Ernestina Pinheiro, fundadora da Academia de Música do Centro Cultural de Beja que mais tarde, em 1993, estaria na origem do actual Conservatório Regional do Baixo Alentejo, do qual foi a primeira directora pedagógica, deixou-nos esta madrugada.
Beja, e o Alentejo em geral, ficam devedores à Senhora D. Ernestina e seu marido, Henriques Pinheiro, de um exemplo de vidas dedicadas à cultura e à educação artística em momentos bem mais áridos que os de hoje, à custa de grande labor, tenacidade, seriedade e integridade, sem nunca terem aceitado recorrer a expedientes de tráfico de influências, cujo preço é sempre incalculável, embora de pagamento obrigatório e prolongado.
Fecha-se, definitivamente com o seu desaparecimento, um ciclo para o Ensino da Música, nomeadamente para o Conservatório Regional do Baixo Alentejo, pelo que construiu e pelo que em legado nos deixou.
Bem haja Senhora D. Ernestina.
Ateu convicto, herdeiro do anti-clericalismo da 1ª República, Henriques Pinheiro sempre manifestou desagrado pela forma como prestamos a última homenagem aos falecidos, aculturados que estamos pelos costumes da Igreja Católica – na verdade não existem fora das residências espaços próprios para depositar os defuntos que não sejam as igrejas.
Por força destas circunstâncias e por ideia cuja origem desconheço, mas que não andarei longe da verdade se disser que deverá ter partido de José Filipe Guerreiro, o Conservatório Regional do Baixo Alentejo acolheu o corpo de Henriques Pinheiro no seu auditório para o cumprimento das suas exéquias.
O momento revelou-se particularmente intenso, emocional e espiritualmente, sabendo que, apesar do defunto nunca ter demonstrado receio em partir, manifestou por diversas vezes a sua tristeza se tal ocorresse antes da inauguração do belo edifício que é hoje sede do CRBA.
Agradeço a quem teve esta inciativa pois, tendo tido o privilégio de contar com a amizade do Dr. Pinheiro, sei que foi a homenagem mais adequada, simbólica e do seu agrado que poderia ter sido feita.
Faleceu hoje, com 87 anos, o primeiro responsável pelo meu amor pelo Alentejo.
Médico de profissão, Henriques Pinheiro notabilizou-se como o mais profícuo promotor e organizador de eventos culturais no Alentejo, nomeadamente no âmbito da música clássica, de conferências e saraus sobre várias áreas do conhecimento e de reflexão, bem como pioneiro na batalha por um ensino artístico de qualidade.
Antes de Abril de 74 foi representante da Juventude Musical Portuguesa e, mais tarde, da Pró-Arte para o Distrito de Beja.
Consolidada a liberdade, funda, com sua mulher, o Centro Cultural de Beja do qual nasceu a Academia de Música de Beja que, mais tarde, constituída já uma equipa de professores, dá origem ao actual Conservatório Regional do Baixo Alentejo (instituições associativas sem fins lucrativos e das quais Henriques Pinheiro nunca auferiu qualquer vencimento ou honorário), onde se manteve sempre como Presidente do Conselho de Administração, tendo conseguido o feito ímpar de envolver como associados neste projecto todos os municípios do Baixo Alentejo, juntamente com o Centro Cultural de Beja.
Faleceu hoje um homem grande, um homem de causas, de grande exigência consigo próprio, sem medo de contratar profisssionais competentes que o ajudassem a erguer os seus sonhos e não meros “papagaios” que lhe garantissem a ausência de protagonismos alheios, tendo deixado obra feita sem nunca ter cedido a tentações facilitistas de redução dos níveis de qualidade tão em voga nos dias que correm, que apenas atraem incultos em busca de entretenimento em vez de cultivar.
Eu devo-lhe muito, o exemplo de uma vida de lutas em prol da cultura, o Alentejo também, seguramente, exigindo-nos agora o agradecimento e respeito pela sua memória, bem como a continuidade da obra e dos princípios em que ela se erigiu.
ps: fotografia retirada do Diário do Alentejo.





















