O tom conciliador da senhora Ministra da Educação que evoquei no post anterior não durou sequer 24 horas! Agora lemos no “Portugal Diário” (aqui e aqui):
- A ministra da Educação acusou esta terça-feira o Conservatório de Lisboa de «arrogância»
(…) a contestação de alunos, pais e professores da Escola de Música do Conservatório Nacional, em Lisboa, reflecte «uma resistência muito profunda à mudança» e também a «arrogância» de quem pensa que o trabalho que está a desenvolver «está muito bem feito»

1 – Arrogância, minha senhora? Arrogância de alunos, pais e professores? Assim todos, pimba, aí vai tudo de uma só assentada?

- «A história e a memória não justificam o trabalho que fazemos hoje. Temos que fazer o nosso trabalho e não viver do trabalho que os outros fizeram no passado»

2 – A história e memória não justificam o trabalho que fazemos hoje e é exactamente por isso, senhora Ministra, que devemos tentar compreender por que é que nunca jamais em tempo algum houve tantos e tão bons músicos em Portugal como hoje!

- Maria de Lurdes Rodrigues lembrou que o regime supletivo é «excepcional» e que é preciso fazer prevalecer o regime normal de funcionamento (…)

3 – O que é o “regime normal” de funcionamento, minha Senhora? Fui correr toda a legislação e documentos do seu Ministério e não encontrei essa terminologia em lado algum. O que pretende V. Ex.ª ao certo dizer?

- Sublinhou que a mudança proposta «não é radical» e, em jeito de recado ao Conservatório de Lisboa, referiu que «as reformas não se fazem na rua mas sim no gabinete».

4 – as reformas fazem-se no gabinete? Pois com certeza, Senhora Ministra, e se possível sem consultar os especialistas em cada matéria. Isso todos sabemos!

- «Houve um sinal crítico de que tínhamos debilidades no sistema de ensino artístico na área da música quando foi necessário recrutar professores para o 1º ciclo. Não havia professores em número suficiente. Isso significa que o nosso país falhou na componente de formação de profissionais para o ensino. Falhámos na formação de professores na área da música», afirmou Maria de Lurdes Rodrigues.

5 – Não havia professores para o enriquecimento curricular no 1º ciclo? Não sabia que V. Ex.ª acumulava as funções de Ministra da Educação com as de Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior! Assim sendo tudo ganha sentido, a “refundação” que pretende é certificar os alunos que concluem o ensino complementar numa escola de ensino artístico especializado com uma licenciatura em Ensino de Música! Não tinha atingido…, peço desculpa.

Não há novidade! A estratégia é conhecida e denuncia-a, Ex.ª Senhora Ministra da Educação. Enxovalhar publicamente professores e instituições de ensino parece ser o timbre que deixará do seu mandato! Já assim foi (e é) com os professores do Ensino Regular (ou genérico, como agora se diz).
Ao que isto chegou!


LEIAM e se estiverem de acordo ASSINEM e DIVULGUEM!

Domingos Fernandes defende o ensino democratizado da música. O ex-secretário de Administração Educativa do Governo de Guterres foi autor do estudo, divulgado há um ano, sobre o ensino artístico especializado que está na origem da reforma que o Ministério da Educação quer pôr no terreno em Setembro. O professor defende o ensino integrado. Afinal, “os conservatórios são escolas secundárias”?, justifica. (Público de 12 de Fevereiro de 2008)

Que esperar de um estudo coordenado por uma pessoa que afirma uma coisa destas na comunicação social? Fazer comparações entre o plano de estudos de uma escola de ensino artístico especializado com uma de ensino regular generalizado é muito próximo, já agora que estamos em comparações, que afinal ser mãe e pai é a mesma coisa pois ambos são pais!

