Incrédulos e fascinados ouvíamos, em pequeninos, a passagem de Jesus a caminhar sobre o mar. Nem incrédulos e muito menos fascinados vemos que há pessoas que fazem a sua vida caminhando sobre os outros, detendo-se, muito brevemente, aqui e acolá, sempre que entendam ser necessário exibir a arte de calcar a honra de quem ouse erguer, ainda que timidamente, a cabeça.
Coisas que talvez venham de identidade…, de ancestrais culturas… onde o chá não estaria, decerto, presente!

Jose SaramagoDesde sexta-feira que se multiplicam, muito naturalmente, as reacções à morte de Saramago. Natural já não me parece haver quem faça balanços sobre a pessoa quando o que ele nos deu de mais rico foi o que escreveu.
O legado literário de Saramago ainda é cedo para se conhecer, embora muito haja para enaltecer e excelentes escritos para ler; sobre a pessoa, francamente, talvez por jeito que me deram desde pequeno, sinto que deveríamos resguardar para quem com ele de perto conviveu, sendo que esses, no seu bom-senso, cumprem o seu nojo.
Sobre atitudes institucionais, sejam as de Cavaco Silva ou do Vaticano, muito sinceramente não levo a mal – estou de férias para essas pessoas e instituições há muitos anos, em especial, em época de eleições!

Agostinho da SilvaEu não quero ter poder
mas apenas liberdade
de falar aos do poder
do que entenda ser verdade.

Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

No 25 de Abril deste ano já ninguém ousa falar sobre se a revolução foi com ou sem ‘R’. Todas as promessas abertas pela liberdade mostram hoje, a todos, o que poderíamos ter sido e não conseguimos ser. Aqueles que arriscaram a vida pela liberdade que fruímos não mereciam que com essa liberdade apenas betão e alcatrão construíssemos!
Há quem pense que são os governos que fazem e há quem faça!
Jose Antonio AbreuJosé Antonio Abreu, o criador e executor do El Sistema, conseguiu o que conseguiu sobrevivendo a duas ditaduras que o deixaram fazer o bem que fez pela Educação Artística de toda a Venezuela.

La cultura para los pobres no puede ser una pobre cultura – José António Abreu

Os resultados estão à vista e enxergá-los é tomar consciência do absurdo que é a discussão dos teóricos entre uma ‘Educação pela Arte’ e uma ‘Educação para a Arte’. Faz-se fazendo e não debitando as mais tolas teses e estudos sobre como se deve fazer, por gente que nunca fez, nem ousou aprender com quem sabe…, porque fez, e bem!

É verdade que tinham razão aqueles que insinuavam que o 25 de Abril era ‘evolução’ e não ‘revolução’, por muito que me custe a admitir. Diria, até, que pouca evolução e muito vandalismo. Vandalismo, sim, contra cultura, a educação, incluindo a artística e contra o culto de mentes sãs!
É neste contexto que o ‘FMI’ de José Mário Branco é mais actual do que nunca, uma vez que a sua mensagem, a dor que o autor sente e expressa, é-lhe infligida pela indiferença do comodismo dos cidadãos que tudo aceitam, com tudo pactuam, em troca da sua vidinha!
Jose Mario Branco


Bom 25 de Abril!


Agostinho da SilvaNada quero de altruismos
nem dos gestos que cativam
bem os outros ajudam
quando deixamos que vivam.

Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

A mordaça que a hierarquia da Igreja Católica usou para abafar os actos de pedofilia cometidos por alguns dos seus elementos parece estar em acelerado processo de putrefacção, cuja pestilência ameaça seriamente a hierarquia do Vaticano, por permitir que infames actos reincidissem, por omissão e encobrimento.
A superioridade moral e ética que a Igreja Católica para si reclama vê, através de seus actos e omissões, rasga brechas mais profundas e visíveis junto daqueles que ainda não vêem os membros da Igreja como homens que, como os demais, são, com qualidades, defeitos e desvios psicopatas e criminais, sujeitos ao escrutínio e às sanções e coacções que a justiça dos homens prescreve.
Permitir que pedófilos continuem no seio da Igreja e não os denunciar à justiça é pecado e crime hediondo. Não subsista dúvida ou avulsa justificação!

‘A Deus o que é de Deus e aos homens o que é dos homens’.

D Jose PolicarpoNão se julgue, contudo, os membros da Igreja pelo seu todo; cada um é cada qual, assim como na sociedade, em geral, devemos separar o trigo do joio, muito embora tenhamos por certo que sacerdotes são homens sujeitos à justiça dos homens, sendo exactamente por isso que não será pelos seus pecados e crimes que a mensagem de Jesus será beliscada!
Enganados estão aqueles que consideram que “os pecados da Igreja (…) ofuscam a imagem do Reino de Deus”, como D. José Policarpo afirmou.

‘A Deus o que é de Deus e aos homens o que é dos homens’.

O Reino de Deus desvendou-o Jesus Cristo e aos crentes compete seguir a ética e a moral de vida que Ele pregou e entre nós mostrou para lhe aceder. Confundir esta evidência, colocando os elementos da Igreja num ‘limbo’ entre a esfera humana e a divina, é propagar um pérfido engano entre quem crê na mensagem de Jesus Cristo.

Agostinho da SilvaO que faço só importa
se traduz o que vou sendo
se assim não for tudo é nada
só finjo que estou fazendo.

Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

Agostinho da SilvaÉ ciência subir os Himalaias
e criar matemática sem fim
mas é cultura vê-la poesia
e ter os Himalaias dentro de mim.

Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

Agostinho da SilvaO primeiro anjo pecou
pois não viu que liberdade
é dada só para a busca
não conquista da verdade.

Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

Não há nada no presenteAgostinho da Silva
que eu não louve
embora venham saudades
de futuros que não houve.

Agosinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997

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