Anunciada a interrupção da edição durante o mês de Agosto para remodelação, comprarei hoje aquele que sinto ser o último número de “O Primeiro de Janeiro”, o jornal lá de casa, a de meus pais, aquele que, desde que de mim memória tenho, sempre era colocado na soleira da porta pelo jornaleiro, antes da leiteira e depois da padeira.
Nada é eterno, mas nada morre enquanto a nossa memória vida der. A morte não está ligada apenas ao desaparecimento físico, mas ao apagamento da memória individual e colectiva. Assim é para mim, com as pessoas e com as coisas, sem necessidade de me socorrer de qualquer aculturação religiosa. Tudo está vivo desde que os vivos guardem memória, ou seja, atribuam relevante significância para a sua existência.
O Primeiro de Janeiro está ligado, sem dúvida alguma, à história da cidade do Porto, sendo importante, independentemente do que vier a acontecer, que as entidades competentes zelem pela conservação do seu acervo.
Por ausência de decisão definitiva da Federação Portuguesa de Futebol que tem em mãos um recurso de Pinto da Costa que, a ser deferido, implica a anulação dos castigos aplicados ao F. C. do Porto, a UEFA entendeu aguardar por essa decisão e manter para 2007/2008 o F. C. Porto na ‘Champions’.
Tudo que estará para além disto, do carácter, afinal, não definitivo dos castigos aplicados ao F. C. do Porto, pouco entendo sobre todos os trâmites administrativo / disciplinares que têm envolvido este caso, abstendo-me, por isso, de emitir juízos que seriam, seguramente, infundados.
Não posso, contudo, estar ao lado dos portistas que se dão por satisfeitos com este desenlace, uma vez que sobre o F. C. do Porto pairarão, por mais uma época, as pressões mediaticamente exploradas de corrupção, ou tentativas, da porra do ’sistema’ e tudo o que a propósito se lembrarem para desmerecer, influenciando indirectamente arbitragens, todo e qualquer sucesso desportivo.
Gostaria de uma decisão final, fosse qual fosse, para colocar um ponto final sobre o assunto, para bem do F. C. do Porto e do futebol português.
São as massas que dão a energia ao poder e quando as massas privilegiam o poder, o poder sacrifica-as, tiraniza-as…
Alice Valente em Ali_se
Mas, sendo assim, Alice não será verdade, também, que o motivo que leva as massas a privilegiar o poder, não será a sua natural propensão de buscar conforto através de dele se acercarem?
1 - Parabéns ao Sporting por ter sido a melhor equipa em campo. Muito se poderá dizer (e direi, adiante) sobre circunstâncias criadas por Olegário Benquerença, mas ao entrar em jogo sem Bosingwa, com João Paulo, sem Tarik Sektioui nem Marek Chec, foi entregar o ‘ouro ao bandido’ desde o início. Ganhou quem foi mais equipa, mais consistente, sendo sempre agradável chegarmos ao fim de um jogo e vermos que o empenho e a competência se aliam ao resultado, pese embora o facto da justiça ser um conceito alheio ao jogo - lembremo-nos mais recentemente que se a justiça fizesse parte do jogo, mais concretamente do futebol, nem o F C Porto teria sido eliminado pelo Schalke 04 nem o Sporting pelo Glasgow Rangers.
2 - Dados os parabéns ao vencedor sem qualquer cinismo, a verdade é que desde que Olegário Benquerença exibiu o amarelo ao Paulo Assunção na primeira falta que cometeu, depois de 3 bem durinhas de Grimmy, senti o caminho que o árbitro traçara para a sua actuação naquele jogo. Consequências do ‘apito dourado’ ou do ‘apito final’? Não saberemos nunca a causa, mas a motivação desde cedo ficou à vista.
3 - Há anos que muitos falam da existência de corrupção no futebol, de um sistema montado de batota nos resultados corporizado nas pessoas de Valentim Loureiro e Pinto da Costa e que levaram o Ministério Público a montar uma perseguição, dir-se-ia, não à corrupção nem à batota, mas a essas duas pessoas, em particular a Pinto da Costa, que viria a consubstanciar-se nos processos ‘apito dourado’ e no ‘apito final’ protagonizado pela Liga de Clubes.
Desenganem-se, se é que alguém andava ao desengano, os que pensam que alguém está interessado em combater, generalizadamente, a corrupção no futebol! Não há interessados em acabar com a batota, mas sim em ser donos dela. Se assim não fora, os arautos anti-corrupção estariam mais uma vez a clamar por ela no fim do jogo de ontem e não a festejar. O que vi (para além do F C Porto nada jogar) foi o regresso àquela outra batota, a que assisti durante 19 anos, ou seja, desde que nasci até 1977.
Nem o ‘apito dourado’ nem o ‘apito final’ têm a ver com o fim da batota no futebol, mas tão-só com a passagem de mãos de quem detém poder para a fazer, sendo a satisfação patenteada no rosto do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, no fim do jogo de ontem um verdadeiro atentado à honestidade intelectual depois da arbitragem a que assistiu.
Desengane-se quem pensa que existe apenas um ataque pessoal a Pinto da Costa; o que existe é um ataque soez contra a superioridade desportiva do F C Porto nos últimos 30 anos, que terá de ser creditada ao seu presidente.
4 - Uma palavra de solidariedade para António Costa, Presidente da Câmara de Lisboa, que recebeu com dignidade e elegância o vencedor da Taça de Portugal, o Sporting, pois será, muito certamente, apontado como mais um que cedeu à promiscuidade entre o futebol e a política pelos comentadores dos media que elaboram e gerem campanhas de interesses pessoais, partidários e políticos, mas que não são promíscuos…
Promiscuidade entre futebol e política só tem a ver, ao que parece, com quem abrir a porta ao F C Porto ou a Pinto da Costa…
O líder madeirense defende que para derrotar José Sócrates “é necessário um líder que ganhe o apoio da maioria dos portugueses com sede de esperança, e não apenas se satisfaça em ganhar o PSD, sabendo-se que não ganha as eleições nacionais”. Acrescenta ser também importante “refundar a Aliança Democrática, mobilizando e unindo todos os portugueses que não são militantes socialistas nem comunistas” (Alberto João Jardim via Público)
Ora, que me lembre, Manuela Ferreira Leite já falou em “unir o PSD”, em relembrar os princípios e valores que estão na base da criação do PSD , em escolher um protagonista que ganhe eleições mas…, sendo certa a sua candidatura a presidente do PSD, ainda não a ouvi afirmar, cabalmente, que será candidata a Primeiro-Ministro nas eleições de 2009, para mais sabendo que, tanto ela (ver link) como os seus mais chegados apoiantes, os “barões”, “notáveis” e “opinion makers”, acalentam, há anos, a sebastiânica esperança de ver Rui Rio nessas funções. Parece ser adequado pensar que o presidente da Câmara do Porto reserva-se para depois de 2009, a não ser…, sim, a não ser que o PSD até às vésperas das próximas eleições se aproxime, nas sondagens, do PS.
