que a esfera privada da economia tem sido (como deve ser) muito zelosa da sua liberdade e independência, não me conformo que os contribuintes tenham de suportar prejuízos pessoais de cidadãos que, no pleno gozo de sua liberdade individual, entenderam colocar as suas poupanças em instituições bancárias que faliram ou já deveriam ter falido, em especial, porque em Portugal existe a alternativa de um banco público.
ISTO NÃO É SÉRIO! A obrigação distributiva do Estado não tem de reparar as sórdidas distorções do funcionamento dos mercados, nem as gestões danosas! Isto nada tem a ver com liberalismo, nem com social-democracia nem com socialismo! A ter a ver com algum ‘ismo’ será o neoliberalismo, cujas políticas têm conduzido os Estados e os cidadãos a uma cada vez maior dependência da agiotagem do capital global!

Maria de Lurdes Rodrigues segue na peugada de Jorge Coelho e Pina Moura, aquela nomeada por Sócrates para a presidência da Fundação Luso-Americana.
Atendendo a estas novas oportunidades hoje muito em voga, parecem estes nomeações dentro da normalidade, mas para aqueles quem tiverem empedernidos pais que educaram a que a experiência, o empenho e o saber acumulado eram as únicas vias para aceder a funções mais nobres, estranham…
Paciência, que estranhem! Não há pachorra para aturar esses ‘cotas’!

Dos discursos de Cavaco Silva e Sócrates de hoje sente-se que ambos usaram da franqueza para anunciar os seus fios de rumo:

É necessário encontrar compromissos com as outras forças políticas, ouvir os agentes sociais e as organizações da sociedade civil (…) – Cavaco Silva


Mas, que ninguém duvide, estou bem consciente do mandato democrático que este Governo recebeu: o mandato de prosseguir as reformas e a modernização. Tal como estou bem consciente da urgência do tempo presente, que é combater e superar a crise. Este Governo toma hoje posse com uma linha de orientação bem definida para a governação e decidido a cumprir o programa que o eleitorado sufragou. – José Sócrates

Os dados estão lançados, ambos recordando o “Chico Fininho” de Rui Veloso e Carlos Tê:

“Gingando pela rua
Ao som do lou reed
Sempre na sua
Sempre cheio de speed
Segue o seu caminho
(…)”

Duvido que seja ao som de Lou Reed, mas enfim…
Certo fiquei de que Sócrates sente urgência no regresso à maioria absoluta e esse, sim, será o que norteará o seu rumo.

Pensava ter dado por encerrado os comentários sobre o negócio entre a PT e a TVI (aqui, aqui e aqui), ou seja, sobre a vergonha da promiscuidade entre os políticos e as empresas privadas através das ‘golden share’, motivo que colocou o Estado Português como réu, acusado pela Comissão Europeia.
Não resisto, no entanto, a aconselhar a leitura de um texto de José Manuel Fonseca no ‘A Infelicidade ao Alcance de Todos‘ do qual deixo um excerto que não dispensa a leitura integral:

Se alguém estivesse efectivamente interessado num mercado livre e aberto já se teria manifestado contra as acções douradas que há por aí. E, elas existem em papel ou em espírito. Mais, nunca se observou alguém, no “arco da governação”, ser frontal e abertamente contra essas ‘golden shares’. Ou de outras cores, que não há míngua de ‘shares’ laranjas ou rosadas. Com ou sem verdade e políticas de verdade. Ninguém vai dizer nos olhos dos portugueses que vai acabar com essas manobras. Porque só se acabam com transparência. Mas até Setembro aposto dobrado contra singelo que ninguém em boa verdade virá aí dizer que acaba com a coisa. E promove a ética.

Valter LemosValter Lemos que ultimamente, apesar de consumar a estocada final para a anunciada destruição do ensino especializado de música (Portaria n.º 691/2009), andava tão longe dos holofotes mediáticos, resolveu hoje dar mais um assinalável contributo para a descredibilização do Ministério da Educação e, consequentemente, do PS. Não é que agora veio afirmar que a ‘Sociedade Portuguesa de Matemática’ é responsável pelos resultados menos positivos alcançados no exame de ‘Matemática A’!

