Ideias Soltas

se aqui não fora em mim só seria

Alice Valente - traço-verde/olivaAlice Valente (link) expõe traço:verde-oliva, a sétima cor do projecto CORPOtraçoCORPO - a poesia e a pintura, composta por 9 Obras em díptico, no Museu de Lanífícios da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, a convite do Núcleo de Estudantes de Filosofia da UBI (Universidade da Beira Interior).

A inauguração ocorrerá a 30 de Abril, pelas 18:30h, contando com a presença do reitor da respectiva Universidade, de Guilherme d’ Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, entidade patrocinadora da artista e do evento, da directora do Museu de Lanifícios, responsáveis pelo Núcleo de Filosofia da universidade e pelo director do curso de Filosofia.

A exposição estará patente até 29 de Julho com inúmeras actividades programadas aolonga da sua duração: conferências, exposições, encontros, concertos, workshops, visitas-guiadas, visitas acompanhadas para escolas e ateliês. (ver programa)

Deixo um pequeno excerto sobre a exposição:

(…) porque assentes na concepção de um pensamento artístico-filosófico e desenvolvidos através de projectos no âmbito da criação artística, a autora escolheu fazer a apresentação do «traço:verde-oliva», a 7ª cor das nove cores do seu projecto «CORPOtraçoCORPO – a poesia e a pintura», em que para além das características da cor e em seu projecto, enquanto precisa em inteireza e Verdade, Alice Valente irá relacioná-la neste espaço exposicional com a importância do azeite na lã, em para amaciar e alisar a lã, esta era colocada ou ensopada, durante dias, em talhas ou potes de barro com azeite.

ps: ver projecto “CORPOtraçoCORPO - a poesia e a pintura” no e-cultura.

Alice Valente - CORPOtraçoCORPO na AMIarteÉ já no próximo dia 19 de Março que se inaugura a exposição «CORPOtraçoCORPO - a pintura e a poesia» de Alice Valente (blogue Ali_se) na galeria AMIArte no Porto, sob o patrocínio do Centro Nacional de Cultura, do e-cultura e da AMI, que decorrerá até 19 de Abril.

A inauguração ocorrerá às 18:00h com a presença de Fernando Nobre, presidente da Fundação AMI, e Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, contando com intervenções de José Pedro Fernandes, Alberto Augusto Miranda e Dina Resende. (ver programa completo)

Esta exposição contará com 18 das 54 obras em díptico dos 6 traços (cores) do projecto “CORPOtraçoCORPO - a poesia e a pintura” anteriormente apresentadas.

Sobre a exposição e o projecto «CORPOtraçoCORPO - pintura e poesia», endereço para um texto da própria Alice Valente e um outro de Alberto Pimenta, embora sinta necessidade de transcrever o “resumo” de uma conferência proferida pela Alice por ocasião da 9ª Mesa-redonda da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, A CONSCIENTE NEGLIGÊNCIA DO CORPO (ver em formato PDF), cuja leitura integral recomendo vivamente:

É o corpo com o pensamento e a alma que define a representação da nossa existência sem qualquer oposição na incontestável interpretação do incorpóreo e que racionalmente não podemos reconhecer nem testemunhar. O corpo define-se pela sua fisiologia, que o mantém vivo e activo, no entanto o corpo está dependente da anima.
Um corpo é efémero e de vida passageira, ainda assim, podendo-se projectar em outras realidades, uma vez que o que fica de nós ou do nosso corpo é tão-somente o resultado do pensamento…
De certa forma deveríamos admitir que o Homem em seu aperfeiçoamento civilizacional se tornaria mais cerebral e menos substrato físico, mais pensamento do que corpóreo, mais inteligência do que esperteza, mais intelectual do que simples dependência da sua fisiologia… Pois mas não está a acontecer esta evolução na maior parte da Humanidade, está assim com uma maior tendência para um aproveitamento fugaz do dia a dia do que para a evolução das ideias, está assim, a abandonar o pensamento numa consciente negligência do corpo.

Joaquim Castro CaldasSempre às segundas-feiras, à noite, noite dentro, numa cave, cave de fumo, de fumo e de álcool, e de pouca luz e de fumo, mas sempre a propósito da poesia e de a bem dizer, de a amar, de a sentir, de irmos por onde ela…, ela e Joaquim Castro Caldas nos transportava.
Foi ontem, há 20 anos, que me iniciei a descer à cave do Pinguim Café para ouvir não já música, mas Castro Caldas, ele e quem queria dizer, dizer o que há muito no Porto o hábito se perdera - poesia.
Na quinta-feira, 13 deste mês, regressaremos ao Pinguim Café para homenagear quem bem nos fez, Joaquim Castro Caldas, 20 anos depois, onde estará, com certeza, o seu último livro - Mágoa das Pedras.
Bem-hajas Joaquim Castro Caldas pelo que de ti por amor à poesia (nos) deste.