Continua o Sr. Professor Doutor no mesmo jornal:
Os protestos estão muito centrados no Conservatório de Lisboa. Os outros estão a manter um diálogo construtivo com o Ministério da Educação e a procurar ajustar, com serenidade, as mudanças. Depois do estudo, de que sou autor, ter sido divulgado, houve um debate alargado, bastante participado e praticamente ninguém falou dos alunos ou das aprendizagens. Falavam de manter determinada situação… O relatório é “uma”? avaliação, não é “a”? avaliação. E não se refere apenas a Lisboa, mas a todo o país. Portanto, a perspectiva de desenvolvimento vai além de Lisboa. Custa-me ver instituições públicas com dificuldade em participar num processo que visa alargar o acesso ao ensino da música.

1 – Afirma o Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes, e bem, que o estudo não se refere só ao ensino da música. De facto o que lá está é um conjunto de orientações para a Educação Artística em geral sem qualquer suporte de base científica, mesmo no que à avaliação diz respeito. Como pode o Sr. Professor Doutor defender um estudo de avaliação do Ensino Artístico sem incluir no seu grupo de trabalho um único experimentado especialista das diversas áreas – música, dança, teatro, artes plásticas e multimedia…? Como pode o estudo ser válido se a equipa constituída não fez o trabalho de campo que se exigiria para uma correcta avaliação? Quantas escolas de ensino artístico especializado (das quase 100 existentes) visitou o grupo de trabalho?

2 – Praticamente ninguém falou dos alunos e das aprendizagens, Sr. Professor Doutor? Basta correr este blogue na secção Relatório de Avaliação do Ensino Artístico para se constatar que a sua afirmação carece de rigor. Se considerar o arquivo insuficiente ainda poderá visitar o Educação Artística FORUM.

3 – Com que base de rigor é que o Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes sustenta a afirmação de que a intenção é alargar o acesso ao ensino da música? Se a intenção fosse essa bastaria o Ministério da Educação permitir o crescimento das matrículas no regime articulado que é coisa que as Direcções Regionais de Educação durante largos anos impediram no que às escolas particulares e cooperativas diz respeito Coisa que não consta do seu relatório)! Por que razão é que o crescimento das inscrições no regime articulado foi congelado se a intenção será, parafraseando o Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes, alargar o acesso ao ensino da música?

4 – O que é para o Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes alargar o acesso ao Ensino Artístico? Desenvolver uma política de divulgação junto dos pais no sentido de aproveitar as boas práticas das escolas de ensino especializado ou meter tudo nas escolas de ensino regular na tontice do regime facultativo de “Enriquecimento Curricular”??

5 – Com que base científica pode o relatório do Ensino Artístico e o Professor Doutor Domingos Fernandes sustentarem que o regime integrado é melhor (para o desenvolvimento da Educação Artística em Portugal) do que o articulado ou o supletivo? Não se encontra no referido relatório qualquer base de sustentação rigorosa para essa afirmação, nem encontramos por essa Europa fora nenhuma prática que corrobore o que defende, sendo, afinal e tão-só, uma impressão!

Há condições físicas e humanas para esse alargamento? (pergunta jornalista)
Estamos num país que demora 30 anos a discutir isto e aquilo. Nunca há condições, porque as pessoas querem manter-se instaladas nos seus postos. A ideia do ministério é alargar a base de crianças que têm acesso ao ensino especializado, abrindo a possibilidade de mais meninos e meninas terem lugar nas escolas públicas a aprender música. O projecto visa ter um conjunto de conservatórios que funcionem como âncora – os que já existem e os que venham a ser criados, públicos ou parcerias público/privado – a outras escolas públicas com condições para ter cursos básicos de música. Esses conservatórios devem ser escolas de excelência, espalhadas pelo país. O que propusemos é que o ensino seja potencializado para que mais alunos tenham acesso.

