José Augusto Mourão | Ideias Soltas

Arquivo de: José Augusto Mourão

Arquivo de: José Augusto Mourão.

Feliz Natal


Natal 2006
Deus adveniens

de José Augusto Mourão

1. “E a noite como o dia ilumina”? (Sl 139,12). Há noites como esta que iluminam como o dia. E não é porque a cidade esteja mais iluminada. É porque esta é a noite de natal. Mesmo se esta palavra, que nasce sob o signo da criança e do vir-ao-mundo, soa hoje como algo artificial e parasitária. Os recém nascidos só chegarão a ser sujeitos com êxito no parto, se começaram a largar peso e a dissolver vínculos. Não, o natal não é a festa das ligações: nascer é desligar-se. Só o mito do Pai Natal, da obrigação das prendas e do estar juntos nesta noite sustenta esta ficção. Quem traz algo ao mundo fá-lo para se desligar e para se tornar mais ligeiro.

2. As mães parem ou são “desligadas”?, as crianças vêm ao mundo. O vir-ao-mundo significa também vir-à-linguagem, encarnar. Ser parido é des-asfixiar-se. É este o protótipo cénico de todas as experiências de libertação Na dor do parto a criança trazida ao mundo não cai de chofre noutro cenário que não seja o dominado pelo peso da liberdade e do braço desse contrapeso que na linguagem quotidiana se chama amor. À luz do nascimento brilha o primeiro esplendor de liberdade externa e com ele a claridade. A Vita nova de Dante e Bloch tem na evocação deste prelúdio a sua razão de ser. Aqui começa o Aberto, o Imprevisível e o Incerto.

3. Voltemo-nos para a Escritura. César Augusto julga que é deus, por isso manda fazer um recenseamento universal. Na Bíblia saber o nome dos homens na terra é um saber reservado a Deus. David quis fazê-lo e arrependeu-se como de um grande pecado (1 Cr 21,8). José, descendente obscuro de David, obedece ao imperador. Note-se: o gesto de César inverte o gesto de Deus que se faz homem e servidor de todos. Outro paradoxo: Maria é a sua noiva grávida, algo de irregular segundo a lei judaica: o noivado é um compromisso definitivo, mas o acordo é assinado antes que os noivos coabitem.

4. É em Belém que vai nascer o filho prometido a David, conforme o profeta Miqueias. David era pastor e são os pastores os primeiros a ver Jesus, o fruto da graça. Esta é uma das graças desta noite: que os pastores se tornem reis e que a palavra de graça se faça carne em Maria. Mas não há lugar em Belém: será numa manjedoura que Jesus vai nascer. Desde o nascimento, que se dá no lugar em que vivem pessoas do exterior – os pastores – até à morte – Jesus morrerá fora dos muros de Jerusalém – que ele está ao lado dos excluídos e bandidos. Os pastores são mal vistos – têm-nos por ladrões, não têm direitos cívicos nem podem servir de testemunhas porque vivem fora dos Templo e da sinagogas. É a eles que primeiro se mostra do Senhor. Há mesmo um anjo que deixa o Templo – porque é aí que reside a glória e se junta a eles! E ei-los envoltos na luz de Deus, em plena noite! Bem dizia Isaías: “eu mudarei a obscuridade em luz”? (Is 42,16). Admirável é que o anjo anuncie uma grande alegria ao mundo com as mesmas palavras de Páscoa que Pedro utiliza “Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado”? (Act 2,36).

5. Qual o caminho moderno para Deus? Na cultura contemporânea, a transformação está em toda a parte: na publicidade, nos efeitos especiais dos filmes, nos brinquedos, na pintura holográfica, na política do corpo (operações de mudança de sexo, cirurgias cosméticas), na localização das fronteiras políticas, no discurso religioso, na filosofia New Age e na retórica da publicidade. Estamos constantemente a ser instados a nascer de novo; abrir-se ao crescimento espiritual, experimentar novas formas de vida.

6. O nosso mundo é incompreensível sem a tomada em consideração a afluência de motivos utópicos persas e judaicos no espaço europeu. Pérsia, a mãe do dualismo e do decisionismo: a Pérsia islâmica de hoje prometeu a luz e só conseguiu alistar os seus jovens para a morte na frente ocidental mais obscura. A utopia judaica gastou-se: basta ver imagens de soldados israelitas que patrulham até aos dentes a Páscoa de 1988 por Jerusalém e por toda a Terra santa assim chamada. O prometedor Deus do desligamento libertador que fala da sarça ardente transformou-se arcaicamente numa espécie de Baal territorial que distribui passaportes e recruta corpos amados.

7. Na história das religiões encontramos duas atitudes básicas na relação entre o global e o universal. No cosmos pagão reina a ordem divina hierárquica de princípios cósmicos, que aplicada à sociedade produz a imagem de um edifício coerente, em que cada membro tem o seu próprio lugar. O bem supremo é o equilíbrio global dos princípios, enquanto o mal representa um desequilíbrio em detrimento dos demais (do princípio masculino em detrimento do feminino; da razão em detrimento do sentimento). O equilíbrio cósmico restabelece-se por meio da justiça que endireita de novo as coisas, eliminando o elemento que saiu da ordem. O cristianismo (e a seu modo, o budismo) introduz nesta ordem cósmica global um princípio completamente estranho a ele, uma monstruosa deformação: o princípio segundo o qual cada indivíduo tem um acesso imediato à universalidade (do nirvana, do Espírito Santo ou dos direitos humanos hoje). De facto, o budismo rompe com a hierarquia da ordem social global que considera irrelevante (Buda ignora as castas e a diferença sexual). E é no mesmo sentido que vão as palavras de Cristo: “Se alguém vem ter comigo e não me tem mais amor que ao seu pai, à sua mãe, á sua esposa, aos seus filhos, aos seus irmãos, às suas irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo”? (Lc 14,26).

