Eurico Carrapatoso compôs, por encomenda da Casa da Música, Como peixe português na água tropical, obra que terá a sua estreia mundial amanhã, dia 9 de Maio, na Sala Suggia, às 18:00h, pela Orquestra Nacional do Porto dirigida por Roberto Tibiriçá, num concerto evocativo dos ‘Choros do Brasil’.


Eurico Carrapatoso - fotografia de Joao TunaConfiar a um compositor português uma obra que homenageasse a música popular brasileira é uma iniciativa arrojada, sendo com enorme expectativa que aguardo pelo resultado final conseguido por Eurico Carrapatoso, muito embora me sinta antecipadamente confortável por lhe conhecer as largas virtualidades que o seu cabedal cultural lhe proporciona. Aliás, o próprio compositor afirma que, quando tal empreendimento lhe foi proposto, vi claramente visto o lume vivo.
Eurico Carrapatoso adianta alguns detalhes sobre a sua educação em música brasileira:

(…) o Verão Quente de 1975 foi bem quente para mim e principalmente para os meus dedos: não sosseguei enquanto não tirei de ouvido um lp a solo de Baden Powell a fazer música sua e de Jobim. Aqui se ancora a fermentação lenta e inicial da minha matriz musical. Quando, bem mais tarde, comecei a estudar música teórica, então com 23 anos, já levava a escola poderosa de ouvido, firmada na bossa nova. A minha formação como compositor tem esta propedêutica tropical.

Confesso que a minha admiração por Eurico Carrapatoso é composta por uma amálgama de emoções que advêm, concomitantemente, do humor e elegância que a sua rectórica exala e se estende pela sua prosa poética, da profundidade e clarividência dos seus alicerces culturais, da sua música, claro, da sua única e muito própria mestria enquanto professor, ou seja, da integridade do seu Ser-se como Pessoa.
Como peixe português na água tropical desenvolve-se em três andamentos e um violoncelo cantor, deixando-vos aqui o texto que o próprio Eurico Carrapatoso escreveu a propósito.

O 1º andamento, Samba lento – Chaconne, parte de um conceito improvável, sobrepondo dois campos semânticos díspares: por um lado, o samba; por outro, o velho baixo ostinato cromático descendente barroco, sobre o qual a Dido tanto se lamentara no século xvii. Se, à partida, parece esta sobreposição impossível, de tão esdrúxula (qual gravura de Debret “Mulato com cabeleira empoada”), deu‑me uma boa dose de gozo esgrimir com este paradoxo, tentando levá‑lo à categoria daquilo que primeiro se estranha e depois se entranha.
O 2º andamento, Chorinho, é isso mesmo: evocativo, directo, assim simples, assim lírico, com uma que outra harmonia mais gotosa. Já o percurso sentimental deste chorinho não é assim tão simples, antes coisa assente na elipse da vida, fazendo lembrar as espirais de Escher que voltam misteriosamente ao mesmo sítio: é o meu pedaço de Mirandela que sinto em Coimbra; e é o meu pedaço de Coimbra que sinto em São Salvador da Bahia; e é o meu pedaço da Bahia de São Salvador que sinto em Belmonte.
O 3º andamento, bem menos evocativo do Brasil, é uma meditação elegíaca: dedico ao Jobim uma leitura pessoal do hino gregoriano Veni creator spiritus, ao qual regresso, filtrado pelo caleidoscópio das novas harmonias novecentistas, um caminho que Jobim trilhara tão firmemente com o seu esplêndido instinto, revelando ao mundo, tal como Debussys, Messiaens e companhia, um jardim de mui deliciosos frutos, embelezando‑o
com novas cores, perfumando‑o com novas fragrâncias.

Notas biográficas de Eurico Carrapatoso:

Eurico Carrapatoso nasceu em 1962 e é natural do distrito de Bragança.
É licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Iniciou os seus estudos musicais em 1985, tendo sido sucessivamente aluno de composição de José Luís Borges Coelho, Fernando Lapa, Cândido Lima e Constança Capdeville. Concluiu em 1993 o Curso Superior de Composição no Conservatório Nacional de Lisboa com Jorge Peixinho.
Foi assistente de História Económica e Social na Universidade Portucalense.
Leccionou na área da composição em várias instituições, nomeadamente na Escola Superior de Música de Lisboa e na Academia Nacional Superior de Orquestra. É desde 1989 professor de Composição na Academia de Amadores de Música e no Conservatório Nacional, sendo professor do quadro desta última instituição. Recebe regularmente encomendas das principais instituições culturais portuguesas e a sua música tem vindo a ser executada, editada e difundida desde 1987 não apenas na Europa bem como nos restantes continentes.
Ganhou as primeiras edições do Prémio de Composição Lopes Graça da Cidade de Tomar e do Prémio Francisco de Lacerda.
A sua música representou três vezes Portugal na Tribuna Internacional de Compositores da UNESCO, realizadas em Paris em 1998, 1999 e 2006, com “Cinco melodias em forma de Montemel” (para soprano, trompa e piano), “Deploração sobre a morte de Jorge Peixinho” (para grande orquestra) e “O meu poemário infantil” (para tenor e orquestra)
Em Maio de 2001 foi distinguido pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal com o Prémio da Identidade Nacional.
Foi condecorado pelo Presidente da República com a Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique em 10 de Junho de 2004.

