A Cristina Vieira no Contracapa pega no assunto do excerto do artigo de Pacheco Pereira (que atrás abordei) e abre portas ao que sinto que poderá estar por trás não só daquela passagem, como doutros ataques desferidos contra a blogosfera – uma campanha orquestrada e desesperada dos media tradicionais devido à drástica quebra de vendas e as virtualidades abertas pela Web 2.0 (vulgo Web Social), nomeadamente à criação de redes especÃficas e especializadas e seu inter-relacionamento digital.
O excerto em causa tem provocado alguma polémica, nomeadamente através do escritos de Fernando Venâncio, do José (aqui e aqui), da Zazie, do Paulo Querido e do Dragão, mas foram Paulo Querido e Fernando Câncio que me incitaram a procurar ler na Ãntegra o artigo de Pacheco Pereira.
Afinal, deduz-se, que o artigo tem por base a leitura de The Cult of the Amateur de Andrew Keen que não li mas, socorrendo-me da Wikipédia, dou conta de que este autor tenta alertar para os perigos da Web 2.0, identificado-a como um grande movimento utópico similar à sociedade comunista, pelo facto de todos, mesmo os que não receberam educação adequada, poderem usar a tecnologia digital para se tornarem realizadores cinematográficos, músicos e escritores autodidactas. No seu entender este processo empobrece a criatividade, democratiza os media e nivela por baixo tanto amadores como profissionais. Propõe ainda como solução que os media tradicionais elitistas se constituam como inimigos da Web 2.0.
Sendo sensÃvel à preocupação que Pacheco Pereira tenta manifestar – o tal empobrecimento cultural – não me parece defensável a tese de Andrew Keen, muito menos num mundo que diz defender a liberdade individual e cujo poder se sustenta no sufrágio universal e no apelo a uma cidadania activa, seja de professores catedráticos, seja de analfabectos! Regular a liberdade para que a de cada qual não colida com a do próximo, parece-me evidente em lugares que prezam o Estado de Direito; agora limitar a liberdade de expressão (de opinião ou de criação) parece-me, isto sim, muito mais próprio de uma ditadura, comunista ou de qualquer outra adjectivação. ( leia-se a crÃtica sugeria por Paulo Querido de Lawrence Lessig no Lessig 2.0)
Se seguÃssemos à letra a solução preconizada por estas profecias apocalÃpticas e pelo calar dos tais amadores autodidactas, nunca terÃamos tido um Torga, um Eugénio de Andrade, um Fernando Namora, um Carlos Paredes, uma Amália…
Continuo, afinal, com a impressão primeira que formei, a de que está constituÃdo um poderoso lobbie global que colocou em marcha uma campanha contra a rede da blogosfera, nomeadamente a proporcionada pela Web 2.0 (vulgo Social Web), por parte dos media tradicionais, desesperados que estão com a drástica redução das suas vendas, contando com o apoio dos comentadores contratados pelo facto de sentirem diluir o seu poder enquanto opinion makers, buscando sustentação teórica nas inusitadas opiniões escritas de Andrew Keen.
A apoiar o que defendo, vejo o que a Cristina adiantou sobre a campanha contra os blogues que o Estadão lançou há cerca de um mês, criada pela empresa Talent, onde se lê e passo a citar, todos os blogs, ou melhor, todo o conteúdo gerado por não profissionais, não presta. A tónica da campanha estava em duas ou três ideias: blogs limitam-se a copiar informação, blogs não são fidedignos (…).. A Resposta não tardou através de Cristiano Dias no blogue Brainstorm#9 onde se lê o óbvio: Obviamente, existe muito lixo na internet. Falando especificamente de blogs, dos milhares que aparecem todos os dias, poucos se aproveitam, é verdade. Mas a lei da sobrevivência é a mesma: apenas os com conteúdo relevante e/ou divertido permanecem. A tecnologia avança, mas isso não muda.
Assim sendo, para além do artigo do Dr. Pacheco Pereira não acrescentar novidade dentro deste estratagema, a sua motivação para o escrever deverá ter sido bem mais elaborada e alargada que a nobre defesa da cultura e de uma elite de qualidade que a lidere, como insinua, enquadrando-se, antes, num lobbie global que ataca os blogues por considerar ser a melhor defesa para travar a tendência de redução de vendas dos media tradicionais e a não diluição do poder de opinion makers dos comentadores lá instalados.