A rápida desistência de Aguiar Branco e o recente envolvimento recente de Rui Rio na campanha da candidata dá que pensar…, pelo menos para aguardar se Manuela Ferreira Leite define ou não, inequivocamente, os seus propósitos neste domínio.
ps: imagem de Rui Rio retirada do site da Câmara do Porto sem autoria identificada.
É interessante a veemência com que Manuela Ferreira Leite se insurge contra os epítetos de “barões” e de “notáveis” do PSD, classificando esses termos como “divisionistas”. O PSD é um partido interclassista, clama via Público.
Em tese, a tese é interessante, dando até ideia de que Manuela Ferreira Leite pretende posicionar-se numa candidatura que una todos os militantes, mas não foi a própria candidata que, aludindo à presidência de Luís Filipe Menezes, afirmou que o partido não é respeitado, da forma como foi em 34 anos de história? E que dizer de todos os seus “notáveis” e “barões” apoiantes que durante sete meses zurziram, sem dó nem intermitência, em todos os órgãos de comunicação social que dominam e minam, numa recém apelidada falange “populista” que tinha tomado conta do partido?
Não haverá “classes”, até poderá ser, mas uma casta que domina os órgãos de comunicação social, que raramente se expôs a votos e que está habituada a pôr e dispor no PSD, isso parece-me por demais evidente.
Manuela Ferreira Leite está no gozo do seu pleno direito de fazer campanha eleitoral embora, quando questionada sobre o que a distinguia de José Sócrates, só lhe tenha ocorrido dizer que não mentia. Acredito piamente que não minta - hoje ninguém mente, dizem-se “inverdades” - mas também não será através de míngua de linguagem demagógica que se distinguirá do actual Primeiro-Ministro.
Primeiro foi Jaime Gama, agora Cavaco Silva, a cantar as virtudes do desenvolvimento madeirense e as virtualidades da autonomia.
Confesso que, assim de repente, estes novos cantares de musas obscurecidas, deixou-me perplexo mas, passados estes dias, assaltou-me a ideia de que se trata de preparar os cidadãos para uma regionalização que sempre se recusou e agora parece todos acreditarem que ela tudo resolverá.
O PS, ganhando as Legislativas de 2009, avançará com toda a certeza para a Regionalização e Cavaco, apercebe-se agora que, para além de estar de acordo, assume-se como “educador” das consciências mais avessas à ideia (ver Regionalização - incompreensão e pavor).
A ver vamos…, a ver vamos o que é que essa regionalização trará sobre o que importa - a descentralização da decisão e a autonomia financeira.
Para mim, é totalmente insatisfatória a situação. É preciso o partido dedicar-se muito mais a pensar, a reflectir e a falar com o País.
(…)
Os meses de Janeiro a Março foram três meses perdidos, com disputas internas por razões menores”. “Espero que retomemos a linha que tinha sido pensada em Outubro e Novembro. (Ângelo Correia via Público)
Todas as sensibilidades do PSD poderão afirmar que as palavras de Ângelo Correia eram dirigidas aos adversários ou até, como Daniel Oliveira, entender que se tratará do primeiro sinal de debandada mas, cá para mim, Ângelo Correia falou na qualidade de presidente da mesa do congresso do PSD, ou seja, falou para todos os que pouco têm feito pelo partido e se têm envolvido em “disputas internas menores”, sendo que se há disputas há contendores de todas as partes envolvidas.
Se assim é, Ângelo Correia falou em nome do PSD para todos, dizendo tão-só, que assim não vale a pena! Enfie a carapuça quem quiser…
Os arautos do absolutamente livre funcionamento dos mercados, os neo-liberiais de hoje, que não liberais à moda antiga como gosta, justamente, Francisco José Viegas de se demarcar, uma vez que estes aprenderam com Keynes após a depressão de 29, desaparecem sempre em momentos de crise económica e/ou financeira, ousando mesmo demandar dos Estados obrigações que em tempos de abastança recusam, chegando mesmo ao ponto de quase defenderem a abolição do seu papel de regulador. (ver notícia do Público que anuncia que o FMI pede intervenção pública mais radical no mercado)
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A manifestação de professores de Sábado passado mostrou, sem margem para qualquer dúvida, o descontentamento generalizado de quem ensina face à actuação do Ministério da Educação. Ninguém acalentava diversa forma de sentir (talvez só quem pretenderia formatar outras cabeças), assim como só pessoas muito mal intencionadas poderão afirmar, generalizadamente, que os professores não se interessam pela qualidade da aprendizagem dos alunos.
A dimensão desta manifestação mostrou também que o habitual conformismo dos professores às dezenas de mudanças que têm vindo a ser operadas a partir dos vários titulares do Ministério da Educação não resistiu a um incompreensível enxovalho público, sistematicamente reiterado, que a actual equipa dispensa contra esta classe profissional. No entanto, querer ler para além da forte e generalizada indignação contra o tratamento (verbal e legislativo) que este Ministério lhes vem dispensando, será sempre um exercício de retórica que servirá para alimentar fanáticos, seja de sindicatos, de partidos, de líderes de associações de pais ou de outra equivalente índole.
Tenho muito dificuldade em digerir discursos de pessoas que só querem ouvir falar de povo em momentos eleitorais e que o desdenhem em todas as outras ocasiões. Será de bom-senso tirar ilações tanto de resultados eleitorais como de manifestações - são bons momentos para auscultar o voz dos cidadãos, sem a intermediação de comentaristas nem colunistas do género “educadores da classe operária”, vocação que parece pupular um pouco por todo o lado.