6 – Tem razão o Professor Doutor Domingos Fernandes ao afirmar que andamos há 30 anos a discutir, mas em boa verdade, agora não se discutiu – entregou-se o assunto ao parecer de um grupo que nada tem a ver com o Ensino Artístico Especializado, não o conhece, nem desenvolveu o necessário trabalho para o conhecer! Será que precisaremos de outros 30 anos para que seja constituído um grupo de trabalho com especialistas experimentados para que um estudo de rigor científico seja conseguido? Será que a constituição muito à pressa de um Grupo de Trabalho para Reestruturação do Ensino Artístico Especializado que da área do ensino artístico especializado apenas conta com o director do Conservatório de Coimbra e com o Sr. professor de Português director do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga lhe parece suficiente?

7 – A ver se nos entendemos com as terminologias, Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes:
a) Afirma o Sr. Professor Doutor acima que o estudo que não é a avaliação, é uma avaliação;
b) O Relatório designa-se e passo a citar “Estudo de Avaliação do Ensino Artístico – Relatório Final“?;
c) O projecto visa ter um conjunto de conservatórios que funcionem como âncora;
d) A ideia do ministério é alargar a base de crianças que têm acesso ao ensino especializado, abrindo a possibilidade de mais meninos e meninas terem lugar nas escolas públicas a aprender música.

O que devemos aceitar como certo, Sr. Professor Doutor? O estudo coordenado por V. Ex.ª é apenas mais uma avaliação? O Relatório é final ou não é? Se é uma avaliação entre outras como se pode afirmar que o projecto visa…? A ideia do Ministério? Fico perplexo Sr. Professor Doutor, trabalha-se sobre uma avaliação entre outras, mas que afinal é final, aponta para um projecto definido mas, apesar disso, e Ministério da Educação trabalhará com base em ideias? Não lhe parece um pouco confuso?
Ideias, ideias sobre o quê? O Relatório é ou não final? Tem ou não rigor e validade científica? O Ministério da Educação tem um projecto de intenções e de firmes e rigorosas certezas? Ou, ainda, Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes, será mais uma de entre as milhares de experiências pedagógicas que tem sido implementadas?

8 – Se a ideia do Ministério é alargar a base de crianças que têm acesso ao ensino especializado, abrindo a possibilidade de mais meninos e meninas terem lugar nas escolas públicas a aprender música, o que todos achamos muito bem e louvamos tão elevada preocupação, o que é que isso tem a ver com as Escolas de Ensino Especializado? Alguma vez essas escolas impediram qualquer inscrição a qualquer aluno? Em que que os regimes supletivo, articulado e integrado obstam a que os alunos possam aceder às Escolas de Ensino Artístico Especializado?
A não ser que o Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes defenda junto com o Ministério da Educação que, pelo facto de as crianças deverem beneficiar todas da qualidade do ensino das escolas de ensino especializado, dever-se-á obrigá-las todas a frequentar os exigentes planos de estudos dessas instituições e fazer de cada escola do ensino regular uma escola de artes. Se assim for, Sr. Professor Domingos Fernandes, sinto-me na obrigação de retirar tudo o que desde que publicou o seu relatório venho defendendo.
Agora se o intuito é substituir a exigência de qualidade de ensino das Escolas de Ensino Artístico Especializado por 2 ou 3 “aulinhas”? de artes (assim tipo caldo de artes) até ao secundário, estamos conversados!

Actualmente, apenas um por cento tem acesso. Os conservatórios são escolas secundárias, não podem dar umas aulas avulsas, têm de ter turmas, não podem ser centros de explicações. Não vejo por que é que os meus impostos têm de financiar o ensino supletivo a adultos que já tocam e vão ao conservatório aperfeiçoar-se.
Por que é que os conservatórios não podem manter o ensino para os alunos do 1.º ciclo? (pergunta jornalista)
Essa questão merece ser amadurecida. Haverá boas razões para que esse ensino possa ter lugar nos conservatórios. É uma questão a ser trabalhada
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9 – Visão segura de quem visitou e conhece profundamente as Escolas de Ensino Artístico Especializado e a educação artística! Eloquente, diria! Aulas individuais de instrumento são para o Sr. Prof. Doutor aulas avulsas do género explicações!!! Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes, aulas colectivas de instrumento até ao complementar? Que poderei dizer… Confesso a minha incapacidade para lhe responder! Entramos numa dimensão onde a razão não é operacionante…

Por que é que os conservatórios não podem manter o ensino para os alunos do 1.º ciclo? (pergunta jornalista)
Essa questão merece ser amadurecida. Haverá boas razões para que esse ensino possa ter lugar nos conservatórios. É uma questão a ser trabalhada
.