O termo adiantado pelo André Moura e Cunha no In Absentia o qual adoptámos e fizemos eco não foi acolhido com grande entusiasmo pela blogosfera. É natural, a maioria dos autores vivem em Lisboa.
Mas será este crescente e castrador centralismo uma paranóia? Julgo que não e, pelos vistos até de fora vêem o que muitos por cá não querem ver, nomeadamente o El Pais, que a propósito do facto, já consumado, de Vigo perder para Badajoz a sede da União Europeia para a cooperação hispanolusa coloca em subtÃtulo: Solbes cede ante el Gobierno portugués, interesado en no alentar el autonomismo de Oporto.
Do desenvolvimento do artigo deixo alguns excertos:
Vigo no será, finalmente, la sede del secretariado técnico de la Unión Europea (UE) que debe gestionar los programas de cooperación transfronteriza entre España y Portugal entre 2007 y 2013, incluidos los que pongan en marcha Galicia y la Región Norte de Portugal.
Badajoz se ocupará también de la parte de ese dinero que corresponde a las iniciativas conjuntas entre Galicia y la Región Norte de Portugal y que fuentes de la Xunta sitúan entre los 80 y los 90 millones para todo el perÃodo.
(…) la decisión de los Gobiernos de Lisboa y Madrid no ha pesado exclusivamente el interés de Extremadura. El deseo del Ejecutivo portugués, presidido por José Sócrates, de desincentivar cualquier posible aspiración autonomista por parte de la Región Norte ha terminado por inclinar la balance del lado contrario a los intereses de Galicia.
E porquê? Por aquilo que todos sabem, que seria benéfico para a nação, para Portugal, mas que o centralismo de Lisboa, com medo do inevitável, com a certeza de perda de protagonismo, vem desde a adesão à CEE a protelar, a boicotar, a tudo obstar para que tal seja possÃvel – a criação de uma região Norte de Portugal e a Galiza. Sou eu que o digo? Sim, sou, mas também o mesmo artigo do El Pais:
De hecho, la Xunta (de Galicia) tenÃa mucho interés en hacerse cargo de la gestión de los fondos a través de un nuevo instrumento comunitario, una Agrupación Europea de Cooperación Transfronteriza (AECT), que permitirÃa a la Región Norte dotarse de un organismo con personaldad jurÃdica propia, algo de lo que carece en el sistema constitucional portugués. La AECT permitirÃa a ambos territorios, protagonistas desde hace años de la cooperación a lo largo de la frontera, superar el estrecho marco de la Comunidad de Trabajo, dentro la cual habÃan venido situando sus iniciativas. La AECT permitirÃa además, según fuentes de la Xunta, consolidar la relación con el Norte de Portugal cuando se acaben los fondos europeos de cooperación al salvar definitivamente las dificultades derivadas de la naturaleza centralizada del Estado portugués.
Haja decoro e assuma-se que o atraso de todas as Nuts de Portugal em relação à de Lisboa e Vale do Tejo se deve única e exclusivamente à reacção histérica de todos os governos centrais desde Cavaco Silva, para impedir que o Noroeste da penÃnsula se constitua em região reconhecida pela União Europeia, desde as campanhas de ostracização aos polÃticos do Norte que pelo seu bom desempenho sobressaÃram da mediocridade, concomitante ao apoio a polÃticos nortenhos seguidistas dos aparelhos partidários, passando pela ‘trasladação’ de quase todas as sedes de empresas financeiras para Lisboa, lembrando o ridÃculo de um referendo sobre uma regionalização de Portugal em talhões cujo único objectivo foi o de inviabilizar o óbvio, sem esquecer a tonta opção por um aeroporto em Lisboa em detrimento de um no Porto (que faria com que o Porto fosse, em definitivo, a capital dessa futura região em detrimento de Vigo, Santiago e Corunha), sublinhando os sucessivos boicotes a todas as tentativas de Belmiro de Azevedo de adquirir empresas a privatizar só pelo facto de manter a sua sede no Norte e não precisar do Estado para nada (incluindo este nada surpreendente resultado da OPA sobre a PT), até à anedota de açambarcar para Lisboa a administração da Metro do Porto!