Tem José Sócrates razão quando afirma que esta manifestação não pode colocar em causa o Programa do Governo (documento PDF), mas a verdade é que também não foi essa a sua intenção. Contudo, poderá ser um bom momento para fazer um exercício de avaliação interna do seu cumprimento, ver o que já se conseguiu fazer, o que está em vias de prossecução, o que não foi ainda de todo feito e eventuais erros de perspectiva e implementação que o possam colocar em causa.
Bom-senso é preciso e pessoas acostumadas a ele recorrer e é nesse contexto que deixo duas transcrições do Programa do Governo em relação à educação e à cultura:
A opção política do Governo é, tendo plena consciência da educação como factor insubstituível de democracia e desenvolvimento, pôr em prática políticas que consigam obter avanços claros e sustentados, na organização e gestão dos recursos educativos, na qualidade das aprendizagens e na oferta de várias oportunidades a todos os cidadãos para melhorarem os seus níveis e perfis de formação. (pag.42)
(…)
A política cultural para o período 2005-2009 orientar-se-á por três finalidades essenciais. A primeira é retirar o sector da cultura da asfixia financeira em que três anos de governação à direita o colocaram. A segunda é retomar o impulso político para o desenvolvimento do tecido cultural português. A terceira é conseguir um equilíbrio dinâmico entre a defesa e valorização do património cultural, o apoio à criação artística, a estruturação do território com equipamentos e redes culturais, a aposta na educação artística e na formação dos públicos e a promoção internacional da cultura portuguesa. (pag. 54)
Lisonjeias-me, Henrique Silveira, eu não mereço tal atenção! Longe de mim pensar que seria capaz de te estimular a escrever o que talvez pudesses ter escrito antes. Cuida, no entanto que o que escrevi, não te era dirigido particularmente, mas a um uníssono rol de dizer mal do qual ressalta uma constante - desacreditar não Das Märchen, mas o próprio Emmanuel Nunes, para relembrar o Sr. Pinamonti.
Não leves a mal este “gonzo” tecer algumas considerações sobre o que agora escreves, e sabes porquê? Por ser bem mais interessante para análise, por teres tocado onde se pode tocar, ou seja, estás certo de que eu disse que não se pode criticar uma obra de arte musical como Das Märchen? Mesmo seguro?
Não me lembro de ter escrito isso! Lembro-me, isso sim, de falar do tempo necessário para se reflectir sobre a arte moderna! Sabes porquê? Porque nem sequer estou certo de que se possa considerar Das Märchen um obra de arte? Tens já tu essa certeza? Eu não, de momento ainda é um muito elaborado artefacto proposto para obra de arte.
A obra de arte impõe-se-nos esteticamente ou por deslumbramento sensitivo-emocional (que tal como em ti Das Märchen em mim não despoletou) ou pela abordagem criteriosa de um produto de matiz eminentemente racional e logicamente reflexivo. Neste contexto (se não estiveres de acordo diz) se o artefacto não te tocou emocionalmente, dever-se-ia ou não dar-nos algum tempo? No teu caso, pelo que escreves, fico com a ideia (corrige-me se estiver enganado) de que poderias ter escrito porque descreves sensações que viveste durante a sua estreia e cito-te: Já senti, à náusea, a repetição exaustiva do mesmo material, manipulado computacionalmente, repetido friamente e sem emoção. Sinto o corte e costura marcado nos ouvidos e ressoando no cérebro. Sinto a artificialidade sem vontade, sem nada para dizer, criando efeitos e mais efeitos, fazendo chocar permutações.
Tens toda a legitimidade em exprimir o que sentiste, mas constituir a partir desta premissa toda uma retórica crítico-reflexiva parece-me pulo inverosímil!
Para além disto, Henrique, sobre o que escreves? Sobre IRCAM, o Boulez, o Stockhausen e sobre Nunes? Que tem a ver esta amálgama que te atiça? Pego nas tuas palavras exactas sobre o IRCAM aplicadas a outro contexto e vê se não se encaixam mesmamente:
Infelizmente muitas das criações saídas de Mozart (substituí IRCAM por Mozart), apesar destes rótulos geniais (substituí intelectuais por geniais), acabam por ser Intestinais. Pode ou não aplicar-se?
Outro exemplo a propósito de Bach? Não vale a pena, pois não, são suficientes os quase 100 anos que decorreram após a sua morte para descobrirem que existiu o génio criador que hoje reconhecemos.
Há um acordo entre nós (não sei se te passou despercebido) em relação ao modernismo se atentares na citação de Lipovetsky, a qual repito por em parte me identificar:
O dispositivo modernista que se incarnou de modo exemplar nas vanguardas encontra-se hoje exausto, tal é a sua condição desde há meio século. As vanguardas não param de girar no vazio, incapazes de inovação artística maior. A negação perdeu o seu valor criador, os artistas mais não fazem do que reproduzir e plagiar as grandes descobertas do primeiro terço do século (XX).
A obra de Emmanuel Nunes é ainda um produto deste modernismo que quis rasgar com o passado (com a tradição) e embuído de uma, digo eu, quase paranóica tentativa de invovação, a qual, muitas vezes, não passou disso mesmo, de uma coisa nova! Ainda com Lipovetsky:
O impasse da vanguarda liga-se ao modernismo, a uma cultura radicalmente individualista e extremista, no fundo suicidária, que afirma a inovação como único valor.
(…)
A inovação modernista tem de particular o facto de se aliar ao escândalo e à ruptura: surgem obras em contradição com a harmonia e o sentimento, divorciadas da nossa experiência familiar do espaço e da linguagem. Numa sociedade assente no valor do insubstituível, último, de cada unidade humana, a arte organiza figuras deslocadas, abstractas, herméticas; surge como inumana.
No entanto, e apesar disto, se incorporasse este conceito de forma fundamentalista, equivaleria a fechar-me a qualquer manifestação de natureza artística, correndo sério risco de me tornar mesmo no tal gonzo, “luxo” que eu, arrogantemente, recuso !