10 – Em que ficamos Sr. Professor Domingos Fernandes, está preocupado com as criancinhas ou com os adultos? Se está preocupado com o acesso a uma educação artística de qualidade para as crianças não há necessidade de mexer em regimes de frequência, mas tão só incentivar os alunos a inscreverem-se nas Escolas de Ensino Artístico, financiá-las para que este seja gratuito para assegurar a igualdade de oportunidades e, por outro lado, trabalhar junto dessas escolas para que elas promovam o ensino de outras artes para além da música (como algumas já o fazem) porque a educação artística quer-se o mais abrangente possível e para todos.

11 – Não podemos nunca defender a “refundação”? que o Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes, colegas do estudo e Ministério da Educação defendem tão-só porque existem alguns adultos (e, entenda-se, que são uma muito pequena minoria) a beneficiar da prestação de serviços que as escolas de ensino artístico especializado promovem.

Assim, Sr. Professor Doutor Domingos Fernandes, não me resta outra solução que não seja a que defendo na petição que elaborei dirigida ao Senhor Presidente da República e ao Senhor Primeiro-Ministro, aqui on line, que defende, por um lado, que nada seja feito no que ao Ensino Especializado diz respeito com base no relatório do estudo que V. Ex.ª coordenou pelo facto de carecer de validade científica e, por outro, que seja encomendado um outro entregue a especialistas de experiência comprovada nas áreas que se pretende estudadas.


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A destruição da Educação Artística em Portugal que o Ministério da Educação prepara no que concerne ao ensino da música, da dança e do teatro, revela-se na substituição da qualidade da educação prestada pelas escolas de ensino artístico especializado (VER exemplo de PLANO de ESTUDOS) pelo Enriquecimento Curricular (VER O QUE ANDAM A FAZER ALGUNS ACADÉMICOS, sob o título A Música em contexto de Lazer.
Trata-se do enquadramento do ensino artístico no entertainment, no acto lúdico de uma pretensa aprendizagem! É o deboche, a maldade, a negação da qualidade da educação, pública e privada!
Tenha vergonha Senhora Ministra da Educação!!!


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Emmanuel NunesDas Märchen, a primeira ópera de Emmanuel Nunes, é hoje estreada no Teatro Nacional de São Carlos, às 16:30h. Encomenda conjunta do Teatro Nacional de São Carlos, Fundação Calouste Gulbenkian e Casa da Música no contexto de uma co-produção sem precedentes com a Fundação Calouste Gulbenkian, a Casa da Música e o Ircam-Centre Pompidou (Paris), tem a direcção musical assegurada por de Peter Rundel, a encenação por Karoline Gruber, a coreografia por Amanda Miller e realização Informática Musical por Erica Daubresse elaborada no IRCAM, uma conjugação que indicia uma qualidade elevada na representação cénica / músical da ópera que hoje assistiremos, com libreto de Emmanuel Nunes baseado no conto homónimo de Goethe (disponibilizo PDF com descrição, ficha técnica e sinopse).
De parabéns está o Ministério da Cultura pelo arrojo (ideia que teimosamente tenho vindo a defender da gestão implicada dos meios audiovisuais do Estado, da cultura e da educação) de transmitir, via RTP e PT Multimedia, em directo em 14 teatros do País e Ilhas, cumprindo, assim o desígnio que enforma o conceito de Rede Nacional de Teatros.
Pena tenho que o Ministério da Educação não se tenha aliado a esta iniciativa, assegurando a transmissão em todas as escolas do país, englobado, quiçá, no aberrante conceito de enriquecimento curricular!
Bom fim-de-semana.

ps: imagem gentilmente sacada do Miso Music.

