Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

Completou-se anteontem o 1º aniversário sobre o desmantelamento do Ballet Gulbenkian sem que nada, em rigor, tenha sido feito para manter viva e activa a estrutura performativa portuguesa internacionalmente mais conhecida e reconhecida. Nas minhas estadias pela Europa constatei que, nos meios que se interessam pela cultura, a Gulbenkian era uma entidade de referência assente em 3 vertentes: o espaço de concertos em Lisboa; bolsas para estudantes; o Ballet Gulbenkian!
Num momento em que impor uma marca no mercado é o “totem” de todos os especialistas de marketing, já que é o passo fundamental para a internacionalização de qualquer bem ou serviço, nós dámo-nos ao luxo de deitar ao lixo uma das raríssimas marcas que temos, talvez a com mais poder de penetração a nível cultural!
A Gulbenkian não a quer? Pode ser um erro, mas é dos que a administram, não é assunto público! Agora não a aproveitar - uma associação, uma fundação, o Estado, uma parceria entre privados e Estado - demonstra que, afinal, nós, os que gritamos pelas artes e pela cultura em geral, somos uns inertes sem respeito pelo que, muito palacianamente, dizemos que queremos defender!
A marca Ballet Gulbenkian demorou décadas a ser construída e um dia apenas a ser destruída!
Percorrendo a blogosfera dei conta que o Tiago Bartolomeu Costa e a Alice Valente não esqueceram o fatídico momento.
Fui procurar e reler alguns textos escritos à época pelo Henrique Silveira (vários em Julho de 2005), pelo Manel das Trutas (vários em Julho de 2006), pelo Luís Antunes (link), pelo Tiago Bartolomeu Costa (link), pelo P.V.M. (link), pela Thita que reproduz um texto de Miguel Esteves Cardoso editado na Periférica (link), pelo Old Mirror (link e link), pelo “O Céu sobre Lisboa” (link), pela Teresa Cascudo (link), pela Catarina (link), pelo Daniel Tércio (link) e por mim próprio (link) e dei comigo a pensar que, mais uma vez, na hora, todos temos opinião firme e solução à vista sem nunca, neste país, nada se consubstanciar! E excatamente porque nada fazemos se não palrar, mesmo que vocifrando a alta voz, andamos e continuaremos a rogar pelo amparo do papá Estado, desde os keynesianos aos mais acérrimos neoliberais, para ficarmos por estes!
Onde está a iniciativa privada de toda esta gente que à época se indignou? Que fizemos nós, os que choramos o fim do Ballet Gulbenkian, por ele? Nada! Rigorosamente nada a não ser assinalar a data e “bater no ceguinho”!
Ai de nós que exigimos que o Estado faça aquilo que cada um deveria fazer! O Estado (é esse o problema) não é uma entidade etérea, somos nós, nós mesmos, os mesmos que palramos e nada por ele fazemos, nem sequer exigir, com propriedade e de forma consequente, sabemos!
A acrescentar ao que escrevi há 1 ano nada, mais nada tenho, a não ser a total falta de assertividade e competência no desempenho da nossa cidadania!
Deixo um poema da Alice Valente dedicado ao Ballet Gulbenkian, “Movimento Presente” e o sincero desejo de que as novas gerações trabalhem mais pelas seguintes do que nós por elas fizemos.

Não tenho dúvida de que a extinção do “Ballet Gulbenkian” é uma perda sem retorno para a dança e a cultura portuguesa.
Como disse o Henrique Silveira, O “Ballet Gulbenkian” já não era da Fundação nem sequer português - era património mundial e um orgulho nacional.
Permito-me, contudo, reflectir um pouco sobre modelos de gestão culturais e de gestão de dinheiros públicos no que à cultura diz respeito.
Será, no entanto, que a Fundação poderá abster-se de se regular pelas tendências de gestão cultural hoje em voga, muito mais rentáveis e, em muitos casos, não menos eficazes?
Estou de acordo quando o Henrique afirma «Longe estão os dias de Azeredo Perdigão, longe está a elegância e a qualidade do homem que fez da instituição o verdadeiro ministério da cultura de Portugal» mas, apesar da excelência da referida Companhia e do facto de ser, em boa verdade, a única escola de ballet em Portugal, o que a Fundação gasta com a sua manutenção é muito menos rentável do que apoiar diversos projectos na área, dentro e fora de portas, ou organizar espectáculos - o seu nome e imagem obtêm uma implantação exponencial face à aposta numa companhia residente.
É que longe vão os dias de Azeredo Perdição, os dias e os tempos, havendo que modernizar a gestão da Fundação para que daqui por uns anos possamos ainda contar com ela para apoiar a cultura portuguesa.
Note-se que digo isto com mágoa, entenda-se, mas trata-se de uma empresa privada, no caso com a figura jurídica de fundação, não lhe cabendo o papel que desempenhou, é certo, de ministério da cultura, mas sim de apoio aos projectos que considerará mais interessantes para o desenvolvimento da sua missão.
«Este país tem umaministra da cultura que não comenta nem dá a sua opinião sobre a extinção do Ballet Gulbenkian», diz o Henrique. Pois não, não comenta nem deve interferir na esfera do privado, podendo, apenas, lamentar a perda.
O que eu questiono é por que razão o Estado nunca apoiou a Fundação Gulbenkian, nomeadamente, a sua Orquestra e o seu Ballet?
De facto, o que agora aconteceu ao Ballet poderá rapidamente acontecer à Orquestra, uma vez que não se justifica que o Estado continue sem privilegiar a Gulbenkian como parceira preferencial nos domínios da Cultura e da Ciência, em vez de andar a esbanjar, só em Lisboa, dinheiros públicos com uma Companhia de Ópera, residentemente fixa e fixada, uma Sinfónica agregada à Ópera que pouco toca e não se desloca e uma Orquestra Metropolitana de que ninguém compreende a sua razão de existir, pulverizada que está de estrangeiros, negando a sua missão prima de ser uma via de profissionalização para os alunos da Escola Superior de Música que está na base do projecto AMEC!
Algo me diz que, não havendo dinheiro para isto tudo, o Estado deveria, há muito tempo, aliar-se a quem sabe fazer, a Gulbenkian, e abster-se de manter projectos que revelam indícios muito duvidosos na divulgação da música, do ballet e da ópera.
É tempo de poupar onde está muito mal gasto e aplicar os parcos recursos em quem tem provas dadas de que sabe fazer.
Quem sabe se, deste nodo, não seria possível Portugal manter a Companhia de Bailado e a Orquestra, apoiadas pelo Estado e pela Gulbenkian e outros privados, não deixando o ónus da manutenção, exclusivamente, para a Fundação?

ps: os bailarinos do Ballet Gulbenkian abriram um blogue (clique)

Via Vítor I. do “Abaixo de Cão” tomei conhecimento da Peticao Contra a Extincao do Ballet Gulbenkian dirigida à administração da respectiva Fundação.
Sirvam-se, por favor.