Conhecemo-nos há tempo suficiente, Henrique, para saberes que a música para mim ou me toca emocionalmente ou desinteressa-me, mas precisamente por isso me obriguei, não a uma exegese ou hermenêutica do texto musical (deixo esse empreendimento para os analistas), mas a repetidas audições do período moderno, ou se preferires, a partir de Schöenberg e esta experiência ensinou-me que esta exposição aberta a estéticas para mim até então estranhas, modificou o meu sentir em relação a muitas obras, por exemplo e sucintamente: Le Marteau sans Maître, Répons (sublime) de Boulez, Concerto de câmara para 13 instrumentos de Ligeti, Il Ritorno degli Snovidenia de Berio, Al gran sole Carico d’Amore de Nono…
Estou (…), fora do meio musical e dou-me ao luxo de dizer o que penso (não é só citação, estou mesmo fora), mas dizendo o que penso não digo tudo. E tal como tu, um dia voltarei a ler estes textos e vou divertir-me com aquilo que pensava há uns anos atrás. Talvez até mude de opinião, o que será normal, em nítida atitude pós-modernista, o da incerteza, da perenidade e da pequenez do conhecimento racional no contexto de constructo da compreensão cosmológica humana.
Antes de qualquer consideração sobre a estreia da ópera Das Märchen de Emmanuel Nunes, sossegue quem me possa ler, porque não será ainda desta vez que ousarei aventurar-me pelo caminho do imediatismo crítico. Primeiro porque não possuo a necessária bagagem para o ser, por outro lado, a arte moderna impõe (-me) uma necessária distanciação temporal que permita viajar pelos caminhos da incerteza da reflexão. Três citações, antes de mais, sobre o modernismo do qual Nunes é ainda filho adoptante:
A Arte não se apresenta pelo que é óbvio. Arte vai para além das fronteiras de tudo o que é óbvio. Por sua vez, tudo o que é óbvio jamais está inserido no que é Arte e por isso, esta só conseguir assomar-se nas margens das impositivas regras e amarras do que lhe é óbvio.(…)
E uma obra de arte estima-se enquanto arte se o óbvio não se verificar. A partir do momento em que o óbvio transpareça numa obra de arte, imediatamente a peça que tida de obra deixará de o ser e reduz-se assim a uma qualquer situação de não-comunicação.
[Alice Valente em Ali_se (link)]
O modernismo ganha toda a sua amplitude com o abalar do espaço da representação clássica (…). Os artistas não param de destruir as formas e sintaxes instituídas, insurgem-se violentamente contra a ordem oficial e o academismo: o ódio à tradição e raiva de renovação total.
O modernismo não se contenta com produzir variações estilísticas e temas inéditos, quer romper a continuidade que nos liga ao passado, instituir obras absolutamente novas.
O dispositivo modernista que se incarnou de modo exemplar nas vanguardas encontra-se hoje exausto, tal é a sua condição desde há meio século. As vanguardas não param de girar no vazio, incapazes de inovação artística maior. A negação perdeu o seu valor criador, os artistas mais não fazem do que reproduzir e plagiar as grandes descobertas do primeiro terço do século (XX).
Como falar acerca de obras cujas construções insólitas, abstractas ou deslocadas, dissonantes ou minimais, que provocam o escândalo, confundem a evidência da comunicação, desordenam a ordem reconhecível da continuidade espaço-temporal e levam por isso o espectador a receber menos emocionalmente a obra do que a interrogá-la de modo crítico?
[Lipovetsky]
Toda a arte moderna, devido às suas preocupações experimentais, baseia-se no efeito de distanciação e provoca espanto, suspeição ou recusa, interrogação sobre as finalidades da obra e da própria arte!
[Brecht]
Presente o citado, é com alguma perplexidade que leio as críticas a Das Märchen, sem aguardarem, prudentemente, em si, pelas interrogações que o que viram e ouviram poderá suscitar, uma vez que a arte moderna (não ainda a pós-moderna) não está construída para nos tocar sensitiva-emocionalmente, embora o possa fazer, mas sim para questionar e reflectir! Que crítica é esta que tem uma ânsia de dizer antes de deixar a obra exalar todo o intrincado simbólico de referências e interrogações?
Ultrapassa-me, de todo, este imediatismo, esta social necessidade de no dia seguinte ter de ter, porque é de bom tom ter, que dizer, qual comentador desportivo, seja para dizer bem ou nem por isso ou mais ou menos!
Constato, contudo, duas ideias constantes, não ingénuas, em quase todas as leituras que corri - a desertificação da sala após o intervalo e a referência ao facto de a encomenda ter sido efectuada por Pinamonti (anterior director do S. Carlos). As neblosas, sim, fantasmas erguidos quais penadas almas, sobre certas colegiadas “bem-pensantes” cabeças pairam! Ah, Pereira Leal, o que a tua anunciada aposentação anda por Lisboa a arrebatar de enredos em putativas consciências!
Qual é o mais duro dos críticos? O amador malogrado.
[Goethe]
De meu deixo uma nota: o S. Carlos não está (nunca esteve) talhado para as “aventuras” da modernidade. Esses “devaneios” há muito estão comprometidos com a Gulbenkian e seu público específico.
Espanha está a ferro e fogo a propósito ao aniversário de Franco. É verdade que todos os anos acontecem algumas exibições de apoio ao ditador fascista e contra-manifestações, mas não há memória de tão violentas e territorialmente desde a conquista da democracia.
Tenho para mim que a maior beatificação em massa (498) que Bento XVI entendeu fazer de padres falangistas, perseguidos e mortos pelos republicanos na guerra civil e a sua elevação à condição de mártires, funcionou como o lancetar de purulento quisto que muito demorou a apaziguar. No entanto, a iniciativa do Parlamento espanhol de ordenar que os governos locais exumem corpos de vítimas da ditadura franquista das fossas comuns e lhes proporcione um enterro digno também contribuiu para reavivar esta chaga ainda não curada.
É no mínimo sórdido que, após beneficiar de uma bem conseguida e pacífica tentativa de reconciliação, conduzida primeiramente por Adolfo Suárez, Espanha se veja agora a braços com um Papa que deita tudo a perder numa encenação de santinhos, porque ao hiperbolizar os perseguidos falangistas (que o foram, é certo, mas numa guerra civil onde não houve inocentes em nenhum das partes), mais não fez que alinhar-se por um regime que, mesmo depois de vitorioso, assassinou milhares de cidadãos e atirou-os para valas comuns, sem esquecer que Franco foi dos poucos europeus que nunca reconheceu o holocausto perpetrado pelos nazis?