Jordi Savall há dias, em entrevista a Ana Sousa Dias no programa Noutro Lado da RTP 2, reafirmou o seu empenho em tocar ao lado de músicos de outras origens e culturas como forma de aproximar as pessoas.
Parece uma blague, mas Jordi Savall acrescenta logo a seguir mais ou menos assim:
A música consegue comunicar, interagir e entender-se com outras culturas de uma forma que é inviável através da palavra, porque não há palavras que cheguem para dar significado a todo um turbilhão de emoções.


Jordi Savall, os Nederlands Blazers Ensemble (NED) e alguns músicos turcos a interpretar um arranjo de Onno Tunç de uma canção popular turca

De facto, pensando apenas nesta constatação insofismável, o despertar, o desenvolver e o aprender a lidar com essas emoções, que são afinal parte integrante e prima da condição humana, não podem ser conseguidas através de uma educação vocacionada essencialmente para a tecnologia e para o desenvolvimento de competências.
Esta é mais uma razão, se não uma das principais, para que não possamos permitir que a educação artística seja um menosprezado adereço no seio do sistema educativo, tal como está a ser implementada através da já redutora designação de actividade de enriquecimento curricular (link) (ver aqui e aqui), leccionada por professores contratados à peça directamente pelos conselhos Directivos das escolas (ver), nem um privilégio de uma pequena meia-dúzia de estudantes que optem por um ensino especializado conducente à profissionalização artística, como se pretende através do que se preconiza no Relatório de Avaliação do Ensino Artístico encomendado pelo Ministério da Educação (link), ao defender que o ensino artístico deverá ficar reservado a algumas escolas de ensino integrado em todo o país, chegando ao ponto de aconselhar o fim do financiamento do Estado dos regimes articulado e supletivo! (ver caracterização dos regimes de ensino artístico).
Se outras razões não houvessem (ver arquivo Educação Artística), as palavras de Jordi Savall apontam bem o caminho – o do despertar, desenvolver e aprender a lidar com emoções – o qual só através da inserção da educação artística nos planos curriculares desde o 1.º ciclo poderá ser percorrido, cumprindo uma missão fundamental de um sistema educativo: formar jovens em diversas competências, sim, mas em ambiente que lhes proporcione a necessária informação e convivência artística e humanística bastantes para propiciarem e despertarem a busca da sua própria identidade enquanto Pessoas.

Bom fim de semana.

Este país em Agosto anda sempre muito depressa! É de louvar o trabalho estival, em especial, aquele que um gajo só dá conta quando nele tropeçar, no caso quando nos apercebermos que os nossos filhos vão para a escola enriquecer em vez de aprender!
Não é que o Sr. ex-Presidente dos Institutos Politécnicos e actual Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, parece querer que todos os alunos sejam enriquecidos em vez de ensinados, trocando professores experientes por técnicos de enriquecimento avençados a 12 meses e directamente dependentes da superior boa-vontade dos Conselhos directivos?
A ideia até nem parece má, pôr os filhos na escola a enriquecer e, quem sabe, daqui a uns anos eles até já nascerão a ganhar para casa!!!
Vamos ler…

Escolas podem começar a contratar directamente professores a partir de 17 de Setembro. Esta medida serve para assegurar a substituição temporária de docentes, o recrutamento de formadores para as áreas técnicas e profissionais e ainda a contratação de professores para projectos especiais de enriquecimento curricular e de combate ao insucesso escolar.
Segundo a portaria, que aguarda ainda publicação em Diário da República, os estabelecimentos de ensino podem começar a 17 de Setembro a contratação directa, caso seja necessário, de professores dos grupos de recrutamento de Electrotecnia, Ciências Agro-Pecuárias e Música.
De acordo com o documento, assinado pelo secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, a 20 de Agosto, as contratações cíclicas mantém-se até 8 de Outubro para nove grupos de recrutamento, entre os quais Francês, Alemão, Espanhol, Geografia e Informática. (via Público)