Manuel Alegre e Carlos Paredes

Em certo Reino, à esquina do Planeta,
Onde nasceram meus Avós, meus Pais,
Há quatro lustros, viu a luz um poeta
Que melhor fora não a ver jamais.

Mal despontava para a vida inquieta,
Logo ao nascer, mataram-lhe os ideias,
À falsa-fé, numa traição abjecta,
Como os bandidos nas estradas reais!

E, embora eu seja descendente, um ramo
Dessa árvore de Heróis que, entre perigos
E guerras, se esforçaram pelo Ideal:

Nada me importas, País! seja meu Amo
O Carlos ou o Zé da T’ resa… Amigos,
Que desgraça nascer em Portugal!

António Nobre, Coimbra, 1889

Zeca Afonso
fotografia tratada por Dionísio Leitão

Balada do Outono

Águas
E pedras do rio
Meu sono vazio
Não vão
Acordar

Águas
Das fontes
calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar

Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Águas
Do rio correndo
Poentes morrendo
P’ras bandas do mar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar

Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar

Canção de Embalar

Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor

Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme quinda à noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Utopia

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

Alice Valente AlvesA Alice Valente Alves habituou-nos a fundir a poesia com a ‘imagem’ na sua arte: na fotografia, na pintura e, agora, no desenho.
Uma das temáticas que mais aborda é a do acto de criar, sendo que defende (e disso está convicta) que tudo parte de uma imagem, de uma imagem que a assalta como percepção do que na vida vai sentindo.
Ora, se tudo é imagem, Alice, como é que todas crias, transformas e fundes com a poesia, a arte, não da imagem, mas a de abrir as fronteiras do paradoxo de imagens e sensações que nos outros despertarás?

Um Beijo

que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
“ao sucesso”
diria meu censor
“à escuta”
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
“what’s new”
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo.

Ana Cristina César

O meu obrigado a quem me apresentou este poema - a T-Regina - e um bom 2007 para todos.

A Casa Fernando Pessoa abre hoje todos as salas, pisos e jardim ao público em comemoração do seu 13º aniversário.
A “festa” começa pelas 14:30h e pelas 21:30h Manuel António Pina, Pedro Mexia, José Luís Peixoto, Luís Quintais, José Eduardo Agualusa e José Tolentino Mendonça lerão textos seus.
Depois, bom, depois parece que haverá ceia e confraternização, mas o melhor é seguirem os links, este e este, para conhecerem o programa em detalhe.
Ah, quem me dera poder estar por Lisboa!

fotografia de Dionísio Leitão.

É o novo livro de poemas de Vítor Oliveira Jorge, editado pela Tartaruga, apresentado ontem na FLUP. Já em 2003, a Campo das Letras tinha editado As Arquitecturas Sazonais do mesmo autor.
Transcrevo um outro poema, inédito este, de Vítor Oliveira Jorge:

Apparatus musico-organisticus

são duas da manhã em Passau,
quando, não conseguindo dormir,
o Kapellmeister do bispo,
Georg Muffat,
atravessa os corredores do palácio

e de corredor em corredor,
ao longo do trajecto,
de archote em archote,
de prega em prega
no roupão arrastado,
o seu semblante
se vai tingindo progressivamente
dos mais diversificados tons.

é algures numa noite dos finais
do século dezassete,
numa Europa, como sempre,
em desassossego.

mas agora na igreja,
onde tudo está silencioso,

só as imagens
olham compungidamente
as cores do arco-íris
espalhadas no pavimento,
sobre as reticuladas decorações
do mármore

(e, em fundo de cena,
apenas dois pequenos pajens
de calças arregaçadas

fogem definitivamente
como vultos assustados
para a negridão do anonimato,
para o esquecimento da História,
ao ver a aproximação
da sombra do Músico –

conformados com o seu ofício
de simples figurantes).

assim pode-se portanto
trabalhar,

subir ao órgão, tocar as teclas,
mexer os pedais,
dobrar o corpo todo
sobre a volúpia da escrita.