De tudo o centralismo tem feito, mas para quê? Em benefÃcio de quem? De quase ninguém, aparentemente, a não ser de um punhado de clientelas partidárias que vêm dominando em proveito próprio este paÃs… com apreciável gáudio da boçalidade das populações anti-nortenhas que vão a reboque de sentimentos futebolÃsticos!
Estou fartÃssimo das virgens moralistas que dominam os meios de comunicação social, blogosfera e governos!
O ministro disse alguma mentira? Disse algo que não seja uma vantagem competitiva para os investidores?
Esta saga que parece não ter fim, de ao poder só chegarem académicos e profissionais da polÃtica e do comentário, sem nunca terem experimentado o que é a vida empresarial nem dela ideia fazerem para lá do que vem nas sebentas e manuais, em estudos e artigos académico-paranormais e milhares de teses de mestrado e doutoramento que até agora para nada serviram nem se vislumbra que serventia venham a ter, tem conseguido os resultados que estão à vista de todos!
Querem mais do mesmo? Sirvam-se, estejam à vontade, mas não levem a mal não me apetecer tal petisco!
Que fastio!
A propósito do concerto que Murray Perahia deu anteontem na Casa da Música o HVA, no desNorte, escreve um texto que subscrevo na Ãntregra, pelo que escreve diz e pela elegância com que justamente se indigna!
A Casa da Música está a mudar, vai mudando, vai refazendo-se, vai esquecendo o que Alves Monteiro legou! (ver aqui, aqui e aqui)
Deixo um breve excerto do texto do HVA:
Não sei se tem a ver com o regresso do filho pródigo, mas sei que a programação já não tem o fulgor (leia-se qualidade) de tempos não muito distantes. Parece que está mais variada, dizem-me. Naquilo que me diz respeito, quem quiser variedade(s) que vá ao Rivoli.
no Público de hoje utilizando uma estratégia conhecida – um pé dentro e outro fora. (link Abrupto)
Nada de novo, afinal, é a sua estratégia pessoal de sempre, à qual deve o estatuto mediático que alcançou.
A coisa vende, não haja dúvida, foi decalcada da do outro Professor que veio explicar que sim, mas talvez nem por isso em relação ao mesmo assunto. Com uma pequena diferença, contudo, Marcelo Rebelo de Sousa disse o que vai fazer.
é a que faz a Helena Araújo no 2 Dedos de Conversa, sob o tÃtulo Jogar a Feijões.
A AIDS Healthcare Foundation, fundação que luta contra a Sida, anunciou hoje ter apresentado uma queixa contra a farmacêutica Pfizer (…)
por entender que
O marketing enganador e ilegal que é feito para vender o Viagra, provocou um aumento da propagação das doenças sexualmente transmissÃveis, entre as quais a Sida (Jornal de NotÃcias)
Afinal parece que a propagação do HIV, seguindo o raciocÃnio, tem a ver com o tesão. Ora se assim é, e não me custa a acreditar, parece-me muito mais preocupante que a AIDS Healthcare Foundation ainda não tenha apresentado uma queixa contra o Vaticano por continuar a propagandear o não-uso do preservativo!
Das duas, uma, ou um gajo capa-se, e prontos, que se lixe a taça, ou o problema nada tem a ver com o tesão, mas com a falta de protecção!
De fundamentalismo em fundamentalismo não me admiraria nada que as embalagens de viagra passassem a ter obrigatoriamente inscrito: O TESÃO MATA.
À primeira vista, numa lógica de auto-regulação do funcionamento do mercado, a existência de uma tabela que imponha preços máximos e mÃnimos por acto médico pode parecer um absurdo. Em teoria não poderia estar mais de acordo com o Adolfo Mesquita Nunes quando escreve no Arte da Fuga:
«(…) quem impõe coercivamente tabelas de preços escapa à questão da legitimidade, acomodando-se numa alegada e também confortável ideia de justiça social, protegendo o bolso de quem os paga e a qualidade do serviço prestado.»
Não colocando em questão legalidade da decisão da Autoridade da Concorrência, não entendo que a Tabela do Acto Médico seja um atentado contra a liberdade dos médicos, uma vez que ela foi discutida e aprovada pelos seus membros – os médicos.