8. O ódio que Cristo impõe é uma expressão directa do que S. Paulo descreve em Coríntios 1, 13 como agapé: é o amor que exige que nos “desapeguemos”? da comunidade orgânica em que nascemos. Não há homens nem mulheres, nem judeus nem gregos. Para os que se identificam com a substância nacional judaica ou com um império romano global Cristo foi um escândalo traumático. O cristianismo considera que o acto mais alto é aquele que a sabedoria pagã condena como fonte do mal: a separação, agarrar-se a um elemento particular que perturba o equilíbrio do todo. O cristianismo é o acontecimento milagroso que transforma o equilíbrio do uno-todo; é a violenta intrusão da diferença. O universo ideológico da Guerra das estrelas de George Lucas é o universo pagão da New Age. Cristo transtorna o equilíbrio do universo pagão, do vórtice do seu eterno círculo em que todas as diferenças giram submergidas no mesmo abismo. Como não ver uma conexão interna entre a morte das utopias e as metamorfoses político-realistas das promessas desgraçadamente irrealistas de outrora? A esclerose do espírito crítico actual corrobora essa fissura. A fonte de Jesus é Deus; nenhuma família o pode fechar no seu círculo, mesmo por amor! A sua universalidade está inscrita nos registos do recenseamento, é um filho do mundo para a terra inteira.

9. Um sinal não é uma prova. Convoca o olhar e a fé: Deus toma a nossa vida para nos dar a sua. Admirável comércio (troca), dizem os Padres da Igreja: Deus fez-se homem para que o homem se faça Deus! Deus não se impõe, nem é o todo poderoso que força o olhar; não se mostra aos pastores sentado num trono de glória, rodeado de anjos: está ali, criança, rodeada pelos pais. Aqueles que estavam oficialmente privados de palavra tornam-se agora evangelizadores: eles anunciam o que lhes foi dito acerca desta criança. São eles agora os anjos, antecipando o papel dos apóstolos. Este é o começo da tradição evangélica. Maria guarda todas estas coisas no coração, fazendo aquilo que a Igreja não deixa de fazer: meditar na obra da Palavra.

10. Deus não salva de longe; escondido, o Todo-Próximo aproxima-se de nós, dos excluídos aos pobres. Jesus criança é um sinal ao alcance dos pequenos. Só os olhos das crianças reconhecem na criança o milagre da incarnação. É assim a vida: a luz ilumina a noite de Natal, enquanto as trevas cobrem a terra em pleno meio-dia quando Jesus é crucificado. A salvação para nós humanos consiste em viver em presença de Deus, em partilhar a sua vida e a sua glória. O céu está na terra, os pastores, esses excluídos, no céu que não é o Templo, mas o campo. O quadro ordinário das suas vidas tornou-se o Santo dos santos, o lugar da presença de Deus. Os pastores são cidadãos do céu enquanto Jesus, o Filho de Deus se torna súbdito de César. A paz, dom que caracteriza a era messiânica, caminha com a salvação. Salvação e paz para todos os que acreditam no Aberto. Partamos com os pastores a ver “essa coisa que aconteceu”? e ajoelhemos diante do milagre que é a vida que nasce e diante de nós se expõe: nua e desprotegida.

11. A nós compete continuar o ofício dos anjos: o louvor incessante de Deus por aquilo que Ele é e dá: “um Deus nos nasceu, filho nos foi dado”?. Volte cada um à sua lavra: foi na obscuridade do presépio que os pastores foram iluminados. Que a mesma luz que cobriu os pastores nos envolva a nós nesta noite santa. Assim a luz que vem do alto ilumine o nosso coração para a travessia do tempo e o louvor que esta hora pede.

José Augusto Mourão

do Ser, da Mente, do Corpo, do Sexo, da Psicanálise


A ALI_SE escreveu o processo interior de “(re)construção” com o intuito de analisar uma forma, hipotética a meu ver, o acto criativo, sob o título “Imagina-se o INCONSCIENTE“, investindo contra a psicanálise pelo facto de, no seu entender, que ela poderá “«matar»por completo todo este processo tão natural do desenvolvimento das capacidades criativas inscritas no inconsciente”. A polémica ficou instalada, como será evidente, na sua caixa de comentários, em especial com a troca de impressões entre a Ana Almeida do Salpicos e a autora.
É interessante o lá é dito, mas o debate ficou-se, um pouco, entre o sim e o não, entre os totems - a afirmação e a negação. Tudo se joga no objecto da psicanálise e na forma como ela é desenvolvida na prática clínica: se “a psicanálise tem como objectivo a cura do inconsciente” como entende a ALI_SE e, como eu acho que muitos psicanalistas têm, mesmo que inconscientemente, essa tentação clínica, ou se a psicanálise tem por o objecto ajudar as pessoas a conhecerem-se melhor a si próprias.
Afinal é neste ponto que reside a diferença já que, se este objecto fosse cumprido, o risco de formatação seria bem mais reduzido.

