Tento muita vezes segurar-me quando leio Francisco José Viegas no Origem das Espécies para não transformar este canto num rol de citações. Mas esta não resisto e aqui a deixo, não substituindo a leitura integral do texto:

O que é preciso discutir, realmente, é o que se vai ensinar na escola. E para isso é preciso questionar seriamente uma geração de burocratas das ciências pedagógicas que, durante os últimos trinta anos, torturaram professores e alunos com as suas ideias de «engenharia escolar e social», os seus manuais deficientes, as ideias feitas, as vulgaridades e erros nos manuais de Português, História ou — ah, sim — até Matemática.
Francisco José Viegas em A Origem das Espécies.

E, acrescento, eu, criar os mecanismos para que essa demanda se efective e controle.

Isabel AlçadaFui dos que fiquei surpreendido pelo facto de Isabel Alçada ter aceite o convite para Ministra da Educação deste governo. Tenho elevada consideração pelo seu trabalho, em especial em Serralves e no Plano Nacional de Leitura que acompanhei com mais atenção, e confesso não vislumbrar no seu comportamento, que publicamente me foi dado a ver, grande espaço para cedências em que não acredita, sejam elas relativas a políticas governamentais ou relativas a corporações de professores ou de pais, pese embora o tom que cultiva, e sincero parece, de pessoa compreensiva e disposta a ouvir.
Dito isto, o tom que imprimiu durante a entrevista a Judite de Sousa não surpreendeu, bem pelo contrário, foi consonante com o que atrás disse, mas não me passou em claro a sua insistência na mensagem de que temos muitos e bons especialistas em avaliação, espalhados por todo o país, que poderão ir para as escolas ‘ensinar’ os professores a avaliar.
Sem colocar em dúvida a qualidade nem a quantidade desses especialistas não posso deixar de sentir que Isabel Alçada, apesar de partir com a vontade de descomprimir e sinceramente dialogar com os actores educativos, avança já colada ao ‘lobbie’ dos cientistas da educação que nas últimas décadas têm comandado, mais ou menos veladamente, as políticas do Ministério da Educação, os tais que sempre enunciaram sucessivas profundas reformas e refundações!
A postura de Isabel Alçada é contrastante com a de Maria de Lurdes Rodrigues que tanto à força tentou que as forças perdeu, e perdeu qualquer margem para mudar a sua imagem diante da sociedade, mas é bom não esquecer que, depois de ver que à força não conseguia, a sua tentativa foi a do discurso de que os professores necessitavam de formação para avaliar. Já ninguém a ouviu, é claro, mas é afinal essa mesma premissa de que parte Isabel Alçada, premissa essa enunciada por um dos mais reconhecidos especialistas em avaliação da área das Ciências de Educação, Domingos Fernandes. Escrevia assim em Maio deste ano este especialista, em artigo na ‘SÍSIFO – Revista de Ciências da Educação‘ da Unidade de I&D de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, pags. 87 e ss, sob o título ‘Avaliação das aprendizagens em Portugal – Investigação e teoria da actividade’:
As reformas educativas têm pouco impacto nas práticas dos professores e na sua consciência profissional. Os professores não possuem uma perspectiva crítica sobre os normativos da avaliação porque, em geral, não conhecem os seus princípios estruturantes. Talvez por essa razão considerem que os novos diplomas de avaliação vieram, acima de tudo, aumentar o trabalho burocrático. (link para pag. 90)
Subentende-se por estas palavras, e ao longo de todo o artigo, que para Domingos Fernandes, amigo de Valter Lemos, coordenador do ‘Estudo de Avaliação do Ensino Artístico‘ e defensor público das políticas de educação do anterior governo no ‘Fórum Novas Fronteiras’ (ver vídeo), não era o teor das reformas que era desadequado, mas a incapacidade ou o desconhecimento dos professores a causa do insucesso da sua exequibilidade. Ora, se não me engano, foi isto mesmo que Isabel Alçada veio, com muito bons modos, dizer, adiantando até que é necessário estes especialistas ensinarem os professores a avaliarem-se, numa colagem, aparentemente nítida, aos interesses do ‘lobbie’ das Ciências da Educação.
Ressalvo, como nota final, que sou dos que acredito que a boa educação e a observação de princípios conseguem fazer muita das vezes a diferença necessária, não por crer, mas porque gostaria de quando um dia morrer ainda assim sentir.

ps: para quem não estiver para clicar nos links aqui deixo a exuberante intervenção de Domingos Fernandes no ‘Fórum Novas Fronteiras’ de apoio e defesa das políticas de Maria de Lurdes Rodrigues, Jorge Pedreira e Valter Lemos.