“O facto de se anunciar a facilidade do exame [de Matemática A] só pode ter efeitos prejudiciais sobre os alunos. É um desincentivo ao estudo e ao trabalho. Foram considerações baseadas em preconceitos e em acções políticas que não têm nada a ver com os exames”, considerou Valter Lemos, admitindo estar a referir-se à Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e aos “partidos e pessoas com responsabilidades políticas”. (via JN)

O PS anda mesmo com pouca sorte. O governo até tem ministros e Secretários de Estado bons, mas outros há que Sócrates deveria rogar-lhes, piedosamente, um juramento de voto de silêncio e, em casos mais graves, abstinência… mediática!

Henrique Granadeiro, hoje ao Jornal I, desmente-me categoricamente por no post anterior ter adiantado que, pelo facto de a administração da PT não se demitir em bloco após a intervenção da líder do PSD, de Cavaco Silva e, posteriormente, do governo, num negócio entre a PT e a TVI (empresas privadas, constituídas como sociedades anónimas e cotadas em bolsa), o período em que vivemos poderia ficar conhecido, daqui por umas décadas, como o dealbar da ‘Era da Vaselina’.
Henrique GranadeiroNão poderia ter sido mais errado no meu vaticínio e, como deveria ser norma nestes casos, há que apresentar, humildemente, desculpas ao ‘chairman’ da PT, bem como a toda a sua administração. Com efeito, Henrique Granadeiro afiança que a intervenção de partidos políticos, governos e, pelos vistos agora, a Presidência da República não são casos virgens, mas recorrentes e sistemáticos, estranhando o entrevistado não a intervenção estatal em negócios de empresas privadas, mas o alarido político que em torno do caso se fez.
Ora errei, e publicamente, aqui, me penitencio, por ter utilizado o termo ‘dealbar’ (não se trata de caso virgem, bem pelo contrário, ao que parece) e, pelo facto de ao não se estranhar tal procedimento, nem a administração da PT, nem os accionistas (mudos até ao momento), haverá largas dezenas de pessoas na gestão de empresas privadas e no mundo dos negócios que parecem ter ultrapassado uma fase iniciática de estranheza, indiciando ser-lhes a vaselina já perfeitamente dispensável.
Como se dizia, primeiro, estranha-se, depois…

Aproveito para lembrar o que toda a gente sabe, mas o stress do dia-a-dia poderá justificar que se presente não tenha, que o Estado Português foi constituído réu, por acusação da Comissão Europeia, que alega o incumprimento das leis europeias sobre livre circulação de capitais e liberdade de estabelecimento no espaço europeu sem fronteiras, em três processos onde detém as chamadas ‘golden share’ em empresas privadas, nomeadamente, a PT, a EDP e a GALP.

A administração da PT, através do seu Presidente, Henrique Granadeiro, vem afirmar que o envolvimento do Estado num processo negocial entre sociedades anónimas cotadas na bolsa, através de Cavaco Silva e de Sócrates, não passou de uma tempestade de Verão.
Tempos curiosos estes em que ninguém se importa já com nada a não ser com insinuações, insultos e falta de modos. Eu que estava à espera que a administração da PT, em acto de brio profissional, diante do impensável, se demitisse em bloco! Mas não…
Talvez, quem sabe, daqui por umas décadas estes tempos fiquem conhecidos como o dealbar da ‘Era da Vaselina’, ou da falta de vergonha!
Isto deve andar mesmo tudo ao mesmo!

Agora há quem diga que espera que a administração da PT cumpra; o PC afirma que Sócrates sabia, com toda a certeza, do negócio; Sócrates mete-se no negócio; Manuela Ferreira Leite para além de ter afirmado que Sócrates mentia, vem agora acusá-lo de ter travado o negócio para defender a sua imagem!
O país ensandeceu. Já há muito que dava indícios, mas as declarações incendiárias de Cavaco Silva atiçaram um fogo de proporções inauditas e de controlo duvidoso.
Eu, pessoalmente, também espero que a administração da PT cumpra. Cumpra consigo própria, demitindo-se em bloco, se vergonha na cara tiver, e mande todos estes políticos, comentadores e excelsos mestres e doutos catedráticos de economia, que nunca na vida vergaram a mola numa empresa privada nem ideia fazem do que é criar riqueza, diariamente, deambulando sempre por entre empresas públicas ou lavrando pareceres e sebentas, fazer o que nunca fizeram apesar de terem obrigação porque cursaram para isso – serem empreendedores e criarem riqueza para o país!

