Para o fim-de-semana deixo-vos o Concerto para piano e Orquestra Op. 38 I de Aaram Khatchaturian, interpretado pelo pianista Lev Oborin e pela Orquestra da Rádio Moscovo, dirigida pelo próprio Khatchaturian (só audio).
Em Portugal este concerto foi estreado em 1980, por Maria Manuela Araújo com a Orquestra Sinfónica do Porto, no Teatro Rivoli, gravado e emitido em directo pela RDP, mas cuja gravação não aparece ou não existe mais.
Bom fim-de-semana.
Maria João Pires renunciou à nacionalidade portuguesa optando, unicamente, pela brasileira. Aparece um pouco por todo o lado que o motivo se prenderá com o tratamento indevido deste governo com o projecto Belgais, mas acontece que Maria João Pires (notas biográficas) acompanhou, muito de perto, toda a tramóia que foi o processo destruição do sistema de ensino artÃstico especializado em Portugal, iniciado com o Relatório Avaliação Ensino ArtÃstico da responsabilidade do Professor Doutor Domingos Fernandes e que culminou na semana passada com a Portaria n.º 691/2009 que colocou um ponto final na qualidade, exigência e bons resultados do sistema de ensino especializado da música e da dança em Portugal.
Tenho vergonha…
Tenho vergonha deste paÃs quando me lembro de como Vianna da Motta, LuÃs de Freitas Branco, Bernardo Moreira de Sá, Hélia Abranches Soveral, Maria Manuela Araújo e muitos outros foram tratados em Portugal, em nada diferente do tratamento dispensado a Maria João Pires e, muito recentemente, ao sistema de ensino especializado de música, que deles herdamos e obrigação tÃnhamos de preservar e desenvolver.
À bolina de conceitos que nada dizem, como ‘ensino elitista’, ‘ensino focado nos alunos’ e sei lá que mais, somos agora chegados à integração do sistema de ensino artÃstico especializado no ensino genérico, sem cuidar de conhecer e reconhecer as suas especificidades, num caldo que promove uma discriminação negativa (beneficia quem não trabalha nem quer aprender) e a exclusão do ensino público (ou do financiado, se preferirem) dos alunos que trabalham, querem avançar e que são capazes de o fazer!
Se o Professor Domingos Fernandes o iniciou o processo e aceitou presidir ao ‘Grupo de Trabalho para a Reestruturação do Ensino ArtÃstico’ junto da ANQ, hoje, seja por manifestaram acordo, por se alhearem, seja por se terem remetido ao silêncio, são também responsáveis por esta hecatombe os conselhos directivos das escolas públicas de ensino artÃstico especializado bem como as direcções executivas das particulares e cooperativas que, em conjunto, formam o sistema de ensino artÃstico especializado em Portugal.
Parabéns aos senhores professores e doutores promotores da mediocridade!
adenda: o Ministério da Trabalho decretou o arresto dos bens de Belgais, nomeadamente os pianos, onde funciona o projecto de ensino artÃstico de Maria João Pires, hoje dirigido pela sua filha. (via Público)
Maria Manuela Araújo proporcionou a 1.ª audição em Portugal desta obra para piano depois de, durante alguns anos, a analisar e trabalhar com a preciosa ajuda de Dimitri Schostakovitch, da qual não restou qualquer das gravações efectuadas. Antes de a apresentar em Portugal, a sua interpretação foi aplaudida pelo público e pela crÃtica em Moscovo, Berlim, Leningrado (na época), Kiev, Budapeste e Varsóvia entre outras cidades europeias.
Deixo-vos durante uns dias a interpretação de Evgeny Kissin, ao vivo, para ouvir com calma e sem dar tempo ao tempo…
ps: volume baixo pois a gravação tem o audio saturado.
sim, partilhar sensações que o belo nos desperta, é uma forma de estar, de amar, de viver…, La phrase qui coule!

João de Freitas Branco
Era sempre assim! Um homenzinho, alto, seco de carnes, com um fato que lhe parecia mais pendurado que vestido, sempre encostado à parede mais distante dos camarins, olhos postos no chão como a pedir desculpa por ali estar, meio escondido por detrás dos arranjos de flores que Ãam depositando entre abraços efusivos de “bravoâ€?, “divinalâ€? e por aà adiante, deixando-se sempre ficar para último para, aproximando-se em passos hesitantes, dizer, “desculpa, Manuela, eu não deveria ter vindo aqui, mas não resisti a dizer-lhe que mais uma vez me ajudou a viver (…)â€?. Era um homenzinho que minha Mãe teimava em dizer que era o melhor músico português vivo e que eu não via. Não percebia como é que alguém assim tão importante podia apresentar-se sempre tão .. coitadinho!
Ainda de calções fui ouvindo os discos proibidos e não percebia porque é que se proibiria ouvir “Lá vai uma, lá vão duas, três pombinhas a voar (…)â€?. Era absurdo, o que é que aquilo tinha de mal? Meus Pais diziam-me que eu não devia fazer aquelas perguntas – era proibido, acabou! OuvÃamos em casa e nem uma palavra lá fora. E quando o Carlos lá jantasse ou pernoitasse, nem uma palavra a ninguém. Nem sobre ele nem sobre o Graça! Bom, eu não percebia mas cumpria e aquele secretismo conferia-me algum orgulho e importância, claro está!
Em 1972, em Moscovo, minha Mãe apresenta o Carlos a dois amigos, Khatchaturian e Schostakovitch, como um dos melhores músicos que conhecia e um exímio executante de guitarra portuguesa. Não sabia onde se havia de enfiar, amarfanhado só pela presença daqueles músicos que ele tanto apreciava e eles, para seu espanto, não desistiam de o incentivar a tanger a sua guitarra. O serão durou quase até ao amanhecer com o Carlos e a guitarra (ou eram um só?) e lágrimas emudecidas entre as quais as do Graça e de Khatchaturian!
Mais tarde, em 1986, em Paris, o Carlos fora convidado para fazer a primeira parte de um espectáculo dos Trovante. A casa estava cheia e a ovação era arrepiante! Por detrás do palco a irritação era crescente “agora é que o velhinho deveria sair para nós entrarmos; esta malta não está para ouvir esta música de velhos!” O Carlos saiu, fizeram-lhe sinal! Ele pediu desculpa, que não tinha dado conta do tempo passar. Entraram os Trovante! O público pediu o regresso do Carlos ao palco. Ele apareceu, sem a guitarra, agradeceu e pediu para serem mais gentis com os Trovante pois eram a melhor banda portuguesa do momento e saíu.
Ao serão, na casa onde eu estava, o Carlos tocou, tocou para gáudio de alguns amigos meus, solistas do Ensemble Intercontemporain, que não compreenderam como era possível alguém tocar fosse que instrumento fosse da forma que o Carlos o fazia. Ele não tocava, diziam, ele fazia com que a guitarra falasse, sentisse e se emocionasse, tal como nós, as pessoas!
Hoje não morreu apenas o Carlos Paredes, morreu um dos Homens mais bons que alguma vez conheci! Muitas lições deixa, a maior, talvez, a força e a dignidade que o amor confere a quem por amor faz.
«E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.»
Herberto Helder





