À boleia desta polémica apetece-me inserir um outro factor: o excessivo valor que hoje atribuimos ao corpo, por via de um inevitável movimento de libertação sexual, que conduziu ao hedonismo que hoje vivemos, reduzindo o corpo, quase, a um mero objecto sexual, como se mente não tivesse, ou, a ter, tudo o que contém é pelo sexo determinado!

Deixo um excerto de um ensaio de José Augusto Mourão, “SEXO, TEXTO E CORPO VIRTUAL” que pode ser lido aqui na íntegra.

«(…)
Que está a mudar? Depois da repressão sexual, a libertação. Ao fim e ao cabo, continuamos a reproduzir o negativo ou o positivo absoluto, não a ambivalência.
Depois de ter libertado a sexualidade do repressão da era vitoriana, Freud acabou por a canalizar para o quadro restrito da economia doméstica. Quem não respeita o esquema que circunscreve a sexualidade ao território dos fantasmas parentais, vidé triângulo edipiano que codifica a sexualidade e a retira de qualquer ambivalência é, ou doente, ou perverso ou louco. O erotismo endémico (e outras formas de êxtase como o misticismo, a embriaguez e a toxicodependência), associada à rapina, é um sinal de bifurcação ópio para o esquecimento, gozo da morte alheia. Em qualquer bem conquistado, esse rumor éperfeitamente audível.
Os bens da rapina (e da retina) são bem conhecidos: o ouro, as mulheres, os escravos e a tirania. Só em tempos de fome é que o estômago domina. O eros só é possível se o corpo preserva toda a sua ambivalência e não se reduz a essa significação unívoca que é o sexo, codificado. Não há todo (ou o todo), dizia Lacan. Dois não fazem um, mas um par de forças. O que o sexo faz é distinguir. Ninguém é homem ou mulher sem resto como ninguém é homo ou heterosexual sem resto, escreve Jean-Luc Nancy. Afinal não é essa a questão do nome próprio que para Deleuze designa um efeito, um zigzag, algo que se passa entre dois como sob uma diferença de potencial?
A maior parte do tempo, a libertação sexual reduz-se à libertação da roupa. Que é a moda senão a encenação do corpo através dessa única significação que é o sexo? Triunfo da equivalência, derrota da ambivalência simbólica. Por isso o strip- tease fascina: provocando o desejo sexual, mantém-no à distância encanto da ambivalência. Para os povos que têm ainda o sentido do adorno, a roupa é a glória do corpo: Rien ne va aussi profond que la parure.
Deve ser por isso que a apocalíptica judaica e cristã apelam ao tema da roupa para dizer o brilho dos corpos gloriosos. O perigo que nos espreita é a libertação do corpo que não o abre à ambivalência, antes o encerra na monovalência duma sexualidade que se torna inteiramente positiva. Se os primitivos se passeavam nus é porque o seu corpo era visto como um rosto, como expressão simbólica.
Ora, se o rosto é invisível, o sexo também o é. O corpo não é apenas força de trabalho nem apenas fonte de prazer: libertá-lo apenas reforça a sua estrutura codificada.
A ambivalência não quer a revolução, ela é revolucionária em si, ao interromper a circulação ordenada dos signos através dum equivalente geral. A lei éo lugar em que se acumula o valor. Transgredir a lei significa medir-se ainda com ela, logo não sair da família. Escreve Galimberti, Se a lei do pai ou a moral puritana é hoje anulada pela pressão dos movimentos de libertação sexual, aquilo que se anuncia, quando não se abandona a lei mas nos limitamos a transgredi-la, é uma regressão ao seio da mãe que esta sociedade, que se tornou permissiva, tolerante, gratificante e lenificante tolera, suprimindo qualquer censura, qualquer repressão com a qual outrora defendia a lei do pai.
É preciso que a miséria sexual seja muita para que o sexo seja hoje uma preocupação dominante. Quando o corpo muda, então tudo está a mudar. O corpo tornou-se um campo de batalha: The body is a battleground, diz Bárbara Krueger numa das suas montagens.
A época anunciada por Donna Haraway em que o monstro, o híbrido vem extremar a categoria de corpo, substituirá o enigma de um corpo demasiado orgânico, logo viscoso e enigmático, por um outro, agora biotécnico, sem órgãos, limpo de paixões e de sentido?»

Nota: introduzi parágrafos no excerto para melhor se ler num blogue, salvaguardando que o original não os contém.

O modo que têm as mulheres de falar de Deus


«É inútil o batismo para o corpo,

e o esforço da doutrina para ungir-nos,

não coma, não beba, mantenha os quadris imóveis.

Porque estes não são pecados do corpo.

À alma sim, a esta batizai, crismai,

escreverei para ela a Imitação de Cristo.

O corpo não tem desvãos,

só inocência e beleza,

tanta que Deus nos imita

e quer casar com a sua Igreja

e declara que os peitos de sua amada

são como os filhotes gémeos da gazela.

É inútil o batismo para o corpo.

O que tem suas leis as cumprirá.

Os olhos verão a Deus.