Enquanto não nos livrarmos destas pessoas do eduquês, que pensam que as crianças são burras e à pala disso elaboram as mais rebuscadas teses de mestrados, doutoramentos e quejandos, a Educação no 1º Ciclo, nomeadamente a artística, estará entregue, tal como aconteceu já este ano, conforme há um ano alertei, a pessoas sem habilitações adequadas nem experiência, contratadas à peça e remuneradas à hora!
A Educação Artística para esta gente continua a ser um apêndice lúdico, esquecendo, ou não sabendo, que a expressão artística é mais antiga que a matemática, a física ou a escrita e não pode ser encarada como uma actividade de lazer! Deve, como saber e conhecimento fundamental para a construção da narrativa pessoal de cada aluno, ou se preferirem, como instrumento basilar para a formação da(s) identidade(s), estar a par e conjugada com os demais saberes! (link)
São pessoas como a sra. Prof.ª Dr.ª Lucília Salgado da Escola Superior de Educação de Coimbra, a qual apresentou uma comunicação sob o título Emergência de conhecimento a partir de práticas: apresentação do Estudo sobre o Enriquecimento Curricular em escolas apoiadas pela ESEC, inserida no encontro promovido pela ESEC, Aprender em Tempo de Lazer: o Enriquecimento Curricular que, ao não compreenderem tal necessidade, amputam as crianças de uma parte substancial dos instrumentos necessários ao seu desenvolvimento. Defendeu a senhora:
As actividades de enriquecimento curricular dos alunos do 1º ciclo devem ser realizadas em perspectiva lúdica e não como mais horas de aulas (…)
(…)
O problema são os tempos de lazer das crianças. Têm 25 horas de aulas por semana, mais dez horas de aulas de enriquecimento curricular, mais trabalhos de casa.
(…)
Lucília Salgado defendeu uma pedagogia “próxima do brincar, actividade em que a criança aprende imensas coisas”, que tem por base a teoria do lazer: descansar, divertir e desenvolver.
(…)
A criança deve aprender de forma lúdica. Não deve ser carregada com mais trabalhos escolares formais, mas ter uma aprendizagem através de actividades culturais.
(excertos retirados do Público)

Isto só pode ser brincadeira! Continuo, francamente, sem perceber para que servem estas Escolas Superiores de Educação, em especial, no que à educação artística diz respeito e que cada vez cativam menos alunos para os seus politécnicos cursos!

É a estes especialistas, sejam os das Escolas Superiores de Educação sejam os das Ciências da Educação que o Ministério da Educação se agarra para, paulatinamente, ir empobrecendo a educação das crianças e adolescentes e desmotivando (não tenho a mínima dúvida) os bons professores! Esta é a lógica do Professor Único, assunto sobre o qual também escrevi (aqui e aqui) muito do agrado do Sr. Secretário de Estado Valter Lemos!
Num momento em que sobre tudo e todos recaem suspeições, seria prudente que o Governo evitasse de alguma forma que se possa pensar que há estudos encomendados à medida dos interesses do Ministério da Educação!

Parece que a imperiosa necessidade do ensino artístico não consegue, definitivamente, mobilizar as pessoas para defender a sua inclusão generalizada na educação, que artística deveria também ser e não embrulhada numa confusão chamada de enriquecimento curricular.
Sinto-me cansado de bater no ceguinho (desajustada expressão porque até um cego consegue ver), farto de Ministros e Secretários de Estado que pretendem varrer o pouco que há, entristecido com artistas e agentes culturais que apenas pensam nos subsídios estatais para dar espectáculos, mesmo que público não tenham; enjoado com programadores que vão despejando o que lhes dá na real gana, com maior ou menor qualidade, sem cuidarem do fundamental – o investimento na educação artística (a par dos demais saberes, é claro) é o único caminho seguro para a formação de novos públicos, uma vez que um público conhecedor é o retorno garantido para que cada vez mais espectáculos possam acontecer.
O conhecimento não faz com que as pessoas sejam melhores que outras nem as torna mais felizes! Trata-se de uma questão de Ser, de sermos mais plenos.
Para quem ainda não assimilou a premência da educação artística em contexto curricular desde a infância deixo um vídeo de Bobby McFerrin, captado em Leipzig, sem necessidade de comentários nem legendas! Para quem quiser continuar a não querer entender ou a fazer ouvidos de mercador, olhem, foda-se!