enquanto nas câmaras vedadas
homens e mulheres gemem
bebendo mutuamente as suas
mais íntimas secreções;

enquanto nas florestas escuras
os cavaleiros que desenharão a História
se preparam para, ao alvorecer,
queimar com o seu esperma negro
as searas e a virgindade dos campos,

o Fabricante dos Sons –

absorto como é costume vê-lo
nas gravuras que até nós chegaram –

apenas acende uma pequena luz
que lhe ilumine a pauta,
a pena, o frasco de tinta, as teclas;

que lhe permita conduzir a mão
para a estranha, rara,
imprevisível adequação
entre todos os instrumentos:

a qual, a acontecer,
só aqui se dará;

pois o Músico sabe
que está sozinho

ante a majestade da noite,
tentando acompanhar a rota,
as linhas de luz, dos astros,
para lá dos vitrais;

e sentindo a face pálida do Senhor
que fez o Universo

a olhar para si, como se a Verdade
duma harmonia primordial
- qual choque de lança -
o interpelasse.

a esta hora,
uma rosácea de milhões de cores
volteja permanentemente
sobre o enxadrezado dos pavimentos.

a capela acende-se toda
numa nitidez excessiva;

a retina é irrigada
quase até à cegueira.

por mais alta que soe
a música do Compositor, ela
é neste momento inaudível
pela corte,

pelos seus contemporâneos,
distraídos no sono, ou como sempre
no delírio dos pequenos
divertimentos, combinações,
infinitas redes de intercâmbios
que incansavelmente se entretêm
a entretecer,
embebidos no suor
das suas vidas particulares.

assim, às primeiras notas,

uma torrente entra pela nave principal
como se fosse uma inundação;

tranquila marcha, e ascensão
que salpica
as sandálias dos santos;

e todos os tectos se iluminam,
e insuflam, fazendo vibrar
as figuras pintadas,
acentuando-lhes as poses.

as cúpulas incham
como se um sistema sanguíneo
percorresse por dentro
as paredes da igreja,

e os seus vasos se dilatassem
num êxtase sem limites.

a música é então um corpo vivo
que está prestes a ser estraçoado
por quatro cavalos.

v.o.j.
abril 2006, porto

sítios do autor: Configurações e Late Prehistoric Architectures

«É inútil o batismo para o corpo,

e o esforço da doutrina para ungir-nos,

não coma, não beba, mantenha os quadris imóveis.

Porque estes não são pecados do corpo.

À alma sim, a esta batizai, crismai,

escreverei para ela a Imitação de Cristo.

O corpo não tem desvãos,

só inocência e beleza,

tanta que Deus nos imita

e quer casar com a sua Igreja

e declara que os peitos de sua amada

são como os filhotes gémeos da gazela.

É inútil o batismo para o corpo.

O que tem suas leis as cumprirá.

Os olhos verão a Deus.

José Augusto Mourão, em O modo que têm as mulheres de falar com Deus, 8 d Março de 2005, a propósito do Dia da Mulher.

ps: leitura integral de “O modo que têm as mulheres de falar com Deus

Saiu da Samardan certo pedreiro
Faminto de ouro, em busca da fortuna;
Embarca, vai-se ao Rio, deita ás Minas,
E lida, e fossa, e sua, arranca á Terra
O luzente metal, que o vulgo adora.
Vem rico a Samardan; vinhas, searas,
Casas, moveis, baixélia compra fôfo:
Brocados veste, vae-se nos domingos
Espanejar á Egreja, acompanhado
De lacaios esbeltos; vem o Cura,
Saúdal-o com agua benta; os mais graudos
Do lagarejo a visital-o acorrem;
Para elle os rapapás, as barretadas
Se apostavam de longe a qual mais prestes.
Fallavam os visinhos e a gazeta
Na celebre Paris, cidade guapa
Onde todo o estrangeiro nobre ou rico
Vae fazer seu papel. Eil-o azoado
Que deixa a Samardan, que se apresenta
Na capital franceza; roda em côche,
Alardeia librés; passeia Louvres,
Versalhes, Trianões. Volta enfadado
A’ sua Samardan. - «Gabam tal gente
«De polida! Oh! mal haja quem tal disse!
«Corri casas, palacios, corri ruas;
«Não vi um só, nem grande nem plebeu,
«Que, ao passar, me corteje c’o chapeu.»

de Filintho Elysio, citado em O Degredado de Camilo Castelo Branco”, incluído nas Novelas do Minho, na 3ª edição, de 1915, Lisboa, Livraria Editora

Após uma citação de João de Barros, Camilo dedica O Degredado assim:

«Aos Senhores Fidalgos da Casa Real

e

CAVALLEIROS PROFESSOS DA ORDEM DE CHRISTO

Offereço a Vossas Excellencias por dois tostões esta biographia de um confrade. Vão as suas pessoas, senhores fidalgos e cavalleiros professos, ufanar-se do irmão d’armas que tiveram na sua cavallaria.