Em boa hora Luís Braga, presidente do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas de Darque lançou a petição ‘Pela responsabilização efectiva das famílias nos casos de absentismo, abandono e indisciplina escolar‘.
De cruz, claro, a minha assinatura, para mais quando esta é a primeira das condições que enunciei para que se possa fazer algo na escola pela educação.

Valter LemosO Sr. Secretário de Estado Valter Lemos anunciou hoje que em Fevereiro será lançado pela Agência Nacional para a Qualificação o programa de avaliação externa das escolas e cursos profissionais.
Agora? Avaliar as escolas? Não deveria ter sido bem antes de mudar a avaliação dos alunos? Antes do Estatuto da Carreira Docente? Não deveria ter sido antes de mudar o método de avaliação dos professores? Antes da mudança da autonomia e dos órgãos de gestão da escola? Não quererá isto dizer que tudo quanto fizeram até ao momento foi sem conhecimento de causa?
Agencia Nacional para a QualificaçaoAvaliação pela Agência Nacional para a Qualificação? Quem são e o que sabem sobre educação, ensino e gestão escolar e, já agora, gestão Cultural?
Quando terminarão os dislates desta equipa do Ministério da Educação?

Numa conferência do Semanário Económico Sócrates afirmou:

O Governo tem sido deixado sozinho nesta batalha (do processo de avaliação dos professores) apenas por ter defendido que quer um melhor sistema de ensino público para o país.
(…)
A avaliação dos professores é indispensável para a melhoria do sistema educativo em Portugal nos próximos anos. (via Portugal Diário)

Jose SocratesÉ natural que Sócrates e sua equipa se sintam sós nesta ‘batalha’ em que se empenharam. É que ninguém vê no modelo de avaliação dos professores que:
1 – se avaliem os professores pelo devem fazer – ensinar;
2 – se consiga avaliar professores sem avaliar, com a mesma exigência, os alunos, pois os resultados destes, em exames nacionais ou provas globais corrigidas cegamente, é que se deve, prioritariamente, aferir o desempenho do ensino e da aprendizagem;
3 – se possa melhorar a qualidade do ensino público!
O problema não é a incompreensão dos partidos e seus apaniguados, antes Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues, Jorge Pedreira e Valter Lemos querem ver o que mais ninguém vê, atestado pela sondagem que revelou que quase 75 por cento dos professores mudavam de profissão se tivessem alternativa!
Ninguém com um mínimo de sanidade coloca em causa a avaliação de desempenho de quem trabalha, mas também ninguém vê que este modelo sirva para avaliar professores.

O Ministério da Educação através do Conselho de Ministros aprovou o ’simplexissímo’ modelo de avaliação do desempenho dos professores e, simultaneamente, fez aprovar uma série de medidas para tentar chamar para o seu lado os professores titulares em fuga das escolas públicas ao dispensar da avaliação os que se encontrem em condições de pedir a reforma até 2011 e os docentes contratados em áreas profissionais, vocacionais e artísticas, não integradas em grupos de recrutamento.
Aproveita, ainda para aumentar em 50% o suplemento de ordenado dos Directores Executivos das Escolas e colocações por 5 anos para o próximo concurso de professores!
Eis o nacional ‘chico espertismo’!
O DN, através de Nuno Saraiva, sob o título ‘Governo aposta tudo na divisão dos professores’ vai mais longe:

O Governo aprovou ontem em Conselho de Ministros a redução do número de professores a avaliar. E prometeu ainda o número de quadros para a docência e subir o ordenado das novas chefias. O objectivo é dividir os professores, antes da greve marcada para 19 de Janeiro. José Sócrates não quer arriscar começar o ano de todas as eleições com nova contestação maciça dos professores
As medidas ontem aprovadas pelo Conselho de Ministros têm um objectivo político claro: dividir os professores e reduzir o número de adesões à greve de 19 de Janeiro. Ao DN, uma fonte governamental garantiu que se trata de “uma rearrumação do tabuleiro de xadrez”, em que se joga a batalha com os docentes.

