O que faço só importa
se traduz o que vou sendo
se assim não for tudo é nada
só finjo que estou fazendo.
Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997
É ciência subir os Himalaias
e criar matemática sem fim
mas é cultura vê-la poesia
e ter os Himalaias dentro de mim.
Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997
O primeiro anjo pecou
pois não viu que liberdade
é dada só para a busca
não conquista da verdade.
Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997
Não há nada no presente
que eu não louve
embora venham saudades
de futuros que não houve.
Agosinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 2.ª ed, 1997
65 anos após a libertação de Auschwitz pelo exército russo, 27 de Janeiro de 1945, data escolhida para ‘Dia do Holocausto’, há ainda quem hoje ouse esquecer, escamotear, ou negar, o brutal genocídio cometido pelo regime nazi alemão. Auschwitz começou por ser um campo de concentração para prisioneiros políticos, para logo um ano depois, em 1941, se tornar num campo de extermínio principalmente de judeus, mas também ciganos, prisioneiros de guerra, em especial russos, e homossexuais através das câmaras de gás então instaladas, que libertavam ‘zyklon b’, o qual asfixia em alguns minutos. Os corpos eram posteriormente incinerados em massa para não deixar vestígios.
Auschwitz também serviu para inumanas experiências com seres humanos, perpetuadas sob a chefia do médico Josef Mengele, que decidia semanalmente quem seguiria para as experiências e para a câmara de gás.
Calcula-se que mais de 1 milhão e cem mil pessoas terão sido barbaramente tratadas e mortas em Auschwitz.
O horror do que o homem é capaz deve ser recordado e ensinado para que os mais jovens saibam que a capacidade de praticar o mal é intrínseca a todo o Ser Humano, sendo que a diferença reside apenas na intenção que cada um confere às suas acções e omissões.
Via Facebook, através da Paula Abreu e Lima, cheguei a este pensamento de Clarice Lispector que, por tão apropriado aos tempos, não resisti a transcrevê-lo aqui:

Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viv…er de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre.
Incomoda-me, sim, o despudor da exploração mediática do sofrimento humano; da pronta chegada dos abutres da putrefacção humana, enquanto a da ajuda humanitária se preparava. Incomoda-me, sim, o espectáculo da dança do número de vítimas, mas em especial a ausência da necessidade de procurar reportar motivos, mesmo que ténues, de esperança. Incomoda-me, sim…
Mas ontem, no meio desse exultar da morte, comovi-me, não pelo que via, mas por ouvir a quantidade de países onde instituições e voluntários rumaram ao Haiti para ajudar. Vi ontem uma equipa de protecção civil de Miami a resgatar pessoas com vida dos escombros ao fim de 5 dias e rejubilarem por isso, por salvar uma, uma e cada vida, e cada um.
O mundo poderia ser assim. E seria. Seria se os interesses que dominam o mundo não se sobrepusessem à natural fraternidade e solidariedade humana.
E é também no meio deste género de atitudes que me lembro de Maria de Lurdes Pintasilgo! E de Kofi Annan!
Sim, se nós quiséssemos poderíamos ser mais humanos, ser mais daquilo de que a natureza nos fez, mais fraternos. Ser mais como os outros demais bichos, fraternos, afinal.
Podem ser escassos, mas há momentos em que me conforto por viver em Portugal e ser português. É coisa pouca, breve e de relativa relevância, dirão muitos, mas, francamente, viver num país em que um Primeiro-Ministro não tem de suspender funções nem demitir-se por causa da sua vida privada, poder ter candidatos que para serem eleitos não necessitam que de expor nos media consortes nem prole, poder ter governantes que não são obrigados a juramentos perante Deus, são direitos adquiridos que sinto o prazer do dever de preservar. E não é coisa pouca!
Enquadrado na exposição do seu projecto ‘CORPOtraçoCORPO‘, a decorrer no Centro Nacional de Cultura até 11 de Dezembro, Alice Valente promove um encontro sob o tema “Criação Artística”, no próximo dia 27, às 15 horas.
De entre os seus convidados a participar estarão presentes:
- Guilherme D’ Oliveira Martins – Presidente do Centro Nacional de Cultura;
- Annabela Rita – Presidente do CLEPUL – Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa das Universidades de Lisboa;
- José Pedro Fernandes – Professor de Estética e Cultura Visual;
- Alfredo Oliveira – Eng. e Investigador em Física e Cosmologia;
- José Rodrigues dos Santos – Antropólogo e Investigador no CIDEHUS – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades, Universidade de Évora;
- Amílcar Vasques-Dias – Compositor e Professor na Universidade de Évora;
- Alice Valente Alves – Autora de projectos da Imagem – Poesia, Pintura e Fotografia – no âmbito da Criação Artística;
e o autor deste blogue.
Para mais informações ver, por favor, o sítio da Alice Valente.
Esquecemos com facilidade o que não faz parte de nós, enquanto que dos sedimentos com os quais nos vamos sempre fazendo, nem que o pretendamos, nunca nos separamos. Frederico Serrano deu-me muito do que hoje também sou.
música de Ricardo Serrano dedicada a seu pai Frederico





