Deus guarde a Vossas Excellencias para confusão de Bonança, de Latino Coelho, de Oliveira Marreca e das outras cabeças da hydra.

De S. Miguel de Seide, aos 29 de Novembro de 1876.»

Somos o nada do nada que somos
Bebemos a água que nos molha
Serpenteados ao vento de um dia
Balanceados entre duas margens
Livres e despenteados de cabelos
Colhemos a fruta que não semeámos
Gritamos
Suplicamos pelo não merecido
Visitamos ou somos visitados por indesejados
Engolimos qualquer comida que mate
A fome de mendigos sempre vestidos
Da mesma noite no mesmo dia
Diferentes e diferenciados
Todos sonhamos acordados
Algures debaixo do ânimo de verdes caídos
Que já não mais acalme outras dores
Daquela que mais dói
Que é de ter
E não querer saber que se tem

de Alice Valente, retirado do livro “?guas Cruzadas”

Deixo-vos este poema de Carlos Nejar

Construção da Noite

No casulo há um homem
Mas o fundo é outro lado;
No casulo de seu tempo
Há um homem
Mas o fundo é outro lado.
É o casulo
Onde o homem foi achado
Mas o fundo é outro lado.
É o terreno
Onde o homem foi lavrado
Mas o fundo é outro lado.
É a treva
Onde o homem foi fechado
Mas o fundo é outro lado.
É o silêncio
De um homem soterrado
Mas o fundo é outro lado
Mas o fundo é outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto
É a infância que cresce sobre o morto,
É o sol que madruga no seu rosto,
É um homem que salta do sol-posto
E convoca outros homens para o sonho.
E mistura-se à terra
E mistura-se ao sonho
E o canto recomeça além do sonho,
Além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado.

Mas o fundo principia
Sem passado,
Sem os montes, sem os barcos,
Sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado,
Tua terra verdadeira é o outro lado,
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa
Tudo cessa
Tudo cessa
Mas o mundo
É o outro lado
Que começa.

Carlos Nejar

O meu obrigado à Luísa Venturini pela forma como diz este poema.

«Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:
Vou agora contar-te
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o nímero um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é o entre sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos silêncio.
»

Clarice Lispector

e eu, em silêncio, minh’alma senti limpar.

para o melhor livro de poesia estrangeiro editado em Itália em 2004 foi para Livro delle Cadute, uma antologia traduzida com fragmentos do Livro das Quedas de Casimiro de Brito, cujo primeiro volume, com 124 fragmentos, acaba de ser editado em Portugal pela Roma Editora.

«O poema tem actualmente cerca de 500 fragmentos, correspondentes a mais de 800 páginas ‹e é uma longa reflexão poética onde cabem todos os temas e preocupações do homem, levando com subtítulo Ars Moriendi, “arte de bem morrer”. É um poema labiríntico e enciclopédico, e cada um dos seus fragmentos apresenta-se como se fosse o último alento da vida, que sempre continua.»

excerto de texto de Maria Estela Guedes, retirado daqui, onde poderá obter informação mais detalhada. Deixo um poema do autor premiado:

Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras.

Casimiro de Brito

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

Eugenio de Andrade
Escuta, escuta: tenho ainda

uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém - mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar,

para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

Ontem lá fui à Biblioteca Municipal de Beja assistir à apresentação do livro de poemas (textos, nas palavras do autor) de José Manuel Carreira Marques.
Trata-se de uma recolha datada que revela perfumes e estados de alma desencontrados do autor durante 3 anos e meio da sua vida.
Folheei o livro e, tal como disse Mário Mássimo a quem coube a apresentação, trata-se de poesia na boa tradição da linguagem dos afectos e não da nova vaga de tratamento estruturalista das palavras. Deixo-vos um que li e gostei particularmente:

Nem o mar sabe do meu naufrágio.
Há um vazio silencioso
e profundo
onde me agarro.
Veja as algas plantadas
nos navios naufragados
e oiço os queixumes dos mártires.
São os meus companheiros de infortúnio
que me olham espectrais e espantados
porque ninguém naufraga assim.

