Incrédulos e fascinados ouvíamos, em pequeninos, a passagem de Jesus a caminhar sobre o mar. Nem incrédulos e muito menos fascinados vemos que há pessoas que fazem a sua vida caminhando sobre os outros, detendo-se, muito brevemente, aqui e acolá, sempre que entendam ser necessário exibir a arte de calcar a honra de quem ouse erguer, ainda que timidamente, a cabeça.
Coisas que talvez venham de identidade…, de ancestrais culturas… onde o chá não estaria, decerto, presente!
Desde sexta-feira que se multiplicam, muito naturalmente, as reacções à morte de Saramago. Natural já não me parece haver quem faça balanços sobre a pessoa quando o que ele nos deu de mais rico foi o que escreveu.
O legado literário de Saramago ainda é cedo para se conhecer, embora muito haja para enaltecer e excelentes escritos para ler; sobre a pessoa, francamente, talvez por jeito que me deram desde pequeno, sinto que deveríamos resguardar para quem com ele de perto conviveu, sendo que esses, no seu bom-senso, cumprem o seu nojo.
Sobre atitudes institucionais, sejam as de Cavaco Silva ou do Vaticano, muito sinceramente não levo a mal – estou de férias para essas pessoas e instituições há muitos anos, em especial, em época de eleições!
No 25 de Abril deste ano já ninguém ousa falar sobre se a revolução foi com ou sem ‘R’. Todas as promessas abertas pela liberdade mostram hoje, a todos, o que poderíamos ter sido e não conseguimos ser. Aqueles que arriscaram a vida pela liberdade que fruímos não mereciam que com essa liberdade apenas betão e alcatrão construíssemos!
Há quem pense que são os governos que fazem e há quem faça!
José Antonio Abreu, o criador e executor do El Sistema, conseguiu o que conseguiu sobrevivendo a duas ditaduras que o deixaram fazer o bem que fez pela Educação Artística de toda a Venezuela.
La cultura para los pobres no puede ser una pobre cultura – José António Abreu
Os resultados estão à vista e enxergá-los é tomar consciência do absurdo que é a discussão dos teóricos entre uma ‘Educação pela Arte’ e uma ‘Educação para a Arte’. Faz-se fazendo e não debitando as mais tolas teses e estudos sobre como se deve fazer, por gente que nunca fez, nem ousou aprender com quem sabe…, porque fez, e bem!
É verdade que tinham razão aqueles que insinuavam que o 25 de Abril era ‘evolução’ e não ‘revolução’, por muito que me custe a admitir. Diria, até, que pouca evolução e muito vandalismo. Vandalismo, sim, contra cultura, a educação, incluindo a artística e contra o culto de mentes sãs!
É neste contexto que o ‘FMI’ de José Mário Branco é mais actual do que nunca, uma vez que a sua mensagem, a dor que o autor sente e expressa, é-lhe infligida pela indiferença do comodismo dos cidadãos que tudo aceitam, com tudo pactuam, em troca da sua vidinha!
Bom 25 de Abril!
A mordaça que a hierarquia da Igreja Católica usou para abafar os actos de pedofilia cometidos por alguns dos seus elementos parece estar em acelerado processo de putrefacção, cuja pestilência ameaça seriamente a hierarquia do Vaticano, por permitir que infames actos reincidissem, por omissão e encobrimento.
A superioridade moral e ética que a Igreja Católica para si reclama vê, através de seus actos e omissões, rasga brechas mais profundas e visíveis junto daqueles que ainda não vêem os membros da Igreja como homens que, como os demais, são, com qualidades, defeitos e desvios psicopatas e criminais, sujeitos ao escrutínio e às sanções e coacções que a justiça dos homens prescreve.
Permitir que pedófilos continuem no seio da Igreja e não os denunciar à justiça é pecado e crime hediondo. Não subsista dúvida ou avulsa justificação!
‘A Deus o que é de Deus e aos homens o que é dos homens’.
Não se julgue, contudo, os membros da Igreja pelo seu todo; cada um é cada qual, assim como na sociedade, em geral, devemos separar o trigo do joio, muito embora tenhamos por certo que sacerdotes são homens sujeitos à justiça dos homens, sendo exactamente por isso que não será pelos seus pecados e crimes que a mensagem de Jesus será beliscada!
Enganados estão aqueles que consideram que “os pecados da Igreja (…) ofuscam a imagem do Reino de Deus”, como D. José Policarpo afirmou.
‘A Deus o que é de Deus e aos homens o que é dos homens’.
O Reino de Deus desvendou-o Jesus Cristo e aos crentes compete seguir a ética e a moral de vida que Ele pregou e entre nós mostrou para lhe aceder. Confundir esta evidência, colocando os elementos da Igreja num ‘limbo’ entre a esfera humana e a divina, é propagar um pérfido engano entre quem crê na mensagem de Jesus Cristo.
























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