José Augusto Mourão, em O modo que têm as mulheres de falar com Deus, 8 d Março de 2005, a propósito do Dia da Mulher.

ps: leitura integral de “O modo que têm as mulheres de falar com Deus

“O Mistério da Páscoa”


“1. Reúne-nos o dever de fazer memória. De vigiar. Contra as forças do esquecimento. Contra a memória que esquece e que, como a água, arrasta tudo na sua voragem. A vigília pascal é a mãe de todas as vigílias durante a qual o mundo inteiro vigia, dizia Agostinho. Porque é ditosa esta noite? Porque recomeça aqui o mundo como ordem e justiça. Porque o grande Domingo começa. Porque o acontecimento pascal é o dom de Cristo presente ao seu corpo. Porque a saga da encarnação tocou o nosso desejo e a nossa carne. “Toda a carne será salva?, eis o que anuncia esta noite santa. Nesta noite Cristo desceu aos infernos assumindo a totalidade da humanidade passada e a vir. A imagem do Deus invisível salvou a imagem a partir da qual fomos criados.

2. Nesta noite todas as definições anteriores e restritivas do mundo voam em estilhaços. As etimologias supostas da palavra paskein, sofrer, ou a ideia de passagem (pascha-transitus) marcaram muito o sentido desta festa. Melitão de Sardes propõe o verbo paskein, como etimologia da palavra Páscoa, sem que isso afecte a compreensão daquilo a que foi o primeiro a chamar “o mistério pascal?. Militão transforma a Páscoa judia - a feliz passagem (diabasis = transitus) de Deus para lá das portas marcadas pelo sangue do cordeiro - no Logos, no seu hino sobre a Páscoa que é tanto uma homilia como um praeconium, um louvor a Deus, muito próximo do Exultet: “Corruptível o cordeiro, incorruptível o Senhor; imolado como cordeiro, ressuscitado como Deus?.

3. Ele é a imagem pática e desejante. Páscoa é o triunfo da imagem e o triunfo da carne. O nosso destino é pascal. É o triunfo de tudo o que deve ser atravessado, a saber um ventre de mulher, a ordem do sangrento, o cumprimento do sacrifício, a morte, tudo o que traz a marca da imagem e em que se encarna o desenrolar do seu destino, que é ser incorruptível. A imagem tem que ver com o ventre das mães, com a questão do sofrimento, do sangue e da morte, é preciso levá-la à ressurreição. Encontrá-la sob o modo de uma visibilidade transfigurada, i.e, de uma outra matéria, de uma visibilidade espiritual. Figura para lá da figura, forma para além da forma, luz antropomórfica do mundo redimido.

4. Se não interpretamos esta saga sob a ordem do pathos – da paixão, que foi antes de tudo um paskein, a morte passa -, e sem a ressurreição, nada compreendemos do Verbo que se fez carne e não corpo, pois que ele é a vida da palavra encarnada e não a morte dum invólucro caduco. O nosso destino, como imagem, é doravante pascal. Mas nem Orígenes nem Agostinho se satisfazem com esta maneira de ver a Páscoa. Na paixão do Senhor e na sua ressurreição é sacralizada a nossa passagem da morte à vida (2ª Carta a Januarius, Epist. 55, a, 2). A luz é o símbolo do dom de Deus, dos anos e da trindade, fonte de toda a luz. Gregório de Nazianzo vê a Páscoa como a atracção da luz para o alto e das vestes brancas que os baptizados traziam até ao domingo seguinte, in albis.

5. Não podemos olhar face a face nem a morte nem a vida. Só partilhamos o que não vemos – o invisível. Para acreditar não é mais preciso tocar, é preciso renunciar a tocar para ser tocado. Os relatos de Emaús ou de Tomé são exemplares. É preciso abrir os olhos. O túmulo vazio só existe para pupilas vazias e olhares cegos. Túmulo, pupila, clausura só pode abrir-se sobre a pura luz da nova aparição da carne. Não é corpo que ressuscita, mas a carne porque é nela que assenta a similitude reencontrada. Os olhos de Tomé procuram as provas da presença de um corpo. A carne ressuscitada propõe-lhe o “contacto? dos buracos! “Noli me tangere?. Não podemos tocar a imagem, ela está lá para a ressurreição dos olhos e não para a reanimação dum cadáver tangível. Aquele que caminha para Emaús não é uma alma penada, um simulacro fantasmático, mas a imagem eternamente viva do Verbo que permanece invisto para a cegueira do espírito, visível para o olhar transfigurado, eikon.

6. A ressurreição não é um regresso à vida. É a glória do seio da morte, uma glória obscura cuja iluminação se confunde com a treva do túmulo. Não é um processo de regeneração (semelhante ao das mitologias como as de Osíris ou de Dionísio), mas consiste na relação com aquele que disse: “Eu sou a ressurreição?. “Quem se fia em mim, ainda que morra, viverá?. Fiar-se nele, na fé, não é acreditar que pode haver ressurreição do cadáver, é manter-se com firmeza na certeza duma posição diante da morte. É isso a anastasis. Esta revelação mostra que nada há a mostrar, a aparecer; não há “adeus? entre Jesus e Maria. O corpo glorioso é simultaneamente aquele, que parte e aquele que fala, e que fala partindo, apagando-se tanto na obscuridade do túmulo como no aspecto do jardineiro. A sua glória só brilha para aqueles que o sabem ver e os seus olhos nada mais vêem que o jardineiro. Mas este fala e diz o nome daquela que chora o desaparecido. Dizer o nome é o que morre e não morre. É dizer o que parte sem partir (o que fica gravado nos túmulos). “Maria!? revela Maria a si própria, revelando-lhe ao mesmo tempo a voz que se vai e que a nomeia e o envio a que o seu nome compromete: que ela parta também e que anuncie a partida, o dia, a glória do ressuscitado e a nossa.