Hoje, às 21:30h, na Biblioteca Municipal de Beja, ocorrerá a apresentação, por Mário Máximo, do 2º livro de poesia de Carreira Marques - “Sol Incendiado”.
Carreira Marques é Presidente da Câmara de Beja há 23 anos embora já tenha manifestado a sua vontade em dedicar-se exclusivamente à poesia não se racandidatando a novo mandato.
Pelo que vamos lendo no seu blogue, Pedra a Pedra, acreditamos que ganharemos um bom poeta, mas enquanto cidadão sei que perderemos um dos bons Presidentes de Câmara deste país.
Boa sorte, Carreira Marques, para este novo ciclo de vida.

1

De la torpe ignorancia que confunde
lo mezquino y lo inmenso;
de la dura injusticia del más alto,
de la saña mortal de los pequeños,
¡no es posible que huyáis! cuando os conocen
y os buscan, como busca el zorro hambriento
a la indefensa tórtola en los campos;
y al querer esconderos
de sus cobardes iras, ya en el monte,
en la ciudad o en el retiro estrecho,
¡ahí va!, exclaman, ¡ahí va!, y allí os insultan
y señalan con íntimo contento
cual la mano implacable y vengativa
señala al triste y fugitivo reo.

2

Cayó por fin en la espumosa y turbia
recia corriente, y descendió al abismo
para no subir más a la serena
y tersa superficie. En lo más íntimo
del noble corazón ya lastimado,
resonó el golpe doloroso y frío
que ahogando la esperanza
hace abatir los ánimos altivos,
y plegando las alas torvo y mudo,
en densa niebla se envolvió su espíritu.

3

Vosotros, que lograsteis vuestros sueños,
¿qué entendéis de sus ansias malogradas?
Vosotros, que gozasteis y sufristeis,
¿qué comprendéis de sus eternas lágrimas?
Y vosotros, en fin, cuyos recuerdos
son como niebla que disipa el alba,
i qué sabéis del que lleva de los suyos
la eterna pesadumbre sobre el alma!

4

Cuando en la planta con afán cuidada
la fresca yema de un capullo asoma,
lentamente arrastrándose entre el césped,
le asalta el caracol y la devora.

Cuando de un alma atea,
en la profunda oscuridad medrosa
brilla un rayo de fe, viene la duda
y sobre él tiende su gigante sombra.

5

En cada fresco brote, en cada rosa erguida,
cien gotas de rocío brillan al sol que nace;
mas él ve que son lágrimas que derraman los tristes
al fecundar la tierra con su preciosa sangre.

Henchido está el ambiente de agradables aromas,
las aguas y los vientos cadenciosos murmuran;
mas él siente que rugen con sordo clamoreo
de sofocados gritos y de amenazas mudas.

¡No hay duda! De cien astros nuevos, la luz radiante
hasta las más recónditas profundidades llega;
mas sus hermosos rayos
jamás en torno suyo rompen la bruma espesa.

De la esperanza, ¿en dónde crece la flor ansiada?
Para él, en dondequiera al retoñar se agosta,
ya bajo las escarchas del egoísmo estéril,
o ya del desengaño a la menguada sombra.

¡Y en vano el mar extenso y las vegas fecundas,
los pájaros, las flores y los frutos que siembran!
Para el desheredado, sólo hay bajo del cielo
esa quietud sombría que infunde la tristeza.

6

Cada vez huye más de los vivos,
cada vez habla más con los muertos
y es que cuando nos rinde el cansancio
propicio a la paz y al sueño,
el cuerpo tiende al reposo,
el alma tiende a lo eterno.

7

Así como el lobo desciende a poblado,
si acaso en la sierra se ve perseguido,
huyendo del hombre que acosa a los tristes,
buscó entre las fieras el triste un asilo.

El sol calentaba su lóbrega cueva,
piadosa velaba su sueño la luna
el árbol salvaje le daba sus frutos,
la fuente sus aguas de grata frescura.

Bien pronto los rayos del sol se nublaron.
la luna entre brumas veló su semblante,
secóse la fuente, y el árbol nególe,
al par que su sombra, sus frutos salvajes.

Dejando la sierra buscó en la llanura
de otro árbol el fruto, la luz de otro cielo;
y a un río profundo, de nombre ignorado,
pidióle aguas puras su labio sediento.

¡Ya en vano!, sin tregua siguióle la noche,
la sed que atormenta y el hambre que mata;
¡ya en vano!, que ni árbol, ni cielo, ni río,
le dieron su fruto, su luz, ni sus aguas.