Mas que intenções terá o Vaticano para reabrir apaziguados ou/e contidos ódios em Espanha?
Duma impressão não me livro, a de que esta moda do Vaticano de fazer santinhos por tudo quanto é lado nada tem a ver com religião, com um caminho pra a Salvação e muito menos com Deus, antes com fins políticos precisos, muito terrenos e velhacos.
Muito justamente, fomos lestos a etiquetar Hugo Chávez como promitente ditador, especialmente após ter conseguido que o Parlamento da Venezuela, eleito por sufrágio universal, aprovasse uma revisão constitucional que, entre outras mudanças, deixa de limitar o número de mandatos presidenciais.
No entanto, Musharraf, eleito indirectamente pelo Parlamento do Paquistão a 6 de Outubro, decreta o estado de emergência a 3 de Novembro, manda os seus aviões lançar bombas sobre a população à pala do terrorismo, demite os juízes do Supremo Tribunal e nomeia outros, tribunal esse que indefere 5 dos 6 recursos contra a validade da eleição presidencial, parece continuar a beneficiar de uma complacência, conivência passiva até, por omissão de firma condenação, destas democracias nossas ocidentais e das pessoas em geral.
Estas atitudes não alicerçadas em princípios éticos e morais que deveriam ser inalienáveis, mas em interesses económicos muito particulares e pontuais, conduzem à crescente descredibilização de todo o Ocidente, nomeadamente daquilo que mais caro nos é e apregoamos aos quatro ventos: a democracia, a liberdade individual e o respeito integral pelos direitos humanos.
Todos os sistemas lógicos baseados estritamente no conhecimento - como, por exemplo, a Ciência Moderna -, apenas alcançam o nível das espécies: escapam-lhes os indivíduos. Precisamente, porque não têm como finalidade saber “o que as coisas são”, mas apenas “aquilo para que as coisas servem”. Não espanta pois que operem e porfiem pela uniformização, pela massificação, em suma: pela “standardização”. Aquilo que não atingem, não compreendem e, por conseguinte, terraplanam. O que escapa à “média” - dada pela “estatística”, pela “lei geral”, pelo “mito autorizado”, enfim, pela “moda gnoseológica” da berra - amputa-se ou tortura-se até não restar mais que um puré de factos e invólucros normalizados.
Dragão no Dragoscópio
O que é dito neste texto pelo Dragão deveria ser obrigatório antes da catequese, depois do crisma e sempre, em especial nos centros de educação e investigação, sendo que o que aqui é dito, da paranóia de que só existe, só é, como facto, como verdade, o que o método experimental consegue comprovar, é exactamente a mesma premissa que está a enfermar os cientistas da educação, de que só o que pode ser aferido por um dos cinco sentidos do cânone, ou capaz de ser abstractamente compreensível, poderá ser passível de ser ensinado ou aprendido.
Como as manifestações artísticas, em geral, escapam a este espartilho cientista, já que nos impressionam através de formas de percepção que ainda desconhecemos, ditas de sensitivas (coisa que ao certo ninguém sabe precisar de que se trata), as confusões e os mais descarados dislates podem ser ditos e autoritariamente prescritos sobre a educação artística como se, mesmo atendendo às múltiplas e desconhecidas formas por que a arte nos pode impressionar, não existissem conteúdos passíveis de ser transmitidos, ensinados e aprendidos, como por exemplo a tradição, a cultura, mais exactamente.
Aos cientistas convinha terem consciência de que o conhecimento humano é ainda um grão de areia no que há para conhecer no cosmos e, por analogia, no Ser Humano, da mesma forma de que os artistas e educadores especializados nas mais diversas artes, deveriam respeitar, transmitir e ensinar o que é sabido, o currículo, para que a criatividade individual, possa, então sim, revelar-se e manifestar-se com a liberdade que a plenitude do Ser permite, mesmo que explorando o desconhecido, como convém.
A treta da libertação pela criatividade e a paranóia de não coarctar psicologicamente a iniciativa artística desde tenra idade com a transmissão e aprendizagem de conteúdos, fez (e faz) proliferar uma série de estudos, investigações e cursos que mais não são que umas mezinhas desgarradas da tradição e da cultura, correndo o risco de que em inusitado dia, um notável menino, em denso transe criativo, abanando o rabiosque ao som de um gig de um jogo da playstation, pegue em dois seixos e invente a pedra lascada, num autêntico produto refinado de uma qualquer performance multidisciplinar de artes plásticas, música e dança…, ao som do Lou Reed, YEAH!!!
É baseado neste embuste intelectual, onde o conhecimento recusa admitir a sua ignorância (coisa estranha para a sabedoria), transmitido por diversos investigadores muito atreitos a elaborar estudos para o Ministério da Educação com conclusões previamente contratadas, que a educação artística não é inserida curricularmente no sistema educativo, coarctando, aqui sim, e indelevelmente, as crianças e os adolescentes de fruirem de uma educação muito mais próxima do Ser, que cada uma é, e que necessitam de conhecer e explorar para, livre e interactivamente criativa, conseguirem construir e ir redesenhando a sua identidade.
O presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Santos Ferreira, esteve reunido na semana passada com o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, para o informar de que discordava da proposta de fusão do Banco Comercial Português (BCP) com o Banco Português de Investimento (BPI). (via Público)
A Caixa Geral de Depósitos começa a ser assunto sério! Vetou a OPA da SONAE.com sobre a PT; sobre a OPA do BCP sobre o BPI nada disse; agora pronuncia-se publicamente contra a fusão do BCP com o BPI!
Estranho, tanto mais por não se compreender qual a diferença, para o banco do Estado, entre o resultado de uma OPA bem sucedida do BCP sobre o BPI ou a fusão dos dois bancos. Isto, supondo, é claro, que a CGD não está a defender, e muito menos a representar, interesses privados, coisa que nem pela cabeça me passa, bem entendido!
seja uma questão de quotas! Antes talvez uma questão de ‘cotas’, da sua fuga à enxurrada de arrivistas que há anos vem assomando e do aparelho tomou conta!