7. A vida do ressuscitado está escondida em vós, como o fermento que leveda o pão e essa massa é a espessura da nossa humanidade sofrente, pecadora, jubilosa. A vida do ressuscitado é-nos dada, mas ela é discreta e leve como uma palavra ou um perfume. Mataram o profeta em sexta feira santa para o fazer calar, mas hoje a palavra do pastor convoca ainda, suscitando testemunhos que encarnem esta palavra e a transplantem para a terra boa do desejo de que o amor os toque. Esta Palavra tocou-nos através dos homens e mulheres que dela testemunharam na sua vida. A vida do ressuscitado está escondida em vós, como o fermento que leveda o pão e essa massa é a espessura da vossa humanidade sofrente, pecadora, jubilosa. A vida do ressuscitado é-nos dada, mas ela é discreta e leve como uma palavra. Nós somos vivos no meio do Vivo. Sexta feira santa mataram o profeta para o fazer calar, mas hoje a palavra da vida brota do túmulo e suscita testemunhos para tomar corpo no mundo e chegar às extremidades da terra para que todos ouçam este anúncio do amor de Deus. É a nossa vez: deixemo-nos habitar por essa Palavra para que a nossa vida se torne auto-revelação da Vida. Que o Verbo tome carne nas nossas Igrejas. Esta Palavra tocou-nos através de homens e mulheres que dela testemunharam na sua vida. É a nossa vez: deixemo-nos habitar por essa Palavra para que a nossa vida fale da primavera da vida, J. C.

8. Para nós, que chegamos aqui, amanhã será como ontem? A resposta foi confiada à nossa fé que é tanto uma estrada escura como uma estrada branca. Acreditemos na vida de Cristo mais forte do que a morte. Acreditemos na sua força, capaz de nos acordar do torpor e do amolecimento, como o grão que na primavera faz acordar a terra. Acreditemos na vitória da vida, na insubmissão que ergue o mundo. A repetição anual da festa só tem sentido se o cristão refaz a passagem da morte à vida que foi a do seu baptismo. Ele passa assim, “de Adão ao Cristo, do homem velho ao homem novo, do velho fermento aos ázimos, do velho ao novo?, dos dias daqui ao dia único que é Cristo. Toda a vida do cristão e da Igreja é uma saída do Egipto marcada por diferentes passagens, desde a primeira, a da conversão à fé, até à última, a da migração fora do corpo e do mundo.

9. Todo o instante é Páscoa, toda a vida é passagem, toda a vida é eucaristia. O jardineiro não cuida a lembrança mas o imemorial do partir e do porvir. A ressurreição não é uma reanimação: é o prolongamento infinito da morte que desloca e que desinstala todos os valores de presença e de ausência, de animado e de inanimado, de alma e de corpo. É a extensão do corpo à medida do mundo e da proximidade de todos os corpos. A morte abre a relação, a partilha da partida. Estamos sempre a ir e a vir. Divididos entre o conhecido e o desconhecido, o visível e o invisível. Entre a presença e a separação.

10. Quando, em nome de Jesus, mulheres e homens se reúnem para receber o alimento necessário para se manterem de pé, fazem-no porque este Corpo único para que são convocados os atrai. Jesus atrai-nos a partir do seu mistério pascal para que nos irmos tornando com Ele imagem pascal. O destino do nosso corpo é vir a ser um corpo de glória, “soma pneumatikon?, um corpo espiritual. Com as mulheres que choram junto à cruz; com os discípulos que correm ao sepulcro e acreditam, proclamemos nós também: Cristo, o Senhor ressuscitou, aleluia!”

fr. josé augusto mourão, op

Boas Festas e Feliz Ano Novo


É o que desejo a todos os que por aqui vão passando - amigos, conhecidos e caminhantes do devir.
Deixo-vos um texto de José Augusto Mourão retirado daqui:

«Natal 2004

O Natal responde ao longo pedido que o livro de Isaías descreve: “Eles procuram-me dia após dia, desejam conhecer a conduta que me agrada…Informam-se junto a mim sobre as exigências da justiça, desejam a presença de Deus” (IS. 58, 2). O Natal é o desejo tornado presença.

No começo, o Logos ou o Verbo. Depois a vida, a luz e os homens. Entre a vida e os homens, a luz e o lugar de João: ele veio para testemunhar da luz. Não temos em João uma definição orgânica da vida, nem do conjunto humano consistente como tal. Há uma linha traçada por um gesto único, um vector de alta energia que atravessa o campo em que aparecem os homens, e que se afirma como luz. Imanando directamente do Verbo e da vida que está no Verbo essa irradiação torna-se luz num ponto da sua trajectória, iluminando e redefinindo o que são os homens, pondo em questão o que deles imaginamos. Podemos dizer como Lévinas que a “o homem nunca foi criado, nunca veio ao mundo. Veio na Vida. É nisso que ele é semelhante a Deus, feito do mesmo estofo que Ele, que toda a vida e que todo o vivente” Quando o Verbo vai encarnar para se fazer homem, não é no mundo que veio, mas numa carne, “nos seus”.