Cavaco Silva entendeu ontem pronunciar-se, enquanto Presidente da República, sobre um hipotético negócio entre duas empresas constituídas como sociedades anónimas e ambas cotadas em bolsa, supervisionadas pela ‘ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social’ e pela ‘CMVM – Comissão do Mercado de Valores Mobiliários’.
Cavaco SilvaQue a Dra. Manuela Ferreira Leite tenha embarcado (ou alimentado) numa estratégia de suspeição geral sobre todos os opositores, que chega a rodar a arruaça, característica do PSD desde a forma como tratou o anterior líder, Luís Filipe Meneses, será assunto para os cidadãos resolverem no momento em que forem chamados a votar; agora que o Estado, através do Presidente da República, intervenha directamente em negociações entre empresas é algo de inaceitável num Estado de direito democrático, livre, membro da União Europeia, onde há instituições próprias, não para se interferirem sobre a liberdade negocial empresarial e ainda menos no sigilo que é necessário, mas para aquilatarem e regularem, a seu tempo, a legalidade de negócios realizados.
Cavaco Silva prestou um péssimo serviço ao país ao tomar uma atitude que não podia, não deveria por ser absolutamente contraditória com a democracia e liberdade do mundo ocidental em que vivemos, o qual renuncia ao intervencionismo estatal, atitude absolutamente imprópria, inoportuna e inaceitável em qualquer país do mundo dito livre.
Atitudes destas compreender-se-iam no Irão ou na Venezuela, mas em Portugal não estamos, nem deveremos estar disponíveis para pactuar nem aceitar (a liberdade e a democracia custou-nos muito), nem Cavaco Silva, aliás, tinha alguma vez denunciado tais intenções!
Neste conformidade, Senhor Presidente da República, a saída é só uma – a demissão – uma vez que a sua atitude abre gravíssimos precedentes anti-democráticos, coloca em causa a liberdade negocial e feriu, muito seriamente, a credibilidade de Portugal perante eventuais investidores, sejam eles nacionais ou estrangeiros.

Para não escrever outro textos sobre o assunto, não posso deixar de manifestar a minha profunda estupefacção pelo facto de José Sócrates anunciar que

Para evitar “qualquer suspeita” de intervenção do Governo na linha editorial da TVI, José Sócrates anunciou que o Executivo se vai opor ao negócio (via JN)

Se Sócrates não mantiver firmeza nas suas convicções e continuar a ter medo, pactuando, por cedência, com a estratégia de implementação de um clima de suspeição generalizado protagonizado pelo PSD e, pelos vistos, por outras entidades com responsabilidade acrescida, mais vale pedir, de imediato, a demissão, para ver se no PS ainda poderá surgir alguém que enfrente, sem medo, esta arruaça terceiro-mundista que se instalou no meio político, nos órgãos de comunicação social e nos comentadores de serviço!

A OCDE, através do seu secretário-geral, contradisse, categoricamente, o que Manuela Ferreira Leite e Cavaco Silva, este por via mais implícita do que explícita, vêm a transmitir aos portugueses numa feroz e muito pouco limpa pré-campanha eleitoral. Angel Gurria, afirmou, sem possibilidade de diversa interpretação, que as reformas da segurança social e a da administração pública e o controlo do défice, levadas a cabo por este governo, permitem que

Portugal esteja agora melhor preparado para responder à crise internacional do que no passado, e que tal se deve às reformas implementadas pelo Governo.
(…)
Portugal, no passado, sofria mais do que a média durante as crises internacionais, mas desta vez isso não está a acontecer. (via Público)

Há muito por onde criticar este governo, mas a estratégia montada para derrubar Sócrates, não suspeitando, embora parecendo até que por acordo, veiculada por Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite, associações empresariais, alguns empresários e comentadores a eles afectos, entrou numa espiral de inverdades que carecem de fundamento político e ético, tão mais grave quanto é de ética política que dizem pretender falar e defender.
Façam oposição a Sócrates, à sua governação, mas peguem naquilo em que, de facto, não governou ou governou mal (não falta matéria, desde a educação, passando pela cultura, a falta de apoios específicos destinados à a classe média / baixa endividada e dizimada pela banca, pela ajuda a bancos, eu sei lá que mais…), senão correm o risco de, como agora aconteceu com a OCDE, de serem publicamente envergonhados.