À bolina de um texto do Rini Luyks no ANACRUSES o pensamento levou-me até à justiça, o que é, donde vem, se existe uma Divina e outra do Homem, se o Vaticano ou outra qualquer humana instituição pode reivindicar a prática de justiça em nome de Deus.
A história conta-se meia-dúzia de linhas: uma menina de 9 anos foi estuprada e engravidada pelo padrasto e desse criminoso acto foi aconselhada pela mãe a fazer uma interromper a gravidez, vulgo a abortar. Esta decisão da mãe apoiada pelos dos médicos entendeu o cardeal Giovanni Battista Re, presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, excomungá-los, enquanto que em relação ao criminoso afirmou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil: Repudiamos veementemente este ato insano e defendemos a rigorosa apuração dos fatos, e que o culpado seja devidamente punido, de acordo com a Justiça (…). (via O Povo)
Não me detenho na insanidade da hierarquia da Igreja Católica e do Vaticano sobre este melindroso caso, mas confesso não compreender o que pretende a sua hierarquia transmitir ao defender que o violador deve ser entregue à justiça humana e a mãe e os médicos à dita “Divina”! É que a excomunhão é uma das penas mais severas do designado “direito penal canónico”, ainda em 1983 promulgado por João Paulo II. Para o Vaticano existem duas justiças: a dos homens e uma outra que defendem ser de ‘inspiração divina’, sendo certo que observam as duas e não fazem depender uma da outra.
Ora, ao afirmarem que o padrasto violador deve ser entregue à justiça que pretenderão dizer? Mais um mistério, certamente…
Mas este assunto coloca os crentes (onde me incluo) diante de outras problemáticas: Deus é justo? Deus faz justiça pelos homens na vida terrena? Qual a fonte de toda a justiça?
Deus é justo? Sim, eu creio.
Deus faz justiça neste vida pelos homens? Se fosse verdade, para os cristãos, como entender que aos homens Deus tivesse conferido a faculdade de zelar pela justiça, castigar e repor em casos de injustiça?
Talvez Deus tenha confiado mais em nós do que nós Nele, uma vez que se pretendesse que algum de nós (ou alguns) recebessem a graça de conhecer a Justiça Divina, não nos confiaria, certamente, a capacidade de reconhecer e fazer justiça e de sermos julgados pelos nossos julgamentos:

Aos justos está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso a primeira ressurreição e o Juízo (…) (Hebreus 9:27, I Tessalonicenses 4:13-18)

Durante a segunda vinda do Messias (Jesus Cristo) à terra, os mortos justos são ressuscitados. Logo em seguida, os justos serão arrebatados juntamente com eles, entre as nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, estando assim, para sempre juntos como o Senhor. (I Tessalonicenses 4:13-18)

Sermos justos é uma das provações que teremos de comprovar no momento em que Deus julgar o Homem. Até lá, foi-nos concedido o livre juízo de o sermos ou não e dessa liberdade nunca é dito que devemos abdicar em nome de outra qualquer justiça, mesmo que alguns homens se arroguem na ousadia de se apresentarem como representantes da Justiça Divina.

a Comissão Teológica Internacional, que depende da Congregação para a Doutrina da Fé, declara-se convencida de que existem “sérias razões teológicas para crer que as crianças não baptizadas que morrem se salvarão e desfrutarão da visão de Deus” (via Público)

Impunha-se que o Vaticano decretasse que Deus não pode mandar as criancinhas para o limbo, senão como conciliar com a certeza da vida desde a concepção – fundamento da sua recusa à prática da interrupção voluntária da gravidez?
É bom ver que o Vaticano corrige alguma da porcaria doutrinária que foi produzindo durante 2 milénios, sempre em nome de Deus, é claro, mas graças a Deus que, seguramente, Deus nada tem a ver nem com a porcaria que a doutrina elaborou, nem com a que elabora, nem com a que se elaborará, sempre em Seu nome, claro!
Mas convém também lembrar que, em geral, a merda doutrinária ou ideológica raramente é assumida sem ser em nome de outrem: de Deus, do povo, do Homem, da raça, enfim do que estiver mais à mão, mas o odor, esse, é sempre o mesmo!

Aborto em primeiro; IVG em segundo; não e sim e sim e não não se conseguiu apurar!
Quantos dias faltam para 12 de Fevereiro pra ivgetizar este assunto de vez?

Via A Infelicidade ao Alcance de Todos deixo este excerto:

De repente médicos percebem imenso de doutrina de direito, advogados descodificaram genes e ligações neuronais, sociólogos distinguem-se em conhecimentos sobre neuroses e psicoses, religiosos castos falam com profusão de detalhes de relacionamentos íntimos que por certo leram algures, escritoras rasgam as fronteiras da filosofia, economistas teorizam sobre prisões, psicólogos dirimem o código de processo penal.

Não há pais para a consciência. É individual e intransmissível. é o que lembra a T-Regina no Blocosaurius_loch.

Eu também acho absurdo este ‘mandar calar’, Francisco José Viegas, mas não compreendo por que raio os partidos têm direito a tempo de antena num assunto que recusaram decidir!

Depois de em vídeo no 31 da Armada ter dito que iria votar não apesar de ter defendido a despenalização da IGV, é claro que a consequência de semelhante incongruência é o que (lido no Letras c/ Garfos) hoje foi obrigado a dizer:
uma mulher que aborte aos 8 meses e meio, não deve ser criminalizada.
Há quem faça a cama e não se importe de deitar nela. Até aí tudo bem, o que eu estranho é que consiga dormir!

no Público de hoje utilizando uma estratégia conhecida – um pé dentro e outro fora. (link Abrupto)
Nada de novo, afinal, é a sua estratégia pessoal de sempre, à qual deve o estatuto mediático que alcançou.
A coisa vende, não haja dúvida, foi decalcada da do outro Professor que veio explicar que sim, mas talvez nem por isso em relação ao mesmo assunto. Com uma pequena diferença, contudo, Marcelo Rebelo de Sousa disse o que vai fazer.

é a que faz a Helena Araújo no 2 Dedos de Conversa, sob o título Jogar a Feijões.

O nosso cardeal, afinal, sempre se meteu no aborto, na sua discussão, entenda-se, levando troco da Fernanda Câncio. Está tudo no Contra Capa da Cristina Vieira.