Jordi Savall há dias, em entrevista a Ana Sousa Dias no programa Noutro Lado da RTP 2, reafirmou o seu empenho em tocar ao lado de músicos de outras origens e culturas como forma de aproximar as pessoas.
Parece uma blague, mas Jordi Savall acrescenta logo a seguir mais ou menos assim:
A música consegue comunicar, interagir e entender-se com outras culturas de uma forma que é inviável através da palavra, porque não há palavras que cheguem para dar significado a todo um turbilhão de emoções.
Jordi Savall, os Nederlands Blazers Ensemble (NED) e alguns músicos turcos a interpretar um arranjo de Onno Tunç de uma canção popular turca
De facto, pensando apenas nesta constatação insofismável, o despertar, o desenvolver e o aprender a lidar com essas emoções, que são afinal parte integrante e prima da condição humana, não podem ser conseguidas através de uma educação vocacionada essencialmente para a tecnologia e para o desenvolvimento de competências.
Esta é mais uma razão, se não uma das principais, para que não possamos permitir que a educação artística seja um menosprezado adereço no seio do sistema educativo, tal como está a ser implementada através da já redutora designação de actividade de enriquecimento curricular (link) (ver aqui e aqui), leccionada por professores contratados à peça directamente pelos conselhos Directivos das escolas (ver), nem um privilégio de uma pequena meia-dúzia de estudantes que optem por um ensino especializado conducente à profissionalização artística, como se pretende através do que se preconiza no Relatório de Avaliação do Ensino Artístico encomendado pelo Ministério da Educação (link), ao defender que o ensino artístico deverá ficar reservado a algumas escolas de ensino integrado em todo o país, chegando ao ponto de aconselhar o fim do financiamento do Estado dos regimes articulado e supletivo! (ver caracterização dos regimes de ensino artístico).
Se outras razões não houvessem (ver arquivo Educação Artística), as palavras de Jordi Savall apontam bem o caminho - o do despertar, desenvolver e aprender a lidar com emoções - o qual só através da inserção da educação artística nos planos curriculares desde o 1.º ciclo poderá ser percorrido, cumprindo uma missão fundamental de um sistema educativo: formar jovens em diversas competências, sim, mas em ambiente que lhes proporcione a necessária informação e convivência artística e humanística bastantes para propiciarem e despertarem a busca da sua própria identidade enquanto Pessoas.
Bom fim de semana.
Tratar de saber o que fazer diante do que aconteceu parece não ser nada connosco. Afinal foi só tentativa, afinal o sérvio até insultou antes; afinal o sérvio afastou-o antes com uma pancada na mão; afinal é tudo boa gente; afinal, olhem, afinal até que se não fossem os malvados dos canais de televisão até não se tinha passado nada e é por isso que, em conformidade, nada deveremos fazer se não aguardar, humildemente e bem à portuguesa, que a UEFA decida por nós, em vez de obrigar o Dr. Madaíl a essa maçada e, afinal, amanhã já a UEFA dirá o que a Federação Portuguesa de Futebol deverá fazer!
Decidir por nós tem sido o timbre deste país desde que entramos para a CEE! Não sabemos de outra maneira.
À falta de um qualquer Sebastião ou ditador que por nós decida, a gente delega tudo à Europa e aceita e procede em conformidade, só que já não é a bem da nação…
O meu maior receio, infelizmente, concretizou-se: o Sr. Madaíl, como tem sido sempre seu hábito, não tomou posição nem iniciativa em relação à agressão de Scolari, deixando-se antecipar pela UEFA. Esta manda instaurar um inquérito e só depois é que Madaíl vem a reboque anunciar que a F.P.F fará o mesmo.
Enquanto que a atitude de Scolari poderá, com um pouco de esforço, entender-se fruto de uma momentânea exaltação, a espera de Madaíl envergonha o Portugal, em geral, e o futebol português, em particular e, por outro lado, abre caminho a um período de instabilidade na selecção nacional, num momento em que o apuramento se encontra difícil de atingir!
Para colocar a cereja em cima do bolo só faltaria Gilberto Madaíl apresentar a sua demissão para paralisar a selecção! A ver vamos…
É perfeitamente compreensível que Scolari afirme que não tocou num só cabelo de Dragutinovic, pois todos devem fruir do direito de preparar o melhor que puderem a sua defesa.
No entanto, não poderá Gilberto Madaíl cair no ridículo de, através da Federação Portuguesa de Futebol, pactuar com esta atitude pública de arruaça!
O Secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, logo no final do jogo condenou, e muito bem, o que se passou após o jogo entre as Selecções de Futebol de Portugal e da Sérvia e entende que a Federação tem de tirar consequências (…) (via Bola), sendo que, nesta conformidade, muito mal andaremos se a F.P.F. não despedir, com justa causa, Scolari, antes que a UEFA e a FIFA tomem posição, e exigir-lhe uma indemnização, consentânea com os ganhos do actual seleccionador, pelos danos causados à imagem da Selecção Nacional, do futebol português e de Portugal, em geral.
No Portugal x Sérvia de ontem não houve azar; sorte, antes, num segundo de grande inspiração de Simão. O resto foi mau demais.
A equipa que Mourinho formou no F C Porto e que Scolari, depois de perder o primeiro jogo com a Grécia, foi obrigado a adoptar para a selecção, acrescentando Figo, Pauleta, Cristiano Ronaldo e Ricardo, acabou no final do campeonato do mundo.
Impunha-se construir uma nova desde então, mas, hélas, convém saber um pouco de bola para isso; não basta a demonstração de ódio contra Pinto da Costa, ser idolatrado pelas massas nem protegido por jornalistas e comentadores, até porque serão esses mesmos, os que o idolatraram, os primeiros a transformá-lo em besta a abater!
A Cristina Vieira no Contracapa pega no assunto do excerto do artigo de Pacheco Pereira (que atrás abordei) e abre portas ao que sinto que poderá estar por trás não só daquela passagem, como doutros ataques desferidos contra a blogosfera - uma campanha orquestrada e desesperada dos media tradicionais devido à drástica quebra de vendas e as virtualidades abertas pela Web 2.0 (vulgo Web Social), nomeadamente à criação de redes específicas e especializadas e seu inter-relacionamento digital.
