Pina Bausch, expoente máximo da criatividade na dança pós-moderna (com toda a controvérsia que esta etiqueta revele), é bem conhecida e reconhecida entre nós, em especial depois da EXPO 98, mas foi nos anos 70, depois de assumir a direcção artística da ‘Wuppertal Opera Ballet’, que iniciou um caminho particular, próprio, nomeadamente em 1975, através de uma coreografia da ‘Sagração da Primavera’ de Igor Stravinsky. Reparem no excerto…

O rumo que Pina Bausch procurou e seguiu resume-se na citação retirada Stanford Presidential Lectures in the Humanities and Arts:

For her the individual’s experience is the critical component and is expressed in bodily terms, thus creating a new type of body language. By doing this, the role of the body is redefined from one in which it disappears into the function of creation and is objectified, as is typical in ballet and most dance, to one in which it becomes the subject of the performance. Each dancer’s body tells its own story based on what it has experienced.

No excerto do vídeo coreografia da ‘Sagração da Primavera’ comprova já esse tendência, tendo Pina Bausch fundando a trama emocional em torno da própria experiência individual de cada bailarino. Partindo da celebração da fertilidade de Stravinsky, leva os bailarinos a dançar até à exaustão em acto de ’sacrifício de morte’ para que, tal como no reino animal, as fêmeas pudessem escolher qual o ‘escolhido’, ou melhor, qual o que ‘tem melhores genes para acasalar’.
É neste contexto, na expressão emocional individual de cada bailarino, que a sua afirmação de que as minhas peças desenvolvem-se de dentro para fora ganha todo o sentido.

Comemorar o 25 de Abril é, antes do mais, cantar a liberdade e o fim da guerra colonial, propondo-vos este ano que o façamos com música, destacando dois concertos que me parecem muito adequados para comemorar a data: ‘Música e Revolução’ de Maria de Medeiros e a Gustavo Dudamel a dirigir a ‘Orquestra Juvenil Simón Bolívar’ interpretando a ‘Sagração da Primavera’ de Stravisnky.

Maria de MedeirosMaria de Medeiros apresenta ‘Música e Revolução’ hoje, dia 24, na Sala Suggia pelas 21:00h, na Casa da Música, interpretando canções do ‘Maio de 68′, sob e direcção musical de Stephan Sanseverino, Pascal Salmon ao piano, Edmundo Carneiro na percussão e NN em Contrabaixo. A 2ª parte deste concerto poder-se-á escutar a Sinfonia, para oito vozes e orquestra de Berio interpretada pelo Orquestra Nacional do Porto e pelo ‘Neue Vocalsolisten Stuttgart’, dirigida por Michael Zilm.

Gustavo DudamelAmanhã, no Coliseu dos Recreios, às 21:00h, no âmbito do ‘Ciclo Grandes Orquestras Mundiais‘ promovido pela Gulbenkian, Gustavo Dudamel regressa a Portugal com a Orquestra Juvenil Simón Bolívar para apresentar a Sagração da Primavera de Stravinsky.
Nunca aqui escrevi sobre este, um jovem maestro, Gustavo Dudamel, hoje com 28 anos, director musical da Orquestra Sinfónica de Gotemburgo desde 2006, um produto do ‘El Sistema‘, um programa de educação musical para os mais pobres implantado na Venezuela por José António Abreu em 1975 sob o nome, então, de ‘Acción Social para la Música’, e que produziu já centenas de excelentes músicos profissionais que alimentam as excepcionais orquestras infantis e juvenis do país, retirando-os da miséria dos bairros em que viviam e do ‘destino’ que os acorrentava.
O ‘El Sistema’ de José António Abreu foi adoptado e acarinhado por Hugo Chávez, designando-se agora por ‘Fundación del Estado para el Sistema Nacional de las Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela’.