ps: fotografia de João Tuna

Madalena Sá e Costa, uma das mais insígnes discípulas de Guilhermina Suggia e neta do fundador do Conservatório de Música do Porto, Bernardo Moreira de Sá, lança um livro há muito prometido e aguardado – “Memórias e Recordações“.
O lançamento de “Memórias e Recordações” ocorrerá na Casa da Música, dia 24 de Fevereiro, às 19:00h, na sala 2, iniciativa enquadrada numa série de 6 concertos a decorrer de hoje a Domingo na Casa da Música em homenagem a Guilhermina Suggia.
Pode ser que o violoncelo “Montagnama” que Suggia legou ao Conservatório do Porto apareça, mais uma vez, de relance…
Não será demais relembrar o hercúleo trabalho de Virgílio Marques na constituição da Associação Guilhermina Suggia para que uma das melhores violoncelistas de sempre não fosse definitivamente apagada da nossa memória colectiva.

Ainda não recebi a dita cuja programação da Casa da Música, mas a avaliar pelo que o Heitor vai adiantando no desNorte só espero que a Sra. D. Gabriela Canavilhas continue a comentar uns concertozitos porque é uma grande mais valia para a instituição!
É caso para perguntar: que seria da Casa da Música sem a Sra. D. Gabriela Canavilhas?

A Sónia A. no Tónica Dominante atirou com o vídeo que abaixo edito, perfeitamente extasiada com Grigory Sokolov que tinha acabado de ouvir na Casa da Música. (ver o que HVA escreveu sobre o Concerto)
Saber quem é o melhor panista do mundo é coisa que todos vamos sentindo com vários pianstas no caminho da vida, em moods dversas e dependendo da forma como sentimos a interpretação de determinada obra. No entanto, a interpretação deste Tic-Tac_chock é perfeitamente inverosímel pela perfeita aliança ente a técnica exigível e a musicalidade que emana. Uma pérola!
Aconselho, aos mais devotos, ajoelhar solenemente antes de ouvir, por favor…

O HVA do Desnorte faz um breve balanço da programação da Casa da Música desde Abril de 2005 para chegar à mesma conclusão que o Henrique Silveira, no Crítico, e eu também escrito – muito fraca a programação do 2º trimestre!

Conforme dei notícia (aqui e aqui) a Casa da Música deixou-nos em suspense (ou à beira de um ataque de nervos) quanto à ausência de programação para este ano. Finalmente lá temos a dita cuja que estava em falta para, atempadamente, podermos escolher.
Escolher? Sim, escolher entre um extenso rol de eventos, cuja qualidade geral deixo ao critério de cada qual, numa programação, como direi…, assim talvez, de amigos para amigos!
A manter-se esta tendência tão amistosa do seu amigo, tudo quanto Alves Monteiro deixou e que Withworth-Jones programou esfumar-se-á, deixando a Casa da Música à mercê daqueles que, para já muito veladamente, são seus inimigos, mas que ao mínimo rastilho surgirão em uníssono coro contra os gastos que a instituição efectua por conta do contribuinte. E o pior é que poderão ter razão!

Subscrevo na íntegra a solicitação do HVA no desNorte que com humor expõe o ridículo da programação da Casa da Música para 2007 bem como a impensável qualidade da estrutura e da informação do respectivo site.
Ai Alves Monteiro, que saudades…

Violoncelo de Guilhermina Suggia sobre hoje ao palco da Casa da Música
O violoncelo Montagnana que pertenceu a Guilhermina Suggia, uma das maiores figuras da música portuguesa, vai ser utilizado domingo pelo solista José Augusto Pereira de Sousa, num concerto na Casa da Música (CdM), Porto, foi hoje anunciado. (Público)

Ele há gente que constrói, assim, de forma profundamente sustentada e enraizada, uma sólida e expressiva e promissora carreira…

A propósito do concerto que Murray Perahia deu anteontem na Casa da Música o HVA, no desNorte, escreve um texto que subscrevo na íntregra, pelo que escreve diz e pela elegância com que justamente se indigna!
A Casa da Música está a mudar, vai mudando, vai refazendo-se, vai esquecendo o que Alves Monteiro legou! (ver aqui, aqui e aqui)
Deixo um breve excerto do texto do HVA:

Não sei se tem a ver com o regresso do filho pródigo, mas sei que a programação já não tem o fulgor (leia-se qualidade) de tempos não muito distantes. Parece que está mais variada, dizem-me. Naquilo que me diz respeito, quem quiser variedade(s) que vá ao Rivoli.

Emmanuel Nunes em residência

Emmanuel Nunes é o compositor em residência na Casa da Música este ano. O primeiro módulo decorrerá entre 15 e 20 de Janeiro. Para mais informações clique na imagem se redireccionar directamente para o sítio específico do site da Casa da Música.