O excerto em causa tem provocado alguma polémica, nomeadamente através do escritos de Fernando Venâncio, do José (aqui e aqui), da Zazie, do Paulo Querido e do Dragão, mas foram Paulo Querido e Fernando Câncio que me incitaram a procurar ler na íntegra o artigo de Pacheco Pereira.
Afinal, deduz-se, que o artigo tem por base a leitura de The Cult of the Amateur de Andrew Keen que não li mas, socorrendo-me da Wikipédia, dou conta de que este autor tenta alertar para os perigos da Web 2.0, identificado-a como um grande movimento utópico similar à sociedade comunista, pelo facto de todos, mesmo os que não receberam educação adequada, poderem usar a tecnologia digital para se tornarem realizadores cinematográficos, músicos e escritores autodidactas. No seu entender este processo empobrece a criatividade, democratiza os media e nivela por baixo tanto amadores como profissionais. Propõe ainda como solução que os media tradicionais elitistas se constituam como inimigos da Web 2.0.
Sendo sensível à preocupação que Pacheco Pereira tenta manifestar - o tal empobrecimento cultural - não me parece defensável a tese de Andrew Keen, muito menos num mundo que diz defender a liberdade individual e cujo poder se sustenta no sufrágio universal e no apelo a uma cidadania activa, seja de professores catedráticos, seja de analfabectos! Regular a liberdade para que a de cada qual não colida com a do próximo, parece-me evidente em lugares que prezam o Estado de Direito; agora limitar a liberdade de expressão (de opinião ou de criação) parece-me, isto sim, muito mais próprio de uma ditadura, comunista ou de qualquer outra adjectivação. ( leia-se a crítica sugeria por Paulo Querido de Lawrence Lessig no Lessig 2.0)
Se seguíssemos à letra a solução preconizada por estas profecias apocalípticas e pelo calar dos tais amadores autodidactas, nunca teríamos tido um Torga, um Eugénio de Andrade, um Fernando Namora, um Carlos Paredes, uma Amália…
Continuo, afinal, com a impressão primeira que formei, a de que está constituído um poderoso lobbie global que colocou em marcha uma campanha contra a rede da blogosfera, nomeadamente a proporcionada pela Web 2.0 (vulgo Social Web), por parte dos media tradicionais, desesperados que estão com a drástica redução das suas vendas, contando com o apoio dos comentadores contratados pelo facto de sentirem diluir o seu poder enquanto opinion makers, buscando sustentação teórica nas inusitadas opiniões escritas de Andrew Keen.
A apoiar o que defendo, vejo o que a Cristina adiantou sobre a campanha contra os blogues que o Estadão lançou há cerca de um mês, criada pela empresa Talent, onde se lê e passo a citar, todos os blogs, ou melhor, todo o conteúdo gerado por não profissionais, não presta. A tónica da campanha estava em duas ou três ideias: blogs limitam-se a copiar informação, blogs não são fidedignos (…).. A Resposta não tardou através de Cristiano Dias no blogue Brainstorm#9 onde se lê o óbvio: Obviamente, existe muito lixo na internet. Falando especificamente de blogs, dos milhares que aparecem todos os dias, poucos se aproveitam, é verdade. Mas a lei da sobrevivência é a mesma: apenas os com conteúdo relevante e/ou divertido permanecem. A tecnologia avança, mas isso não muda.
Assim sendo, para além do artigo do Dr. Pacheco Pereira não acrescentar novidade dentro deste estratagema, a sua motivação para o escrever deverá ter sido bem mais elaborada e alargada que a nobre defesa da cultura e de uma elite de qualidade que a lidere, como insinua, enquadrando-se, antes, num lobbie global que ataca os blogues por considerar ser a melhor defesa para travar a tendência de redução de vendas dos media tradicionais e a não diluição do poder de opinion makers dos comentadores lá instalados.
Iberismo e Globalização
Em comentário a esta entrada, Miro, do Galsatia, deixa um texto que reproduzo pela reflexão a que nos obriga, com o meu agradecimento.
de Miro
Primeiro, eu a priori não tenho nada contra as doutrinas iberistas, que acho muito lógicas, e coincido contigo e com Saramago em que a união ibérica é um processo em curso. Também não me oponho ao processo globalizador, per se.
O que eu questiono é a natureza desses processos tal e como eles estão a acontecer e, particularmente, a discrepância entre a natureza “real”? desses processos e a propaganda que deles se faz ou, noutras palavras, os esquemas interpretativos que são fornecidos aos cidadãos para a interpretação dessas realidades.
Muito resumidamente acho que, embora o processo da globalização tenha muitas faces e algumas ao meu ver muito positivas, a força dominante está a ser, com grande diferença, a acumulação de capital e a expansão de mercados. Uma força que opera de costas viradas aos cidadãos/consumidores e ao planeta/matéria prima. Uma forca que, não só e antidemocrática na sua mesma essência, senão que está, como cabalo de Átila, produzindo uma involução democrática lá por onde passa. Cada vez vemos como os centros de decisão vão ficando mais longe dos cidadãos, como as conquistas sociais, para mim insuficientes, dos séculos XIX e XX estão a ser progressivamente erodidas em favor da acumulação de capitais e como as liberdades fundamentais ficam cada vez mais minguadas.
Então o que eu digo é que esse processo, assim descrito, é tudo o contrario do que eu quereria. Eu preferiria uma globalização em quanto união livre de cidadãos livres e conscientes que levam as rédeas da sua existência individual e colectiva. O que temos é, pela contra, um processo que se está a cozer longe da vista dos cidadãos, que é contrário aos interesses da imensa maioria desses cidadãos, em quando seres humanos livres e incluso em quanto seres vivos, e ao que nos vemos abocados irremissivelmente queiramo-lo ou não.
Pois eu, como qualquer um que ama a sua liberdade, que ama o ar que respira e a água que bebe, tenho-me que opor. Tenho que tentar, embora por vezes frustrado por uma paralisante sensação de impotência, reconduzir esse processo por onde a mim me interessa.
No contexto ibérico, acho quase uma ofensa para a inteligência, o facto de que a absorção da economia portuguesa por parte da espanhola se disfarce de união fraternal entre povos. Máxime sendo galego.
