Os países ocidentais rapidamente etiquetaram Hugo Chávez de populista, comunista, ditador e pelo mesmo caminho, embora com a ‘nuance? de democracia autoritária ou ditadura light se vai catalogando Putin. No entanto, não se livrando Hugo Chávez da tentativa de, através do seu grupo parlamentar, tentar alterar a Constituição da Venezuela para uma versão programática, a verdade é que não teve medo de levar essa alteração a sufrágio popular e, apesar de sair derrotado, assume cumprir o resultado da vontade expressa.
Na Rússia o partido que apoia Putin obtém uma esmagadora maioria nas eleições livres de ontem para a Duma (câmara baixa), sabendo (para já) que não poderá voltar a concorrer por limite de mandatos.
Por cá, pela União Europeia, nós, os que pomposamente assumimos e reclamamos a supremacia da nossa democracia em contraponto com o resto do mundo, não somos capazes de levar a sufrágio o Tratado Reformador, ou de Lisboa, assim como travámos o processo de referendo da Constituição Europeia de Giscard d’Estaing, assim como Maastricht não foi sufragado.
Democratas? Democracia? Tenham vergonha! Tenhamos vergonha dos nossos dirigentes e bem-pensantes que se sentem superiores à vontade popular, pois é nela, e só nela, que reside a substância da democracia e não em gabinetes de um escol de iluminados!
Chávez é populista e demagogo. Será! Putin é um homem que não abdica de uma Rússia forte a seu modo. Será! Mas nenhum deles se absteve de sufragar as suas vontades junto da população, escudando-se de que o povo não entende o que eles querem, e respeitar o seu veredicto!
A Democracia alicerça-se, constrói-se e sedimenta-se na participação activa dos cidadãos, i.e., próximo deles, e não em exercícios palacianos que deles se afasta, promovendo o alheamento e o desinteresse que culminam, como é óbvio, em abstenções penalizadoras da própria democracia, regime que tanto apregoamos e, em muitos casos, pelas armas, aos outros exigimos.
Muito justamente, fomos lestos a etiquetar Hugo Chávez como promitente ditador, especialmente após ter conseguido que o Parlamento da Venezuela, eleito por sufrágio universal, aprovasse uma revisão constitucional que, entre outras mudanças, deixa de limitar o número de mandatos presidenciais.
No entanto, Musharraf, eleito indirectamente pelo Parlamento do Paquistão a 6 de Outubro, decreta o estado de emergência a 3 de Novembro, manda os seus aviões lançar bombas sobre a população à pala do terrorismo, demite os juízes do Supremo Tribunal e nomeia outros, tribunal esse que indefere 5 dos 6 recursos contra a validade da eleição presidencial, parece continuar a beneficiar de uma complacência, conivência passiva até, por omissão de firma condenação, destas democracias nossas ocidentais e das pessoas em geral.
Estas atitudes não alicerçadas em princípios éticos e morais que deveriam ser inalienáveis, mas em interesses económicos muito particulares e pontuais, conduzem à crescente descredibilização de todo o Ocidente, nomeadamente daquilo que mais caro nos é e apregoamos aos quatro ventos: a democracia, a liberdade individual e o respeito integral pelos direitos humanos.
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