Y en tanto el olvido, la duda y la muerte
agrandan las sombras que en torno le cercan,
allá en lontananza la luz de la vida,
hiriendo sus ojos feliz centellea.

Dichosos mortales a quien la fortuna
fue siempre propicia… ¡Silencio!, ¡silencio!,
si veis tantos seres que corren buscando
las negras corrientes del hondo Leteo.

Rosalía de Castro

Guarda, Senhor
a parte de obscuridade irredutível
que nos mura.

autentica a nossa obscuridade
e interroga a experiência sobre que dormimos
para saber como é que ela nos abre
a membrana que nos esconde o céu.

guarda o ardor que nos move para a justiça
não nos devore a razão calculadora
e a concupiscência dos meios.

há correntes de realidade
que como os barcos à vela
dependem só do vento:

que a voz do silêncio impalpável
diga o Nome mil vezes disseminado
pelas citações infinitas,
pela glosa desesperada.

desperte-nos o anjo do dia
em tempo de paralisia das palavras
e de pobreza extrema diante do invisível

e dá à nossa vida o tempo
para perceber a fugacidade, o voo dos pássaros,
o ruído da casa, o riso das crianças.

agregue-se a luz
e que os labirintos dos nossos afectos
e da nossa errância
se iluminem à voz da tua palavra.

beba a nossa alma a luz pascal
prometida nas formas de vida que perdemos
e que o Espírito
abra em nós as portas
à jovialidade e à esperança.

José Augusto Mourão, em “Declinações o Nome e a Forma”, Lisboa, Janeiro 2004

País por conhecer, por escrever, por ler…

País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
- Não, não é para mim este país!
Mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

Entrincheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

País do cibinho mastigado
devagarinho.

País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de alegria.

Moroso país da surda cólera,
do repente que se quer feliz.

Já sabemos, país, que és um homenzinho…

País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêmtesis a cedilha.

A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.

País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto de nuvens ideia!

Corre, boleada, pelo azul,
a frota de nuvens pelo país.

País desconfiado a reolhar por cima
dum ombro que, com razão, duvida.

Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania
sem perder tempo nem caligrafia.

Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!

A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.

Que Santa Suplicanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!

País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.

Da ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito…

Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.

Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!

Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!

Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar…

No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.

Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste pra mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!

Alexandre O’Neill, “Feira Cabisbaixa”, 1965

39 anos tem este poema e poderia ter sido escrito hoje, tim tim por tim tim! Porquê? Nada mudou em 39 anos?
Mudou, mudou muita coisa, o regime, a liberdade de expressão e impressão, as condições de acesso à saúde e ao ensino, o rendimento dos mais desfavorecidos, pensões e ordenados mínimos, mas aquilo que demora mais a mudar, os comportamentos, a educação, a cultura, a mentalidade, permanecem assustadoramente, se é que não regrediram, e como é disso que nos fala Alexandre O’Neill o seu poema é de uma actualidade confrangedora!
Enquanto não nos educarmos, não nos cultivarmos, não nos erguermos deste “país onde qualquer palerma diz”, viveremos nesta “mosquitomania”, a “aturar o arroto, o pivete, a coceira e a conversa pancrácia”, permanecendo no ridículo de um

“País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto de nuvens ideia!”

mas em maior escala e galáctica rede de medíocres interresses!

21-05-04

«Ateísmo»

Ateísmo

o mundo actual vive sem deuses
é ateu
o seu sonho é divino
mas não é com um deus que sonha.

os deuses retiraram-se como as aves
por causa do ruído
que avassala o mundo
é no mistério que o respeito se funda
o sagrado dispõe para o tempo a vir.

só um deus nos pode salvar
no período decisivo e indeciso
do interregno da vociferação.

o sagrado é fidelidade à origem
a memória é fidelidade ao sítio da alegria.

que palavra fará surgir
o invisível à manifestação?

de José Augusto Mourão in “Declinações - o Nome e a forma”, Lisboa, Janeiro de 2004

I

Cada dia tem uma história,
cada história a sua data,
cada sonho um par de asas
para voar no Céu das casas,
quando a noite já vai alta.

II

Cada dia tem um nome,
seja de herói ou de santo,
e é um dia especial
mesmo se não for Natal
com um presente em cada canto.

III

Do dia fica a memória
daquilo que se viveu:
foi um beijo, uma cantiga
foi uma palavra amiga
ou um abraço que se deu.

IV

Este dia é o da Mãe
e tem perfume de rosa,
tem um toque de ternura;
tem afecto com fartura
seja em verso seja em prosa.

José Jorge Letria