A luz tem efeitos de divisão e de suspensão no campo que dizermos humano. Entre a luz que brilha e um determinado obstáculo houve um encontro e uma ligação problemática. A luz exige uma “testemunha”, no sentido em que é preciso um indicador de presença e um índice da transformação. O Logos é a Palavra. Mas falta a esta representação do Logos a dimensão energética. É a dimensão do Acto. A esta energia se ligam a Vida e a Luz. Nós vivemos tocados pela luz e pela vida que vem do Logos.

Aqui começa uma nova época nunca dita nem em língua grega nem em língua judaica: uma teologia de Deus feito homem, encarnado, e uma ontologia do corpo como “corpo glorioso”. O cristianismo começa com o anúncio de que “todo o mundo será salvo”: catolicismo é uma palavra que aparece pela primeira vez em Inácio de Antioquia para dizer esta inteireza do humano que faz ir pelos aresr todas as restrições anteriores e restritivas do “mundo”.

A crise da imagem foi primeiro uma crise da linguagem que começou desde a fundação do cristianismo. Uma palavra abala todos os hábitos do pensamento especulativo. É uma palavra habitada pela imagem no sentido em que João diz que o verbo “veio habitar no meio de nós”. A palavra coloca um problema de habitação. O oikos da imagem é o mundo, esse é o sentido da encarnação. Não é por acaso que os iconoclastas sejam tratados de onotomatómacos, batalhadores de palavras e de iconómacos, isto é inimigos da economia. Como garantir pela palavra a invisibilidade que garante a redenção do visível?

Vem de longe a audácia retórica feita à secularização do Natal. Para H. Heine, Shakespeare, a cujos dramas ele queria chamar o “evangelho profano”, nasceu “nas Belém do Norte, que se chamava Statford-upon-Avon”. Diz também que “Zwiebrücken foi a Belém em que a jovem liberdade, o Messias, estava no seu berço e choramingava resgatando o mundo”. Quase na mesma época, Goethe escrevia no seu diário, lendo Galileu, que Newton nascera no ano em que morreu Galileu e acrescentava: “Aqui reside a festa de Natal da nossa época moderna”. Um pouco antes, Goethe descreve, num artigo de Zelter sobre A Criação de Haydn, o nascimento do compositor da maneira seguinte: “Enfim, aparece, não anunciado, na fronteira entre duas nações, no presépio de um ateliê de carpinteiro, o novo infante pródigo nascido pobre na terra, que deve libertar a nossa arte da tutela e de formas estrangeiras”.

Nicolau de Cusa apresenta a encarnação como consequência intrínseca à criação, deduzindo a predestinação eterna do Filho de Deus a tornar-se homem (de que Duns Scot falara). Num sermão de Natal escreve: “Deus criou todas as coisas segundo a sua própria vontade e de modo que o universo só atinja a sua plena grandeza e perfeição em relação a si. Mas o universo não pôde chegar à unidade com ele porque não existe proporção do finito com o infinito. É por isso que toda a coisa tem a sua finalidade em Deus através de Cristo. Porque se deus não tivesse adoptado a natureza humana que contém nela as outras naturezas como um intermediário, o conjunto do universo seria inacabado, e nem seria sequer real”. A encarnação não se contenta com cumprir a criação, é a sua realidade decidida desde a eternidade que a torna possível. Nesta perspectiva, a cristologia não tem só sentido salvador na redenção, mas na realização da possibilidade de essência do mundo e do homem. Por isso a encarnação adquire o sentido de um acontecimento universal, cósmico. Não é o pecado que obriga deus a sacrificar o seu Filho. Aquilo que levou a esta consequência é a criação não o pecado, são as falhas da natureza, não as falhas do homem.

O caminho espiritual consiste em nascer, nascer sempre, encarnar-se completamente, confundir-se com a vida até que o mundo se torne a palpitação da sua própria existência. O mais difícil é descer, aceitar a nossa encarnação. Fugimos sempre do nosso nascimento. Fica-nos o nosso campo de batalha, o livre o campo para o sofrimento. Só podemos santificar o mundo se o habitamos, até nos menores recantos do corpo, da matéria e do sofrimento. Para a grande obra de transmutação nada é vil ou baixo. A encarnação significa que somos divinos desde a origem até à ressurreição.

Que mundo responde ao nosso sonho de homem nesta festa? Algo em nós nos diz que o deus que vem estava já no horizonte das nossas esperas. Nesta noite, Deus fez-se homem na pessoa duma criança, a mais, como nas ruas de São Paulo. Não esta criança a imagem de um Deus que será sempre inoportuno, excedentário? Aceitai a fragilidade do não poder.

O ícone não é um ídolo porque não é uma coisa animada pela presença de um deus, nem uma coisa inanimada, um fetiche. Deus não se esconde no ícone, mostra-se, Deus não se vê no ícone, deserta-o e cava-o como figura do desejo que quer inspirar. Que a criança nos ensine a reconhecer em cada um a imagem de Deus e a encontrar uns nos outros a mesmo respeito com que os cristãos do Oriente, à entrada do santuário, beijam e tocam um ícone, como para retirar a poeira e fazer aparecer em todo o seu brilho a pureza do seu fundo dourado. No ícone do rosto está o “oceano interior” do olhar, a “chama das coisas”. Alegra-vos, pois! Enquanto no seio da noite a luz se entretece, ele torna-se a imagem de quanto o homem espera: Jesus, como um rosto de homem modelado à imagem do Pai, é o filho de Deus, Primogénito de toda a criatura. Que por causa disso o mundo inteiro se torne Eucaristia!»

