Jean Baudrillard - A Sociedade de ConsumoNão serei a pessoa mais indicada para aconselhar leituras, mas gostaria, para este Dia Mundial do Livro que se avizinha, de lembrar Jean Baudrillard, nomeadamente o seu livro “A Sociedade de Consumo”, editado entre nós pelas Edições 70.
Baudrillard, faláva-nos do “triunfo dos simulacros” neste niilismo amoral que vivemos, onde perdendo a imagem os vínculos com a sociedade, tornou-se mais real do que o real.
O simulacro é hoje a figura fundamental da sociedade da comunicação e do espectáculo, refere António Guerreiro no Expresso de 10/03/2007.

Foi preciso esperar, dar tempo ao tempo, para ler uma crítica à ópera Das Märchen de Emmanuel Nunes. Pouco interessa se estou ou não de acordo; interessa sim que a crítica incide sobre a obra e estética simbólica e não sobre pessoas que ficaram até ao fim ou sobre o Sr. Pinamonti.
A ler, definitivamente, Beleza, pertinência, ética que a Teresa Cascudo escreveu no Contemporá/âneas.


LEIAM e se estiverem de acordo ASSINEM e DIVULGUEM!

Lisonjeias-me, Henrique Silveira, eu não mereço tal atenção! Longe de mim pensar que seria capaz de te estimular a escrever o que talvez pudesses ter escrito antes. Cuida, no entanto que o que escrevi, não te era dirigido particularmente, mas a um uníssono rol de dizer mal do qual ressalta uma constante – desacreditar não Das Märchen, mas o próprio Emmanuel Nunes, para relembrar o Sr. Pinamonti.
Não leves a mal este “gonzo” tecer algumas considerações sobre o que agora escreves, e sabes porquê? Por ser bem mais interessante para análise, por teres tocado onde se pode tocar, ou seja, estás certo de que eu disse que não se pode criticar uma obra de arte musical como Das Märchen? Mesmo seguro?
Não me lembro de ter escrito isso! Lembro-me, isso sim, de falar do tempo necessário para se reflectir sobre a arte moderna! Sabes porquê? Porque nem sequer estou certo de que se possa considerar Das Märchen um obra de arte? Tens já tu essa certeza? Eu não, de momento ainda é um muito elaborado artefacto proposto para obra de arte.
A obra de arte impõe-se-nos esteticamente ou por deslumbramento sensitivo-emocional (que tal como em ti Das Märchen em mim não despoletou) ou pela abordagem criteriosa de um produto de matiz eminentemente racional e logicamente reflexivo. Neste contexto (se não estiveres de acordo diz) se o artefacto não te tocou emocionalmente, dever-se-ia ou não dar-nos algum tempo? No teu caso, pelo que escreves, fico com a ideia (corrige-me se estiver enganado) de que poderias ter escrito porque descreves sensações que viveste durante a sua estreia e cito-te: Já senti, à náusea, a repetição exaustiva do mesmo material, manipulado computacionalmente, repetido friamente e sem emoção. Sinto o corte e costura marcado nos ouvidos e ressoando no cérebro. Sinto a artificialidade sem vontade, sem nada para dizer, criando efeitos e mais efeitos, fazendo chocar permutações.
Tens toda a legitimidade em exprimir o que sentiste, mas constituir a partir desta premissa toda uma retórica crítico-reflexiva parece-me pulo inverosímil!

Para além disto, Henrique, sobre o que escreves? Sobre IRCAM, o Boulez, o Stockhausen e sobre Nunes? Que tem a ver esta amálgama que te atiça? Pego nas tuas palavras exactas sobre o IRCAM aplicadas a outro contexto e vê se não se encaixam mesmamente:
Infelizmente muitas das criações saídas de Mozart (substituí IRCAM por Mozart), apesar destes rótulos geniais (substituí intelectuais por geniais), acabam por ser Intestinais. Pode ou não aplicar-se?
Outro exemplo a propósito de Bach? Não vale a pena, pois não, são suficientes os quase 100 anos que decorreram após a sua morte para descobrirem que existiu o génio criador que hoje reconhecemos.

Há um acordo entre nós (não sei se te passou despercebido) em relação ao modernismo se atentares na citação de Lipovetsky, a qual repito por em parte me identificar:

O dispositivo modernista que se incarnou de modo exemplar nas vanguardas encontra-se hoje exausto, tal é a sua condição desde há meio século. As vanguardas não param de girar no vazio, incapazes de inovação artística maior. A negação perdeu o seu valor criador, os artistas mais não fazem do que reproduzir e plagiar as grandes descobertas do primeiro terço do século (XX).

A obra de Emmanuel Nunes é ainda um produto deste modernismo que quis rasgar com o passado (com a tradição) e embuído de uma, digo eu, quase paranóica tentativa de invovação, a qual, muitas vezes, não passou disso mesmo, de uma coisa nova! Ainda com Lipovetsky:

O impasse da vanguarda liga-se ao modernismo, a uma cultura radicalmente individualista e extremista, no fundo suicidária, que afirma a inovação como único valor.
(…)
A inovação modernista tem de particular o facto de se aliar ao escândalo e à ruptura: surgem obras em contradição com a harmonia e o sentimento, divorciadas da nossa experiência familiar do espaço e da linguagem. Numa sociedade assente no valor do insubstituível, último, de cada unidade humana, a arte organiza figuras deslocadas, abstractas, herméticas; surge como inumana.

No entanto, e apesar disto, se incorporasse este conceito de forma fundamentalista, equivaleria a fechar-me a qualquer manifestação de natureza artística, correndo sério risco de me tornar mesmo no tal gonzo, “luxo” que eu, arrogantemente, recuso !

Conhecemo-nos há tempo suficiente, Henrique, para saberes que a música para mim ou me toca emocionalmente ou desinteressa-me, mas precisamente por isso me obriguei, não a uma exegese ou hermenêutica do texto musical (deixo esse empreendimento para os analistas), mas a repetidas audições do período moderno, ou se preferires, a partir de Schöenberg e esta experiência ensinou-me que esta exposição aberta a estéticas para mim até então estranhas, modificou o meu sentir em relação a muitas obras, por exemplo e sucintamente: Le Marteau sans Maître, Répons (sublime) de Boulez, Concerto de câmara para 13 instrumentos de Ligeti, Il Ritorno degli Snovidenia de Berio, Al gran sole Carico d’Amore de Nono…

Estou (…), fora do meio musical e dou-me ao luxo de dizer o que penso (não é só citação, estou mesmo fora), mas dizendo o que penso não digo tudo. E tal como tu, um dia voltarei a ler estes textos e vou divertir-me com aquilo que pensava há uns anos atrás. Talvez até mude de opinião, o que será normal, em nítida atitude pós-modernista, o da incerteza, da perenidade e da pequenez do conhecimento racional no contexto de constructo da compreensão cosmológica humana.

A fragmentação extrema da divisão social corresponde (…) à nova tendência tecnológica para o «ligeiro» (…)
Têm-se apontado (…) os aspectos risíveis das inovações tecnológicas modernas, a sua proliferação de acessórios, as suas aberrações de funcionalidade absoluta (…)
O tecnológico tornou-se porno; o objecto e o sexo entraram, com efeito, no mesmo ciclo ilimitado da manipulação sofisticada, da exibição e da proeza, dos comandos à distância, das interconexões e comutações de circuitos, de «teclas sensitivas», de combinatórias livres de programas, de existência visual absoluta.

Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio (1983)

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