No entanto, o principal problema reside na totemização da liberdade individual que o pensamento neo-liberal nos condicionou, fazendo-nos esquecer, por vezes, que a liberdade, para ser efectiva, necessita de regras, de comportamentos previsÃveis, para que possa ser fruÃda.
A verdade é que a não existência uma tabela de referência dos actos médicos impede a implementação dos seguros de saúde, uma vez que não haverá actuário capaz de calcular, em função do risco e dos preços praticados, as garantias e sua amplitude, as excepções e o preço do produto a comercializar. Assim sendo, porque a reivindicação de uma tabela de actos médicos foi uma luta de anos por parte das seguradoras, a medida agora tomada só vem beneficiar as seguradoras que possuem instalações e técnicos de saúde próprias e avençados, colocando à Autoridade da Concorrência um outra problema para decidir – poderão as seguradores que vendem seguros de saúde obrigar, coercivamente, sob pena de o seguro ser nulo, os seus clientes a não poderem optar pelos médicos e estabelecimentos que entendem?
A liberdade precisa de regras, precisa acordos, precisa de consensos, para que ela possa ser fruÃda o máximo possÃvel. A sua totemização é o princÃpio da sua ausência ou, se pretendermos, a liberdade de quem tem poder!
a insurgir-se contra a polÃtica exclusivamente fiduciária do BCE. Parece que a futura candidata presidencial do PS em França sabe, concretamente, por onde deve começar!
«Ségolène Royal, s’est exprimée, mercredi 17 janvier à Luxembourg, en faveur d’”un élargissement du statut de la BCE qui intègre très clairement, comme aux Etats-Unis et au Royaume-Uni, non seulement la maîtrise de l’inflation, mais aussi la croissance économique et le progrès social”. “Il ne s’agit pas de remettre en cause son indépendance, mais il s’agit de ne pas la laisser exercer une omnipotence” (…)» (Le Monde)
Ainda sobre o PU (utilizando a sigla da Jacky) há um aspecto que neste post não foquei, mas que não passou despercebido à Susana Serrano num comentário – as ESE’s! Transcrevo parte dele:
«É uma absoluta irresponsabilidade ministerial!
Durante os últimos 20 anos investiram nas ESEs, em cursos semi-especialistas, de má qualidade geral, para cobrir o 2º ciclo essencialmente e dar formação “mais credÃvelâ€? aos professores do 1º ciclo, deixando mais uma vez “as disciplinas artÃsticas, menoresâ€? de fora do currÃculo. É verdade, estas últimas, pagas a recibo verde agora e dadas como actividades extra-curriculares, estão na lei, no currÃculo do 1º ciclo há já muitos anos.Na realidade só o Inglês ainda não fazia parte do currÃculo do 1º ciclo, era só intenção.
Os resultados do investimento nas ESEs são também muito contraditórios e ainda não foram nem analisados, nem investigados e muito menos avaliados seriamente, assim como tudo neste ME que temos; como tal parte-se para outra mudança. Acho que a maioria das pessoas não acredita nisso e os sindicatos mais uma vez vão pegar no assunto pelo único lado que não deviam.» Susana Serrano
Com efeito, num momento em que toda a gente já sabe do logro que as Escolas Superiores de Educação (ESE’s) representaram para a diminuição da qualidade do ensino superior em Portugal (com honrosas excepções, claro), esta medida do Professor Único viria dar um novo fôlego ao incrementar as inscrições nessas instituições em detrimento das universitárias, sabendo nós que elas correm sério risco de desaparecer por falta de alunos, i.e., por desinteresse do mercado! (ver notÃcia do Público 11 de Julho de 2006)
Então, para além da medida ser má para a qualidade do ensino pelas razões adiantadas, ainda se acrescenta esta desconfiança (para não dizer suspeição) de favorecimento encapotado das ESE’s, para mais sabendo que o Secretário de Estado Valter Lemos foi um dos grandes impulsionadores destas instituições, tendo sido Presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco desde 1996 e Presidente da Politécnica – Associação dos Institutos Politécnicos do Centro desde 2003, funções só deixou quando foi convidado para este governo!





