Mulher, porque choras? - José Augusto Mourão, op


1. - Dizem-nos os textos desta noite que Deus é o nome do sopro-palavra que fez emergir aquilo que dormia no abismo do não ser. Dizem os textos desta noite que Deus é o sopro e a palavra que criam a possibilidade de ser um novo corpo e uma nova vida. Que a “elevação” de Cristo começou na Cruz. Que a nossa ressurreição só é possível a partir do nosso baptismo em Cristo e no seu corpo de glória. Que a comunidade cristã se tornou o corpo do Cristo vivo.

2. - “Porque buscais entre os mortos aquele que está vivo? Os anjos delimitam e articulam entre si um espaço directamente referido ao corpo de Jesus na sua integridade (da cabeça aos pés) e à sua sepultura. Eles assinalam o corpo ausente que as lágrimas de Maria procuram.

3. - O sepulcro aberto é um ponto de encontro e de separação, um espaço a ler, a ver, a acreditar. Mas ler não é ver. O sepulcro propõe um espaço a ler. Entre ver e acreditar é preciso ler para entender. Ler não é reconstituir um mundo verosímil mas articular as ligaduras e o sudário às letras da Escritura. Os traços descobertos no sepulcro, marcas da morte, da ausência e do vazio, constituem a Escritura como um texto cuja opacidade atesta a vida da palavra e cuja textura remete para o horizonte dum corpo a vir e para a impossibilidade de nos apropriarmos dele num espaço homogéneo.

4. - O sepulcro aberto separa aparentemente um aqui e um algures: se não está aqui é porque o levaram algures. Mas de facto o discurso da narrativa deforma o espaço homogéneo: Maria vê Jesus (sem o conhecer) fora do sepulcro. Há uma outra face do visível a procurar, a acreditar, dizem os anjos. A ressurreição consiste em ter um corpo diferente do corpo físico; ressuscitar é tornar-se um corpo histórico. Uma comunidade.

5. - Os textos desta noite dizem-nos que Deus não recusou partilhar a grande e profunda tristeza dos homens. Que a recusa da encarnação é o ferro de lança do pecado. Recusar estar no meio dos irmãos perdidos, encarnado como eles, exposto aos mesmos perigos e desesperos é não estar a seguir Jesus Cristo que foi enviado pelo Pai a esse lugar de cruzes que é a vida. Dizem estes textos que a recusa da ressurreição é outro ferro de lança do pecado. Que Deus em Cristo nos salva do poço em que nos fechamos, que vem ter connosco na nossa carne, na miséria e na morte. Na cruz de Cristo o real da vida que se dá é mais forte que a imagem da morte que a esconde, a graça do dom é mais forte que o pecado que, na aparência, a nega.

6. - São as heresias que sublinham unilateralmente a humanidade de Cristo, a sua exterioridade à transcendência divina. São as heresias obsecadas pelo puro e pelo original, maniqueístas, que bloqueiam a fecundidade da incarnação e da ressurreição. A radicalidade da determinação do infinito no infinito é a Paixão: Deus enquanto Filho morre. O infinito sobe ao calvário, dizia Hegel. Mas a ressurreição significa a contra-determinação (o limite da morte) pela infinidade do Pai: o Filho resssuscita e vai ao encontro do Pai.

7. - Há noites que metem medo. Porém, o que mete medo é a noite do imaginário sem desejo, não a noite da fé. Donde vem o medo senão de deixarmos de ver como se vê agora? “No fundo da sua Noite, a nossa carne é Deus”, escreve M. Henry (I, 373). “Deus gera-me como a si próprio” dizia Eckhart. Não podemos recusar a história e a linguagem em que a árvore da vida e a árvore do saber se tocam. Não, Paulo não traiu o “alegre saber” de Jesus, como Nietzsche suspeita. Não, o cristianismo não é a religião absoluta.

8. - Tudo conspira contra a fé no além da morte: a mentalidade do trágico, a tecnologia, os genocídios vários, a sabedoria do mundo, epicurista, surda. No meio desta paisagem de cinza só os mártires enfrentam o desafio da fé na ressurreição. O que talvez seja um traço fundamental do viver dos nossos dias é a perda da experiência do limite. “A nossa cegueira actual (naquilo que podemos ver dela) não se estabelece no quadro da obediência/desobediência, antes da suspensão da experiência do limite, que a actividade científica puramente operatória traduz como ‘porque não sabemos’, ‘porque ainda não foi possível, mas todos os esforços vão nessa direcção”, mesmo que o limite se chame mortalidade, a essência mortal do homem: se os nossos canais não se entupissem, não morreríamos, procuremos um expediente para tornar eterno o trânsito dos nossos canais” (Filomena Molder).

9. - Comprazemo-nos a contar a saga da saída do Egipto, a terra da escravidão. Mas continuamos escravos de alguma coisa. Não há comunidade histórica que seja indemne. Continuamos com medo de morrer, sedentos de viver, continuamos a apertar as mãos e a fugir uns dos outros e a matar outros. O inferno é hoje uma categoria política, uma noção forjada para governar os homens (H. Arendt). Nós instauramos o inferno entre nós. Comprazemo-nos com as alegrias da destruição, envenenadas pelo ódio de que procedem. As grandes tentações não são da carne, mas do poder (do dinheiro, das autoridades políticas e das autoridades eclesiásticas).