Bobby McFerrin e Público – Bach-Gounod, Avé Maria

ps: Este texto foi inspirado num comentário que a Alice Valente deixou num post atrás, num email que a Filipa Taipina me enviou onde estava o vídeo, os quais alicerçam a tese que venho defendendo Educação em Cultura.
Muito obrigado às duas pela inspiração, desobrigando-as, claro, do f*** que me saiu.

Não há forma de entenderem que o desenvolvimento técnico, científico, artístico, passa por uma Educação em Cultura. É a cultura, aqui no sentido conhecer o património material e imaterial, condição essencial de assimilação de quem é o Homem em todas as suas dimensões, que deve servir de base a toda e qualquer forma, sistema, ou quadro dito “educativo”.
Agora o Ministério da Educação atira-nos com mais uma flashada: «Temos de inscrever o ensino experimental como actividade obrigatória no ensino básico e o caminho, para além de alguns projectos e iniciativas, passa pelo programa de formação contínua, dando continuidade à formação inicial do professor e permitindo valorizar as suas competências» (Maria de Lurdes Rodrigues ao Público), enquanto o Ensino Artístico ficou englobado, gloriamente para aquela gente, numa coisita chamada de Enriquecimento Curricular!
Bem eu disse que este pomposo conceito de enriquecimento curricular na escola me provoca urticária aguda!
É o regresso à Renascença, ao Iluminismo, talvez, mas com poucas, muito escassas luzes!

Nesta entrada recebi um comentário muito pertinente de Carlos Semedo sobre a natureza extra-curricular do Ensino Artístico anunciada pelo M.E., ilustrando, muito assertivamente, a minha afirmação de que se trata de «uma assumida regressão no que concerne ao almejado projecto de integração do ensino artístico no ensino regular.» Passo a transcrever integralmente.

Durante onze anos estive ligado a um projecto na área da expressão/educação/oquequiserem musical que obedecia a dois princípios: ser integrado no horário lectivo das escolas do 1º Ciclo e ser inteiramente gratuito para as famílias. Começou com cerca de 500 alunos e, no 11º ano de funcionamento, abrangia 2100 crianças; os professores eram recrutados pelo Conservatório Regional local e pagos segundo os bons preceitos: nada de recibos verdes ou 10 meses de salário, mas sim de acordo com o Contrato Colectivo de Trabalho, 14 meses, descontos todos feitos e, até um momento, com contagem de tempo de serviço.

Foi pago, sem falhas, pela Câmara Municipal local e, de uma forma sempre arrancada a ferros, pelo ME. Houve, por vezes, necessidade de recorrer à angariação de patrocínios para cobrir a diferença que o próprio Ministério não assegurava na totalidade.

Soube, hoje, que o projecto enquanto tal vai acabar, por causa destes delírios pós-lectivos/extra-curriculares/enriquecedores. Vai passar a ser uma coisa difusa, diluída nos diversos agrupamentos.

Curioso é o facto de, pelo menos até há dois anos atrás o custo aluno ser cerca de 55 euros/ano e, pelo que leio na comunicação social, o pessoal anda muito contente pelo custo ano/aluno das aulas de inglês que durante o ano lectivo corrente abrangeram o 3º e 4º anos. Sabem qual foi? 100 euros.

Não há aqui qualquer coisa que não bate certo?

Carlos Semedo