O que faço só importa
se traduz o que vou sendo
se assim não for tudo é nada
só finjo que estou fazendo.
Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997
É ciência subir os Himalaias
e criar matemática sem fim
mas é cultura vê-la poesia
e ter os Himalaias dentro de mim.
Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997
O primeiro anjo pecou
pois não viu que liberdade
é dada só para a busca
não conquista da verdade.
Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997
Não há nada no presente
que eu não louve
embora venham saudades
de futuros que não houve.
Agosinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

António… Gedeão, aliás, Rómulo de Carvalho. Qual o mais conhecido? O poeta ou o pedadogo e historiador da ciência?
Um aluno seu, Nuno Crato, dele dá um testemunho sobre a sua pedagogia do rigor científico:
«Um aluno queixava-se do valor esquisito da capacidade de uma garrafa (1,08 l) que Rómulo de Carvalho colocara no exame. Seria apenas para dificultar? O professor respondeu que tinha, de antemão, medido a capacidade de uma garrafa comum "pois gostava de trabalhar sempre com valores reais"» (ver catálogo, p. 24).
Exposição na Biblioteca Nacional (ver aqui e aqui) até ao dia 6 de Janeiro de 2007.
Armando Senra Martins
Saiu da Samardan certo pedreiro
Faminto de ouro, em busca da fortuna;
Embarca, vai-se ao Rio, deita ás Minas,
E lida, e fossa, e sua, arranca á Terra
O luzente metal, que o vulgo adora.
Vem rico a Samardan; vinhas, searas,
Casas, moveis, baixélia compra fôfo:
Brocados veste, vae-se nos domingos
Espanejar á Egreja, acompanhado
De lacaios esbeltos; vem o Cura,
Saúdal-o com agua benta; os mais graudos
Do lagarejo a visital-o acorrem;
Para elle os rapapás, as barretadas
Se apostavam de longe a qual mais prestes.
Fallavam os visinhos e a gazeta
Na celebre Paris, cidade guapa
Onde todo o estrangeiro nobre ou rico
Vae fazer seu papel. Eil-o azoado
Que deixa a Samardan, que se apresenta
Na capital franceza; roda em côche,
Alardeia librés; passeia Louvres,
Versalhes, Trianões. Volta enfadado
A’ sua Samardan. – «Gabam tal gente
«De polida! Oh! mal haja quem tal disse!
«Corri casas, palacios, corri ruas;
«Não vi um só, nem grande nem plebeu,
«Que, ao passar, me corteje c’o chapeu.»
de Filintho Elysio, citado em O Degredado de Camilo Castelo Branco”, incluído nas Novelas do Minho, na 3ª edição, de 1915, Lisboa, Livraria Editora
Após uma citação de João de Barros, Camilo dedica O Degredado assim:
«Aos Senhores Fidalgos da Casa Real
e
CAVALLEIROS PROFESSOS DA ORDEM DE CHRISTO
Offereço a Vossas Excellencias por dois tostões esta biographia de um confrade. Vão as suas pessoas, senhores fidalgos e cavalleiros professos, ufanar-se do irmão d’armas que tiveram na sua cavallaria.
Deus guarde a Vossas Excellencias para confusão de Bonança, de Latino Coelho, de Oliveira Marreca e das outras cabeças da hydra.
De S. Miguel de Seide, aos 29 de Novembro de 1876.»
Pourrait-on ne pas avoir de la patience, ne pas apprendre de la nature à avoir de la patience en voyant silencieusement lever le blé, croître les choses – pourrait-on s’estimer une chose si absolument morte que de penser qu’on ne puisse même plus coître?
V. Van Gogh, excerto de “Lettres à son Frère Théo” de tradutor que desconheço.
Encerrados que estamos na cada vez mais complexa invenção das razões de razões, passamos ao lado da fruição da beleza que a pureza, incessantemente e sem razão, nos oferece sem nada pedir em troca.
Deixo um aqui a transcrição de um comentário que a Susana Serrano, professora de Educação Musical, deixou ontem neste post:
(…) no meio disto tudo, seja o sistema de ensino, os profs, as depressões, é mesmo a música que nos safa.
Tenho na escola só turmas de 7º,8º e 9º ano (neste último a música é opcção) e este ano, como é o ano do Mozart, o 2º projecto a trabalhar com os putos é, entre outras coisas, tocar Mozart. Escolhi com eles um andamento de um Divertimento em Fá M a 3 vozes, em que eles tocam a 1ª em flauta bisel soprano e a 3ª em flauta alto. Ontem estiveram a seguir a partitura deles e a ouvir a peça, num silêncio religioso; pediram para ouvir 3 vezes.
Às vezes vale a pena ser professor das disciplinas mais miseráveis.
que Ele é o que nós não somos. Apenas a nossa miséria é a imagem disso. Quanto mais a contemplamos, tanto mais O contemplamos.
Simone Weil, “A atenção e a vontade”, 1994: 139-140
“(…) In terms of its evolutionary significance, Stephen Pinker, for instance, as a theorist of cognition, believes that music has no evolutionary meaning. He actually calls it auditory cheesecake. And yet, he thinks it’s one of the great human mysteries because every culture we know or have known of had some form of music. There’s obviously something significant about this, but on an evolutionary level he thinks there’s no real imperative. It’s just something that exists and is a rather extraordinary mystery because of that. I don’t think that’s true. I think that there really is a direct evolutionary imperative. Music is the vehicle through which we explore our auditory structural coupling to the external world.”
David Dunn (excerto de entrevista à Arts Electric a 5/12/2005)





