Não há vergonha! É o vale tudo, de tudo, para atingir os fins! Que fins? A designação de modelo de avaliação uma vez que do seu conteúdo, da substância, já nada resta!

Antonio VeroneseParco tem sido o tempo para escrever como gostaria sobre este psico-processo da avaliação de professores (ler excelente texto da Alice Valente). O método e a metodologia eram inegociáveis para Maria de Lurdes Rodrigues; os sindicatos, sem qualquer vergonha, desconfiados de já que não representarem os professores, assinaram em Abril um acordo com o Ministério onde apenas adiavam o problema sem o resolver, sabendo, por tal, que o inexequível método faria retornar os professores às ruas.
Entretanto, diante do impasse criado pela Sra. Ministra e pelos sindicatos, logo aparecem sugestões de reactivação do diálogo entre eles após duras palavras entre eles: uma comissão de sábios; sentem-se novamente à mesa e reflictam; simplifiquemos a burocracia da avaliação, mas esta mantém-se e o método também. Porreiro! Como é que não nos lembramos disto antes?
Mas que se passa? Passa-se que o diabo das estruturas democráticas deixaram de controlar as pessoas, no caso os professores, e eles, os das democracias bem estruturadinhas assustam-se com estas demonstrações de cidadania activa – os professores emanciaparam-se do Ministério e dos sindicatos! Os professores, avaliadores e avaliados, sabem que esta avaliação não serve o ensino nem a aprendizagem dos alunos, quanto mais não seja porque deixaram de ter tempo para ensinar.
Mas cuidem-se senhores professores que a avaliação é essencial para melhorar a aprendizagem dos alunos. Não esta, eu sei, que apenas serve para enquadrar progressões de carreira, mas uma que reflicta os que ensinam e o que os alunos aprendem! Sim, a avaliação de professores só faz sentido se estreitamente ligada à progressão dos resultados dos alunos, em exames nacionais e provas globais! Mas, hélas, A Dra. Maria de Lurdes Rodrigues, apesar de apregoar que a avaliação em curso serve para beneficiar os alunos, em mais uma tentativa de virar os pais contra os professores, sabe bem (espero) que não pode haver uma correcta e séria avaliação dos professores pela simples razão que tem vindo a anular a avaliação dos alunos!
Então, se nas palavras da Senhora Ministra e dos cientistas da Faculdade de Psicologia de Lisboa e dos pediatras e dos pedo-psiquiatras não faz sentido reter (reter quer hoje dizer chumbar) alunos no mesmo ano, também não faz sentido reter os professores em avaliações sobre a aprendizagem dos alunos! Façam antes uma eleição, ou referendo, se preferirem, sobre quem deve progredir, anualmente, na carreira docente e poupem-nos a esta palhaçada!

Apareceu a notícia no Público de que a polícia terá carregado sobre os alunos da Escola C+S de Alfragide, tendo ferido, pelo menos, um.
Carga PolicialIsto está a tornar-se absolutamente insustentável: a Sra. Ministra da Educação tratou de, pública e recorrentemente, desautorizar professores e escolas; ontem surge Mariano Gago, o Ministro da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior, a desautorizar os gestores das universidades em vez de assumir que as tornou financeiramente insustentáveis; por fim, quem mandou a polícia para a Escola C+S de Alfragide mais não fez do que contribuir para que nos habituemos, também, a desautorizar as forças policiais!
De desautorização em desautorização chegaremos a um ponto em que, não merecendo já os governos que lhes concedamos autoridade, eles próprios se encarregam de a esvaziar de todas as instituições sociais, aquelas que, afinal, ainda sentimos que poderíamos recorrer em caso de necessidade.

