Incomoda-me, sim, o despudor da exploração mediática do sofrimento humano; da pronta chegada dos abutres da putrefacção humana, enquanto a da ajuda humanitária se preparava. Incomoda-me, sim, o espectáculo da dança do número de vítimas, mas em especial a ausência da necessidade de procurar reportar motivos, mesmo que ténues, de esperança. Incomoda-me, sim…
Mas ontem, no meio desse exultar da morte, comovi-me, não pelo que via, mas por ouvir a quantidade de países onde instituições e voluntários rumaram ao Haiti para ajudar. Vi ontem uma equipa de protecção civil de Miami a resgatar pessoas com vida dos escombros ao fim de 5 dias e rejubilarem por isso, por salvar uma, uma e cada vida, e cada um.
O mundo poderia ser assim. E seria. Seria se os interesses que dominam o mundo não se sobrepusessem à natural fraternidade e solidariedade humana.
E é também no meio deste género de atitudes que me lembro de Maria de Lurdes Pintasilgo! E de Kofi Annan!
Sim, se nós quiséssemos poderíamos ser mais humanos, ser mais daquilo de que a natureza nos fez, mais fraternos. Ser mais como os outros demais bichos, fraternos, afinal.

Parece que os partidos da oposição estão de acordo em acabar com as taxas moderadoras, até o PSD que as introduziu. O governo, que nestas coisas não se deixa adiantar, parece que vai aboli-las antes que a A. R. se pronuncie.
Em que ficamos, então? Sim ou não às taxas moderadoras? Ou hoje, sim, mas amanhã, não, embora embora mais tarde talvez sim ou talvez não?
Para mim, que o que gosto mesmo é de dizer coisas e ainda por cima tenho o mau hábito dizer mal de tudo e de todos e forma muito dura, a resposta é simples: nem sim, nem não! Proponho uma terceira via mais conciliatória – FODA-SE! Isto para não dizer vão-se…
Estou-me, hoje, cagando se as pessoas se dizem de direita ou de esquerda ou de centro, mais ou menos inclinado, porque elas próprias não sabem e muito menos eu o que poderão sob esses epítetos pensar ou dizer.

O que está conceptualmente em causa é saber se é o princípio da mutualidade ou o da solidariedade, ou ambos subsidiariamente, que sustenta o desenho do modelo de previdência do Estado. Se é o mutualista, é fácil, privatize-se a segurança social e deixem o negócio para quem sabe – as companhias de seguros. Se for o da solidariedade, erga o Estado uma organização onde os que mais podem contribuem para os mais desfavorecidos. Se se optar por um misto, avance o Estado com que que entende que deve suportar e fazer com que os contribuintes suportem, subcontratem, por concurso público, o que não podem fazer, mas definam com clareza os princípios que suportam as suas decisões.

Tudo o resto é enleio, treta, ou para estar ‘à la page’ com as notícias do dia, é enrolar…

A minha opinião? Não é importante neste contexto de politiquice de alicerce de ágil flexibilidade, mas para que não se pense que pretendo fugir à questão, sempre adianto que teria a coragem de aplicar o que sempre defendi – enquanto o Estado puder os que mais podem devem pagar taxas moderadoras bastante mais pesadas do que as que as que estão em vigor e os que não podem estar isentos. Princípio da solidariedade, portanto.

35 anos após o 25 de Abril é constrangedor ouvir Lasalete da Coração da Cidade, instituição particular de solidariedade social sem fins lucrativos de apoio aos sem abrigo no Porto, afirmar que Neste momento, os bens que nos são doados não chegam para conseguirmos alimentar as mais de 300 famílias que nos procuram.
No blogue do Coração da Cidade, sob o título os cravos estão vermelhos de vergonha…, Lasalete enuncia, com humildade, o que deve ser a liberdade: a liberdade é um treino diário de adestramento da vontade de viver e de disciplina interior, é um modelar constante do nosso mal formado carácter para que a liberdade se manifeste em nós e simultaneamente nos outros….
Mais adiante, descrente nos partidos e da ilusória liberdade de que falam, é com profunda tristeza e mágoa que escreve:

mas, o que mais deixa de lado o prazer da liberdade, é que constantemente os menos abastados se deixaram contagiar pela inoperância e entregaram a liberdade aos partidos, deixaram-se conduzir por querelas partidárias e não foram capazes de entender que a parte mais bela da liberdade, que é a união de esforços , estava a adoecer, porque a liberdade deve ser alimentada por um povo que sente diariamente na alma e no corpo as algemas dolorosas das migalhas que os ricos fazem escorregar das suas mãos abastadas e nuas de caridade, douradas da caridade assistencial que não sabem usar…

Deixo um vídeo da RTP para ouvirem, de viva voz, quem pelos outros faz a sua vida.


É por isto que Mandela, nos seus 90 anos, e sabendo que a democracia está de volta à África do Sul, não se esqueceu de lembrar ao seu partido antes destas últimas eleições, o ANC, que a grande prioridade é a erradicação da pobreza.
Mas Mandela é Mandela. Nunca se deixou deslumbrar pelas riquezas nem aceitou as injustiças que as democracias ocidentais proporcionam. Ele sabe. Sabe, porque por isso dedicou e entregou a sua vida.

A propósito do post anterior sobre a fome que assola Moçambique, lembrei-me da ideia dos Presentes Solidários para este Natal da Fundação Evangelização e Culturas, instituição dedicada à cooperação e solidariedade entre e com países lusófonos.
Presentes SolidariosSegundo esta instituição, para cada país lusófono há um presente pensado segundo uma necessidade local específica. Os sete presentes que propomos são escolhidos em conjunto com os nossos parceiros no terreno. São estes parceiros que, localmente, comprarão os presentes e ficarão encarregues pela sua distribuição, garantido que estes produtos chegam realmente a quem mais precisa.
CLIQUE AQUI e ofereça um cobertor para Moçambique, um passe escolar para Cabo Verde, uma chapa de zinco para Angola, uma mochila e um estojo para São Tomé e Príncipe, uma maleta de parto para a Guiné-Bissau ou um filtro de água para o Brasil.
Passe lá, veja os preços, escolha e envie. Basta um clique!”

O Programa Alimentar Mundial (PAM) alertou hoje para necessidade de ajuda alimentar a Moçambique, a cerca de 500 mil pessoas, devido aos elevados preços dos alimentos e a colheitas menores, em resultado da falta de chuva, prevendo que em 2009, a ajuda alimentar se tenha de estender a cerca de 100 milhões de pessoas em todo o mundo, devido à carestia dos bens alimentares e à crise financeira.
Fome sub-saarianaSem esquecer as minhas incertezas (ou funestas certezas) sobre se a ajuda chega a quem deve chegar, nem o crescimento exponencial das mono-culturas e da plantação de transgénicos nos países sub-desenvolvidos, muito acarinhadas pelos respectivos governos (ver texto da Alice Valente), deixo este alerta, combinando com o trabalho voluntário da Fundação Evangelização e Culturas dirigido aos países lusófonos. Mas sobre esta última instituição dedicarei um texto exclusivo.

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