Não penso que se possa reduzir tudo a termos da dialéctica globalização versus nacionalismo. O nacionalismo não é mais do que um dos refúgios nos que a gente está a procurar protecção face a um mundo de incertezas. Sendo o outro grande refúgio a religião. De facto, tu falas de crise dos nacionalismos ibéricos e eu o que vejo é um ressurgir dos nacionalismos ibéricos e, nomeadamente, do espanhol. De facto, estou a ver um ressurgir dos nacionalismos europeus e um ressurgir das religiões e da superstição em geral. Mas não quereria sair muito do tema.
O nacionalismo, particularmente o nacionalismo de Estado, é também um mecanismo ideológico para o controlo da plebe. Mas no que diz dos nacionalismo regionais, muitas vezes também surgem de conflitos de interesses objectivos e acho que esse é o caso do galego, que nem tem uma burguesia que o respalde, e já sabemos que o nacionalismo é um vício burguês e portanto muito imitado pelos de abaixo.
Já para rematar, no contexto dos nacionalismos “regionais”? ibéricos, dá-se uma circunstancia muito engraçada, porque é a própria existência duma entidade supra-estatal como é a UE a que faz com que o Estado Espanhol se torne relativamente supérfluo desde um certo ponto de vista.
Um abraço,
Miro
(…) durante uma conferência de imprensa (…) Cavaco diria a uma jornalista estrangeira que nem as eleições que entretanto ocorram em alguns países membros deverão impedir que no tratado seja aprovado, assinado e ratificado. (via Diário de Notícias)
Aprovado, assinado e ratificado! E rapidinho que o parecer, através de voto secreto e universal, dos cidadãos é um preciosismo descartável para estes democratas fazedores de uma Europa, se calhar, só para eles!
Gosto de gente assim, decidida e sem dúvidas, que critica a abstenção dos cidadãos ao mesmo tempo que a torna obrigatória!
Entendeu a Sra. Ministra Lurdes Rodrigues arquivar o processo ao perseguido professor Charrua adiantando que o insulto não tinha sido dirigido a ninguém da hierarquia profissional (foi só ao Primeiro-Ministro), colocando um ponto final politicamente correcto no assunto. No entanto, vai daí, assim de um dia para o outro, mas não antes de ser conhecida a posição da Ministra, o perseguido professor Charrua transmuda-se em perseguidor, anunciando que “está na disposição de pedir uma indemnização” por danos pessoais e profissionais de que diz ter sido alvo ao longo dos três meses em que esteve suspenso. (Público)
A questão, de facto, não é de carácter profissional, nem educativa nem de funcionários públicos! Trata-se de uma questão de clientelas partidárias que estão habituadas à rotatividade de assentos sempre que a cor dos governos muda e quem se mete com pessoas dispostas a tamanha maleabilidade ética não pode esperar a verticalidade e elevação que nunca exigiu dos seus filiados, antes fomentou e com naturalidade acolheu em seu seio este género de procedimentos.
Tal como então escrevi, a directora da DREN e o perseguido de hoje, que poderá ser o perseguidor de amanhã, que se entendam.
Afinal Luís Filipe Meneses avança com candidatura num processo manietado pelo aparelho do PSD, embora os jogos de bastidores de Marques Mendes talvez não sejam o seu principal obstáculo - terá de se defrontar contra uma forte massa acéfala, diluída e partidariamente transversal de todos aqueles que vêem nele um representante do Norte contra o centralismo vigente. O modus operandi é conhecido e está já em marcha - a achincalhação pessoal que tenta ridicularizar todo e qualquer gesto ou mera expressão. Já se lê e até por pessoas que me merecem respeito, que estava com ar de prisão de ventre quando anunciou a candidatura ou que será figurante numa comédia.
Isto é apenas o começo! Quem assistiu ao que fizeram a Narciso Miranda, Fernando Gomes ou Vieira de Carvalho o que se seguirá não constituirá novidade para ninguém!
No entanto, a quem uma vitória de Menezes poderá infligir maior mossa, Rui Rio, não se espera a menor subtileza em jogos de bastidores nem em arranjos pré-eleitorais. Rui Rio quer a presidência do PSD, sim, mas só depois de 2009, e esse é a grande diferença entre quem assume riscos e quem só vai a jogo pela certa.
Ora, que me lembre, as grandes vitórias do PSD foram conseguidas por homens que arriscaram avançar sem esperar por ninguém nem sequer pelo partido (o partido é que não teve outra alternativa se não seguí-los) - Sá Carneiro e Cavaco Silva!
Parece estar tudo em aberto.., excepto a transparência e a democracia no processo eleitoral!
Sem tirar nem pôr, Eduardo Pitta, o método está inquinado, e estando, mesmo que a desistência de outros candidatos pudesse ter outras razões bem mais comezinhas, não me parece que Marques Mendes esteja em posição de os considerar pusilânimes; nem ele nem o aparelho de caciques que o sustenta.
Há quem nos queira convencer que afinal a crescente abstenção em toda a Europa (excluindo as últimas eleições em França) não é fruto do distanciamento dos políticos dos cidadãos até porque, dizem, vejam estas eleições de Lisboa onde até havia independentes e tudo…
Independentes? Primeiro não sei o que isso possa ser, nem independentes nem isentos, será alguma doença genética nova que torna as pessoas amorfas? Depois, mesmo desses independentes a que se referem (não ter filiação partidária), também não vi nenhum nestes eleições. Dissidentes, sim, mas também políticos de longa data, muito datados…
O que se impõe é que apareçam políticos que façam Política, que se acerquem dos cidadãos e que com eles resolvam os seus problemas em vez de esbanjarem os dinheiros públicos em campanhas eleitorais de propaganda enganosa de circunstância cujo único objectivo é o show mediático!
Não precisamos de independentes nem de isentos, porque também não precisamos de eunucos; precisamos sim, como de pão para o boca, de gente séria na política, gente interessada em chamar os cidadãos à participação activa e que antes dos interesses do Estado ou da União Europeia (que cada vez menos se percebe que sejam diferentes e até contraditórios dos das pessoas) coloquem os desses mesmos cidadãos, os que têm problemas para resolver e que eles querem que os elejam.
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