10. - Acrescentemos aos textos desta noite um texto do “confessor” Wittgenstein. “A sabedoria é algo de frio e, nesta medida, de estúpido. A Fé, pelo contrário, é uma paixão. Poderíamos dizer também a sabedoria apenas dissimula a vida. A sabedoria é como uma cinza fria, cinzenta, que cobre as brasas”. (RM, 69). Ou a religião tem um interesse existencial que me inclina a acreditar na Ressurreição de Cristo, ou reduz-se a um palrar sem interesse. Se não há ressurreição, então ele decompôs-se no sepulcro, como qualquer um de nós. Ele morreu e decompôs-se. É então um mestre como todos os outros e não pode socorrer-nos, estamos de novo órfãos e sós. Ficamos com a sabedoria e a especulação. Estamos como num inferno, em que só podemos sonhar, separados do céu como por um tecto. Mas se devo realmente ser salvo, então é duma certeza que tenho necessidade, não duma sabedoria, de sonhos, de especulação - e essa certeza é a Fé. A Fé é fé porque é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer com a sua carne e o seu sangue que deve ser salva, não o meu espírito abstracto. Talvez se possa dizer só o amor pode acreditar na ressurreição” (RM, 44-45).

11. - Nós não estamos petrificados diante de um túmulo vazio. Não estamos a refazer o caminho de Maria e das mulheres. Não procuramos o corpo no lugar do sepulcro. Que fazemos então? Olhamos, contemplamos, vemos e acreditamos, como Pedro ou o outro discípulo que “viu e acreditou”, não como verificacionistas. Para os leitores que somos hoje, o texto de Mateus exige uma modificação do regime das nossas percepções, das nossas crenças e dos nossos envolvimentos. Jesus não é invisível, mas é não-visível porque a visão que ele requer é o contrário do visível. É preciso adaptar a visão e a escuta, passar ao espaço da leitura na fé. O corpo que Maria procura revela-se um sujeito de fala que nomeia e institui para a missão. O espaço da narrativa deforma-se quando, ao apelo do seu nome Maria se volta à voz que a chama. O visível transforma-se em visual: “Eu vi o Senhor”. Acaba aqui a tese do roubo do corpo morto. Maria é instituída, não para contar sempre a mesma história do roubo do seu Senhor, não para ver e acreditar como o outro discípulo, mas para ver e dizer (anunciar): “Eu vi o Senhor e eis o que ele me disse”.

12. - Falar é dar, é inscrever-se no dom da palavra. Inscrever-se numa falta à totalidade: não é possível dizer tudo. O gesto da mulher que derrama o frasco de perfume aos pés de Jesus é um acto de fala silencioso. Nós refazemos a memória desse gesto que se inscreve na trajectória do corpo de Jesus segundo as Escrituras. É o terceiro dia que este gesto prefigura. O corpo a vir, é um corpo a dizer, a redizer, a proclamar, um corpo impregnado pelas falhas das nossas palavras que se arriscam no acto da proclamação: surrexit Dominus vere!

13. - O impensável tem um lugar: este lugar é o real do corpo. Aí está a loucura do pensamento Paulino relativamente ao pensamento grego e ao pensamento judaico: a espécie humana está prometida à salvação; a lei antiga deixou de valer, o Templo rasgou-se como um vaso de incenso inútil, a história do começo adâmico é relançada de outra forma. Acabou o delírio da eleição, a paranóia feroz num Deus que me teria escolhido, a mim e ao meu povo. Acabaram-se os privilégios. Todo o mundo será salvo. O novo templo é o corpo de Cristo. A essência humana, a definição do homem como tal mudou de base, o homem deve ser apresentado como um corpo novo à imitação do corpo de Cristo. O homem novo é o homem ressuscitado a partir da ressurreição de Cristo. E nós somos o corpo de Cristo a caminho.

14. - Liberte-nos o Jardineiro da “fadiga de estar sempre perante uma resposta”, sem cair na noite do imaginário, vazia de corpo e de promessa. Rompamos a noite contínua e de silêncio em que os loucos vivem. Não nos imobilize a tristeza da morte e dos ritos sem carne. A luz do ressuscitado aumente a nossa potência de agir, a força de existir na alegria porque a esperança estira o nosso desejo. Voltará o Inverno, a solidão e o medo, mas agora já podemos esperar a primavera porque “Deus respira em nós de modo tão pleno” (J. Coltrane) que até a voz se solta e a jubilatio é o vestido de carne com que fazemos a passagem.

Deixo-vos com este texto de José Augusto Mourão, op, desejando-vos boa Páscoa.

Em torno do Niilismo e do Verbo


Vem a propósito das palavras de Francisco José Viegas, segundo Steiner, o inumanismo da indiferença, e da Voz do Deserto, quando diz:

(…) Não entendo os que se embaraçam com estas coisas. Desde o Éden que o Senhor nos condenou à linguagem. E há uma sublime eloquência nos gemidos inexprimíveis (Romanos 8:26).

Ao VERBO, diria eu.

Se há ideologia que ainda atravessa o ar e os figurinos do pensamento, essa ideologia é o niilismo.
0 niilismo representa hoje a dissolução de qualquer fundamento último. As religiões deixaram de ser apólices de seguros, entraram no vórtice do tempo e fragmentaram-se, como a própria cultura.

José Augusto Mourão nesta sua comunicação no Colóquo Internacional V de Discursos e Práticas Alquímicas cuja leitura integral recomendo vivamente.