Auto do Fidalgo Apreniz de D Francisco Manuel de MeloUm comentário atrás da Nilza sobre avaliação de professores, uma boa amiga de longa data, conseguiu despertar-me para a sensação de que alguns dos que ainda se dão à pachorra de ler o que para aqui extravaso poderão pensar que sou contra a avaliação de desempenho. Quem assim entende creia que não é essa a minha opinião, aliás, anteriormente e bastas vezes manifestada (ver aqui ou aqui, por exemplo). Considero a auto-avaliação e a avaliação por outrem instrumentos indispensáveis para o desenvolvimento de qualquer profissão, pelo facto de permitir reflectir sobre o que se fez para interrogar e testar estratégias que permitam melhorar o desempenho de cada qual.
Não vejo que a profissão de professor encerro alguma particularidade que desvirtue esse princípio, bem pelo contrário, mas sei, estou certo, que também como em qualquer outra actividade o desempenho se avalia através da produtividade que, no caso do professor é a aprendizagem dos alunos.
Sendo a aprendizagem dos alunos o objectivo primo do professor, é através da particular inter-relação entre cada aluno e cada professor que tudo pode ser ser melhorado ou não.
É exactamente por este facto que considero o actual modelo de avaliação imposto uma autêntica aberração burocrática, muito embora como não consiga entender que a reivindicação dos professores tenha incidido na negação de qualquer sistema de avaliação e não na exigência, junto do Ministério da Educação, na implementação de um sistema de avaliação centrado na aprendizagem dos seus alunos, sem outros quesitos laterais e colaterais que em nada interferem no foco da sua profissão – fazer com que os alunos aprendem e gostem de aprender.
Por isso, trago para aqui um excerto do comentário da Nilza pela pertinência que revela em relação a aspectos positivos de uma correcta avaliação de professores.

(…) reajo, tentando mostrar um outro lado da questão do estado actual da educação, da escola, dos professores… Esta reacção não é carregada de teoria mas apenas pretende compartilhar convosco um episódio recentemente vivido a propósito de avaliação dos professores.
Um dia destes fui visitada por uma amiga professora do ensino básico e a conversa foi inevitavelmente para o “tempo que se está a perder com o processo de avaliação … as energias que isso tira para o efectivo trabalho docente com os alunos…Deixei-a desabafar e depois pedi-lhe que me falasse de tarefas concretas que têm que fazer nesse processo e aí, confesso, que a conversa me interessou bem mais… e então, começou a falar das ditas “matrizes” que agora têm que fazer sempre que dão um teste de avaliação…e foi confessando que afinal 1º fizeram (a minha amiga e os colegas que leccionam a mesma disciplina na escola) o teste e só depois a matriz… e que SÓ AÍ se aperceberam que o teste nem tinha sido muito bem construído…que havia questões que tinham sido colocadas e que didacticamente não tinham feio muito sentido e que ao discutirem as resposta esperada dos alunos até se aperceberam que eventualmente havia um conteúdo científico que não estava a ser completamente bem dado … ao discutirmos isto fomos então falando DOS alunos que fizeram o teste, dos conteúdo leccionados a ESSES alunos, das dificuldades de aprendizagem DESSES alunos e das suas eventuais causas…
As matrizes associadas aos testes não são assunto novo (lembro-me de já ter aprendido isso nos anos 70 quando na Faculdade tirava o meu curso para ser professora de Física) mas se agora os professores se sentem “obrigados” a fazer e se isso os leva a pensar mais nos seus alunos… bem-haja o processo de avaliação dos professores!!!
Sei que não se pode generalizar a partir de um caso…mas se se criticam tanto as estatísticas (estou a ser um pouco irónica!!!) porque não partilhar convosco este caso.
Um abraço para todos,
Nilza

Jose Lopes Cortes Verdasca

Ora bolas! Eu a escrever que agora os pais davam mais no focinho aos professores devido ao enxovalho social que este Ministério da Educação tem publicamente exposto esta profissão (ele é que os professores não trabalham; ele é que os professores não querem ser avaliados…), a propósito da demissão em bloco do Conselho directivo da Escola de Santa Maria em Beja, eis, senão quando, o Sr. Doutor José Verdasca, director regional de educação do Alentejo, de pronto apontou os responsáveis pelas agressões ocorridas – os jornalistas!

(…) a culpa das agressões e insultos que se têm verificado na Escola EBI de Santa Maria é dos jornalistas, segundo as palavras do director Regional de Educação do Alentejo, no final da reunião que se realizou ontem à tarde no Governo Civil e que juntou para além de Manuel Monge e José Verdasca (…) via Rádio Voz da Planície

Afinal isto é como a crise financeira, um problemazito de regulação empolado pelos media. Assim é que é director Verdasca, preto no branco… sujo!